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A Catequista

A Catequista

“Ide; eis que vos envio como cordeiros entre lobos.” (Lc 10,3). Depois dos Apóstolos e dos cristãos lançados às feras durante a perseguição romana, imagino que um dos grupos cristãos que mais se enquadra neste versículo seja o de universitários católicos.

Quando você se matricula em uma faculdade, recebe as informações sobre a grade curricular. A estas disciplinas oficiais, acrescente mais três – extraoficias, mas indefectíveis –, que lhe acompanharão por todos os anos do seu curso (qualquer que seja ele) e permearão quase todas as matérias: ateísmo, anticatolicismo e niilismo.

[caption id="attachment_1633" align="alignleft" width="232"]burro-metido-a-inteligente Universitários católicos, vigiem e orem, pra não acabar que nem esse cara aqui ó...[/caption]

As universidades ocidentais são hoje verdadeiras máquinas de emburrecimento filosófico, em que boa parte dos professores dizem o que lhe dá na telha, sem a menor preocupação de fundamentar as suas afirmações em pesquisas e fontes históricas confiáveis. E os alunos, em geral, engolem tudo como verdade absoluta, paradoxalmente, a despeito do relativismo reinante. O tipo de raciocínio predominante se fundamenta em abstrações, e pouco se atém aos fatos mais elementares. Cito a seguir dois exemplos entre os inúmeros que vivenciei.

Certa vez, em sala de aula, uma professora de psicologia, parafraseando Freud, disse que a religião corresponde a um estado infantil da humanidade, que precisa ser superado. Pedi a palavra e questionei:

– Como é que pessoas infantis, e nesse caso se encaixam os católicos, podem ter sido capazes de construir obras incontáveis que beneficiaram e continuam a beneficiar milhões de pessoas, como escolas, universidades e hospitais? Isso sem falar dos inúmeros religiosos católicos que contribuíram para o progresso da ciência. Há algum estudo confiável que mostre de forma clara que as pessoas que têm fé conduzem a sua vida de forma pior do que os descrentes?

A fessôra colocou panos quentes, deu uma embromada e mudou de assunto. Ela não tinha nenhuma resposta razoável para me dar.

Em outra ocasião, após o professor de filosofia ter discorrido sobre a inexistência de verdades absolutas (e eu não resisti a perguntar para ele se aquela afirmação se tratava de uma verdade absoluta...), saí da aula trocando ideias, ou melhor, tomando pedrada de alguns colegas. Uma menina veio me dizer:

Eu acho um absurdo a Igreja se opor à prostituição. Ora, é uma profissão digna como outra qualquer.

– É mesmo? – perguntei eu – Então me diga o que você sentiria se, no futuro, ao perguntar pra sua filha o que ela vai querer ser quando crescer, ouvir a seguinte resposta: "Quero ser uma grande prostituta, mamãe!". E aí, você vai achar bacana?

Minha coleguinha “livre de preconceitos” ficou embananada e nada respondeu.

Ao universitário católico resta tomar um destes três caminhos:

1) se acovardar, calando-se e lamentando internamente enquanto debocham de sua fé e dos seus valores, pisam na sua identidade e caluniam a sua Igreja;

2) entregar os pontos e perder a fé (isso é o que mais acontece);

3) se armar com as armas do amor, da perfeita doutrina e da razão, guardar a fé e combater o “bom combate”, como diz São Paulo.

Não temais, pequeno rebanho, porque foi do agrado de vosso Pai dar-vos o Reino. (Lc 12,32)
Por que nós católicos chamamos o Sucessor de Pedro de Papa (papai)? Bem, centenas de anos antes de Cristo, os israelitas já se referiam a seus grandes líderes espirituais Abraão, Isaac e Jacó como pais (patriarcas). Da mesma forma, desde os primeiros séculos do cristianismo, o povo espontaneamente adotou o costume de chamar os bispos carinhosamente de “Papa”. A partir do século VI, o termo passou a denominar exclusivamente o bispo de Roma, e assim o chamamos até os dias de hoje.

Mas muitos evangélicos dizem que isso é coisa do capiroto. Eles consideram que a passagem a seguir é a prova de que a Igreja Católica desobedece Jesus ao conferir ao seu chefe espiritual o título de pai, bem como aos seus sacerdotes (padres, ou seja, pais):

E a ninguém chameis de pai sobre a terra, porque um só é vosso Pai, aquele que está nos céus. (Mt 23,9)
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Porém, além de não contar com a graça do Espírito para a interpretação infalível das Escrituras – o que é privilégio do nosso Papitcho – esses evangélicos parecem desconhecer as normas básicas de interpretação de texto. Para compreender uma frase, é indispensável analisar o seu contexto. Observem, a seguir, que Jesus está censurando a vaidade dos fariseus, que queriam ser reconhecidos como autoridades religiosas, mas não passavam de "guias cegos":

Dirigindo-se, então, Jesus à multidão e aos seus discípulos, disse: Os escribas e os fariseus sentaram-se na cadeira de Moisés. (...). Fazem todas as suas ações para serem vistos pelos homens (...). Gostam de ser saudados nas praças públicas e de ser chamados rabi pelos homens.

Mas vós não vos façais chamar rabi, porque um só é o vosso preceptor, e vós sois todos irmãos. E a ninguém chameis de pai sobre a terra, porque um só é vosso Pai, aquele que está nos céus. (Mt 23,1-10)

Os fariseus distorciam a Lei de Deus com seus legalismos e a sua hipocrisia. Porém, notem que, neste mesmo capítulo, o Senhor chama de "profetas", "sábios" e "doutores" os homens que Ele enviará para pregar o Evangelho:
Vede, eu vos envio profetas, sábios, doutores. Matareis e crucificareis uns e açoitareis outros nas vossas sinagogas. (Mt 23,34)
Ué, não pode chamar os pregadores de pai nem de mestre, mas de sábio, profeta e doutor pode? Aqui fica evidente que Jesus não se opunha a que os verdadeiros evangelizadores fossem chamados de pai ou de outros nomes honrosos; Ele denunciava sim os impostores que, sem possuir uma verdadeira paternidade (aquela que vem do Alto), queriam ser reconhecidos como mestres.

