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Paulo Ricardo

Paulo Ricardo

Domingo, 15 Abril 2018 22:15

Calvino, o "papa" arbitrário de Genebra

No nosso post anterior sobre João Calvino, afirmamos que ele não era um real defensor da liberdade de interpretação das escrituras e da Bíblia como única autoridade de fé (Sola Scriptura). Hoje vamos explicar porque.

A loucura protestante já havia se espalhado para todo o lado, e um dos tópicos mais controversos para os cristãos separados sempre foi a Eucaristia. Ao contrário do que muita gente pensa, Calvino era um ferrenho defensor da Eucaristia.

Mas o problema aqui, mais uma vez, era a forma como ele se comunicava. Autoritário como ele só, uma de suas maiores frustrações era a divergências nas (já) várias correntes protestantes a respeito da Eucaristia. Só que, como mostra São Felipe Néri: “não se junta as penas de uma galinha que foi depenada ao vento”.

Calvino também queria manter o batismo como ensinado pela Sã Doutrina (admitindo o batismo de bebês e crianças). Isso o transformou num perseguidor implacável dos anabatistas de Genebra, que afirmavam que só adultos poderiam ser batizados.

Mas não se enganem: pode parecer com a doutrina dos sacramentos católicos, mas são sutilmente diferentes. Por exemplo, Calvino defendia a presença real de Cristo na Eucaristia, negando que fosse algo meramente simbólico. Mas isso estava bem longe do ensinamento católico sobre a transubstanciação. Segundo Calvino, a presença de Cristo no pão e no vinho e não modificava a substância desses elementos, que continuavam a ser meramente pão e vinho.

Tudo que Calvino fazia era visando seu projeto de poder, consolidado através de uma igreja reformada forte, que também continha em si as diretrizes de Estado.

O reformador francesinho tinha uma consciência plena de que Sola Scriptura é receita para o desastre, pela sua simples fluidez: a doutrina muda conforme a interpretação que cada um faz da Bíblia. A coisa era completamente esquizofrênica, uma esquizofrenia que vem quicando através do tempo até os dias de hoje.

Pensem comigo: a teologia calvinista é a base do puritanismo, do moderno pentecostalismo; Calvino era arbitrário e irracional, apelando para a própria subjetividade quando era desafiado pelos outros ou pela realidade. Mas com que autoridade ele negava aos outros, como Bolsec, que fizessem a mesma coisa? Não parece muito com o pensamento incoerente moderno?

Comparem o que eu escrevi com a atitude dos santos católicos ligados à teologia. São Tomás, Santo Agostinho, Santa Teresa D'Ávila, São Carlos Borromeo, São Francisco de Sales, São Felipe Néri. Todos eles grandes teólogos, todos eles submissos e bondosos. Nenhum jamais OUSOU DESAFIAR A AUTORIDADE DE UM PAPA ou de um Concílio.

Olhem as origens da teologia protestante. Um sujeito que excomungava porque ele estava a fim e pronto. Por essas e outras que eu digo que não há discussão possível, pelo simples fato de que não são categorias iguais. A autoridade da teologia de São Tomás vem dos estudos que foram feitos a respeito da mesma. O Doutor Angélico jamais diria “é assim porque eu quero” (Lutero) ou “é assim porque senão eu te excomungo” (Calvino). Santa Hildegarda é, fácil, fácil, a mulher mais brilhante que já viveu e nunca quis exaltar-se sobre os demais por conta disso.

Tudo isso por conta da coisa que Calvino mais desprezava no catolicismo e o que ele tinha mais ânsia de destruir e substituir... Aquilo que torna a Igreja invencível e foi instituído por Nosso Senhor... O Magistério da Igreja! É por meio do Magistério que a Igreja separa o joio do trigo, o essencial do não-essencial. Olha que troca mais lindja! Trocar o Magistério por… Calvino. Alguém em Genebra achou que era uma boa ideia. Mas deu no que deu.

Hoje os protestantes, em grande parte, creem que tanto faz a denominação à qual pertençam (contanto que não seja a "idólatra" Igreja Católica), que já estão salvos. O importante é ser "evangélico". Mas para Calvino, fora da Igreja por ele liderada e "reformada" não havia salvação, nem mesmo para os demais protestantes. Foi isso que ele afirmou sobre Herman, um ex-anabatista:

“Herman retornou, se não estou enganado, de boa fé à amizade da Igreja. Ele confessou que fora da Igreja não há salvação, e que a verdadeira Igreja está conosco. Consequentemente, ele era um desertor enquanto permaneceu numa seita separada da Igreja.” (Cartas de João Calvino)

Fora de Genebra, o calvinismo original não teve vez sem a mão forte do seu líder, e começou a se fragmentar – como o faz toda boa corrente protestante – e a se transformar. Hoje, o calvinismo se assemelha não mais a uma tela de um artista reconhecível, mas sim a um mosaico estranho feito de milhares de pedaços distintos. Ainda assim, deu (e dá) muito trabalho. Veremos isso no próximo post.

Fiquem com Deus e com a Virgem Maria.

FONTES:

Belloc, Hillarie. As Grandes Heresias. Ed. Permanência, 2009.

The Consistory of Geneva, 1559-1569, Bibliothèque d'humanisme et Renaissance 38, 1976.

Called to Communion, How John Calvin Made me a Catholic, disponível em www.calledtocomunnion.com/, acessado em 02/02/2017.

Letters of John Calvin, trans. M. Gilchrist, ed. J.Bonnet, New York: Burt Franklin, 1972

O homem que criou, ou melhor, recriou e acertou as diferenças do antigo calendário juliano, foi o Papa Gregório XIII (com o auxílio dos cientistas do Vaticano). Isso aconteceu no ano 1582.

O calendário que usamos até hoje foi uma complicadíssima engenharia que envolveu muitas ciências distintas. Interdisciplinaridade a gente vê na Igreja Católica! Não foi só colocar a cada quatro anos um dia a mais em fevereiro. Foi preciso eliminar os dias de 5 a 14 de outubro do ano de 1582 para que as coisas funcionassem a contento. Os estados católicos adotaram o novo calendário imediatamente (lembrando que é um imediatamente de 1582) e os protestantes, sábios e descolados, bateram pézinho, insistiram no calendário antigo e só adotaram a nova norma um século depois.

Gregório XIII nasceu Hugo Buoncompagni e só foi ordenado sacerdote aos 40 anos de idade – uma prova de que para o Nosso Senhor nunca é tarde. Gregório era versado em leis e excelente administrador. Logo chamou a atenção do papa Paulo IV, que o nomeou Bispo de Vieste, em 1558.

