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Paulo Ricardo

Paulo Ricardo

Terça, 14 Fevereiro 2017 17:18

Papa Pio IV, um vovôzão paz e amor

E aqui vamos nós de novo!

Depois dos anos de “porrada, tiro e bomba”, com a rigidez de Paulo IV, temos agora um papa mais paz e amor. Pio IV era muito amável, um vovôzão bacana que foi posto à cabeça da Igreja de Cristo nos tempos da Contra-Deforma.

Seu nome de batismo era Gian Angelo de Médici – mas não era membro da famosa família florentina (ainda bem, depois de dois desastres ambulantes como Leão X e Clemente VII, ninguém aguentava mais Médicis na Cátedra de Pedro). Foi governador de Parma, arcebispo de Ragusa e cardeal-sacerdote de Santa Pudenziana e Santa Prisca. Seguiu ainda uma brilhante carreira sob o Papa Júlio III, mas não se dava bem com aquele que seria seu antecessor, Paulo IV.

Pra variar, sua eleição foi outra confusão, com a ala francesa do conclave discutindo sem parar com os espanhóis. Carlo Carafa, o sobrinho do falecido Paulo IV, resolveu a celeuma, fechando com o cardeal de Médici (Pio IV). Habemus Papam! Era a véspera de Natal de 1559.

Curiosidade (sua vida dá um haikai):

  • Nasceu na Páscoa;
  • Eleito no Natal;
  • Coroado na Epifania.

Essas foram suas primeiras medidas de maior destaque: relaxou a prisão de Giovanne Moronne, cardeal acusado de heresia pelo papa anterior; liberou os monges andarilhos, deixando eles fazerem o que faziam melhor... andar; estabeleceu uma profunda reformulação no Index de Paulo IV, que era muito exagerado em seu rigor; nomeou um certo Carlos Borromeo – São Carlos, cuja história já contamos aqui – como cardeal-arcebispo de Milão. Nepotismo quase sempre é ruim, mas dessa vez foi bola dentro!

No campo político, aproximou-se de Felipe II e acabou com as disputadas com os espanhóis. Os frutos desta aproximação seriam colhidos em breve, e de forma crucial para toda a civilização ocidental (já adiantamos um post sobre o assunto aqui, a famosa Batalha Naval de Lepanto).

Aquém de tudo isto, a iniciativa mais importante de Pio IV foi cumprir a sua principal promessa: encerrar o já arrastado Concílio de Trento – marco da Contra-Deforma. Convém salientar que este era um mundo convulsionado. Os calvinistas huguenotes pululavam pela França. Era necessário, o quanto antes, dar um desfecho ao Concílio.

O único obstáculo eram os ânimos acirrados entre Felipe II e o imperador Fernando I do Sacro Império Romano-Germânico. Felipe queria chutar o balde de vez com os protestantes, enquanto Fernando tinha esperança de uma reconciliação - afinal, era ele quem teria que aturar os filhotes de Lutero a maior parte do tempo.

Mas vamos às datas. Mantendo o controle da situação com maestria, Pio IV – com o auxílio luxuoso do cardeal Morone – conseguiu encerrar o concílio em 4 de dezembro de 1563, em sua 25ª sessão. Em 26 de janeiro do ano seguinte, o papa confirmou as atas e decretos e, por fim em 30 de junho de 1564, foi promulgada a bula Benedictus Deus.

Para dar prosseguimento à difícil missão de pôr a máquina para funcionar, Pio IV criou uma congregação de cardeais que deveriam orientar os trabalhos de implementação das decisões conciliares. Seguindo o exemplo de Paulo IV, determinou que os bispos retornassem as suas dioceses e lá residissem (naquela época era comum que os bispos quase nunca dessem as caras em suas dioceses).

Em 13 de novembro de 1564, ordenou que todo mundo aderisse à “profissão de fé tridentina” (um dos quatro credos oficiais da Igreja Católica, que serve como uma “vacina” contra a heresias protestantes), dando início à compilação de um novo catecismo e à reforma do Missal Romano e do Ofício Divino.

De coração bondoso e temeroso de afastar ainda mais as ovelhas que tinha como missão apascentar, absteve-se de excomungar a Rainha Elisabeth I (que não tinha um coração tão bom assim). Sua grande frustração foi não ter conseguido deter o avanço protestante na França, na Alemanha e na Inglaterra.

Seu antecessor, Paulo IV, havia deixado os cofres da Santa Sé numa penúria de dar dó, por conta de suas celeumas com a Espanha. Isso obrigou Pio IV a tributar pesadamente as terras pontificais, o que gerou um grande movimento de insatisfação popular. Talvez isso tenha motivado o atentado contra a sua vida, do qual ele escapou por pouco, em 1565.

Para alegria dos micareteiros da arte do século XVI, Pio IV reavivou a tradição de gastar rios de dinheiro com artistas, renovou a universidade romana e instalou uma prensa para imprimir cópias da bíblia e de outros textos cristãos (ué, num era us católico ki num querião ki ninguein lesse a bibra?). Com a ajuda de Michelângelo, construiu novos edifícios e igrejas, como a Porta Pia e a Igreja de Santa Maria degli Angeli que, ironicamente, fica dentro do complexo de casas de banhos públicos de Diocleciano (um dos piores perseguidores do povo de Cristo, lembram dele?).

Esse foi um grande papa, um homem empreendedor, gentil, determinado e justo. Um papa necessário para tempos muito, muito difíceis na História da Igreja. E ele fez isso tudo que aqui narramos sofrendo de dores terríveis, por conta de crises de gota crônicas. Faleceu no dia 9 de dezembro de 1565. Foi sepultado na Basílica de São Pedro, mas, em janeiro de 1583, seu corpo foi exumando e sepultado novamente na igreja de Santa Maria degli Angeli, onde um dia existiram as Termas de Diocleciano.

Isso sim que é fina ironia. Que Deus o guarde.

Fontes:

McBRien, Richard C.. Os Papas: Os Pontífices de São Pedro a João Paulo II. Ed. Loyola, 2004.

Bellitto, Christopher M. 21 Concílios da Igreja: de Nicéia ao Vaticano II. Ed. Loyola, 2010.

Quarta, 09 Novembro 2016 22:22

Pio IV - Um papa virtuoso, mas pouco popular

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Gian de Médici era o nome de batismo de Pio IV. Ele não era parente direto dos Médicis de Florença; era de um ramo pobre da família. Curiosamente, este papa nasceu na Páscoa, foi eleito no Natal e foi coroado no Dia de Reis (seis de janeiro de 1560).

Pio IV foi um alívio humano na coleira apertada até o limite do estrangulamento pelo seu predecessor. Ele aliviou muitas das severidades de Paulo IV, em especial, com as seguintes medidas:

  • usou de suavidade para com os suspeitos de heresia;
  • reabilitou cardeais condenados, sem provas, por heresia;
  • reviu o Index de Paulo IV;
  • relaxou os excessos da Inquisição;
  • apertou a mão de Felipe II (o cabra macho de Lepanto, lembram-se?).

Como vemos, Pio IV era um cara legal, e tinha tudo para cair nos braços do povo. Mas não foi isso que aconteceu...