Pra esclarecer de vez este ponto, basta notar que em ao menos cinco (cincooo!!!) passagens do Novo Testamento, Abraão é chamado de pai, inclusive por Cristo:

  • “Cheio do Espírito Santo”, Zacarias, pai de São João Batista, chama Abraão de pai – Lucas 1,67; 73;
  • Jesus se refere a uma mulher como “filha de Abraão” – Lucas 13,10-17;
  • Na parábola de “o rico e o Lázaro”, Jesus cita o “pai Abraão” – Lucas 16,24;
  • O primeiro mártir da Igreja, Santo Estêvão, chamou Abraão de pai – Atos 7,2;
  • São Paulo se refere a Abraão como “pai de todos nós” – Romanos 4,16.
Esquisito, não, Seu Pastô? Uma hora, Jesus diz que não se deve chamar ninguém de pai sobre a terra, pois só Deus é pai. Em outra hora, Ele chama Abraão de pai... Será que Jesus se contradisse, Pastô? E quanto a São Zacarias, Santo Estêvão e São Paulo... Que papelão desse pessoal! Chamando Abraão, que não é Deus nem nada, de pai! Tá amarrado em nome de Zizuiz!!!

E o pior é que Abraão não é o único a ser chamado de pai na Bíblia. O profeta Eliseu, vendo Elias partir, gritou: “Meu pai, meu pai! Carro e cavalaria de Israel!” (II Reis 2,11-12). E São Paulo, não se conformado em chamar Abraão de pai, ainda achava que era pai da comunidade de cristãos também (vê se pode!):

...admoesto-vos como meus filhos muitos amados. Com efeito, ainda que tivésseis dez mil mestres em Cristo, não tendes muitos pais; ora, fui eu que vos gerei em Cristo Jesus pelo Evangelho. (1 Cor 4,14-15)
Creio que o Pastô agora ficará brabo de vez, mas eu não posso omitir esta informação: além de verdadeiro pai da comunidade dos cristãos católicos, saiba que o Papa também é nosso pastor. Ele continua a realizar a tarefa confiada por Jesus a Pedro:
Perguntou-lhe pela terceira vez: Simão, filho de João, amas-me? Pedro (...) respondeu-lhe: Senhor, sabes tudo, tu sabes que te amo. Disse-lhe Jesus: Apascenta as minhas ovelhas. (Jo 21,17)
Se nós católicos reconhecemos a paternidade espiritual do sucessor de Pedro e dos nossos sacerdotes, é porque temos ao nosso lado a Bíblia e a Tradição. E você Pastô? Quem lhe conferiu este título? Certamente, do nada, um belo dia acordou se achando pastô, ou então outro zé pastô disse que você podia ser pastô também. Craro, assim tá certo... pois sim.
Terça, 04 Outubro 2011 00:28

“I see dead people”

A COMUNICAÇÃO COM OS MORTOS É POSSÍVEL?cebolinha_penadinho_tirinha

Quase todo mundo tem ou conhece alguém que tenha uma história de aparição de fantasma pra contar. É o avô falecido que visita a netinha vez por outra, é a vizinha desencarnada que vem dar um último alô antes de tomar o rumo do Hades... Pelo visto, tem morto que gosta de fazer uma social por estas bandas. Esse tipo de coisa acontece mesmo ou não? E aí, o que a Igreja Católica diz sobre isso? Até onde eu sei, não diz NADA.

Só pra deixar bem claro, não estou me referindo aqui à prática do espiritismo, ou seja, à evocação dos mortos com a finalidade de obter deles algum conselho, doutrinas ou mensagens. A adesão dos católicos a este tipo de rito é definitivamente maléfica e expressamente proibida pela Igreja, conforme já comentamos em outro post. Refiro-me, sim, a manifestações espontâneas de espíritos.

Dentro dos círculos católicos – conversas de corredor, palestras, blogs e sites – já ouvi de clérigos e leigos diferentes versões para explicar o fenômeno, tais como: “Isso não passa de mera autossugestão”; “Não são espíritos, são demônios”, “Esso non ecxiste, é tudo ilusão” etc. Porém, no Magistério da Igreja ou na Patrística, nunca encontrei nenhum parecer sobre a possibilidade ou não de os mortos se comunicarem com os vivos (de novo: refiro-me aqui a contatos espontâneos, e não provocados por rituais de evocação). Se alguém aí conhece alguma referência deste tipo, compartilha comigo, please.

Polêmicas à parte, dos Apóstolos Pedro, Tiago e João podemos afirmar, com segurança: They saw dead people!,Vejam a passagem em que eles viram e ouviram os falecidos Moisés e Elias conversando com Jesus:

Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e conduziu-os à parte a uma alta montanha. Lá se transfigurou na presença deles (...). E eis que apareceram Moisés e Elias conversando com ele. (Mt 17:1-3)

É importante notar que Moisés e Elias dialogavam somente com Cristo, e não dirigiram a palavra aos Apóstolos, que apenas observavam a conversação. Ou seja, os profetas não foram evocados e não estavam ali para revelar ou ensinar nada a eles, então... Nada a ver com espiritismo.