Foi parte ativa do Concílio de Trento e, em reconhecimento dos bons serviços prestados, foi nomeado Cardeal de San Sisto. Em 1565, se tornou núncio apostólico (representante do Papa) da Espanha.

A administração do rei Felipe II foi determinante para eleição do Cardeal Buoncompagni para o Trono de Pedro, em 1572. O conclave que o elegeu durou menos de 24 horas – o que é raro, mesmo nos dias de hoje. Devoto de São Gregório Magno e sentindo-se protegido por ele, adotou seu nome em homenagem. Foi coroado no Pentecostes daquele ano.

O DIREITO DE VETO IMPERIAL

Há um ponto que, fora os historiadores da Igreja, a massa de católicos desconhece: o direito de veto imperial à eleição de um Papa. Sim, isso era possível!

O chamado Jus Exclusivæ consistia, basicamente, do direito do Imperador não aceitar a eleição de determinado candidato indicado pelo conclave, com as devidas considerações legais.

Podemos traçar as origens do direito ao veto imperial até Constantino, mas isso iria ser muito longo e enfadonho. Basta lembrar quantas vezes os imperadores do Sacro Império se meteram com o papado ao longo da História. Esse direito passou do Império Romano para o Sacro Império Romano-Germânico e deste para o Império Austro-Húngaro.

E o que isso tem a ver com as calças? Lembrem que eu disse que o Rei Felipe II da Espanha era admirador do futuro Gregório XIII? Felipe também era o Imperador do Sacro Império Romano-Germânico. Pois bem, naquele conclave, na primeira votação, saiu vitorioso o sobrinho do papa Paulo III, o eterno candidato Alessandro Farnese. Vetado, foi feita nova votação, e aí sim o nome de Buoncompagni surgiu como nome de consenso.

Para quem acha que o veto imperial era um costume medieval que há muito não existe, saibam que ele foi válido até 1904. Foi extinto por Pio X que, aliás, foi o último papa a se beneficiar dele.

ENTRE ERROS E ACERTOS, UM BOM PAPA

Falemos um pouco mais do papado de Gregório XIII em si. Buoncompagni era de natureza mais mansa e menos ativa do que seu antecessor, São Pio V. Sua principal ambição era promover os decretos do Concílio de Trento e a Reforma Católica.

Era grande amigo de São Carlos Borromeo, a quem tinha em alta conta. Gregório XIII deu continuidade à política de acabar com as bocas nervosas e insistiu que as dioceses eram terrenos para propagação do Evangelho, não cabide de funcionário público desocupado.

O papa sempre considerou que a educação era o caminho para formar melhores sacerdotes; não poupou esforços e dinheiro para fundar faculdades por toda a Europa, entregando o seu controle à Companhia de Jesus. Reconstruiu o Colégio Romano (1572), que em sua homenagem passou a se chamar Faculdade Gregoriana. Fundou colégios na Inglaterra, reformou na Alemanha e construiu ainda outros: grego, maronita, armênio e húngaro.

Todo mundo sabe o que foi a noite de São Bartolomeu: o massacre dos huguenotes (protestantes) do Almirante Coligny pelas tropas católicas francesas, sob o comando da rainha Catarina de Médicis e suas repercuções até os dias de hoje. Sempre se menciona que o Papa mandou celebrar aquele episódio com um Te Deum. Esse papa era Gregório XIII. Lembrando que o papa não tinha Twitter nem Facebook não existia e a CNN não estava filmando tudo. E, claro, quem mandou o comunicado ao Vaticano foi a coroa francesa, escrevendo a mensagem como bem entendeu, omitindo as partes feias.

Mas o maior inimigo enfrentado por Gregório XIII foi a famigerada Isabel I da Inglaterra, responsável pela destruição da “invencível armada” do Rei Felipe II. Esse fato jogou a Espanha de lodo e estabeleceu o domínio inglês dos mares, que perdurou até o século XX.

Gregório aliou-se a Felipe e planejou ataques à marinha inglesa, a partir da Holanda ou da Irlanda. Depois que a invasão a partir da Irlanda falhou, o rei Felipe II passou a conspirar, no melhor estilo KGB, para tentar assassinar a rainha. Tendo o papa como principal aliado, esse também acabou pegando a fama de envenenador de realezas. Mas ao certo, ninguém sabe o que foi verdade ou o que foi plantado pela própria coroa britânica. Típico jogo sujo dos tronos.

Grande incentivador dos jesuítas, Gregório defendeu as missões da Índia, do Brasil, da China e do Japão. Aprovou a Congregação do Oratório de São Felipe Néri e a reforma das carmelitas de Santa Teresa D’Ávila. Foi Gregório XIII que reformulou o Corpus de Direito Canônico, conforme as determinações do Concílio de Trento.

Todos esses gastos com colégios, missões e guerras deixavam a Igreja deficitária economicamente, como sempre. Somos ricos da graça, mas nunca tem muito dinheiro sobrando. A segurança interna deficitária de uma Roma que mais e mais se secularizava transformou o lugar numa espécie de Rocinha da Idade Moderna.

E assim transcorreu o papado do Gregório XIII, entre erros e acertos, um bom papa, um servo de Deus e um sucessor digno de Pedro. Partiu em 10 de abril de 1585 e foi sepultado na Basílica de São Pedro.

Fontes:

 Ludwig, Freiherr von Pastor. History Of Popes

 Ranke, Leopold von. The History of the Popes during the Last Four Centuries 

 Johnson, Paul. La Historia Del Cristianismo

 McBrien, Richard P.. Os Papas - Os Pontífices de São Pedro a João Paulo II

Muitas vezes um grande livro tem que ser reapresentado às novas gerações. Aqui temos um caso clássico de um livro para além do maravilhoso: “Além do Planeta Silencioso”, primeiro livro da “Trilogia Cósmica” de C. S. Lewis.

Mais conhecido pelo excelente e imorredouro “As Crônicas de Nárnia”, bem como por “Cristianismo Puro e Simples”, Lewis criou na sua Trilogia imagens e ambientações, apenas para citar dois aspectos, que nunca nenhum Spielberg poderia criar (filmar seria apelação e a grandiosidade mostrada por Lewis é inalcançável para qualquer técnica cinematográfica).

E que imagens! A grande arte da literatura consiste em construir ambientes. Somente mestres como Dostoiévski, Proust, Tolkien e Lewis conseguem escrever páginas e mais páginas de ambientação que grudam em sua mente nos detalhes e te levam a viajar por horas. Sem que se perceba, estamos imersos no mundo mágico criado pela sua pena. Por essas e outras, antes de amarrar seu burrinho ao dizer que a ficção científica tem seus expoentes em Asimov (Fundição, Eu, Robô) e Douglas Adams (O Guia do Mochileiro das Galáxias), visite a Trilogia Cósmica – garanto que vocês não vão se arrepender!