Vamos explicar o porquê. Com relação à questão financeira, pra variar, o papado estava quebrado. O papa anterior destruíra as finanças dos Estados Pontifícios com sua insana querela com Felipe II. Isto forçou Pio IV a pesar a mão nos impostos em terras pontifícias, o que provocou descontentamento geral. A rapaziada tentou, literalmente, matar o Papa.

Seu sangue Médici falou alto quando retomou o hábito dos papas serem mecenas de grandes artistas. Michelangelo, aquele mesmo, agradeceu, já que Paulo IV havia deixado esses chupins à míngua. Entre seus principais legados à arquitetura romana, cito a Porta Pia e partes da cúpula da Basílica de São Pedro.

CORTANDO AS ASINHAS DO CARAFA

Foi o sobrinho de Paulo IV, o Cardeal Carlo Carafa, quem organizou um grupo de cardeais que elegeu Pio IV. Era a Véspera de Natal de 1559. Carafa era um sujeito de péssima fama: na juventude fora bandoleiro e bandido, e quando maduro se mostrou cruel e sedento de poder.

Carafa se achava intocável. Mas não era bem assim... Pio IV, ao tomar ciência dos seus desmandos e os do seu irmão Giovanni, duque de Palino, os pôs a ferros e mandou julgá-los. Ambos receberam a pena de execução por assassinato, roubo e outras patifarias.

Essa sentença foi posteriormente declarada injusta pelo papa São Pio V.

UM SANTO À FRENTE DA INQUISIÇÃO

Pio IV nomeou para o tribunal da Inquisição o cardeal-arcebispo de Milão, seu sobrinho. O novo manda-chuva da Inquisição era umas das mentes mais afiadas e perspicazes de toda a Renascença, um homem justo e bom, que se tornaria o patrono dos catequistas, e que entrou para história como São Carlos Borromeo (já falamos sobre ele aqui). Estava bem de sobrinho ou não, esse papitcho?

O CONCÍLIO DE TRENTO

Depois de um hiato de dez anos, foi Pio IV quem vez a reconvocação do Concílio de Trento – a principal reivindicação do conclave que o elegeu.

Antes disso, havia dúvidas no ar: deveria ser convocado um novo concílio, e dar Trento por encerrado - como era o desejo do Imperador Fernando I do Sacro Império Romano-Germânico - ou continuar os trabalhos iniciados em Trento - como queria o Rei da Espanha, Fernando II?

Pio IV soube lidar muito bem com a situação: promulgou uma bula convocatória em 29 de novembro de 1560, chamada Ad Ecclesiam Regimen. Contando com o auxílio do Cardeal Morone, Pio IV habilmente conseguiu levar a termo o Concílio de Trento após 25 sessões, confirmando seus Decretos em 4 de dezembro de 1563, consolidados na bula Benedictus Deus em 30 de junho de 1564.

Agora faltava pôr as determinações do Concílio em prática. O papa criou uma congregação de cardeais para supervisionar esse trabalhão. Despachou os bispos conciliares para casa e ordenou que eles lá residissem (naquele tempo, era comum o "absenteísmo", ou seja, muitos bispos "turistas" viviam fora do território de suas dioceses, e assim os fiéis ficavam às moscas). Ainda em 1564, publicou o novo Index dos livros proibidos, deu início à compilação de um novo catecismo da Igreja Católica e reformou o Missal e o Ofício Divino.

Na luta contra a expansão protestante em terras antes católicas, Pio IV afrouxou as rédeas, na esperança de reconciliação com os separados - principalmente com os nichos francês, inglês e alemão da Deforma Protestante. Absteve-se de excomungar a rainha Elisabeth I, da Inglaterra.

Um de seus mais importantes legados para a Igreja foi a Profissão de Fé Tridentina, que é um dos quatro credos oficiais da Igreja Católica (junto com o Credo dos Apóstolos, de Nicéia e de Atanásio). Esse credo, que hoje raramente é utilizado, serve como antídoto para afastar os católicos das heresias protestantes.

Podemos dizer que Pio IV mais acertou que errou, e foi um bom papa. Sofria de gota e faleceu em 9 de dezembro de 1565, cercado em seu leito de morte por São Filipe Néri e por São Carlos Borromeo. Seu corpo foi sepultado na Basílica de São Pedro e, em 1583, seus restos mortais foram transladados para a Igreja de Santa Maria degli Angeli, construída por ele.

Em breve tem mais minha gente!

Fontes:

Ludwig, Freiherr von Pastor. History Of Popes. Kegan Paul, Trench, Trubner & Co. Ltd.  1932.

Ranke, Leopold von. The History of the Popes during the Last Four Centuries (Vol. I). G. Bell and Sons, LTD., 1913.

Johnson, Paul. La Historia Del Cristianismo. Ed. Zeta, 2010.

McBrien, Richard P.. Os Papas - Os Pontífices de São Pedro a João Paulo II. Edições Loyola, 2004.

Giovanni Pietro Carafa era um homem de nascimento nobre. Sua genealogia inclui casas nobres italianas, reis, duques, marqueses. Sua eleição, politicamente, deu-se pela necessidade de um consenso, pois o Conclave estava dividido entre franceses e imperiais, o que deixou o Imperador, obviamente, insatisfeito. Adotou o nome de Paulo em homenagem a Paulo III, que o nomeara cardeal.

Paulo IV tinha 79 anos quando subiu ao trono de Pedro. Se nos nossos tempos Bento XVI, eleito já idoso, foi chamado pela imprensa de “Papa de transição”, imagina como se considerava um papa desta idade nos idos de 1555! Vai ver por isso mesmo que o velhinho, ao contrário do seu predecessor (Marcelo II, que tinha 55 anos), fez questão de dar uma festa de arromba para celebrar sua coroação, em 26 de maio de 1555.

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INDEX E REAÇÃO AO PROTESTANTISMO

Muitos biógrafos, incluindo McBrien, tratam Paulo IV como um grande e cruel conservador antissemita. McBrien, embora seja uma excelente fonte, é um sujeito meio comuna. A imagem de Paulo IV está irremediavelmente ligada à Santa Inquisição – e à criação do Index de livros proibidos, prato cheio para os progressistas e comunistas de plantão.

Mas também foi Paulo IV que fundou a ordem dos teatinos, clérigos dedicados a uma vida de estrita pobreza e à Reforma Eclesiástica. Como tal ferrabrás, designado como legado papal para a Inglaterra por Leão X, pôde ser assim tão malvado?

Paulo IV foi sim conservador e travou muitas políticas reformistas, mas palavras ditas fora de contexto são perigosas e denigrem em muito a imagem de um homem que não está mais aqui para se defender. Não podemos esquecer que estamos nos anos de florescimento de um protestantismo jovem e muito agressivo, que ainda não havia sido posto no seu devido lugar e que não controlava os próprios impulsos. O Papa foi extremamente reativo, fechou-se a qualquer aproximação com os luteranos e sim, intensificou a Inquisição – o Index é prova disso.