No Antigo Testamento, há outra passagem que parece indicar que a comunicação com os mortos é possível. Estando na iminência de perder uma guerra, Saul, desesperado, deseja se aconselhar com o profeta Samuel. Detalhe: o rei estava em maus lençóis justamente porque não dava ouvidos ao profeta quando este estava vivo, e agora queria encher o saco dele no Além. Mesmo estando careca de saber que o Senhor abominava esta prática, Saul busca a ajuda de uma necromante (médium) para chamar o espírito de Samuel. O homi não se fez de rogado e “baixou no terreiro”:

Samuel disse ao rei: Por que me incomodaste, fazendo-me subir aqui? Estou em grande angústia, disse o rei. Os filisteus atacam-me (...). Chamei-te para que me indiques o que devo fazer. Samuel disse-lhe: (...) Não obedeceste à voz do Senhor (...); eis por que o Senhor te trata hoje assim. E mais: o Senhor vai entregar Israel, juntamente contigo, nas mãos dos filisteus. Amanhã, tu e teus filhos estareis comigo, e o Senhor entregará aos filisteus o acampamento de Israel. (I Sam 28:15-19).

Como vemos, do Além, o Rei Saul não obteve qualquer ajuda ou conselho, somente maldições. E em nenhum versículo deste capítulo se levanta a possibilidade de que aquilo tudo não passasse de engodo ou ilusão. Já ouvi gente dizendo que o tal espírito não poderia ser de Saul, pois suas profecias não se cumpriram. Como assim não se cumpriram? Vejamos:

Profecia 1 – “O Senhor vai entregar Israel, juntamente contigo, nas mãos dos filisteus”. Teoria do erro: “Saul não foi entregue nas mãos dos filisteus, mas se suicidou”. Esclarecimento: o exército de Israel foi derrotado pelos filisteus e Saul se suicidou para fugir da morte inevitável pelas mãos destes inimigos. Ainda que indiretamente, ele morreu sim por causa dos filisteus.

Profecia 2 – “Amanhã, tu e teus filhos estareis comigo”. Teoria do erro: “Saul não morreu no dia seguinte, mas sim dois dias depois. Ademais, nem todos os seus filhos morreram”. Esclarecimento: o termo “amanhã” não necessariamente se refere ao dia seguinte. Quanto aos filhos, em nenhum momento foi profetizado que TODOS os filhos do rei morreriam. E, de fato, todos aqueles filhos que lutaram com Saul na guerra bateram as botas.

Uma objeção relevante: como poderia ter permitido que um de seus profetas obedecesse ao chamado de uma necromante, cujas práticas abomina? Creio que tenha se tratado de uma permissão excepcional, talvez uma tentativa derradeira de fazer Saul (homem ungido) se dar conta de seus erros. Mas o fato é que esse ritual “espírita” se somou aos muitos pecados do rei, e ele caiu de vez em desgraça, como afirmam as Escrituras:

Saul morreu por causa da infidelidade, pela qual se tornara culpado contra o Senhor, não observando a palavra do Senhor e por ter consultado necromantes. (I Cr 10:13).

[caption id="attachment_1531" align="alignleft" width="230" caption="Frase da uma amiga encalhada: "Quanto mais eu rezo, mais homem feio me aparece. Ai que inveja da Demi Moore!""]patrick-swayze-demi-moore-ghost-2[/caption]

Assim, são numerosas as passagens da Bíblia e os documentos da Igreja que reafirmam que a fé no Deus de Israel e a consulta aos mortos são incompatíveis. Porém, diversos são os testemunhos daqueles que, jamais tendo participado de rituais de evocação, foram involuntariamente expostos a visões ou vozes de espíritos. Sabe-se lá porque Deus permite essas coisas... Mas o certo é que não devemos dar trela para o que dizem os espíritos, pois nas Escrituras e na Tradição da Igreja é que encontramos a Palavra segura para iluminar o nosso caminho.

ATENÇÃO: tudo o que afirmamos aqui sobre a condenação das práticas e da doutrina espírita está estritamente de acordo com a doutrina da Igreja. Porém, a afirmação de que o contato involuntário com a alma dos mortos pode realmente ocorrer trata-se de uma opinião minha, e não encontra nenhum embasamento – nem tampouco condenação – no Sagrado Magistério.

Caso alguém encontre neste texto algo que esteja em desacordo com o que a Igreja ensina, direi como São Tomás de Aquino: “Se, por ignorância, fiz o contrário, eu revogo tudo e submeto todos meus escritos ao julgamento da Santa Igreja Romana".

Sexta, 30 Setembro 2011 09:13

Seguir Jesus é Adrenalina na Veia!

AS AVENTURAS RADICAIS DE QUEM CONFIA EM CRISTO

No dicionário, uma das possíveis definições de aventura é “ação ou situação arriscada”. Quem já deu alguns passos – poucos ou muitos – na amizade com Cristo, deve ter notado que o Senhor tem mania de nos colocar em circunstâncias altamente estressantes. Vez por outra, nos vemos como que à beira de um abismo e, lá na outra ponta, Ele nos estende a mão e nos convida a saltar como quem chama pra tomar um sorvete:

– Vem amigo, tenha um namoro casto!

– Não se desespere com o pouco dinheiro. Estou cuidando de tudo!

– Não se corrompa para manter o emprego. É melhor ser desempregado do que ser desonesto.

– Que mérito há em fazer o bem somente a quem é legal contigo? Ajude o cara que te sabotou!

– Te perseguem por ser cristão? Dont worry... Vai piorar! Tá querendo ter mais moleza do que o Mestre aqui?

Diante de cada um dos Seus apelos, nós cristãos podemos dar, basicamente, três respostas diversas:

1) “Só se for agora, ninguém salta como eu!” – Saltamos confiando em nós mesmos, na nossa própria capacidade e... PUF!!! Este é o som que se ouve no fundo do abismo, logo em seguida.

pedro_caminhando_aguas_jesus2) “Ah, tá... Beijo, me liga!” – Retrocedemos e, em vão, buscamos atalhos que nos permitam chegar ao Senhor de forma mais fácil e menos arriscada. No fundo, tememos que, se fizermos a vontade dEle, vamos nos dar mal.