É raro um escritor que transita entre a ficção científica e a fantasia. Há, inclusive, um certo antagonismo entre os defensores de uma e de outra, mas Lewis é um desses casos raros de maestria. Tanto na escrita quanto na escolha inusitada de protagonistas. Em vez de cavaleiros bombados e brucutus armados até os dentes, para a trilogia cósmica o mais inusitado dos heróis surge em “Além do Planeta Silencioso”: um filólogo cristão.

No discurso, aparentemente datado pela época que foi escrito (entre o início e o final da Segunda Guerra), se destaca a crítica antibelicista, o nosso comportamental deplorável com nosso semelhante, o choque ao se deparar com uma cultura em que o diferente é tratado com respeito e as suas habilidades não são objetos de inveja, mas de admiração.

A história do livro se passa no planeta Marte, ou melhor, em Malacandra (na língua “solar antiga”). Para muitos é ridículo pensar em vida em Marte, ainda mais vida inteligente. Tudo bem, mas antes de cair nessa esparrela cientificista, é preciso ter em mente que estamos falando de alegorias. É por essas e outras que Thulcandra – nossa Terra – é o planeta silencioso do título, incapaz, pela ação e influência do “Torto” de se comunicar com os demais planetas do Sistema Solar.

Nosso herói, Elwin Ransom, é um filólogo de meia idade que um dia, viajando pela Inglaterra, sem conseguir vaga numa estalagem local, procura abrigo numa mansão no meio do mato que era de propriedade de um conhecido físico, Edward Weston. Este e seu cúmplice Devine, põem Ransom para dormir e quando este acorda está dentro de uma espaçonave indo para Marte, ou Malacandra. Weston é a própria encarnação da mentalidade de ganhoto dos nazistas de Hitler e Devine um medíocre que só pensa em grana.

Ao chegar em Malacandra, Ransom consegue escapar dos dois e começa a explorar o planeta vermelho e a ter contato com seus habitantes, Marte possui mais de uma espécie ciente e surpreende muito a Ransom como estas se governam e o respeito mútuo delas. Ransom tende a colocar tudo na perspectiva europeia e tem muita dificuldade a princípio para entender como os Hrossa, Soróni e Pfifltriggis se completavam e como o velho planeta (muito mais antigo que a terra) era tão equilibrado.

Para o mundo moderno, essa ficção científica maravilhosa apresenta um problema sério para divulgação mais ampla: é cristã demais. Mostra a Terra como um mundo de sombras (isso meio que destrói a imagem de “luzes” criada a partir do século XVIII pelos iluministas), apartado da luz divina por um “Oyarsa” caído que nos tirou do Céu e nos transformou no palco para a guerra que precede “A Grande Dança”. Sei que esse parágrafo ficou meio estranho, mas basta ler o livro e tudo ficará mais claro.

Hora de desligar o smartphone e a TV, minha gente. Mas nem tudo é trevas no Mundo Silencioso, Maleldil nos ama, ama tanto que se fez um de nós e por tabela fez do homem a forma final de seus filhos em todo Universo. Louvado seja para todo o sempre Maleldil.

Para terminar, algumas curiosidades: nosso herói, Ransom, é nome fantasia para J. R. R. Tolkien, grande amigo de Lewis, transformado por ele no seu personagem humano mais forte e intrigante. Tolkien, para quem não sabe, não gostava de “As Crônicas de Nárnia” porque achava a presença de Jesus em Aslam, o Leão, descarada demais. Tolkien preferiu mostrar nosso salvador em diferentes aspectos de vários personagens. Jesus está lá também em “O Senhor dos Anéis”, mas ele está em Galdalf, Frodo, Sam, Aragorn, Legolas e outros. Mas isso já é outra história.

Sábado, 24 Fevereiro 2018 21:43

São Domingos de Silos, um abade muito especial

Temos dois santos chamados Domingos bastante conhecido de todos: o grande fundador da Ordem dos Pregadores (e meu santo de guarda), São Domingos de Gusmão, e o jovem São Domingos Sávio. Mas existe outro que antecede ambos no tempo: São Domingos de Silos.

Sua devoção hoje é mais localizada em sua terra natal, a Espanha, mas São Domingos de Silos é grande em toda cristandade.

Nascido em La Rioja, por volta do ano mil, era um pastor de ovelhas. Sedento do Senhor, levou vida eremitéria por algum tempo antes de ir para o mosteiro beneditino de Santo Emiliano, onde estudou as Escrituras. Foi pároco, seu trabalho chamou atenção e ele retornou ao mosteiro onde havia sido ordenado, assumindo o posto de abade, em 1038 (isso quase à força - dada à sua humildade, ele não queria assumir nenhum posto de destaque).

Os tempos de São Domingos de Silos eram complicados. Era a era da Restauração, e todos os príncipes espanhóis estavam combatendo para retomar as terras que estavam sob domínio dos muçulmanos. Grande parte do esforço de guerra era bancado pelos monastérios e igrejas, e não demorou para que viessem bater na porta de São Domingos e de seus monges.

Os monges, ou por patriotismo ou por medo, estavam quase entregando a grana preta exigida ao Rei de Navarra – Garcia. Mas São Domingos tinha outra ideia: deu uma recusa humilde e categórica, que contrariou muito o príncipe. São Domingos caiu fora, porque príncipe e rei medieval não podia ser contrariado, e exilou-se em Burgos. Lá, Fernando Magno, rei de Castela e Aragão, o recebeu em seu palácio.

O santo, entretanto, preferia a vida no campo, entre os pobres. O rei então cedeu-lhe no dia 14 de janeiro de 1041 o mosteiro de São Sebastião de Silos, quase abandonado.

AS TRÊS COROAS

São Domingos vivia para o louvor em tempo integral. Um monge de Silos, seu contemporâneo, relata que, para animar o santo, um anjo lhe prometeu em sonhos três coroas:

  • uma por ter abandonado o mundo perverso e se ter encaminhado para a vida perfeita;
  • outra por ter construído Santa Maria de Cañas (a primeira paróquia para a qual foi designado) e ter observado a castidade perfeita;
  • a terceira pela restauração de Silos.

Nosso santo se destaca em outro campo, e por isso merece todas as glórias: libertou um grande número de escravos cristãos das mãos dos mouros. Aos poucos, tornou-se um dos homens mais populares da Espanha, e grande milagreiro.