A lista de livros proibidos por Paulo IV evitou que muitas almas pouco fortalecidas fossem envenenadas por heresias, e assim se precipitassem no Inferno? É bem possível. Mas os estragos também foram grandes. Para São Pedro Canísio, o Index nada mais era do que uma "pedra de escândalo". As críticas do cardeal Ghislieri - que seria o próximo papa - não foram menos duras, classificando o Index como ridículo.

Como diria Alicia Keys: THIS BOOK IS ON FIRE!!!

livro_fogo

O rigor e zelo de Paulo IV para defender a fidelidade à fé talvez, tenha mesmo descambado para uma "neurose de ortodoxia" - como aponta Ludovico Pastor, em sua Historia dos Papas - que o levava a ver heresia em toda a parte.

Falando ainda sobre os aspectos políticos do seu papado, Paulo IV uniu-se aos franceses contra Felipe II, cabra macho que venceu a batalha naval mais importante da Idade Moderna, Lepanto, já narrada por nós aqui. Óbvio que ter tal homem como inimigo nunca poderia ser uma boa ideia! O Papa perdeu a peleja.

Outro fato importante foi opor-se a Paz de Augsburgo, que reconhecia a coexistência de católicos e protestantes nas terras do Sacro Império Romano-Germânico. Por fim, foi inábil ao lidar com a questão inglesa: foi durante seu reinado que a rainha Elisabeth I deitou e rolou, consolidando o anglicanismo na Grande Ilha.

Se Paulo IV pecou no que diz respeito ao trato com os protestantes, foi por excesso de zelo apostólico. A principal motivação dele para a confecção do primeiro Index nada mais foi do que eliminar os livros que, a seu ver, ajudariam os protestantes a espalhar suas falsas doutrinas.

ANTISSEMITISMO

Seu antissemitismo deve-se ao fato que este Papa foi um dos primeiros a obrigar os judeus a usar aqueles chapéus pontudos ridículos (imagem abaixo) para diferenciá-los dos cristãos, proibiu-os de exercer diversas profissões e atividades comerciais e confinou-os em guetos. Assim, a partir da bula Cum numis absurdum, cessaram os direitos e liberdades antes garantidos aos judeus pelo Papa Gregório Magno, no século VI.

chapeu_judeu

Essas medidas foram duramente aplicadas em Roma e no restante da Itália, mas foram quase que completamente ignoradas no restante da Europa (segundo o Centro Online de Estudos Judaicos).

Mas o que a maioria dos historiadores gosta de omitir é que Paulo IV assim procedeu porque acreditava que a comunidade judaica estava apoiando os protestantes. Para atingir um inimigo que tirava seu sono, tomou medidas contra outrem.

Se os judeus auxiliavam os protestantes ou não dentro dos Estados Papais, não temos como afirmar que toda uma comunidade assim procedia. Por outro lado, também não há como negar que é muito provável que um número significativo desta comunidade o fizesse. Só para constar: o Papa não mandou matar nenhum judeu, nem mesmo usou aquela estratégia que alguns utilizavam, para lavar as mãos do sangue, de "entregar ao braço secular".

Paulo IV teve sua cota de erros como, por exemplo, retornar à prática do nepotismo. Mas também foi zeloso na escolha de cardeais e na exigência do comprometimento dos sacerdotes em suas dioceses, punindo com prisão aos padres que gostassem de tirar muitas férias por ano.

Os italianos não foram receptivos à severidade de Paulo IV. Uma amostra dessa hostilidade se deu quando ele faleceu, em 18 de agosto de 1559: os black blocs da pizzaria destruíram a sede do Santo Ofício e libertaram os prisioneiros da Inquisição.

Fontes:

Ludwig, Freiherr von Pastor. History Of Popes. Kegan Paul, Trench, Trubner & Co. Ltd. 1932.

Ranke, Leopold von. The History of the Popes during the Last Four Centuries (Vol. I). G. Bell and Sons, LTD., 1913.

Johnson, Paul. La Historia Del Cristianismo. Ed. Zeta, 2010.

McBrien, Richard P.. Os Papas - Os Pontífices de São Pedro a João Paulo II. Edições Loyola, 2004.

É hoje o grande dia, em que apresentamos o capítulo final da nossa série de posts sobre o monge maluco mais célebre de todos os tempos. Ele, que começou sua saga infernal acusando a Igreja de Roma de perverter o Evangelho, agora não era mais do que um vendido, e sabia que era. Seu fundo do poço, talvez, tenha sido apoiar a realização de um casamento bígamo, jogando na lama as palavras de Jesus sobre a indissolubilidade do matrimônio.

Eis o imbróglio: o conde alemão Filipe I de Hesse, tal como o rei Henrique VIII, não conseguia manter o pinto dentro das calças. Mas queria porque queria voltar a comungar, e começou a pressionar o conselho dos teólogos protestantes para obter a permissão de se casar novamente, mesmo já sendo casado. Afinal, se no Antigo Testamento os patriarcas tinham várias esposas, então ele também se achava no direito!

Temendo perder o apoio político de Filipe de Hesse, Lutero (junto com mais sete teólogos, incluindo os deformadores Bucer e Melanchthon) assinou um parecer dizendo que a bigamia não era permitida aos cristãos, mas era melhor ser bígamo do que viver na gandaia. Filipe podia se casar em segredo, para não escandalizar o povão. Ô hipocrisia! Só que alguma boa alma jogou essa titica no ventilador, e o escândalo foi grande em toda a Alemanha.

Sempre que era questionado sobre esse fato, Lutero não era macho o suficiente para assumir o que tinha feito, e desconversava. O herói da "Reforma", quem diria, deu a sua bênção a um adultério! Talvez o remorso e o constrangimento que essa história lhe gerava tenha levado o monge maluco a atacar a castidade do próprio Cristo. Afinal, se Cristo fosse adúltero, ninguém mais teria a obrigação de evitar esse pecado.

Vejam esse trecho "pio" e teologicamente "embasado" do Sr. Martinho Lutero sobre Jesus Cristo:

"Cristo cometeu adultério a primeira vez com a mulher da fonte, de que nos fala São João. Não se murmurava em torno dele: 'Que fez, então, com ela?'. Depois com Madalena, depois com a mulher adúltera, que ele absolveu tão levianamente. Assim, Jesus Cristo, tão piedoso, teve que copular, antes de morrer."

Essa pérola está disponível no livro Tischreden ("Palestras à mesa"), citação nº 1472, volume II, página 107; edição de Weimar em seis volumes, 1912-1921. Alguns certamente dirão: "Esse cara tava doidão, só pode ter bebido água de brigão (rima pobre proposital)!". O historiador protestante Funck-Brentano discorda:

"Jesus Cristo, amante da Samaritana, de Madalena, da mulher adúltera! Livres pensadores, ateus, aos quais citamos de passagem, assombram-se. Seria para julgar que o doutor Martinho estava bêbado, quando se expandiu em semelhantes afirmações. Mas não podemos admitir isso, pois ao menos nesse dia os seus fiéis discípulos teriam evitado recolher-lhe piedosamente as palavras."

Uma lógica irrefutável.

Muitas e muitas historietas abjetas como essa estão gravadas como fogo na história. Este post converteria-se facilmente em livro se fôssemos analisar uma por uma das blasfêmias de Lutero. Portanto, vamos adiante para os seus últimos momentos neste mundo.

