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Terça, 13 Setembro 2016 01:43

Como a Igreja Católica acabou com o sistema escravista na Europa

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Por milhares de anos, a escravidão foi parte essencial da Europa pagã. Os povos de Roma e Grécia Antigas entendiam que a existência de escravos era uma necessidade natural da sociedade. Até o dia em que começou a soprar a brisa de uma revolução suave, mas implacável, chamada Fé Cristã.

Eis o milagre: mesmo sem bater de frente com as leis e o poder público – afinal, a atitude de revoltadinho baderneiro bléqui-blóqui nada tem a ver com o espírito do Evangelho –, o cristianismo varreu a escravidão de um continente inteiro. Foi um processo de vitórias graduais e sucessivas, que levou séculos para se consolidar. Só na maciota, só no sapatinho!

O pensamento que sustentava o sistema escravista na Antiguidade Clássica era o de que o escravo era um ser inferior. Confira os escritos de alguns dos mais importantes autores pagãos:

  • Homero diz, na Odisseia (17): "Júpiter subtraiu aos escravos metade da mente";
  • Platão: "Diz-se que no ânimo dos escravos não existe nada de sadio e íntegro, e que um homem prudente não deve se fiar nessa casta de criaturas, coisa que atesta o mais sábio dos nossos poetas" (Diál. 6, Das Leis);
  • Aristóteles, na sua obra Política: "Assim não se pode duvidar que há alguns homens nascidos para a liberdade, enquanto há outros nascidos para a escravidão...".

Em vez de fazer oposição frontal ao sistema escravista – o que geraria guerra e caos –, a Igreja atacou as bases desse mal. Assim, promoveu a corrosão incansável e contínua da cultura de coisificação do escravo.

A Igreja não deflagrou nenhum movimento de desobediência direta às leis escravistas. Simplesmente se aplicou em difundir a doutrina de que em Cristo, todos são irmãos, e que Deus não faz acepção de pessoas. À medida que essa mentalidade ganhava espaço na civilização, a escravidão ia se tornando um vexame inaceitável.

Pontuamos, a seguir, algumas das medidas que fizeram parte da ação educadora da Igreja contra a escravidão, no período que precedeu a Idade Média (isso a Tia Teteca da escolinha e o fessô da facul não vão ensinar pra você!).

  • No Concílio de Age, em 506, ficou definido que a Igreja, quando necessário, deveria defender as pessoas alforriadas, que muitas vezes sofriam a ameaça de voltar à condição de escravos.
  • O Concilio de Epaona, ano 517, determinou que quem matasse seu escravo seria excomungado por dois anos.
  • No Concílio de Orleans, em 549, foi estabelecido que um se um escravo que cometesse alguma falta e se refugiasse em uma igreja, seria devolvido ao seu amo somente se este jurasse não lhe impor castigo físico. Se o juramento fosse quebrado, o amo perjuro seria excomungado.
  • O Concilio de Lyon, ano 566, previa excomunhão a quem capturasse pessoas livres para escravizá-las.
  • No Concílio de Mâcon, em 585, estabeleceu-se que os sacerdotes deveriam resgatar os cativos, usando os bens da Igreja (compra de alforrias).
  • No Concílio de Roma, em 597, o Papa São Gregório garantiu liberdade aos escravos que quisessem ser monges, desde que fosse constatada a autenticidade da vocação.
  • O Concilio de Reims, ocorrido no ano 625, previa pena de suspensão das funções ao bispo que vendesse os vasos sagrados (objetos usados na liturgia), mas fazia a ressalva: "...a não ser que pelo motivo de redimir cativos". Ou seja, a não ser que a venda tivesse o fim de obter dinheiro para pagar alforrias.

Segundo Hilaire Belloc (em seu livro El Estado Servil), no início do século IX a escravidão estava praticamente extinta na Europa cristã. O servo tinha acesso aos meios de produção, e, depois de pagar tributo ao senhor, podia negociar a produção excedente. Além disso, estava ligado à terra, não podendo jamais ser negociado como mercadoria.