Era também um excelente bibliotecário. Seu monastério (assim como muitos outros o fizeram com outras culturas, por toda a cristandade) salvou parte da cultura visigótica.

São Domingos partiu para junto do Senhor em 20 de dezembro de 1073. Seu báculo de abade é uma das relíquias das mais sagradas. As futuras mães invocavam-no para terem bom parto. Era tradição: quando uma rainha da Espanha estava prestes a ser mãe, o abade de Silos levava para o palácio real o báculo de São Domingos, e esta relíquia lá permanecia até se dar o príncipe ou princesa vir à luz.

Até hoje, os monges da abadia de São Domingos de Silos são considerados por muitos os melhores intérpretes de canto gregoriano em atividade. Eu mesmo tenho alguns Cds gravados naquele lugar sagrado.

São Domingos de Silos, rogai por nós!

Fontes:

GONZALO DE BERCEO. Vida de Santo Domingo de Silos. Edición de Aldo Ruffinatto. In:_____. Obra Completa. Coordinado por Isabel Uría. Madrid: Espasa-Calpe, 1992.

http://www.abadiadesilos.es/vidasd.htm. Acessado em 28/02/2018.

https://ipco.org.br/20-12-sao-domingos-de-silos-abade-confessor/#.Wni6midrzQo. Acessado em 28/02/2018.

ALVARO, Bruno G. A vida de Santo Domingo de Silos e o Poema de Mio Cid: Um Estudo Comparado Acerca das Similitudes e Diferenças na Construção dos Personagens.

Saudades de nossos especiais? Olha nóis aqui de volta!!

Quem foi João Calvino? Seus atuais sucessores, os autoproclamados “evangélicos”, empurram pela goela abaixo dos incautos uma biografia cheia de buracos: dizem que foi um grande homem, que implantou a reforma protestante em Genebra, Suíça.

Seu nome virou sinônimo da teologia da predestinação e, consequentemente, da prosperidade. Mas Calvino está para muito além disso, como disse Hilarie Belloc (grifos meus):

“Apesar das férreas afirmações calvinistas terem se enferrujado (cujo núcleo era a admissão do mal na natureza divina pela permissão de somente uma Única Vontade no universo), ainda assim sua visão de um Deus Moloch permanece, e a coincidente devoção calvinista ao sucesso material; o antagonismo calvinista à pobreza e a humildade, sobrevivem vigorosamente. A usura não estaria corroendo o mundo moderno não fosse unicamente por Calvino. Tampouco os homens estariam se rebaixando para aceitar a inevitável ruína, não fosse unicamente por Calvino. Nem tampouco o comunismo estaria entre nós como está hoje, não fosse unicamente por Calvino. E, finalmente, o monismo científico não dominaria o mundo moderno, como faz, matando a doutrina do milagre e paralisando o livre-arbítrio, não fosse unicamente por Calvino.”

A palavra “calvinista” só chegou ao mundo 20 anos depois de Lutero plantar as sementes da Deforma Protestante. Calvino provocou muito mais dano no edifício da fé do que Lutero jamais seria capaz ou desejaria. Se Lutero trouxe o fósforo e o carvão, Calvino trouxe o álcool para começar o “churrasco da fé cristã”.

Nascido em 1509 na cidade de Noyon, no Nordeste da França, João Calvino era filho de Gérard Calvin, advogado dos religiosos locais e secretário de Charles Hangest, bispo local. A mãe de Calvino era uma pia jovem chamada Jeanne Lefranc, que faleceu ao dar à luz o sexto filho. Foi a Igreja Católica malvada que custeou os estudos de Calvino, desde os seus doze anos de idade.

Seu pai, Gérard, que também era o contador da diocese, se envolveu em um escândalo financeiro e foi excomungado. Também respondeu um processo por heresia. Depois de anos doente, Gérard veio a falecer. Ele teria sido enterrado em terreno não consagrado (uma vergonha das maiores na época), mas seu filho mais velho, Carlos, conseguiu lhe dar um enterro descente.

Isso teve um impacto violento sobre o jovem Calvino. Alguns historiadores atribuem ao tratamento dado pela Igreja (embora justo) ao seu pai como um dos principais motivadores do reformador francês.

Em 1523, Calvino foi para Paris para estudar latim, humanidades e Teologia. Em 1528, iniciou seus estudos jurídicos (ele se tornaria advogado), primeiro em Órleans e depois em Bourges. Neste local, estudou com Melchior Wolmar, um luterano convicto. Provavelmente foi por meio dele que Calvino deu os primeiros passos em direção ao protestantismo.

O empurrão final foi dado pelo seu primo Pierre Robert Olivétan. Foi ele o responsável pela primeira tradução da bíblia para o idioma franco (a “bíblia de Olivétan”). E Calvino escreveu o prefácio.

Estamos no ano de 1533. Calvino, já convertido ao protestantismo, iniciou um modus operandi que não será apenas padrão para os protestantes do século XVI, mas por tantos outros movimentos de caráter agnóstico revolucionário ao longo destes últimos quase 500 anos: a militância.

No mesmo ano de 1533, Calvino teve que fugir de Paris, acusado de ser coautor de um discurso de Nicholas Cop, reitor da Universidade de Paris e cripto-protestante. Não sabemos ao certo o que aconteceu, mas há um fragmento do discurso em Genebra que foi escrito pelo próprio Calvino. O documento original, por sua vez, está em Estrasburgo. Estaria realmente Calvino envolvido com o caso do discurso de Cop? Há indícios de que sim, mas seria leviandade para com quem já tem tanto sobre si, cravar que isso realmente ocorreu. Fica a dúvida até que venham a surgir novos documentos que joguem luz sobre esse momento da história.

Deixo agora uma provocação para você: releia o parágrafo do professor Belloc. Agora, leia de novo. Você é um bom católico ou um calvinista? Não se surpreenda se, depois de um exame de consciência profundo, você descobrir que é calvinista. Eu, por muito tempo, fui. Ainda há em mim resquícios desse mal. Por isso Calvino é tão importante, muito mais do que a Lutero!

Ao aprender quem foi o sujeito, podemos detectar a presença de seu espectro nas pequenas coisas que vão se avolumando, tomando vulto, e ocupam espaços nos quais não deveria estar.

Calvino é influente para muito além da religiosidade, dos huguenotes franceses aos puritanos do May Flower, passando pelos modernos evangélicos aos revolucionários de Sierra Maestra e Rosa Luxemburgo, sem esquecer Dawkins e os neo-ateus; ele está em muitos mais lugares do que imaginamos a princípio.

Fiquem com Deus e até a próxima!