É provável que Lutero sofresse de problemas cardíacos, tal a natureza de suas críticas no que se refere à saúde. Falta de ar, tonturas, dores de cabeça, angina pectoris. Isso estava fazendo que ele se tornasse uma figura insuportável, intratável até para seus mais próximos colaboradores.

Seus dilemas pessoais com o demônio não davam folga à sua mente perturbada e ficaram ainda mais presentes. Não perdia uma única oportunidade em ratificar seus ataques à Santa Igreja, aos judeus, e a tutti quanti. Em uma carta endereçada a sua esposa, chegou a acusar os judeus de estarem mancomunados ao demônio para destruir sua saúde. O cara se achava a última bolacha do pacote...

Sua saúde deteriorou rapidamente. Tentavam aliviar seu sofrimento com massagens que não estavam mais lhe valendo de grande ajuda. Havendo melhorado, na noite de 17 de fevereiro de 1546, depois de um belo jantar regado a muita cerva e vinho, ele se recolheu em seus aposentos. Foi encontrado morto na manhã seguinte.

morte_lutero

Acharam um pedaço de papel em que o Deformador havia escrito a sua última declaração. Suas palavras refletiam a angústia de um homem que viu sua doutrina se transformar em um estímulo direto para que qualquer estúpido se achasse altamente capacitado pelo Espírito Santo para interpretar a Bíblia. Lutero era a favor do livre exame da Bíblia... Mas só a interpretação dele é que era sussa, a dos outros, não! Reparem:

"Saiba que ninguém pode tirar satisfação suficiente das Sagradas Escrituras, a menos que tenha governado igrejas por cem anos com os profetas, como Elias e Eliseu, João Batista, Cristo e os apóstolos. Não saqueie essa Eneida divina; antes, prostrados, reverenciem o chão em que pisam. Somos mendigos: essa é a verdade."

Somos mendigos? Devemos ser humildes ao examinar as Escrituras? Ué... Cadê o cara que disse que todos são igualmente sacerdotes, podendo julgar a doutrina sem a mediação de nenhum clero?

Os erros e misérias perpetrados por Lutero são incalculáveis, tanto no campo material quanto espiritual. Ainda hoje, com a força de mil demônios, eles esmurram os portões da verdadeira Fé. Ele não foi o primeiro heresiarca, mas foi aquele que, aproveitando-se de um momento de tibieza moral do Vaticano (a era dos papas insensatos da Renascença), tornou-se o motor de uma crise sem precedentes.

Lutero refletiu o antissemitismo de seu tempo e de sua terra? Muitos historiadores sustentam que sim. Mas ele reavivou muito essa chama, que aqueceu as palavras de Gobineau, Stocker e - cereja do bolo - Adolph Hitler.

Seu modus operandi insano e despótico, em que os fins justificam os meios, são a base sobre a qual se erigiu a Legenda Negra da Idade Média. Sua campanha difamatória contra a Igreja foi muito bem utilizada por desprezíveis como Michelet, Diderot, Marat e Voltaire para desamparar os fiéis e liberar no mundo o desespero.

Esse foi Martinho Lutero, pai de mil "igrejas" e responsável pela perdição de milhões e milhões de almas.

Fiquem com Deus.

 

FONTES:

Site judeu Beth-Shalom. A propósito do Anti-semitismo

Jorge, Fernando. Lutero e a Igreja do Pecado. Ed. Mercuryo.

Aquino, Felipe. História da Igreja: O Concílio de Trento.

Denifle, Heinrich. Luther and Lutherdom. Torch Press, (EUA).

Kellermann, James A. (translator). The Last Written Words of Luther: Holy Ponderins of the Reverend Father Doctor Martin Luther

Depois de uma longa ausência (cerca de um ano) ela voltou! A sua série aqui n'O Catequista que fala um pouco sobre a história dos Sumos Pontífices. Nosso último post foi sobre um bispo de Roma um pouco... “estranho” - o Papa Júlio III. Agora seguimos falando do seu sucessor, Marcelo II.

Grande humanista e bibliotecário. Durante o papado de seu antecessor, Marcelo foi responsável pela biblioteca do Vaticano, botando ordem na casa.

Marcello Cervini nasceu em Montefano, em 1501, e foi o último Papa a manter seu nome de batismo quando assumiu o pontificado. Foi eleito no maior clima de "agora vai!".

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Como veremos mais logo adiante, essa alegria durou pouco...

merida_decepcao

Quando era ainda cardeal, Marcelo foi um dos maiores críticos do estilo festeiro e purpurinado do Papa Júlio III. Por conta disso, foi obrigado a retirar-se para a Diocese de Gubbio. Era um homem sábio e humilde, tanto que, em sua coroação, dispensou qualquer exagero nas festividades, e não suportava bajuladores a cercá-lo.

Outra forte característica de sua personalidade era o horror ao nepotismo – um traço marcante dos papas insensatos da Renascença–, tanto que proibiu que seus parentes fossem a Roma vê-lo. Isso mesmo! O Papa proibiu até aquele primo chato e o cunhado sem noção de aparecer para tomar um chá com torradas. Sabe como é… Parente é serpente.

O Papa Marcelo apresentou uma série de propostas para a reforma da Igreja, que eram sumariamente ignoradas por Júlio III. Sua ideia naquele instante era “se ninguém quis fazer, faço eu”. Pretendia reunir tudo e promulgá-las sob a forma de uma bula.

Esse é um daqueles Papas dos quais se lamenta a partida, especialmente porque ele morreu antes que pudesse realizar sua visão para a Igreja. Seu pontificado foi um dos mais curtos da história: apenas 21 dias. Uma das poucas medidas que teve tempo de pôr em prática incluiu a redução do tamanho da cúria.

Infelizmente, no dia 1º de maio de 1555, sofreu um derrame fulminante. Sua vontade foi respeitada, e recebeu um sepultamento simples na cripta da Basílica de São Pedro (uma das missas clássicas mais bonitas, de autoria de Palestrina, foi composta em homenagem ao Papa Marcelo II. Já falamos dela na saudosa Liga dos Blogueiros Católicos e vamos falar ainda mais em um CateMusic vindouro).

Em breve tem mais minha gente.

*****

Fontes:

Ludwig, Freiherr von Pastor. History Of Popes. Kegan Paul, Trench, Trubner & Co. Ltd. 1932.

Ranke, Leopold von. The History of the Popes during the Last Four Centuries (Vol. I). G. Bell and Sons, LTD., 1913.

Johnson, Paul. La Historia Del Cristianismo. Ed. Zeta, 2010.

McBrien, Richard P.. Os Papas - Os Pontífices de São Pedro a João Paulo II. Edições Loyola, 2004.

Todos devem saber que “roliúdi” hoje em dia é fortemente anticlerical. Podemos atestar isto diante da incensação de filmes nem tão bons assim, mas que falam mal da Igreja ou levantam dúvidas a respeito dela – o caso mais recente e mais ilustrativo disto é o filme Spotlight. Só que nem sempre foi assim. Filmes geniais e que lidavam com os temas cristãos (tais como O Bom Pastor, Os Sinos de Santa Maria, A Canção de Bernadette e Meninos Não Choram) ganhavam caminhões de Óscares e são ainda hoje clássicos absolutos.