3) “Tô me borrando todo, mas eis-me aqui, Senhor!” – Saltamos o abismo, ainda que nossas pernas estejam trêmulas (devido à noção da nossa incapacidade humana). Dizemos SIM a Cristo em nossa vida concreta, pois cremos que Ele nunca decepciona Seus filhos. Isso é ter fé.

Olhando para a vida de São Pedro, podemos muito apropriadamente encaixá-lo no item três citado acima – afinal, ele era o Apóstolo que amava a Cristo mais do que os outros (Jo 21,15). Entretanto, ao menos em uma ocasião, a sua fé vacilou. Por exemplo, quando viu Jesus caminhando sobre as águas do mar:

Pedro tomou a palavra e falou: Senhor, se és tu, manda-me ir sobre as águas até junto de ti! Ele disse-lhe: Vem! Pedro saiu da barca e caminhava sobre as águas ao encontro de Jesus. Mas, redobrando a violência do vento, teve medo e, começando a afundar, gritou: Senhor, salva-me! No mesmo instante, Jesus estendeu-lhe a mão, segurou-o e lhe disse: Homem de pouca fé, por que duvidaste? (Mt 14,28-31)

Entretanto, anos mais tarde, esse mesmo homem que negou o Mestre três vezes foi capaz de se expor ao martírio, morrendo também na cruz.

A FÉ É UM PROBLEMA DE CONHECIMENTO

Algumas pessoas nos inspiram confiança nos primeiros minutos em que as conhecemos. Porém, a esta confiança só crescerá e se consolidará com o tempo; quanto mais conhecemos uma pessoa, mais confiamos nela. Assim também acontece com Jesus: quanto mais nos empenhamos em conhecê-Lo, mais somos capazes de crer nEle. Não com uma devoção que se manifesta quase que clandestinamente, no âmbito restrito das paróquias, mas como uma fé que determina os passos concretos do cotidiano.

RISCOA coragem de dar um “salto de fé no abismo” é um fator relevante, mas não é o ponto central. O problema fundamental é de conhecimento, pois é impossível confiar e amar alguém que não se conhece.

Sabemos quem é Cristo? Conhecemos as suas promessas? Cremos que Ele tem poder e amor incomparáveis? Entendemos que Ele é o único capaz de nos realizar realmente? Muitas vezes, uma fé morna ou vacilante se manifesta naqueles que não alcançaram as respostas adequadas a estas perguntas.

A fé é o reconhecimento da Presença do Deus Vivo entre nós, que atrai a nossa afeição para Ele. É essa afeição que nos impulsiona a realizar as obras de fé e que nos motiva a seguir Seus ensinamentos com alegria, por mais que nos dê aquele friozinho na barriga, por mais insano ou inadequado que isso possa parecer aos olhos do mundo.

Que Nossa Senhora nos ajude a dizer “Jesus, eu creio em vós” não só com os lábios, mas também com atitudes.

Terça, 27 Setembro 2011 09:00

Brincando de telefone sem fio com Bento XVI

PAPA HOMENAGEOU LUTERO, DIZ A IMPRENSA. SERÁ O BENEDITO?

Alguns jornalistas são indivíduos muito pândegos. Vez por outra, eles gostam de brincar de telefone sem fio, especialmente quando a brincadeira envolve o Papa Bento XVI... Só isso pode explicar o fato de que, vira e mexe, o homi diz “A” e o que sai na imprensa é “B”, “C” ou “D”.

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Sei que pra muita gente a explicação é óbvia, mas não custa registrar: na brincadeira do telefone sem fio, um grupo de crianças forma um círculo ou uma fila (quanto maior o grupo, melhor); o primeiro da fila sussurra uma frase no ouvido do colega ao lado, e assim sucessivamente; o último da fila, por sua vez, deve falar o que ouviu em voz alta. Quase sempre o resultado é hilário, pois a frase final não tem quase nada a ver com a original! Da mesma forma, ler as notícias sobre as declarações de Bento XVI na imprensa pode proporcionar aos momentos de pura diversão – ou seria de pura frustração?

A última peraltice, ou melhor, cretinice, foi a recente cobertura do encontro do Papa com líderes de igrejas evangélicas alemãs, no ex-Convento dos Agostinianos de Erfurt (Alemanha). Ali viveu Martinho Lutero, o idealizador da Reforma Protestante. No mesmo dia da vista, o jornal da Globo News disse que Bento XVI “fez elogios às ideias de Lutero”(1). E sites de veículos de imprensa de todo o mundo – inclusive o portal G1 – afirmavam que Bento XVI “prestou uma homenagem”(1) ao herege excomungado. Acuma?!

Atônito, o telespectador/internauta católico se perguntava: qual das brilhantes ideias de Lutero terá Bento XVI elogiado? A Sola Fide (salvação pela fé, sem necessidade de obras)? O desprezo à Tradição dos Apóstolos? O deboche à autoridade do sumo-pontífice? As blasfêmias contra a castidade de Cristo? Qual, qual, quaaaaal?!

DESMENTINDO A VELHA SURDA

O fato é que o nosso amado papitcho não homenageou nem elogiou titica nenhuma. Vamos analisar o que ele realmente disse e comparar com a interpretação que a imprensa deu ao caso.

Versão da imprensa “trevas”:

Na Alemanha, Bento XVI elogia a paixão cristã de Martinho Lutero

"O que não dava paz (a Lutero) era o assunto de Deus, que era a paixão profunda e a força de sua vida e seu total itinerário. (...) O pensamento de Lutero, sua espiritualidade inteira, estavam completamente centrados em Cristo", declarou o Papa.

Fonte: Portal G1 (1)

Esclarecimento 1:

A primeira frase foi retirada do seu contexto, e uma pequena modificação fez com que parecesse que o Papa estava afirmando que Lutero nutria uma “paixão profunda” por Deus. Na verdade, Bento XVI disse que a pergunta “Como posso ter um Deus misericordioso?” colocada por Lutero “constituiu a paixão profunda” que impulsionou o itinerário de Lutero, e não a paixão por Deus, como sugere o texto divulgado pela mídia em geral.