*****

Fontes:

BELLOC, Hilaire. As Grandes Heresias

CHESTERTON, G. K. O Homem Eterno

SCHAFF, Philip. History of the Church, Vol. VIII: Modern Cristianity. The Swiss Reformation

DYER, Thomas. The Life of John Calvin

E aí meu povo! Catelivros de volta, e em grande estilo.

Submissão (de Michel Houellebecq, Ed. Alfaguara) é a história de François, um professor de literatura comparada. François é o típico intelectual francês de academia. Esclarecendo aqueles que (ainda) não sabem, a palavra islã, do árabe, significa submissão. Submissão à vontade do Senhor, a Allah. Então o livro trata do islã? Sim e não: na verdade, trata mais daquela que está sendo submetida... No caso, a civilização ocidental.

Não imaginem aqui cenas chocantes de violência, mamelucos de turbante decapitando heroicos cristãos ou mulheres e crianças-bomba explodindo quartéis de polícia. Não há nada disso no livro. A dominação islâmica se expande de forma astuta e "suave, sem violências e sem massacres.

Estamos na França, em um futuro próximo. Como pano de fundo político, vemos a estrutura política tradicional francesa desmoronando por pura degradação. François é o próprio retrato da mediocridade intelectual do Ocidente, e só não é mais medíocre que alguns dos seus colegas de faculdade, lembrando que estamos falando aqui de um professor da Sorbonne.

François nada mais é que o retrato do homem ocidental: espiritualmente fraco, viciado em sexo, depressivo e com tendências suicidas. Ele tem um relacionamento patético com os pais – que conseguem ser ainda mais ridículos retratos humanos do que ele. Em resumo, um homem sem Deus. Sem Deus e sem expectativas na vida, já tendo realizado o seu trabalho mais brilhante e incapaz de seguir adiante, engessado no tempo.

Ah, tá! Mas onde entra o islã nisso aí?”. É sabido que a presença do islã, hoje, na Europa, é massiva. Sendo que o livro se passa num futuro próximo, nos nossos dias, infelizmente, vemos sinais que esse futuro vai pular das páginas dessa ficção para a nossa realidade.

Por exemplo, há poucos dias as escolas na França proibiram a exibição do filme “A Estrela de Belém”, por ser cristão demais. Ao mesmo tempo, esta mesma França não tem o menor problema em parar o trânsito para que os muçulmanos possam rezar na sexta-feira. Tratamento igualitário do estado laico a gente vê por lá, não é mesmo?

Com o desgaste das forças tradicionais francesas – representam aqui neste livro o globalismo da esquerda e o liberal –, vemos a França cair aos poucos numa “terceira via”: o globalismo islâmico. Tudo de forma pacífica e institucional, sem tiros e sem bombas.

A construção de ambientes do livro é excelente, coisas importantes estão acontecendo politicamente a cada página, mas François está passivo, como bom cidadão francês. O islã vence as eleições e a França tem um primeiro ministro muçulmano. Só que ninguém tem que usar burca, ninguém tem que rezar para Meca obrigatoriamente nem nada disso. As mudanças são sutis e elas estão lá, como estão aqui e agora.

O entrelaçamento da cultura ocidental cristã com a cultura judaica está presente no livro, representado pela relação de François com uma colega judia, que pareceria amor, mas que descamba para promiscuidade sexual (um aviso: tem umas descrições bem explícitas de sexo, mas que não são gratuitas, pois remetem à proximidade das culturas de onde os personagens são oriundos).

É um exemplo que alerta que culturas de espiritualidade elevadas, quando se voltam ao exclusivamente material, podem se tornar monstros hedonistas. É esse relacionamento o único que completa François, muito embora ele se sinta inadequado e não entenda muito bem o que está acontecendo. Mas, como era de se esperar, há rachaduras no vaso da cultura judaico-cristã.

Deixo vocês com uma pergunta: o fim da civilização ocidental será através do clamor da batalha ou será como o de seu antecessor, o Império Romano, em um sussurro?

Uma curiosidade: a última edição do medonho “Charlie Hebdo”, antes do atentado que vitimou 12 pessoas, foi justamente com o autor Houellebecq na capa, sendo satirizado.

Salve meu povo!

Hoje vamos falar de mais um dos grandes santificados que ocuparam a Cátedra de Pedro: São Pio V. Ele é mais lembrado por ser o papa que salvou a Civilização Ocidental, por meio da formação da Liga Católica que combateu os turcos na batalha naval de Lepanto. Mas o legado de São Pio V não se resume a isto. Ele foi um martelo de hereges e um defensor ardoroso da ortodoxia católica.

Nascido Antonio Ghislieri, era um menino pobre. Na infância, foi pastor de ovelhas e, aos 14 anos, entrou para a Ordem dos Pregadores de São Domingos. Adotou o nome Michele quando foi ordenado ao sacerdócio em 1528.

Pio V foi eleito como sucessor de Pio IV graças à propaganda de um outro grande santo, São Carlos Borromeo. Na solenidade de sua coroação papal (em 1566), dispensou a pompa e a circunstância porque, aos seus olhos, seriam ofensivas aos pobres da Itália que ali compareciam em massa.

Ele só tinha uma ideia em mente: colocar em vigor efetivamente os decretos do Concílio de Trento que foi encerrado dois anos antes sob Pio IV. Para começar, a festança da gastação de dinheiro sem medida foi abolida. Pio V era tão zeloso que, mesmo proclamado papa, manteve os hábitos monásticos dominicanos. Roma tinha uma tradição e tendência à opulência, e isto causou algumas dores de cabeça ao papa, que foi acusado inclusive de tentar levar rigor do monasticismo dominicano a toda população da cidade.

Curiosidade: seus hábitos alimentícios – tomar refeições sozinho e em silêncio - passaram a ser adotados por todos os papas depois dele até o século XX). Também o hábito branco, com o qual estamos acostumados a ver nossos papas, foi adotado por São Pio V.

Foi severo com o nepotismo e exigiu que os clérigos residissem em suas dioceses (era hábito nomeá-los para um local e eles, pelos mais diversos motivos, morarem em outro). Fidelíssimo às diretrizes de Trento, publicou o catecismo romano em 1566, um breviário romano em 1568 e um Missal revisado em 1570. Pode parecer pouca coisa, mas com estas duas medidas, o Missal e o Breviário, unificou-se, pela primeira vez, a celebração da missa e a recitação do Ofício Divino. Em outras palavras, se hoje você, estando onde estiver, vai assistir a mesma missa, seja Cabroró ou Paris, isso se deve aos primeiros passos dados no século XVI por São Pio V.