O silêncio sacramental do sacerdote em relação aos pecados ouvidos em confissão, inclusive, foi o tema de fundo de um dos melhores filmes de suspense de todos os tempos, dirigido com brilhantismo pelo mestre dos mestres nesta seara: Alfred Hitchcock. Trata-se do seminal A Tortura do Silêncio (no original, I Confess).

É a história do zelador da Igreja de St. Marie, em Quebec, no Canadá francês: Otto Kellar, um imigrante alemão do pós-guerra. Ele se sentia frustrado e oprimido; sua esposa Emma trabalhava até a exaustão, e ambos tinham uma vida muito sacrificada. Desesperado, Otto cometeu um crime horrendo. Tomado pela culpa e pelo desespero, confessou seu crime ao padre Michael Logan – uma interpretação minimalista e quase perfeita de Montgomery Clift.

Inoportunamente, ficamos sabendo aqui que o padre Logan também possuía uma ligação “perigosa” com a vítima de Otto, o que acabou por colocá-lo no radar da polícia de Quebec.

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A força da interpretação de Clift neste filme está em sua cara de pedra. À primeira vista, suas feições inabaláveis podem dar a impressão de frieza e distanciamento psicótico. Mas toda a condução do ambiente, a opressividade da situação deslindada pelo roteiro, assomada à responsabilidade sacerdotal nunca antes descrita nas telas como neste filme, exigem que o padre Logan assim aja.

Mais do que todos à sua volta, o padre Logan sabe que as consequências que seus atos podem ter, não tanto para os homens, mas para sua alma imortal e para a sua fidelidade aos mandamentos da Santa Igreja, que ele jurou defender e respeitar. Para quem não sabe, se um sacerdote revelar um segredo de confissão, ele é excomungado.

Hitchcock constrói o suspense tratando com muita dignidade e respeito os santos sacramentos e a fé. Como fiel católico, para mim, o principal aspecto do filme foi ver como podemos utilizar o sacramento como válvula de escape para a culpa – e até como uma forma de envolver o sacerdote em nossos crimes, o que é bem o caso aqui. Isto ocorre quando a confissão não é acompanhada pelo real arrependimento e entrega de nossas culpas aos desígnios de Jesus Cristo. Tal confissão apenas vai alimentar o pior inimigo do confessado: o remorso.

O padre Logan sofre o preço secular dos pecados de Otto, mas o remorso e a loucura cobram o seu preço ao velho zelador, que vai ficando mais e mais paranoico e mentiroso. Ele desconfia de quem nunca lhe deu motivos para desconfiança, e sua loucura fica a ponto de explodir e machucar os que estão mais próximos dele.

Com a força que vem da fé, o padre Logan tudo enfrenta com serenidade, apesar de ser atacado com as mais insidiosas acusações que podem ser feitas a um sacerdote. No tribunal, nada importa ao Estado acusador, apenas que exista um culpado e uma condenação.

O filme foi feito de um roteiro adaptado, de autoria a quatro mãos por George Tabori e Willian Archibald. Era originalmente uma peça teatral de Paul Anthelme, chamada Nos Deux Conscience, que tem um final diferente e muito mais trágico do que o do filme. O fim foi alterado para satisfazer o senso de justiça anglo-saxão, mas isso não compromete a experiência nem os valores que o filme quer nos mostrar.

Completa o pacote a lindíssima fotografia em preto e branco de George Burks, que valoriza ainda mais as locações da belíssima Quebec.

Um filme necessário, belíssimo e sóbrio. Um dos melhores suspenses do mestre dos mestres!

P.S.: Uma coisa que nem todos sabem. A diferença entre suspense e mistério. Suspense: você sabe quem é o culpado, o que ele fez e como fez, quem nunca sabe disso são as personagens do filme. No suspense o espectador é um observador privilegiado. Mistério: no mistério o espectador nunca sabe de nada, ele está sempre às cegas e são as personagens que sabem o que está de fato ocorrendo. As dinâmicas de ambos os gêneros são antagônicas. Na prática isso quer dizer que é muito mais fácil dar spoiller de filme de suspense do que de mistério (você estraga o último).

Fiquem com Deus e até a próxima.

Ficha Técnica:

Gênero: Suspense

Direção: Alfred Hitchcock

Roteiro: George Tabori, William Archibald

Elenco: Anne Baxter, Brian Aherne, Charles Andre, Dolly Haas, Karl Malden, Montgomery Clift, O.E. Hasse, Roger Dann

Fotografia: Robert Burks

Trilha Sonora: Dimitri Tiomkin

Duração: 95 min.

Ano: 1953

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Sob os Arcos da Lapa, um dos cartões postais mais bonitos do Brasil, haverá o LANÇAMENTO OFICIAL do livro "As Grandes Mentiras sobre a Igreja Católica", da Editora Planeta. Entre os dias 28 e 30/10, Viviane e Alexandre Varela estarão lá para conhecer os leitores e fazer a dedicatória nos livros.

No nosso estande, em parceria com a Livraria Saraiva, esperamos vocês lá, no Festival Halleluya Rio de Janeiro!

“Os homens é que devem ser transformados pela religião, e não a religião pelos homens”.

- Egidio de Viterbo, introdutória ao Concilio do Latrão V (1512).

Estamos nos aproximando do fim da série sobre Martinho Lutero. Antes de chegarmos ao capítulo final, precisamos falar um pouco do Concílio de Trento, em que bispos e padres do mundo inteiro se reuniram para discutir as medidas necessárias para promover a retidão moral do clero, revitalizar a Igreja Católica e reaproximar católicos e protestantes.

Ao contrário daquilo que muitos imaginam, a Igreja não instituiu o Concílio de Trento por "vingança" contra a Deforma Protestante ou por "medo de perder terras e fiéis", mas motivada pelo melhor espírito de autocrítica e desejo de conciliação.

A brecha por onde Satanás inseriu o protestantismo - fenda incorrigível e resiliente no muro cristão - surgiu durante a era dos ditos "papas insensatos" da Renascença, mas também não devemos esquecer que Jesus nos deu alguns dos maiores de seus santos (S. Felipe Néri, Sta. Teresa de Jesus, S. João da Cruz, S. Inácio de Loyola, S. Pedro de Alcântara, S. Francisco de Sales) nesses mesmos tempos. Viva o Espírito Santo!

O Concílio de Trento é cercado de preconceitos e é muito mal explicado. Por isso, pouca gente sabe que ele foi o mais ecumênico de todos. Até mesmo os protestantes foram convidados a fazer parte!

O Imperador Carlos V queria que o Concílio fosse no território do Sacro Império, para que os príncipes reformistas (protestantes) participassem e não usassem a distância como desculpa para a sua ausência. Era desejo do Imperador a unificação da Igreja.