Observem o texto original do discurso de Bento XVI, retirado do site do Vaticano:

"...o que não lhe dava paz (a Lutero) era a questão sobre Deus, que constituiu a paixão profunda e a mola da sua vida e de todo o seu itinerário. 'Como posso ter um Deus misericordioso?': tal era a pergunta que lhe atravessava o coração (...) Esta pergunta que desinquietava Lutero – Qual é a posição de Deus a meu respeito, como apareço a seus olhos? – deve tornar-se de novo, certamente numa forma diversa, também a nossa pergunta...” (2)

Ora, dizer que alguém tem uma pergunta pertinente não implica elogiar as suas ideias (como foi dito na Globo News), nem tampouco o seu caráter. Aliás, o Papa deixa bem claro que a tal questão sobre Deus "desinquietava Lutero", mas em nenhum momento do discurso sugeriu que o ex-monge tenha encontrado uma resposta adequada a ela.

Esclarecimento 2:

Bento XVI realmente disse que a espiritualidade de Lutero e o seu pensamento eram “cristocêntricos”. Porém, isto não constitui elogio algum, mas trata-se de uma simples constatação: a nova igreja de Lutero não negou a divindade de Cristo, e continuou a tê-Lo como centro de sua espiritualidade – ainda que de forma torta e cheia de graves erros doutrinários.velha_surda_midia

Em resumo: muito diplomático, Bento XVI disse que Lutero fez uma pergunta bacana e que, lá do jeito dele, também era cristão. Onde está o elogio? Cadê a homenagem? O máximo que se pode dizer é que o Papa buscou ser simpático encontrando pontos em comum entre protestantes e católicos, em nome do diálogo interreligioso. E só.

Enfim, em assuntos relacionados ao Papa e à Igreja, muitos jornalistas estão mais pra velha surda do humorístico "A Praça é Nossa" do que pra deus Hermes.

(1) Vídeo do Jornal da Globo News e texto da matéria publicados no Portal G1 do dia 23.09.2011.

(2) Discurso do Papa Bento XVI - vídeo e texto publicados no site do Vaticano.

AS PESSOAS SOFREM PORQUE MERECEM?

“Eu devo ter atirado pedra na cruz!”. Diante das numerosas mazelas, entraves e urucubacas em geral, talvez você já tenha pronunciado esta frase alguma vez na vida.

A ideia de que o sofrimento é necessariamente um castigo por algo que fizemos é partilhada por muitos. E, quando se tem a impressão de que a desgraça sofrida é bem maior do que o peso das próprias culpas, uns são tentados a pensar que Deus não é justo, enquanto outros imaginam que só os pecados cometidos em outra vida poderiam justificar tal desproporção.

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Allan Kardec foi um dos principais divulgadores da ideia de que todas as pessoas carregam um karma – espécie de lei de causa e efeito –, ou seja, uma dívida gerada por atos realizados nesta vida ou em vidas anteriores. Também os hinduístas, budistas e esotéricos professam essa crença. Há um trecho do "Evangelho Segundo o Espiritismo" que resume bem este conceito:

Por que uns sofrem mais do que outros? Por que uns nascem na miséria e outros na riqueza, sem nada terem feito para justificar essa posição? (...)
"As contrariedades da vida são de duas espécies (...): umas têm sua causa na vida presente, outras, não nesta vida. (...) Tal é, por exemplo, a perda de seres queridos (...); as calamidades naturais e as enfermidades de nascença (...), as deformidades (...) etc. Aqueles que nascem nessas condições seguramente não fizeram nada nesta vida para merecer uma sorte tão triste (...).
"É certo que Deus não pune o bem que se faz e nem o mal que não se faz; se somos punidos, é porque fizemos o mal; se não o fizemos nesta vida, seguramente o fizemos em outra.” (Kardec, O Evang. Segundo o Espiritismo. Cap. 5 – itens 3, 4 e 6).

dilbert_karma_acreditoParece lógico, não? Porém, esta visão é parcial e enganosa. O sofrimento desta vida pode sim ser a consequência de um pecado cometido, mas NEM SEMPRE. Aceitar a doutrina do karma é crer que todas as pessoas estupradas, assassinadas, humilhadas ou exploradas estão recebendo o que merecem. E o pior: é que acreditar que Deus, invariavelmente, QUER que elas sofram. Insano!

AS CAUSAS DO SOFRIMENTO PODEM SER DIVERSAS

A questão do sofrimento é muito complexa. Por causa das limitações físicas e morais decorrentes do pecado original, todos sofrem. Na Bíblia, vemos que o sofrimento pode ter diversas causas, e o castigo por um mal feito é apenas uma entre tantas possibilidades. Uma pessoa pode sofrer por que...

1. ...está recebendo as consequências ou o castigo por suas más ações e escolhas NESTA vida (que é a única que ela tem, além da vida eterna!). Neste sentido, um exemplo bastante conhecido na Bíblia é o do Rei Davi; ele dormiu com a mulher de um de seus soldados e depois provocou a morte do homem traído. Obteve o perdão do Senhor, pois se arrependeu sinceramente, mas ainda assim teve que pagar pelos seus erros:

"Eis o que diz o Senhor: vou fazer com que se levantem contra ti males vindos de tua própria casa. (...) O Senhor perdoa o teu pecado; não morrerás. Todavia, como desprezaste o Senhor com essa ação, morrerá o filho que te nasceu." (II Sam 12,11-14)

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2. ...está sendo vítima inocente do pecado de outros homens ou da debilidade física que, mais cedo ou mais tarde, afeta qualquer ser humano (doenças, velhice, morte), seja ele inocente ou pecador.