Também devemos a Pio V a restrição da concessão de indulgências - que foram usadas como pretexto para a Deforma Protestante - e das dispensações (algo como o golpe do atestado médico que a rapaziada adora aplicar para não ir trabalhar). A ideia de papa missionário, que chegou ao auge com São João Paulo II, desenvolveu-se a partir de São Pio V. Tendo em vista as restrições de deslocamento da época, ele foi um papa viajante, indo em pessoa aonde o rebanho do Senhor estava, ao contrário dos demais papas, que raramente saiam de Roma. Mesmo quando ele não podia ir, enviava emissários em seu nome por toda a Itália e para além das fronteiras, não só da Itália, mas da Europa. Colocando em perspectiva, foi uma obra de divulgação realmente fabulosa.

Um outro aspecto de seu papado foi a valorização da Santa Inquisição. São Pio V reconstruiu o palácio inquisitorial, destruído pelos detratores do falecido papa Paulo IV, e comparecia muitas vezes aos julgamentos.

Ele foi o último papa a excomungar um rei - no caso rainha, a infame Elisabeth I. Isso acabou por abrir as portas do inferno aos católicos ingleses, que foram perseguidos, encarcerados, desapropriados, torturados e mortos. E tem gente que chama a rainha Mary, irmã da cuja, de “sanguinária”.

São Pio V faleceu em 1º de maio de 1572 aos 68 anos. Seu túmulo é magnífico e se localiza na Basílica de Santa Maria Maior. Comemoramos seu dia litúrgico em 30 de abril.

Terça, 14 Fevereiro 2017 17:18

Papa Pio IV, um vovôzão paz e amor

E aqui vamos nós de novo!

Depois dos anos de “porrada, tiro e bomba”, com a rigidez de Paulo IV, temos agora um papa mais paz e amor. Pio IV era muito amável, um vovôzão bacana que foi posto à cabeça da Igreja de Cristo nos tempos da Contra-Deforma.

Seu nome de batismo era Gian Angelo de Médici – mas não era membro da famosa família florentina (ainda bem, depois de dois desastres ambulantes como Leão X e Clemente VII, ninguém aguentava mais Médicis na Cátedra de Pedro). Foi governador de Parma, arcebispo de Ragusa e cardeal-sacerdote de Santa Pudenziana e Santa Prisca. Seguiu ainda uma brilhante carreira sob o Papa Júlio III, mas não se dava bem com aquele que seria seu antecessor, Paulo IV.

Pra variar, sua eleição foi outra confusão, com a ala francesa do conclave discutindo sem parar com os espanhóis. Carlo Carafa, o sobrinho do falecido Paulo IV, resolveu a celeuma, fechando com o cardeal de Médici (Pio IV). Habemus Papam! Era a véspera de Natal de 1559.

Curiosidade (sua vida dá um haikai):

  • Nasceu na Páscoa;
  • Eleito no Natal;
  • Coroado na Epifania.

Essas foram suas primeiras medidas de maior destaque: relaxou a prisão de Giovanne Moronne, cardeal acusado de heresia pelo papa anterior; liberou os monges andarilhos, deixando eles fazerem o que faziam melhor... andar; estabeleceu uma profunda reformulação no Index de Paulo IV, que era muito exagerado em seu rigor; nomeou um certo Carlos Borromeo – São Carlos, cuja história já contamos aqui – como cardeal-arcebispo de Milão. Nepotismo quase sempre é ruim, mas dessa vez foi bola dentro!

No campo político, aproximou-se de Felipe II e acabou com as disputadas com os espanhóis. Os frutos desta aproximação seriam colhidos em breve, e de forma crucial para toda a civilização ocidental (já adiantamos um post sobre o assunto aqui, a famosa Batalha Naval de Lepanto).

Aquém de tudo isto, a iniciativa mais importante de Pio IV foi cumprir a sua principal promessa: encerrar o já arrastado Concílio de Trento – marco da Contra-Deforma. Convém salientar que este era um mundo convulsionado. Os calvinistas huguenotes pululavam pela França. Era necessário, o quanto antes, dar um desfecho ao Concílio.

O único obstáculo eram os ânimos acirrados entre Felipe II e o imperador Fernando I do Sacro Império Romano-Germânico. Felipe queria chutar o balde de vez com os protestantes, enquanto Fernando tinha esperança de uma reconciliação - afinal, era ele quem teria que aturar os filhotes de Lutero a maior parte do tempo.

Mas vamos às datas. Mantendo o controle da situação com maestria, Pio IV – com o auxílio luxuoso do cardeal Morone – conseguiu encerrar o concílio em 4 de dezembro de 1563, em sua 25ª sessão. Em 26 de janeiro do ano seguinte, o papa confirmou as atas e decretos e, por fim em 30 de junho de 1564, foi promulgada a bula Benedictus Deus.

Para dar prosseguimento à difícil missão de pôr a máquina para funcionar, Pio IV criou uma congregação de cardeais que deveriam orientar os trabalhos de implementação das decisões conciliares. Seguindo o exemplo de Paulo IV, determinou que os bispos retornassem as suas dioceses e lá residissem (naquela época era comum que os bispos quase nunca dessem as caras em suas dioceses).

Em 13 de novembro de 1564, ordenou que todo mundo aderisse à “profissão de fé tridentina” (um dos quatro credos oficiais da Igreja Católica, que serve como uma “vacina” contra a heresias protestantes), dando início à compilação de um novo catecismo e à reforma do Missal Romano e do Ofício Divino.

De coração bondoso e temeroso de afastar ainda mais as ovelhas que tinha como missão apascentar, absteve-se de excomungar a Rainha Elisabeth I (que não tinha um coração tão bom assim). Sua grande frustração foi não ter conseguido deter o avanço protestante na França, na Alemanha e na Inglaterra.

Seu antecessor, Paulo IV, havia deixado os cofres da Santa Sé numa penúria de dar dó, por conta de suas celeumas com a Espanha. Isso obrigou Pio IV a tributar pesadamente as terras pontificais, o que gerou um grande movimento de insatisfação popular. Talvez isso tenha motivado o atentado contra a sua vida, do qual ele escapou por pouco, em 1565.

Para alegria dos micareteiros da arte do século XVI, Pio IV reavivou a tradição de gastar rios de dinheiro com artistas, renovou a universidade romana e instalou uma prensa para imprimir cópias da bíblia e de outros textos cristãos (ué, num era us católico ki num querião ki ninguein lesse a bibra?). Com a ajuda de Michelângelo, construiu novos edifícios e igrejas, como a Porta Pia e a Igreja de Santa Maria degli Angeli que, ironicamente, fica dentro do complexo de casas de banhos públicos de Diocleciano (um dos piores perseguidores do povo de Cristo, lembram dele?).