O primeiro impasse foi o desejo do Papa de que o Concílio fosse em uma cidade italiana. Todos tinham algo a dizer, mas as divergências criaram muitos e embaraçosos impasses. O Concílio, primeiramente, deveria ser em Mântua ou Vicenza, e o Papa fez a convocação para ambas as cidades, só que ninguém foi. No final, venceu o Imperador, já que Trento era uma cidade alemã (vemos aqui, mais uma vez o quanto a Igreja é "malvada" e "ditatorial". É nos detalhes que se esconde a verdade).

Na segunda parte do Concílio, os protestantes deram o ar da graça, porém, para variar, já chegaram aprontando. Foram, basicamente, seis meses de desaforo, desde outubro de 1551 até março de 1552. Apesar de tudo, os católicos permaneceram no espírito da boa vontade.

Só que não dava muito para negociar; a posição dos reformistas era irredutível, exigindo a ab-rogação dos decretos até então promulgados sobre o protestantismo e a realização de novos estudos sobre esses assuntos. E ainda queriam a renovação dos decretos dos Concílios de Constança e Basileia sobre o Conciliarismo; por fim, pleiteavam que os membros do Concílio fossem desligados do juramento de obediência ao Papa. Como, cáspite, obter unidade, se o símbolo e garantia desta unidade é justamente a figura do Sucessor do Pescador?

A cena abaixo resume a postura dos protestantes no Concílio de Trento...

lalala

Esse pequeno introito sobre o Concílio de Trento é para ilustrar que o espírito divisionista protestante não é fenômeno da modernidade, mas é, isso sim, uma real deforma de caráter presente desde a gênese. Sinceramente, se você quer REFORMAR ALGO, você tenta primeiro ver o que deve ser aproveitado e ouvir seus pares. Em vez disso, os protestantes chegaram na sala, botaram os pés na mesa e disseram: "vai ser assim, assim e assado!". Isso não é reformar, isso é querer destruir para colocar outra coisa no lugar e uma coisa conforme o seu gosto. Protestantismo: pai orgulhoso da geração mi-mi-mi!

Óbvio que a verdade da Santa Igreja permaneceu incólume e, sinceramente, os protestantes sabiam que mesmo com a presença deles lá, isso não mudaria. O embuste mesmo nasce do entendimento luterano de que o pecado original, como definido por Santo Agostinho, é a corrupção total da natureza humana. O relativismo tosco que vemos em nossa sociedade (lembremos que Kant, o pai do relativismo, era protestante e nunca faltava a um culto) vem daí.

Falando propriamente do nosso querido monge maluco, em resposta às medidas do Concílio, ele escreveu um livreco muito mimoso chamado Contra o papado romano, estabelecido pelo diabo (veja abaixo a ilustração da capa da edição original, com o Papa saindo da boca de uma besta, cercado de demônios). Quando um protestante vier dizendo para vocês que o Papa está "reconhecendo que os protestantes têm razão", lembre a ele que o Sr. Lutero chamou o Papa de "infernalíssimo".

Até hoje só vejo católico procurando chamar os protestantes de volta à unidade. Protestante eu nunca vi pedir desculpas nem por uma coisa, nem por outra. Para piorar, o tal libreto trazia as ilustrações de uma certo Cranach, em que a mais suave ilustrava dois demônios enfiando baldes de lixo na cabeça do Papa (sobre essas ilustrações abjetas, saiba mais aqui). Bom, "siga la pelota".

Fiquem com Deus.

contra_papado

FONTES:

Jorge, Fernando. Lutero e a Igreja do Pecado. Ed. Mercuryo.

Aquino, Felipe. História da Igreja: O Concílio de Trento. Disponível em http://cleofas.com.br/historia-da-igreja-o-concilio-de-trento/

Denifle, Heinrich. Luther and Lutherdom. Torch Press, (EUA).

Bom dia meu povo!

Hoje é dia de história. Um caso da vida real que relata na prática muitas das diretrizes de Nosso Salvador, e demonstram a santidade da Doutrina que a Igreja Católica legou ao mundo.

Era um bom tempo para se viver aqueles anos 70 - exceção para os comunistas. Havia problemas, havia dificuldades e o país se ressentia de nunca realizar seu sonho de ser uma grande nação (não realizou até hoje e, provavelmente, nunca o fará). Poucos anos antes, o melhor time de futebol da história desfilou triunfante pelos gramados do México.

Havia segurança nas ruas e, ao mesmo tempo, políticas desenvolvimentistas malucas e irresponsáveis. Frutos do espírito estatizante dos milicos, que fundaram essa república de quinta sob um lema positivista - Ordem e Progresso, coisa que se as pessoas soubessem o real significado, pediriam perdão à Família Real e devolveriam a eles sua legitimidade. E depois, numa aventura ditatorial estranha, levaram a uma situação de inflação que os moleques de hoje com menos de 30 anos enlouqueceriam só em imaginar.

Mas fazer um tratado de política e economia não é nossa finalidade aqui. Esta é uma história muito, muito humana.

Uma família bem pobre, mas dignificada pelo labor do dia a dia. Um matriarcado em uma grande cidade deste país. Era uma casa humilde, porém ampla, na qual vivia um clã de mulheres cuja velha matriarca era mãe de sete filhos: três homens (todos falecidos jovens) e quatro mulheres - das quais três ainda estão vivas, todas octogenárias. Ela criou suas filhas e filhos sob os princípios morais e a ética católica, e eles dignificaram seu nome.

Duas dessas filhas nunca se casaram, e castas viveram suas vidas. Duas outras casaram-se; uma teve duas filhas e ficou viúva ainda muito jovem; a outra teve mais três filhos. Somente um dos seus filhos teve descendência: três meninas. É a história de duas dessas meninas que passamos a contar.

Ela era jovem e bonita, a menor (em altura) das três irmãs. Ele surgiu vindo da distante (e quase mítica por aquelas bandas) cidade de São Paulo. Era um sujeito bonitão, o típico macho alfa, grande e um tanto quanto rústico. Tinha sido transferido para aquele canto do mundo meio que a contragosto, e lá encontrou a menina pobre trabalhando como telefonista. Foram uns meses muito, digamos, loucos para os dois. Lembrem-se que eram os tempos de Pink Floyd; Emerson, Lake & Palmer e Secos e Molhados.

Já a irmã mais nova da menina bonita não tinha tempo para isso. Ela passava dias e dias apenas dedicada aos livros da biblioteca pública, pois estava para se formar, e a faculdade era, como dizia sua tia, o caminho para dias melhores.

estudava

E então aconteceu. A menina bonita engravidou. Não, não foi aquela história clichê em que o cara engravida a menina e cai fora. Ele não renegou o filho. Ele assumiu a situação. Mas a menina não era casada. Para o matriarcado de onde ela saiu, era um escândalo. Mas ele não se importava, levava no jeito. Com seu estilo bonachão e sua convicção, passava a todos confiança. Até o dia em que seu empregador e os desígnios do Criador intervieram na celeuma.