3. ...sua fé e perseverança estão sendo provadas. É o caso de Jó, que “não cometeu pecado algum” (Jó 1:22) e, ainda assim, perdeu todos os filhos, os bens e a saúde. Equivocados, seus amigos achavam que isso só poderia ser fruto dos seus pecados e dos pecados de seus filhos. Jó reafirmava a sua inocência e perguntava a Deus a razão do seu infortúnio: "...direi a Deus: Mostra-me por que razão me tratas assim" (Jó 10:2).

A resposta à pergunta de Jó está nas cartas de São Paulo:

"...nos gloriamos até das tribulações. Pois sabemos que a tribulação produz a paciência, a paciência prova a fidelidade e a fidelidade, comprovada, produz a esperança." (Rom 5,3-4)

4. ...sofre perseguições por causa do Evangelho. Afinal, o mundo persegue aqueles que são de Cristo:

"Lembrai-vos da palavra que vos disse: O servo não é maior do que o seu senhor. Se me perseguiram, também vos hão de perseguir." (Jó 15,20)

5. ...Deus a convida a se sacrificar pelo bem do próximo. O sofrimento suportado com paciência e ofertado com amor produz uma espécie de “tesouro espiritual”, que gera frutos de esperança e alegria para a Igreja e para todas as pessoas. Este é e exemplo de Jesus e de seus santos:

"Agora me alegro nos sofrimentos suportados por vós. O que falta às tribulações de Cristo, completo na minha carne, por seu corpo que é a Igreja." (Col 1,22)

6. ...por meio da sua tribulação, o Senhor deseja relevar a Sua glória ao mundo. É o caso do cego de nascença, curado por Jesus:

"Caminhando, viu Jesus um cego de nascença. Os seus discípulos indagaram dele: Mestre, quem pecou, este homem ou seus pais, para que nascesse cego? Jesus respondeu: Nem este pecou nem seus pais, mas é necessário que nele se manifestem as obras de Deus." (Jo 9,1-3)

Deus fez os homens para a felicidade, mas o pecado original (que nossa geração não cometeu, mas herdou) abriu as portas para o mal e para o sofrimento em geral. Porém, a causa de um sofrimento específico é sempre um mistério. Assim, é anticristão afirmar que todo sofrimento de uma pessoa é, invariavelmente, a purgação de algum mal feito por ela. Só Deus o sabe.

 

Segunda, 19 Setembro 2011 09:00

Bonzinhos ou omissos?

Quando o “não julgar” encobre a covardiamacacos_tres

Em muitas de nossas comunidades, não há mais espaço para a correção fraterna. O valioso preceito “não julgar” é retirado do contexto evangélico autêntico e usado como um cala-boca para qualquer um que chame a atenção de um irmão sobre um mau passo. A criatura pode estar fazendo a maior m***** que ninguém pode falar nada, pra não ofender a coitadinha; qualquer admoestação, por mais amorosa que seja, ganha a pecha de preconceito.

Assim, a misericórdia vem sendo perigosamente confundida com o RELATIVISMO, que leva à negação da possibilidade de identificar qualquer atitude – pessoal ou alheia – como objetivamente boa ou má. Muitos vivem arrotando “eu não julgo ninguém” pra tirar onda de bonzinho e tolerante; estão mais preocupados em ficar bem na fita e não se indispor com os demais do que em anunciar a verdade que receberam da Igreja.

O que Jesus faria? Corrigir sem condenar

Aqueles que não se esquivam da responsabilidade cristã da correção fraterna são frequentemente acusados de querer apedrejar os outros, tal qual o episódio em que Jesus salva a pele da mulher adúltera. Ora, e desde quando corrigir é apedrejar? Corrigir é um ato de amor, reflexo do desejo de que o irmão não perca a sua vida e nem desvie outros com seus erros; apedrejar, por sua vez, é um ato de arrogância, que visa a condenação e a morte.

Notem que os bonzinhos de plantão só se lembram da parte em Jesus que não condenou a pecadora, mas parecem ignorar que Ele disse a ela: “Vai e não tornes a pecar” (Jo 8:11). O amor não pode se furtar ao apelo para a mudança, para a conversão. Fazer vistas grossas para as atitudes que levam à escravidão do pecado e à morte não é compaixão: é cumplicidade com o erro. Diz a Bíblia:

Se eu disser ao pecador que ele deve morrer, e tu não o avisares para pô-lo de guarda contra seu proceder nefasto, ele perecerá por causa de seu pecado, mas a ti pedirei conta do seu sangue. (Ez 33:8)
Em um artigo recente, Dom Orani Tempesta, arcebispo do Rio de Janeiro, reafirma esta doutrina: “Se um irmão está errado (...), mas em nome de uma falsa amizade ou do medo, se você o deixar continuar nessa lacuna, acabaremos sendo corresponsáveis pelo delito dele porque não o ajudamos com a correção fraterna”*.

Tira antes a sujeira do teu olho

Humildade, caridade e uma boa dose de autocrítica são os elementos necessários para quem se propõe a corrigir outra pessoa. Afinal, antes de olhar para os erros dos outros, temos que ter diante dos olhos as nossas próprias debilidades:

Por que olhas a palha que está no olho do teu irmão e não vês a trave que está no teu? Como ousas dizer a teu irmão: Deixa-me tirar a palha do teu olho, quando tens uma trave no teu? Hipócrita! Tira primeiro a trave de teu olho e assim verás para tirar a palha do olho do teu irmão. (Mt 7:3-5)
Ninguém que seja verdadeiramente humilde gosta de chamar a atenção dos outros, mas o amor ao destino do outro deve superar as nossas reticências. É o que nos ensina São Paulo:
No momento em que é aplicada, qualquer correção parece não ser motivo de alegria, mas de tristeza; porém, mais tarde, produz um fruto de paz e de justiça naqueles que foram corrigidos. (Hb 12:11)
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Então se você não está concorrendo ao título de Miss ou Mister Simpatia, ore e não tema praticar a correção fraterna “com sensibilidade e com verdadeiro espírito de diálogo e de fraternidade”*.