Porém, mesmo no início da Idade Média, os mercadores de escravos persistiam com sua atividade perversa, em algumas localidades. E a Igreja não descansou em seu trabalho. No Concílio de Armagh (Irlanda, ano 1171), os bispos determinaram que todos os escravos ingleses deveriam ser libertos. A Igreja local apontou como causa de determinada calamidade pública o tráfico de escravos realizado pelos irlandeses, o qual teria atraído o castigo divino.

Na Europa oriental, porém, a relação servil foi degradada. Cismática, rebelada contra o Papa, a Igreja Ortodoxa perdeu muito de sua capacidade de irradiar os valores do Evangelho para as relações sócio-econômicas. Na Rússia, por exemplo, apesar de serem chamados de “servos”, os camponeses eram, na prática, escravos. Famílias eram separadas pela venda de “servos” a outros senhores, e as torturas e abusos eram rotineiros (sobre isso, veja o livro Catarina, A Grande: Retrato de uma mulher, de Robert K. Massie).

A História da Igreja nos mostra que, para construir uma sociedade mais justa, não precisamos nos agarrar a ideologias – que muitas vezes são recheadas de valores anticristãos. A nós, basta buscar a nossa santificação pessoal, pregar o Evangelho e servir com amor os mais sofridos.

*****

Para estudar mais a fundo esse tema, recomendamos o livro A Igreja Católica em face da escravidão, de Jaime Balmes.

 