Ele seria transferido para um lugar muito, muito distante dali. Não havia como ficar. Então convidou a jovem para ir com ele para desbravar um novo mundo. Mas não era fácil para ela atirar-se numa aventura, longe de sua família e de todas as suas referências. Por isso ela disse não. E ele partiu para voltar uma única vez, tempos depois.

casablanca

Ela estava sozinha e grávida. Sozinha? Não. As velhas senhoras estavam com ela e, mesmo cobertas de vergonha, não a expulsaram. Mas foram severas ao apontar o seu pecado, pois ela expôs aquela casa (não dá pra não lembrar do lema do Frei Clemente Rojão: a misericórdia é grande mas a penitência é braba). Outros tempos.

Mas tanto a jovenzinha quanto suas tias tinham uma certeza absoluta: a vida é sagrada e o aborto é condenação ao inferno, tanto para quem pratica quanto para quem ajuda a praticar. Mesmo com toda a pobreza, com toda a dificuldade, com toda a vergonha e os olhares condenatórios, aquela criança tinha que nascer.

A jovem gestante estava decidida cumpriu o mandamento de seu coração, conforme os valores que lhe foram passados pela família. A velha tia que a criou se comprometeu a assumir a criação do bebê como mãe substituta, como havia feito com as filhas do irmão falecido.

Enquanto isso a irmã mais nova da jovem estudava, estudava...

E a criança nasceu. A irmã mais nova foi a primeira a ver a criança recém-nascida. E ficou encantada. Encontrou ali seu primeiro filho, mesmo sendo uma moça sem marido, sem dinheiro, sem emprego, prestes a se formar. Tinha apenas o auxílio de suas tias. Foi a luta por ela e pelos seus.

A jovem parturiente sabia que seu papel havia sido encerrado. Partiu para fazer sua vida em outro lugar, deixando seu filho para sempre com sua irmã.

A história segue como tantas outras histórias de família. Mas apenas esse momento específico é suficiente para ilustrar os pontos do título.

1 - O Aborto NUNCA É SOLUÇÃO PARA NADA. A jovem mãe, criada em ambiente cristão católico, estava convicta de que abortar era assassinato e que não havia outro caminho senão aquele que leva à vida.

2 - Os Dez Mandamentos são tão poderosos que às vezes obedecemos mesmo sem querer. A família, o honrar pai e mãe, estão tão presentes nessa história que eu desafio os leitores a identificar os trechos onde o quarto mandamento não se faz presente como força invencível que é.

3 - A maternidade não está no parir, ou pelo menos não unicamente neste. A maternidade está no toque em nosso coração que Deus dá ao olhar uma criança, o amor que desperta sem que saibamos de onde, nem para onde vai.

4 - Quanto maior a família, maiores são as possibilidades de apoio mútuo. Isso o capeta sabe, por isso fez de tudo para plantar nos corações a mentalidade antinatalista, e conseguiu. Hoje nego tem um ou dois filhos, e olhe lá.

Este post tem por objetivo mostrar aos jovens que nenhuma noite é tão escura, nenhum problema é insolúvel, nenhuma cruz é tão pesada que não se possa carregar. Nesse mundo hedonista, onde sempre se busca a solução mais cômoda e prazerosa, estamos assassinando mais e mais inocentes a cada dia.

Vejam o exemplo da jovem formanda. Ela chamou para si a responsabilidade da criação de um ser que não era sua responsabilidade. Quantas jovens de hoje você conhece que fariam isso?

Ninguém me contou esta história. Eu estava lá. Foi assim que eu nasci. O menino cabeludo da foto no início do post sou eu, aos dois anos de idade.

Aquela jovem formanda me chama hoje de filho. Com orgulho, eu a chamo de mãe.

Fiquem com Deus.

Um dos momentos mais hilários que tivemos aqui em O Catequista foi quando minha colega de blog Viviane Varela publicou um artigo (veja aqui) em resposta a um "sábio" que disse que o protestantismo foi o responsável pela instituição do ensino universal. Para falar essas asneiras, geralmente essa patuleia se baseia no fato de que o criador da moderna pedagogia foi um sujeito chamado Comenius, e também nessas  palavras de Lutero:

"Eu sustento que as autoridades civis têm a obrigação de forçar o povo a enviar os seus filhos para a escola, exatamente como estão prometendo... Se o governo pode obrigar tais cidadãos, quando prestam serviço militar, a aguentar a espada e o rifle, a cavar trincheiras e a cumprir os outros deveres militares em tempo de guerra , tem muitíssimo mais direito de mandar os seus filhos para a escola, porque neste caso nós estamos lutando contra o demônio".

- Conversas à mesa

Bonito não? Os comunas adoram esse discurso - afinal, hoje as escolas públicas são um dos principais instrumentos da difusão da doutrina marxista, assim como naquele tempo eram usadas para incutir na mente das crianças as ideias e valores de interesse dos príncipes dos estados protestantes. Afinal, como já comentamos aqui, foi do protestantismo que surgiu o estado laico, e não tem ninguém que lamba mais a mão - pra não dizer outras partes - de um governante do que o paxtô. Só estão seguindo o exemplo do mestre.

Mas, para mim, o melhor mesmo é ver universiOtário e professor mocorongo defendendo a Deforma Protestante. Essa gente desconhece mais uma das contradições de Lutero: ele era professor universitário, mas ODIAVA as universidades.

A razão disso é que, diferente das escolas, as universidades formavam pensadores, que se recusavam a usar a Sola Scriptura para validar suas teses e estudos. Toda a vez que alguma tese contrariava a interpretação de Lutero sobre a Bíblia, ele tinha vontade de fazer com as universidades o mesmo que o Coringa fez com o Hospital de Gotham...

"As escolas superiores merecem ser destruídas até os alicerces. Desde que o mundo é mundo, não houve instituição mais diabólica, mais infernal". 

- Conversas à mesa

Essa recebeu o "Selo Talibã de Ações Positivas". Mas tem mais:

"E no entanto as altas escolas, estas escolas diabólicas, fazem um grande alarde de suas luzes naturais e as guidam até os Céus, como não se fossem só úteis, senão indispensáveis à manifestação da verdade cristã. Assim, hoje é coisa perfeitamente estabelecida que todas essas escolas são criações do demônio para obscurecer o cristianismo."

Walch, XI

A sorte dos países protestantes é que a oposição de Lutero ao ensino universitário não colou. Naquele tempo, graças à semente plantada pela Igreja Católica, a universidade já era uma instituição com raízes profundamente arraigadas na sociedade ocidental. Já não era mais possível aniquilá-la. O jeito foi, gradualmente, instrumentalizá-la como máquina de doutrinação do Estado (isso não foi possível de imediato, dada a cultura de autonomia universitária, sempre tão defendida pela Igreja Católica; mas em pouco tempo o Estado já podia cantarolar: "Tá dominado! Tá tudo dominado!").

Morro de rir quando eu vejo estante ambulante - os ditos "Portadores de Diploma" - defendendo a -forma. Nem Síndrome de Estocolmo explica isso!

E continuaremos em breve a nossa saga. Fiquem com Deus e até a próxima.

Segunda, 14 Março 2016 01:34

Em defesa de Madre Teresa... Mais uma vez!

Povo Católico, que a Paz de Nosso Senhor Jesus Cristo esteja sempre convosco!