*Trechos do artigo “Santidade, conversão, correção”, de Dom Orani João Tempesta, arcebispo do Rio de Janeiro. Publicado no dia 03/09/2011, no site da Zenit. Para ler o artigo completo, clique aqui.

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E quando a correção fraterna descamba pro moralismo? Tratamos deste tema neste post aqui.
Pouca gente se dá conta, mas a beca usada pelos universitários ocidentais na cerimônia de formatura é muito similar aos trajes do clero católico. Nunca notou? Repara só:

bispo_beca_formatura_universitarios

Não, não é mera coincidência. De fato, os estudantes medievais gozavam de benefícios exclusivos do clero. Assim, em algumas ocasiões especiais e solenes - como a cerimônia de colação de grau - eles usavam o traje característico dos eclesiásticos. Mas o que motivou a concessão desse privilégio?

A maior parte dos universitários medievais tinha entre catorze e vinte anos, e sacomé... O gosto pelas festas e pela zoação dos jovens daqueles tempos não se diferenciava muito dos de hoje. As festas não raro, ficavam barulhentas demais, a alegria exacerbada descambava às vezes pra baderna... E por isso o povo das cidades estava longe de morrer de amores pelos estudantes.

O problema é que esse rancor muitas vezes gerava violências e injustiças contra os estudantes - grande parte deles oriundos de famílias com poucas posses. Foi aí que os papas intervieram, como pais zelosos, para proteger a integridade de seus filhos.

Para entender melhor essa história, leia abaixo o  texto do escritor Thomas Woods.

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CIDADE E TOGA

por: Thomas E. Woods Jr.

A participação dos papas no sistema universitário estendeu-se a muitos outros assuntos.

Um olhar de relance sobre a história da universidade medieval revela que não eram incomuns os conflitos entre a universidade e o povo ou governo local. Os habitantes da cidade nutriam com frequencia sentimentos ambivalentes em relação aos estudantes universitários; por um lado, as universidades eram um presente para os comerciantes locais e para atividade econômica em geral, uma vez que os estudantes traziam dinheiro para gastar; mas, por outro lado, estes estudantes podiam ser irresponsáveis e indisciplinados. (...) Como resultado, ouvia-se muitas vezes os estudantes e seus professores queixarem-se de que eram "tratados com abuso pelos cidadãos locais, com dureza pela polícia, desatendidos nas suas demandas legais e ludibriados no preço dos aluguéis, alimentos e livros".

No meio dessa atmosfera tensa, a Igreja rodeou os estudantes universitários de uma proteção especial, condecendo-lhes o chamado benefício do clero. Os clérigos gozavam na Europa medieval de um estatuto especial: maltratá-los era um crime extraordinariamente grave; tinham o direito de que suas causas fossem julgadas por um tribunal eclesiástico, e não pelo civil. Os estudantes universitários (...) passaram também a gozar desses privilégios.

Trecho do livro "Como a Igreja Católica construiu a civilização ocidental" - Editora Quadrante, São Paulo, 2001 (páginas 48 e 49).

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Esperamos que este artigo e o post "Sistema Universitário: Bota na Conta do Papa" tenham ajudado nossos leitores a fortalecer a compreensão de que a Igreja Católica, historicamente, é comprometida com a razão e a argumentação racional, a ponto de ter embalado em seu seio uma das instituições mais cruciais para o desenvolvimento intelectual e econômico dos povos do ocidente - a universidade.

chaves_ai_que_burroQuem se dedica a estudar um pouquinho sobre a Idade Média, inevitavelmente sofrerá a angustiante sensação de pane mental. Quando você sai da Matrix, é tamanha a quantidade de informações que contradizem o senso comum, que o cérebro quase funde.

“Uaaai... então a Igreja nunca pregou que a terra era plana?”; “Ôxi! Foram os monges que preservaram os textos gregos?”; “Véi, como é que aqueles medievais bitolados puderam criar o sistema universitário?”... Este é justamente o centro da questão: uma Igreja repressora e inimiga do pensamento poderia ter gerado uma instituição voltada para o cultivo sistemático do saber, em diversas áreas do conhecimento?

Os papas criaram, financiaram e garantiram a autonomia das universidades

As escolas mantidas pela Igreja Católica nas catedrais foram a semente da criação das universidades, por volta de 1150. Grande parte das universidades medievais ainda subsiste na Europa, e continuam a ser das mais famosas do mundo inteiro: Oxford, Cambridge, Paris, Bolonha, Coimbra...

Os papas foram os grandes incentivadores, financiadores e protetores das universidades. Eram eles – pasmem! – que garantiam a sua autonomia em relação à influência dos governantes e bispos, possibilitando que fixassem livremente suas próprias regras, cursos e estudos.

Tem muita gente tolinha (ou mal intencionada mesmo) que diz: “Ah, mas as universidades medievais eram dominadas pelo clero, e os estudiosos não tinham autonomia intelectual em relação à teologia”. Mas a verdade é que as pesquisas relacionadas aos fenômenos da natureza ficavam à margem da teologia. Veja o que diz o respeitado historiador Edward Grant: “exigia-se dos filósofos naturais das faculdades de artes que se abstivessem de introduzir teologia e temas de fé na filosofia natural” (1). Outro historiador renomado, David Lindberg, também concorda:

"...dentro desse sistema de educação medieval havia uma grande quantidade de liberdade. O estereótipo da Idade Média do professor covarde e subserviente, um escravo seguindo Aristóteles e os pais da Igreja (...), com medo de sair de linha que demandavam as autoridades. Haviam limitações teológicas, é claro, mas dentro desses limites os mestres medievais tinham uma notável liberdade de pensamento e expressão". (2)
Uso da lógica caracterizava o método escolástico

Nas universidades medievais, a discussão exaustiva de uma questão, após considerar os argumentos contrários e a opinião dos grandes autores (autoridade), era a forma tida como a mais eficiente para se chegar à verdade. A rotina acadêmica dos estudantes era animada por debates fervorosos entre os graduandos, bem como o enfrentamento de mestres com pontos de vista opostos.

debate_universidade_medievalNo site "Brasil Escola", um artigo afirma que nos debates promovidos nas universidades medievais "ninguém questionava o que os grandes autores diziam. É por isso que, séculos mais tarde, a escolástica foi considerada uma forma de estudo dogmática (bitolada)." Ora, parece que o autor desta pérola confundiu as universidades medievais com as atuais, onde o discurso marxista reina absoluto, e são raras as vozes dissonantes. Reparem na contradição flagrante: se os universitários medievais não questionava nada, como poderiam haver tantos debates?! Vamos imaginar a cena:

- Eu acho que o céu é azul, porque o Aristóteles falou.