3986 Terça, 18 Abril 2017 15:26

Comentários   

0 # Paulo 18-09-2016 13:20
Os maiores escravagistas da historia e que querem continuar na prática dessa delinquencia são os perversos comunistas, e na maior cara dura, o PT queria implantar isso aqui. Cuba é o modelo desse tipo de escravidão e a Venezuela se não por fora o Maduro será igual a Cuba e essa com seus médicos aqui presos e só como 20% do salario, dá pra se ter ideia de que laia são!
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+1 # Victor Viana 15-09-2016 00:06
O artigo "A Igreja e a escravidão dos negros - cinco passos para detonar um professor mentiroso", de 2012 http://ocatequista.com.br/archives/6379 começou com música. Este também merece um refrão: "Isso cê num conta, isso cê num conta...!!
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0 # tasiano 18-04-2017 21:17
Tmbem tem aquela outra musica. "Pega na mentira, pega na mentira."
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0 # Julio Cesar Dias Chaves 14-09-2016 16:58
Eu sugeriria ainda a leitura do capítulo "A Igreja" no famoso manual sobre a Idade Média escrito pela medievalista francesa Régine Pernoud: "Luz sobre a Idade Média". Apesar da tradução não ser das melhores, dá para ter uma boa ideia das transformações sociais geradas pela cristianização da Europa. E uma dessas transformações foi exatamente o quase desaparecimento da escravidão. Outra transformação social interessante foi a do status da mulher, que passou a ser vista em pé de igualdade com o homem, pelo menos no âmbito religioso. Pernoud também fala dessa questão no mesmo capítulo.
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+1 # Fernanda Gomes Alves 14-09-2016 12:26
Catequista, Sei que não tem nada a ver com o assunto, mas gostaria de saber o posicionamento da Igreja com relação ao Projeto de Lei n. 867/2015 da Escola sem Partido. Estou estudando esse Projeto na faculdade e gostaria mais de saber sobre o que a Igreja pensa para que eu possa me posicionar.
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+3 # Patrick 14-09-2016 12:42
Fernanda, Só o fato do projeto estar sendo atacado por esquerdistas e marxistas demonstra que é bom. O projeto, como a maioria, tem brechas que podem ser exploradas por estes próprios professores inescrupulosos (leia-se doutrinadores esquerdistas). Mas algo importante o projeto já conseguiu. Mesmo com a mídia distorcendo e mentindo sobre o projeto, ele já jogou luz no problema, e muitas pessoas que sequer imaginavam que existia doutrinação ideológica ― e existe em praticamente todas as escolas e universidades do Brasil ― passou a enxergar esta realidade. Mas somado ao projeto, e independente de ser aprovado, cabe a nós não aceitarmos mais esta doutrinação, que causa a destruição intelectual, da fé, da cultura, do país... e acionarmos este tipo de professor na justiça. Já há casos reportados, inclusive pelo Escola Sem Partido, de pais sendo indenizados devido a doutrinação ideológica que seus filhos sofreram na escola. É uma guerra cultural, onde um lado domina praticamente tudo, e age de forma desonesta, usando a posição superior para impor a ideologia, e também age de forma criminosa pervertendo nossas crianças. Nós, dou outro lado mais "fraco" ― não temos as cátedras nem a mídia, mas temos Deus do nosso lado ― não podemos ser coniventes. O Padre Paulo Ricardo aborda bastante o assunto, vale a pena conferir. Católicos, lutemos! Paz e Bem!
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0 # Fernanda Gomes Alves 15-09-2016 18:35
Já imaginava que o posicionamento da Igreja seria essa a partir do momento em que meu professor disse ser da corrente da Teologia da Libertação e ir contra esse Projeto de Lei.
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0 # Patrick 16-09-2016 18:28
A TL é complicada, pois é um movimento multifacetado. É bom estudar a TL (já fiz isso, e pretendo me aprofundar) pois é lisa, fácil de cairmos nela. Mas se ele já se assumiu TL ― o que nem sempre acontece ― melhor para você. É só não dar muita atenção, e seguir pela porta estreita, o caminho da TL certamente não é o do Evangelho. Aproveito e deixo uma pergunta para os Catequistas ou outros: Minhas fontes a respeito da TL são aqui O Catequista, Pe. Paulo Ricardo, Prof. Felipe Aquino, algo que encontrei de Dom Estêvão Bettencourt e nos sites O Fiel Católico e Veritatis Splendor. Onde teríamos algo para nos aprofundarmos nos erros, perigos etc. desta heresia que insiste em "ressuscitar"? Paz e Bem!