Esse foi um grande papa, um homem empreendedor, gentil, determinado e justo. Um papa necessário para tempos muito, muito difíceis na História da Igreja. E ele fez isso tudo que aqui narramos sofrendo de dores terríveis, por conta de crises de gota crônicas. Faleceu no dia 9 de dezembro de 1565. Foi sepultado na Basílica de São Pedro, mas, em janeiro de 1583, seu corpo foi exumando e sepultado novamente na igreja de Santa Maria degli Angeli, onde um dia existiram as Termas de Diocleciano.

Isso sim que é fina ironia. Que Deus o guarde.

Fontes:

McBRien, Richard C.. Os Papas: Os Pontífices de São Pedro a João Paulo II. Ed. Loyola, 2004.

Bellitto, Christopher M. 21 Concílios da Igreja: de Nicéia ao Vaticano II. Ed. Loyola, 2010.

Quarta, 09 Novembro 2016 22:22

Pio IV - Um papa virtuoso, mas pouco popular

pio_iv

Gian de Médici era o nome de batismo de Pio IV. Ele não era parente direto dos Médicis de Florença; era de um ramo pobre da família. Curiosamente, este papa nasceu na Páscoa, foi eleito no Natal e foi coroado no Dia de Reis (seis de janeiro de 1560).

Pio IV foi um alívio humano na coleira apertada até o limite do estrangulamento pelo seu predecessor. Ele aliviou muitas das severidades de Paulo IV, em especial, com as seguintes medidas:

  • usou de suavidade para com os suspeitos de heresia;
  • reabilitou cardeais condenados, sem provas, por heresia;
  • reviu o Index de Paulo IV;
  • relaxou os excessos da Inquisição;
  • apertou a mão de Felipe II (o cabra macho de Lepanto, lembram-se?).

Como vemos, Pio IV era um cara legal, e tinha tudo para cair nos braços do povo. Mas não foi isso que aconteceu...

Vamos explicar o porquê. Com relação à questão financeira, pra variar, o papado estava quebrado. O papa anterior destruíra as finanças dos Estados Pontifícios com sua insana querela com Felipe II. Isto forçou Pio IV a pesar a mão nos impostos em terras pontifícias, o que provocou descontentamento geral. A rapaziada tentou, literalmente, matar o Papa.

Seu sangue Médici falou alto quando retomou o hábito dos papas serem mecenas de grandes artistas. Michelangelo, aquele mesmo, agradeceu, já que Paulo IV havia deixado esses chupins à míngua. Entre seus principais legados à arquitetura romana, cito a Porta Pia e partes da cúpula da Basílica de São Pedro.

CORTANDO AS ASINHAS DO CARAFA

Foi o sobrinho de Paulo IV, o Cardeal Carlo Carafa, quem organizou um grupo de cardeais que elegeu Pio IV. Era a Véspera de Natal de 1559. Carafa era um sujeito de péssima fama: na juventude fora bandoleiro e bandido, e quando maduro se mostrou cruel e sedento de poder.

Carafa se achava intocável. Mas não era bem assim... Pio IV, ao tomar ciência dos seus desmandos e os do seu irmão Giovanni, duque de Palino, os pôs a ferros e mandou julgá-los. Ambos receberam a pena de execução por assassinato, roubo e outras patifarias.

Essa sentença foi posteriormente declarada injusta pelo papa São Pio V.

UM SANTO À FRENTE DA INQUISIÇÃO

Pio IV nomeou para o tribunal da Inquisição o cardeal-arcebispo de Milão, seu sobrinho. O novo manda-chuva da Inquisição era umas das mentes mais afiadas e perspicazes de toda a Renascença, um homem justo e bom, que se tornaria o patrono dos catequistas, e que entrou para história como São Carlos Borromeo (já falamos sobre ele aqui). Estava bem de sobrinho ou não, esse papitcho?

O CONCÍLIO DE TRENTO

Depois de um hiato de dez anos, foi Pio IV quem vez a reconvocação do Concílio de Trento – a principal reivindicação do conclave que o elegeu.

Antes disso, havia dúvidas no ar: deveria ser convocado um novo concílio, e dar Trento por encerrado - como era o desejo do Imperador Fernando I do Sacro Império Romano-Germânico - ou continuar os trabalhos iniciados em Trento - como queria o Rei da Espanha, Fernando II?

Pio IV soube lidar muito bem com a situação: promulgou uma bula convocatória em 29 de novembro de 1560, chamada Ad Ecclesiam Regimen. Contando com o auxílio do Cardeal Morone, Pio IV habilmente conseguiu levar a termo o Concílio de Trento após 25 sessões, confirmando seus Decretos em 4 de dezembro de 1563, consolidados na bula Benedictus Deus em 30 de junho de 1564.

Agora faltava pôr as determinações do Concílio em prática. O papa criou uma congregação de cardeais para supervisionar esse trabalhão. Despachou os bispos conciliares para casa e ordenou que eles lá residissem (naquele tempo, era comum o "absenteísmo", ou seja, muitos bispos "turistas" viviam fora do território de suas dioceses, e assim os fiéis ficavam às moscas). Ainda em 1564, publicou o novo Index dos livros proibidos, deu início à compilação de um novo catecismo da Igreja Católica e reformou o Missal e o Ofício Divino.

Na luta contra a expansão protestante em terras antes católicas, Pio IV afrouxou as rédeas, na esperança de reconciliação com os separados - principalmente com os nichos francês, inglês e alemão da Deforma Protestante. Absteve-se de excomungar a rainha Elisabeth I, da Inglaterra.

Um de seus mais importantes legados para a Igreja foi a Profissão de Fé Tridentina, que é um dos quatro credos oficiais da Igreja Católica (junto com o Credo dos Apóstolos, de Nicéia e de Atanásio). Esse credo, que hoje raramente é utilizado, serve como antídoto para afastar os católicos das heresias protestantes.

Podemos dizer que Pio IV mais acertou que errou, e foi um bom papa. Sofria de gota e faleceu em 9 de dezembro de 1565, cercado em seu leito de morte por São Filipe Néri e por São Carlos Borromeo. Seu corpo foi sepultado na Basílica de São Pedro e, em 1583, seus restos mortais foram transladados para a Igreja de Santa Maria degli Angeli, construída por ele.

Em breve tem mais minha gente!

Fontes:

Ludwig, Freiherr von Pastor. History Of Popes. Kegan Paul, Trench, Trubner & Co. Ltd.  1932.