Vou começar este post propondo um exercício de imaginação. Pense em uma mulher miserável, mendigando pelas ruas com seu filho faminto no colo. Em certo momento do dia, para diante dela o traficante e assassino Pablo Escobar, e lhe dá uma nota de 100 reais. Então... O que ela deve fazer? Tente se colocar no lugar da mulher, e escolha uma dessas opções:

a) Aceitar a esmola.

b) Rejeitar a esmola, mesmo diante do choro de fome da criança.

teresa_orfao

Se você optou pela alternativa "a", você é plenamente capaz de entender as razões que levaram Madre Teresa de Calcutá a aceitar doações de ditadores e de homens de honestidade duvidosa. Em seus braços, ela carregava uma multidão de milhares de famintos, moribundos, órfãos e sofredores de todo tipo. Toda ajuda era bem-vinda para aquela mãe, continuamente mergulhada na dor de seus filhos.

Outra crítica que se faz é ao fato de as casas de acolhida das Missionárias da Caridade não oferecerem tratamento médico avançado, apesar das muitas doações. Em primeiro lugar, quem diz isso não faz a menor ideia do cenário em que a Madre e suas irmãs trabalhavam: Calcutá, na Índia, é a cidade do mundo com maior número de mendigos e leprosos. As doações recebidas nem de longe seriam suficientes para oferecer a essa multidão uma atendimento hospitalar de qualidade.

Em segundo lugar, a Madre jamais teve a intenção de oferecer tratamento hospitalar. A administração de uma rede hospitalar exigiria uma estrutura organizacional robusta, incluindo uma ampla equipe de profissionais - médicos, contadores, recepcionistas, enfermeiros, faxineiros, instrumentadores etc. Madre Teresa deixaria de ser uma simples irmã de caridade para ser gestora de uma rede de hospitais, com toda a imensa responsabilidade administrativa que isso implica (tanto isso é verdade que, quando a brasileira irmã Dulce lhe ofereceu a gestão de suas obras, ela não aceitou). Ela queria uma obra simples, que pudesse ser movida pelo amor das irmãs religiosas e dos voluntários.

Madre Teresa abraçou, isso sim, a missão de oferecer amor e conforto aos mais pobres entre os pobres, aqueles que eram rejeitados por suas famílias e pelos hospitais públicos. Ela recolhia pessoas que eram simplesmente largadas nas ruas por seus parentes para morrer, ou até mesmo em lixões, cuja imundície ela tantas vezes revirava para encontrar ali no meio um filho de Deus.

Os doentes que não eram moribundos eram transferidos do asilo das Missionárias da Caridade para os hospitais públicos. Era comum que os voluntários mais fortes carregassem essas pessoas nas costas até o hospital, pois nem sempre havia ambulância disponível ou dinheiro para pegar um táxi.

massagem_voluntario

Quem difama uma mulher dessas é vacilão, sim! A canalhice chegou ao ponto de dizerem que ela gostava que os pobres sofressem e não fazia nada para lhes aliviar o sofrimento. Se assim fosse, a Madre simplesmente os deixaria apodrecer nas ruas! Se a Madre não fosse boa para os pobres e não lhes desse alegria, não seria cercada por eles dia e noite, como um pote de mel que atrai as abelhas!

Os atelhos e a comunistada estão em polvorosa ao saber que a Igreja decidiu elevá-la aos altares. A canonização de Madre Teresa é uma derrota monumental para essa gente e mais uma prova para os cegos de que Jesus está vivo e o Espírito Santo não nos abandona.

A seguir, apresento a vocês a tradução de um excelente texto do do padre jesuíta James Martin, atacando os principais argumentos dos detratores da Santa Madre. É, em si, autoexplicativo.

Boa leitura!

EM DEFESA DE MADRE TERESA

por James Martin, S.J.

Então Madre Teresa não era perfeita. Ela tinha, como Murray Kempton notou em sua resenha do livro de Christopher Hitchens (A Sombra do Santo, NYR, 11 de julho), aceito doações de ditadores e outros personagens repugnantes. A Madre também tolerou condições médicas inferiores em seus asilos. Ainda assim, o histérico ataque do Sr. Kempton a ela é injustificado e injusto.

Ele reclama que Madre Teresa se internava em hospitais elegantes quando ficava doente, enquanto em seus próprios asilos tratava pacientes com somente mínimos cuidados de saúde. Mas, alguém familiarizado com ordens religiosas estará ciente que um superior doente é, frequentemente, persuadido pelos membros de sua comunidade tratando-o melhor do que ele mesmo cuidaria de si. (...) Neste caso, no entanto, as subordinadas de Madre Teresa forçaram-na a aceitar o melhor tratamento para si, talvez contra a vontade. Isto é um pecado contra a pobreza, uma hipocrisia, ou, mais provavelmente, uma demonstração de profunda afeição das Missionárias da Caridade para com sua fundadora?

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A mais séria objeção de Mr. Kempton é que Madre Teresa na realidade apressava a morte por não prover o pobre em seus asilos com um descente cuidado médico. Mas a oferta de serviço de saúde não é o que a ordem de Madre Teresa foi fundada para fazer. Há centenas de ordens médicas católicas que generosamente preenchem essa necessidade (as Médicas Missionárias de Maria, que operam além mar e as Filhas da Caridade, que tem por décadas, gerenciou numerosos hospitais neste país, para citar não uma, mas duas). Bem, o carisma das Missionárias da Caridade (com quem eu tenho trabalhado) é, quase especificamente, prover consolo para muitos pacientes pobres que, de outra forma, morreriam sozinhos.

(...)

voluntaria

E então, respeitando a Pobreza do Pobre, que hoje morre negligenciado, parece haver duas escolhas. Primeiro, cacarejar que tal grupo de pessoas não deveria mesmo existir. Segundo, agir e providenciar conforto e consolo para aqueles indivíduos em fase da morte.

Mr. Kempton escolheu o primeiro, Madre Teresa, com todos os seus defeitos, escolheu o último.

Publicado na revista American Magazine.

Aos Editores:

Bater em uma freira idosa colocando-a sob um rótulo obsceno não parece ser uma particularmente brava ou estilosa coisa a se fazer. Ainda, parece que os ataques direcionados a Madre Teresa podem ser reduzidos a um único crime por ela cometido: ela tentou ser cristã, no mais literal sentido da palavra – que é (sempre foi, sempre será) o mais impróprio e inaceitável empreendimento do mundo.

Assim sendo, considere esses pecados de Madre Teresa:

  1. Ela ocasionalmente aceitou a hospitalidade de vigaristas, milionários e criminosos. Mas é difícil de ver que, como cristã, ela não poderia estar mais de acordo com a escolha de seu mestre, cuja a frequência em más companhias era notória e chocou toda a elite de seu tempo.
  2. Em vez de prover serviços eficientes e higiênicos para doentes e moribundos destituídos, ela meramente oferecia seus cuidados e seu amor. Quando eu estiver em meu leito de morte, acho que preferiria ter uma das irmãs ao meu lado em vez de um moderno trabalhador social.

(...)

Jesus foi cuspido – mas não pelos jornalistas, como nunca o foi em seu tempo. E agora Madre Teresa tem o privilégio de experimentar essa particular atualização dos problemas pelos quais seu Mestre passou.

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