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+2 # A Catequista 14-09-2016 11:44
O leitor Gustavo nos perguntou, no FB: O Catequista, por que então a escravidão voltou com tanta força na idade moderna? O que a Igreja fez para combatê-la? RESPOSTA: Voltou porque a África era amplamente descristianizada, e por isso tratar o mais fraco como coisa, por lá, era algo comum. Assim, dentro das próprias tribos, negros escravizavam negros. Além dos negros, os árabes muçulmanos faziam expedições de captura de negros e os vendiam tanto para muçulmanos ricos da África quanto para traficantes europeus, que os levavam para as Américas. Um dos maiores "clientes" dos traficantes de escravos africanos era a Inglaterra, que era anglicana, não católica. Quanto a Portugal e Espanha, a Igreja Católica não mandava na coroa portuguesa, muito menos na espanhola, como muitos pensam. Assim, não teve forças para frear o tráfico negreiro para as Américas, pois a raiz do problema - a captura de pessoas livres na África - estava bem longe do alcance de sua influência. Uma coisa é certa: a Igreja teve grande sucesso em atrapalhar os bandeirantes na captura e tráfico de índios. Como esse tipo de comércio ainda não estava consolidado, a Igreja pôde, então, ter mais oportunidades de fazer valer suas condenações morais e sua força contra as injustiças.
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+1 # Geraldo 17-09-2016 10:47
Eu gostaria de dar um pequeno pitaco aqui (e me parece que há posts do blog trazendo essas informações): Apesar de certa conformidade com a cultura dominante (cada vez mais paganizada após a Renascença, e isso é também um dos motivos da volta da escravidão) que fazia com que até padres tivessem seus escravos, o papel da igreja na abolição da escravatura foi muito significativo. Foram várias bulas condenatórias dos papas, chamando o crime do tráfico e da escravidão humana pelo seu nome: infame comércio. A atuação da Princesa Isabel (muito católica) foi secundada e urgida pelo Papa Leão XIII (e ela fez muito mais que apenas assinar, "pressionada", a lei Áurea - como ensinam nas escolas - pois sempre teve uma atuação decidida, não só pela abolição, mas também lutou - em vão - pela indenização e integração sócio-econômica dos ex-escravos. E os cristãos protestantes, lutaram muito nos EUA, para pressionar pelo fim da escravidão por lá.
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0 # Geraldo 17-09-2016 11:44
Ah e gostei muito desta contextualização que você fez acerca da escravização indígena e do maior poder (bem usado) de influência e ação da igreja nesse caso do que no caso da escravidão negra. O que só reforça a reflexão (informação) do post: a igreja atua sobretudo pela persuasão, do testemunho vivido e da palavra. Ainda que nos interesse muito o bem que possa ser feito por via política, não temos ilusões quanto a isso. Sabemos que o mundo novo, sem opressões e maldades, o céu, é puro dom de Deus e intervenção do seu poder. Paradoxalmente, contudo, as pessoas - em nossa história - que mais andaram com a cabeça e o coração no céu (vide um Dom Bosco, um Dom Orione e tantos outros) foram as que mais plantaram o bem na terra, que mais deixaram frutos duradouros que mudaram a face da terra, sem ilusões utopistas. Foi só assim - através desse "ópio" do povo - que o mundo viu desabrochar algum bem duradouro. O resto é - como disse Santo Hermano ao compor a Salve Rainha - gemer e chorar, neste Vale de Lágrimas. A gente só consegue enxergar isso - sem escrúpulos politicamente corretos de estarmos sendo etnocêntricos - quando encaramos um fato óbvio: a condição humana é sofrimento e pobreza. Até pouco tempo atrás, não tínhamos um décimo do conforto e da segurança que temos hoje. E isso nos dá a sensação da redoma de vidro aconchegante (isso sim é o "ópio") e contamina o nosso julgamento acerca do passado, da história, da maior parte da história humana, que é feita de sofrimento e algum ou outro alívio. É preciso encarar isso de frente, para avaliar o imenso bem que a presença de Cristo trouxe ao mundo. Mas o que fazemos é tomar como parâmetro de leitura da história toda, a "estabilidade" que parecemos ter hoje, a consciência