Ranke, Leopold von. The History of the Popes during the Last Four Centuries (Vol. I). G. Bell and Sons, LTD., 1913.

Johnson, Paul. La Historia Del Cristianismo. Ed. Zeta, 2010.

McBrien, Richard P.. Os Papas - Os Pontífices de São Pedro a João Paulo II. Edições Loyola, 2004.

Giovanni Pietro Carafa era um homem de nascimento nobre. Sua genealogia inclui casas nobres italianas, reis, duques, marqueses. Sua eleição, politicamente, deu-se pela necessidade de um consenso, pois o Conclave estava dividido entre franceses e imperiais, o que deixou o Imperador, obviamente, insatisfeito. Adotou o nome de Paulo em homenagem a Paulo III, que o nomeara cardeal.

Paulo IV tinha 79 anos quando subiu ao trono de Pedro. Se nos nossos tempos Bento XVI, eleito já idoso, foi chamado pela imprensa de “Papa de transição”, imagina como se considerava um papa desta idade nos idos de 1555! Vai ver por isso mesmo que o velhinho, ao contrário do seu predecessor (Marcelo II, que tinha 55 anos), fez questão de dar uma festa de arromba para celebrar sua coroação, em 26 de maio de 1555.

festa_arromba

INDEX E REAÇÃO AO PROTESTANTISMO

Muitos biógrafos, incluindo McBrien, tratam Paulo IV como um grande e cruel conservador antissemita. McBrien, embora seja uma excelente fonte, é um sujeito meio comuna. A imagem de Paulo IV está irremediavelmente ligada à Santa Inquisição – e à criação do Index de livros proibidos, prato cheio para os progressistas e comunistas de plantão.

Mas também foi Paulo IV que fundou a ordem dos teatinos, clérigos dedicados a uma vida de estrita pobreza e à Reforma Eclesiástica. Como tal ferrabrás, designado como legado papal para a Inglaterra por Leão X, pôde ser assim tão malvado?

Paulo IV foi sim conservador e travou muitas políticas reformistas, mas palavras ditas fora de contexto são perigosas e denigrem em muito a imagem de um homem que não está mais aqui para se defender. Não podemos esquecer que estamos nos anos de florescimento de um protestantismo jovem e muito agressivo, que ainda não havia sido posto no seu devido lugar e que não controlava os próprios impulsos. O Papa foi extremamente reativo, fechou-se a qualquer aproximação com os luteranos e sim, intensificou a Inquisição – o Index é prova disso.

A lista de livros proibidos por Paulo IV evitou que muitas almas pouco fortalecidas fossem envenenadas por heresias, e assim se precipitassem no Inferno? É bem possível. Mas os estragos também foram grandes. Para São Pedro Canísio, o Index nada mais era do que uma "pedra de escândalo". As críticas do cardeal Ghislieri - que seria o próximo papa - não foram menos duras, classificando o Index como ridículo.

Como diria Alicia Keys: THIS BOOK IS ON FIRE!!!

livro_fogo

O rigor e zelo de Paulo IV para defender a fidelidade à fé talvez, tenha mesmo descambado para uma "neurose de ortodoxia" - como aponta Ludovico Pastor, em sua Historia dos Papas - que o levava a ver heresia em toda a parte.

Falando ainda sobre os aspectos políticos do seu papado, Paulo IV uniu-se aos franceses contra Felipe II, cabra macho que venceu a batalha naval mais importante da Idade Moderna, Lepanto, já narrada por nós aqui. Óbvio que ter tal homem como inimigo nunca poderia ser uma boa ideia! O Papa perdeu a peleja.

Outro fato importante foi opor-se a Paz de Augsburgo, que reconhecia a coexistência de católicos e protestantes nas terras do Sacro Império Romano-Germânico. Por fim, foi inábil ao lidar com a questão inglesa: foi durante seu reinado que a rainha Elisabeth I deitou e rolou, consolidando o anglicanismo na Grande Ilha.

Se Paulo IV pecou no que diz respeito ao trato com os protestantes, foi por excesso de zelo apostólico. A principal motivação dele para a confecção do primeiro Index nada mais foi do que eliminar os livros que, a seu ver, ajudariam os protestantes a espalhar suas falsas doutrinas.

ANTISSEMITISMO

Seu antissemitismo deve-se ao fato que este Papa foi um dos primeiros a obrigar os judeus a usar aqueles chapéus pontudos ridículos (imagem abaixo) para diferenciá-los dos cristãos, proibiu-os de exercer diversas profissões e atividades comerciais e confinou-os em guetos. Assim, a partir da bula Cum numis absurdum, cessaram os direitos e liberdades antes garantidos aos judeus pelo Papa Gregório Magno, no século VI.

chapeu_judeu

Essas medidas foram duramente aplicadas em Roma e no restante da Itália, mas foram quase que completamente ignoradas no restante da Europa (segundo o Centro Online de Estudos Judaicos).

Mas o que a maioria dos historiadores gosta de omitir é que Paulo IV assim procedeu porque acreditava que a comunidade judaica estava apoiando os protestantes. Para atingir um inimigo que tirava seu sono, tomou medidas contra outrem.

Se os judeus auxiliavam os protestantes ou não dentro dos Estados Papais, não temos como afirmar que toda uma comunidade assim procedia. Por outro lado, também não há como negar que é muito provável que um número significativo desta comunidade o fizesse. Só para constar: o Papa não mandou matar nenhum judeu, nem mesmo usou aquela estratégia que alguns utilizavam, para lavar as mãos do sangue, de "entregar ao braço secular".

Paulo IV teve sua cota de erros como, por exemplo, retornar à prática do nepotismo. Mas também foi zeloso na escolha de cardeais e na exigência do comprometimento dos sacerdotes em suas dioceses, punindo com prisão aos padres que gostassem de tirar muitas férias por ano.

Os italianos não foram receptivos à severidade de Paulo IV. Uma amostra dessa hostilidade se deu quando ele faleceu, em 18 de agosto de 1559: os black blocs da pizzaria destruíram a sede do Santo Ofício e libertaram os prisioneiros da Inquisição.

Fontes:

Ludwig, Freiherr von Pastor. History Of Popes. Kegan Paul, Trench, Trubner & Co. Ltd. 1932.

Ranke, Leopold von. The History of the Popes during the Last Four Centuries (Vol. I). G. Bell and Sons, LTD., 1913.

Johnson, Paul. La Historia Del Cristianismo. Ed. Zeta, 2010.

McBrien, Richard P.. Os Papas - Os Pontífices de São Pedro a João Paulo II. Edições Loyola, 2004.

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