- Com todo o respeito, ilustre colega, eu discordo! Na verdade ele é... azulado!

Aff... Dá mesmo pra crer que era possível ser assim? Mi poupi!

O fundador da ilustre faculdade de Sorbonne (Paris), Robert de Sorbon, dizia que o amor ao debate, o apreço pelo espírito crítico e a dúvida metódica que caracterizam a cultura ocidental se devem justamente à sofisticação intelectual das universidades medievais (2). O historiador Edward Grant ratifica esta tese:

O que fez possível para a Civilização Ocidental desenvolver a ciência e os estudos humanos de uma maneira pela qual nenhuma civilização tinha feito antes? A resposta, eu estou convencido, está em um penetrante e profundo espírito de questionamento que foi uma consequência natural na ênfase dada à razão que começou na Idade Média. Com exceção das verdades reveladas, a razão foi entronada como o último árbitro para a maioria das discussões e controvérsias. (1)

(1) Edward Grant, God and Reason in the Middle Ages (2001)

 

(2) David Lindberg , The Beginnings of Western Science (1992)

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Se você quer saber mais, recomendamos a leitura do livro Como a Igreja Católica construiu a civilização ocidental, de Thomas Woods Jr. - Editora Quadrante.

Segunda, 26 Setembro 2011 09:00

“Um santo triste é um triste santo”

O MORALISMO TORNA A FÉ UM FARDO

Zé vai à missa todos os domingos. Não perde uma procissão, atua em mais de uma pastoral e integra uma comunidade de formação espiritual. É um cara honesto e gentil. Ainda assim, uma estranha aridez resseca a sua alma... e um gosto amargo de frustração nunca deixa a sua boca. Sua fé aparentemente fervorosa contrasta com sua vida pálida e sem gosto.

O personagem é fictício, mas o drama é real. Muitos são aqueles que tem a Jesus como um parâmetro religioso e moral, mas que não o reconhecem como uma companhia concreta e efetiva no cotidiano. Seguem as regras da religião como se carregassem um pesado fardo, e não como fontes de autêntica liberdade e alegria. De fato, como bem disse São Francisco de Salles (não tenho certeza de que o autor é mesmo ele), "um santo triste é um triste santo".

Em mais um post sobre o moralismo, apresentamos um texto de D. Luigi Giussani, fundador do Movimento Católico Comunhão e Libertação.

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"Nós, com todo o nosso discurso cristão, (...) podemos viver como se Cristo não existisse."

por: D. Luigi Giussani (texto adaptado)

O cristianismo (...) o que é no mundo, se não aquele grupo de homens, aquele pedaço de humanidade que reconhece que Deus tornou-se uma pessoa entre nós, e pronto? Seria o grupo de homens perfeitos, que não dizem mentiras, que não roubam, que não fazem mal aos outros, que usam bem do próprio corpo e do corpo de outros? Seria este o grupo de cristãos? Se fosse, seria realmente um grande milagre. Mas não é: os cristãos são os seguidores de Cristo, isto é, aqueles que O reconhecem (...), aqueles que vivem a consciência da Sua Presença.

Ora, existe uma coisa mais impressionante do que o fato de que ninguém perceba a Sua Presença?  É assim na Bíblia ("Veio entre os seus, e os seus não O acolheram. Veio à casa deles, e eles não O receberam") e pode ser assim conosco! Nós, com todo o nosso discurso cristão, com a fé que temos, com as práticas que fazemos, podemos viver como se Cristo não existisse! Então toda a nossa moral o que é? A nossa moral não é mais um comportamento verdadeiro; a nossa moral é seguir regras por medo ou  presunção.  É como cumprir um contrato.  Em outras palavras: é um moralismo!

Mas, no Cristianismo de fato, deve ser justamente o contrário: toda a lei é amar a Cristo, é a afeição a Cristo! Não precisamos, não devemos arrancar nada de nós: é preciso apenas converter-se!

O amor a Cristo torna tudo diferente!  É o mesmo que acontece quando nos apaixonamos. Entra em nós algo de diferente, como se tivéssemos um coração diferente, mas sem arrancar nada do que realmente somos: o dinheiro que temos, o temperamento que temos etc.  Claro, que com o tempo e a convivência, o amor nos educar em certos aspectos.  Se verdadeiramente queremos bem ao outro, acabamos nos tornando capazes de coisas que não éramos antes.

Mas isso acontece com o tempo, como uma consequência! A questão central não é ser capaz de fazer isso ou aquilo, de respeitar as leis assim e assim. O que importa realmente é a afeição a Cristo. A partir de então, não existe mais ambiguidade (...), não se reduz mais a nossa moralidade às coisas que somos capazes de fazer, enquanto sobre outras fechamos um olho. Não! A afeição a Cristo não deixa trégua nunca, é uma guerra, é uma inquietude que é cheia de paz, de letícia (...).

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O texto acima é uma adaptação livre do trecho do livro La fraternitá di Comunione e Liberazione, publicado no Jornal Corriere della Sera (Itália) do dia 15.10.2002.  A adaptação do texto foi necessária para torná-lo mais direto e adequado a um blog.

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