acerca dos Direitos Humanos, a relativa durabilidade dos regimes democráticos e outras conquistas que diminuem nossa percepção da precariedade da condição humana. Percepção que, no entanto, devia estar sempre presente, em vez da ilusão de hipossuficiência que tanto nutrimos (de vez em quando, no meio desse sono gostoso, tomamos um ou outro susto enorme, pois aparecem coisas como o Nazismo, o Comunismo, o regime de Sadan Hussein ou de Chaves na Venezuela, o Petrolão, etc., a nos lembrar de como é frágil a condição humana, de como ela é facilmente sujeita à degradação e corrupção e de como somos pó e barro e, portanto, de quanto precisamos do nosso Criador que nos enviou o Cristo). Aí tudo aquilo que, no passado, contrasta com a "estabilidade" que julgamos ter no presente, recebe a nossa mais pronta repugnância. Acontece que nada é seguro e estável nessa terra. Nada segue um progresso linear e crescente. A história é feita de altos e baixos. Como pode, por exemplo, em plena época moderna, acontecer um regresso à barbárie mais cruel, como foi o Nazismo? Toda concepção de um progresso linear, de uma consciência ética cada vez mais depurada com o passar do tempo, cai por terra, diante de um troço desse. Essa recente invasão islâmica da Europa, cada vez menos sutil, também é um fator que torna a nos avisar dessa precariedade e instabilidade da condição humana e a nos precaver da ilusão de criar redomas de vidro, paraísos terrestres que prescindam do Criador. Então é preciso ter esse realismo de ver o que é a condição humana , a condição do mundo, na maior parte do tempo, para avaliar e valorizar o que foi a vinda de Jesus neste mundo. Só assim veremos que houve um enxerto de carne saudável e boa no corpo apodrecido do mundo. Mas a perspectiva que os livros escolares de história nos trazem, parecem assumir que a vida aparentemente mais confortável que temos hoje é que seria a normalidade, a coisa constante. Só que essa vida - de aparente maior segurança- é recentíssima e fragilíssima como a Torre de Babel, tudo é muito precário e pode ir por água abaixo com a maior facilidade (lembro novamente o terrorismo islâmico que apavora a Europa, atualmente). Assumindo que a vida é o que ela é, podemos valorizar o que significou a vinda de Jesus Cristo e seus muitos desdobramentos históricos. A defesa dos índios, dos escravos (por mais contradições que isso possa comportar vistas as coisas da altura histórica em que nos encontramos hoje) a dignidade da mulher, a condição da criança, a assistência aos doentes e idosos, isso tudo teria tido um destino mil vezes pior, se Cristo não tivesse pisado esta nossa terra e deixado um povo de seguidores que continuou sua presença pela história afora.
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0 # Emanuel 13-09-2016 21:52
Caramba! Ta ai uma informação extremamente interessante da qual nunca tinha ouvido falar. Que puxa! E depois tem gente que diz que a Igreja era escravista. Pena que essas belas passagens da Historia da Igreja sejam tao ignoradas e desconhecidas no mundo inteiro.
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0 # Geraldo 13-09-2016 17:12
Caramba,este post ficou excelente! Gostei muito! E chegaremos a informações similares se formos investigar outras situações como a dignidade da mulher, os direitos do trabalho, o tratamento dado aos enfermos e idosos, aos réus, aos prisioneiros, etc. E inclusive a própria abolição da escravatura moderna (negra) tem muitíssimo mais a ver com a atuação e organização dos cristãos, do que com a necessidade de expansão comercial da Inglaterra (como nos ensinaram na escola). E , novamente, foram os países de cultura cristã, os primeiros a abolir a escravidão negra, que continuou a existir até muito tempo depois noutros países, inclusive da própria África. Em todas essas situações é notável o contraste entre o que havia antes e o que começou a mudar por causa da luz de Cristo. Por causa dessa luz temos hoje uma consciência muito maior acerca da dignidade humana, mas nos comportamos e discursamos (e esse comportamento e discurso são frutos de uma bem planejada propaganda) como se os valores que apreciamos hoje, tivessem vindo de repente, como num click mágico, da Revolução Francesa e do iluminismo e outros ismos. E o pior: como se esses valores que prezamos hoje, tivessem surgido em oposição à cultura cristã e não como resultado de sua influência. Isso é pisar no dom de Deus, fazer pouco caso da obra de Cristo na história, da sementinha de mostarda que foi virando a árvore frondosa, do punhadinho de fermento que foi penetrando na massa. É claro que devemos também assumir com humildade serena, as traições ao Evangelho que também aconteceram em nossa história, mas isso já tem sido tão explorado " ad nauseam" (e até tão aumentado e distorcido) que a necessidade maior, hoje, é seguir o exemplo de Nossa Senhora: "O Senhor fez em nós maravilhas (...) Olhou para a nossa indignidade..." Devemos constatar tudo isso, esse andar e agir de Deus no nosso meio, não para sair por aí de nariz empinado, esnobando os outros. Muito pelo contrário, é com temor, tremor e estupor maravilhado que nos damos conta do mistério dessa graça imerecida. Ela não vem de mérito nosso e é presente e tesouro para toda a humanidade, tesouro que o Senhor permitiu que carregássemos nos pobres vasos de barro que somos. Não podemos ser como aquele Moisés que pelo poder de Deus, fez brotar a água fresca da rocha no deserto (em Massa e Meriba) ao toca-la com seu cajado, e depois ficou se vangloriando como se o milagre fosse mérito dele. Por isso ele não viu a terra prometida. Não foi para isso, pois, que Cristo disse "Edificarei a MINHA igreja", para sermos uns metidos à besta, cheios de vanglória. A nossa atitude é a da gratidão alegre e humilde, que coloca Deus e seu Cristo, no centro de tudo: Como sois grande Senhor e quão maravilhosas são as tuas obras, não obstante o barro que somos. E o post toca num ponto tremendamente importante, que da altura histórica em que nos encontramos agora, já podemos avaliar com muito mais lucidez. Após anos de mentalidade ideológica e revolucionária fermentando a cultura moderna, criou-se em nosso mundo um lugar comum: melhorar o mundo, trabalhar por uma sociedade melhor e mais justa, transformar as estruturas, etc, costuma ser o mote, repetido à exaustão. Mas o post deixa muito claro, qual é a mudança estrutural mais eficaz, porque duradoura, porque profundamente enraizada . A mudança cultural, que atravessa gerações e atua como água mole em pedra dura. Toda pretensa mudança estrutural das sociedades humanas, por via revolucionária, gerou mil vezes mais injustiças, misérias, dominação, autoritarismo, mortes violentas, fome e opressão, do que havia antes. E quem se deu conta, e chegou a teorizar que a mudança que passa pela dinâmica cultural é mais eficaz, foi o próprio Marx tardio. O mesmo homem que inspirou tantas revoluções sangrentas e abruptas pelo mundo afora (todas redondamente fracassadas), já no fim dos seus dias, começou a relativizar sua velha ideia de que são as condições econômicas (infra-estrutura) que geram valores e crenças, cultura pois (superestrutura), e passou a defender que sem esse enraizamento profundo que a cultura produz, nada acontece. É claro que, mesmo chegando à essa evidência óbvia, ele e seus seguidores continuaram dando com os burros nágua. Primeiro, por causa do utopismo que crê no paraíso terrestre feito por nossas mãos. Segundo, porque esse sonho de paraíso terrestre se reputava muito justo, mas já no plano, na planta (na proposição teórica, interpretativa) estava eivado de injustiças chamando de ladrão a quem não o era e propondo o roubo e a apropriação do alheio, como caminho para corrigir supostas injustiças. E terceiro (e aqui estava e está o erro fatal), porque - supondo-se que alguém desse meio marxista estivesse sinceramente bem intencionado, interessado apenas em que houvesse mais justiça e fraternidade no mundo - se pretendia alcançar o tal mundo melhor, justamente destruindo as raízes, as melhores raízes capazes de gerar algum bem no mundo, as raízes da cultura judaico-cristã. E sob a falsa alegação de que eram tais raízes que geravam a opressão no mundo, quando na verdade, efetiva e historicamente, elas foram as únicas que, estruturalmente, em longo prazo, garantiram a diminuição das opressões e injustiças, exatamente segundo o processo cultural tão bem descrito no post: água mole em pedra dura. Não que a igreja despreze a dimensão das leis, da luta política (basta ver nosso empenho em garantir leis que protejam a criança no ventre materno, a dignidade do matrimônio, os direitos da família, dos mais desprotegidos, etc.), pois até o papa Pio XI disse que depois da evangelização, a política é a maior forma de caridade, já que beneficia a muitos de uma só vez, quando bem conduzida. Mas a sua especialidade é a criação de cultura. O marxismo atual, ao impor a sutil Tirania do Politicamente Correto (nem sempre tão sutil assim, pois às vezes baixa o velho Stalin em seus títeres, desmascarando o seu autoritarismo de fundo), tenta nos imitar nisso e até se infiltra em nosso meio, macaqueando a linguagem religiosa (por meio da Teologia da Libertação, ao menos em suas vertentes mais sacanas). Mas nunca conseguirá, pois a cultura fermentada pelo Evangelho de Jesus, surgiu e continua a surgir de algo que pede um novo nascimento que seria um escândalo e um rebaixamento humilhante para qualquer ideólogo e revolucionário. O Senhor foi muito claro: "sem mim, NADA podeis fazer!" A proposição que o Deus feito homem lança ao mundo é de tal sorte absoluta e escandalosa - "sou O CAMINHO, A VERDADE e A VIDA" - que não permite políticas e diplomáticas relativizações. - “Se alguém me ama, obedecerá à minha Palavra; e meu Pai o amará, e nós viremos até ele e faremos nele morada". É só assim que o mundo, os seres humanos, podem se religar à sua origem, à sua fonte mais profunda. E é esta simplicidade de atitude - voltar-se para Deus, para a fonte que nos criou e está criando e sustentando neste exato momento - que o ideólogo e o revolucionário , não são capazes de tomar. Lhes é vergonhosamente escandaloso e humilhante, renunciar à pretensão de construir a Torre de Babel com as próprias mãos, prescindindo do criador. É muito difícil para um moralista, um pelagiano, como Karl Rahner, como um desses teólogos da libertação, aceitar que não é nossa retidão de comportamento que nos salva e muda o mundo (se é que ele tem que ser mudado, a priori). Quem são os cristãos? São pobres pecadores em cuja mesa o senhor se dignou sentar lhes fazendo companhia, apesar da sua indignidade. São aqueles a quem (mesmo humilhados com a vergonha do pecado)o Senhor dirige a palavra e o olhar para perguntar apenas o essencial: "Simão, filho de Jonas, tu me amas realmente, mais que todos os outros?" É nisso que repousa a esperança de todo bem possível neste mundo, amar a raiz do nosso ser, aceitar humildemente sua companhia ao nosso lado. Em outras palavras renunciar à Torre de Babel, à pretensão da construção de um utópico paraíso terrestre e simplesmente aceitar com simplicidade a companhia de um amigo: "Marta, Marta, você se preocupa e se aflige com tantas coisas, quando uma só é necessária. Tua irmã Maria escolheu a melhor parte! (Lc 10:41) "Mas isso é alienante, é ópio do povo!", dirão muitos, sem conseguir dar esse passo tão simples: se deixar amar. Numa das suas últimas entrevistas ao programa Roda Viva, Leonardo Boff se mostrava chocado (e relatava isso com desdém) ante a vontade manifestada por seu irmão (Clodovis) de entrar para o claustro. Os primeiros seguidores do Senhor não queriam mudar nada no mundo, corrigir qualquer injustiça social. São Paulo nem mesmo intercedeu pela alforria de Santo Onésimo, na carta que mandou ao seu amo Filemon. Mas naquela carta (um dos mais belos livros da bíblia e de toda a história humana) ele disse algo essencial, algo que não repousava na indignação ética e nem na consciência política. Lembrou a quem ele e Filemon pertenciam, a quem Onésimo também passara a pertencer há pouco: todos três eram um só em Cristo Jesus. E por isso São Paulo pôde dizer: "Ele (o escravo Onésimo) é como o meu próprio coração!" O post mostra como essa atitude de São Paulo junto a Filêmon foi gerando cultura, foi sendo um fermento na massa do mundo, até mudar tanta coisa. E no entanto, não pretendia mudar coisa alguma, naquela carta o que Paulo pedia era tão somente isso: acolher o dom de Deus, não perder a memória da graça recebida! "Mas então para mudar o mundo, todos tem se tornar cristãos e católicos? Aderir a um determinado credo? " essa seria a objeção mais escandalizada, certamente. Primeiro, nós, como o apóstolo e a primeira geração cristã, não temos qualquer pretensão de mudar o mundo. Simplesmente queremos fazer o que é certo e justo, se isso contribuir para mudar muita coisa (como contribuiu) , será apenas consequência do nosso agir coerente e não fruto de uma obsessão revolucionária. Segundo, a pertença estatística à igreja é apenas um dado exterior. O que é mais importante é que a pessoa seja honesta e leal com as necessidades e exigências do próprio coração. E é a própria psicologia humana, sob qualquer ângulo que se investigue, que nos diz que a maior necessidade do ser humano é a de ser amado. Nós cristãos não estamos interessados em entrar numa competição interpretativa com o mundo, para provar que nosso caminho é a melhor solução para os problemas do mundo. Mas estamos convencidos de que Aquele que nos encontrou e amou (e a quem pertencemos mediante o batismo) é a resposta para as nossas necessidades humanas mais profundas e cremos que o nosso coração é como o de todos os outros, pede a mesma coisa. O que fazemos é simplesmente narrar despretensiosamente, com humilde e alegre gratidão, a nossa história de povo e de pessoa pecadora, a quem o Senhor quis amar e agraciar com sua presença. Essa presença, se somos sinceramente amigos de Cristo, salta aos olhos em nosso próprio modo de ser e de agir. E essa atitude tão simples, sem pretender mudar nada, mudou tanta coisa no mundo.
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0 # Everton 13-09-2016 15:38
Sem querer abusar, mas este produto vendido aqui no Brasil, seria similar ao persona? http://www.comprafari.com/monitor-digital-para-teste-de-fertilidade-clearblue-easy/
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0 # Everton 13-09-2016 15:34
Muito obrigado!
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0 # Everton 13-09-2016 11:19
Ola Srª Catequista. Eu gostaria de lhe perguntar uma coisa que na realidade não tem nada a ver com esse seu último post. Seria referente ao monitor digital de fertilidade, que você menciona nesse post: http://ocatequista.com.br/archives/17177 Andei pesquisando sobre o aparelho e não achei muita informação. Perguntei a alguns instrutores do método Billings e esses também nunca ouviram falar a respeito. Caso você tenha alguma informação que possa me ajudar, ficarei muito grato. Estou precisando muito! Deus lhe abençoe desde já.
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0 # A Catequista 13-09-2016 12:12
Oi, Everton! O monitor Persona mede a fertilidade da mulher da seguinte forma: ela urina no stick (um papelote), coloca o stick no aparelho, aguarda uns minutos até acender a luz verde (infértil) ou vermelha (fértil). Em média, utiliza-se 8 sticks por mês. É vendido somente na Itália e Reino Unido, até onde sei. Para comprá-lo, é preciso pedir pra alguém que for pra lá comprar. Acho que pelo site não dá par comprar o aparelho (não tenho certeza). Já os sticks são vendidos para o exterior, pelo site da Amazon.it; o comprador só paga o imposto no Correios quando eles chegam. https://www.amazon.it/s/ref=nb_sb_ss_i_6_7/280-1977812-2416959?__mk_it_IT=%C3%85M%C3%85Z%C3%95%C3%91&url=search-alias%3Daps&field-keywords=persona+contraccettivo&sprefix=persona%2Caps%2C458 No começo, o período de abstinência é meio longo, pq o aparelho está conhecendo as suas informações. Com dois ou três ciclos, o período de abstinência fica em mais ou menos 1 semana. Várias amigas minhas usam esse aparelho. Uma delas me disse que, depois de um tempo de uso do Persona, está conseguindo identificar muito bem seu período fértil, mesmo sem consultar o aparelho (descobriu que tem cólicas quando ovula, além de outros sinais). O aparelho não funciona bem para quem está amamentando. Mas, após um tempo de uso, ajudará mesmo as mulheres que estão amamentando a identificar seus dias férteis, pois elas já terão, muito provavelmente, um melhor conhecimento de seu corpo. Deus te abençoe também!
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0 # Everton 13-09-2016 17:42
Muito obrigado!
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0 # Natanael B. 13-09-2016 16:06
Vende no Amazon americano e entrega pro Brasil. https://www.amazon.com/Clearblue-Fertility-Monitor-1-Count/dp/B0000532QB
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0 # Everton 13-09-2016 17:42
Obrigado!!
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0 # João Pedro Strabelli 13-09-2016 09:18
A Igreja Católica foi de mansinho e aos poucos dando um chega pra lá na escravidão. O que será que papa Francisco anda querendo falando manso por aí, especialmente com os que andam aprontando?
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