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Terça, 26 Maio 2015 10:21

Paulo III, o Papa que iniciou a Contra-Reforma, mas não pôde concluí-la

Postado por

michelangelo

E aí meu povo,

Vamos continuar a contar a história dos sucessores de Pedro? Aê!! Começando com um papa que procurou retomar a linha depois de um dos períodos mais turbulentos e violentos da história: Paulo III.

Seu nome de batismo era Alessandro Farnese, tendo nascido em 1468. Foi eleito Papa por unanimidade em 13 de outubro de 1534. Havia sido candidato nos dois concílios anteriores, mas perdeu por conta da influência dos Colonna e dos Médici, que lhe faziam oposição. Naquele instante, depois dos desastrosos eventos ocorridos no papado de Clemente VII, e da participação criminosa dos Colonna nos eventos que culminaram com o saque de Roma, o velho cardeal de 67 anos obteve a chance que lhe foi negada duas vezes.

Adotou o nome de Paulo III em homenagem ao Papa Paulo II, que ocupava a Cátedra de Pedro quando ele nasceu. O povão adorou, pois foi o primeiro Papa romano a ser eleito em 103 anos.

Umas considerações a serem feitas da vida pregressa desde Papa. Paulo III não pode ser considerado um insensato do naipe de Alexandre VI ou Clemente VII, mas também não era exatamente um santo. Antes, foi um homem de seu tempo, conforme os valores da sociedade que o produziu. Alexandre VI o nomeou, ainda muito jovem, cardeal-diácono e tesoureiro da Santa Sé. Entre os seus muitos títulos, foi bispo de Corneto e Montefiascone; depois, bispo de Parma. Tudo isso até 1509 (tinha 41 anos).

ELEITO BISPO, ANTES DE SER PADRE

O único detalhe que vai pirar o cabeção de vocês é que Alessandro Farnese, futuro Paulo III, só tornou-se sacerdote em 1519, aos 51 anos, muito anos depois de sua eleição episcopal (naquele tempo, essas coisas eram bagunçadas mesmo). E ele havia adiado sua ordenação sacerdotal pelo motivo mais safado do mundo: muié. Apelidado de "Cardeal das saias", o pegador teve quatro filhos ilegítimos com uma nobre italiana chamada Silvia Ruffini.

Isso não é um comportamento aceitável a quem abraça a carreira eclesiástica, mas vamos dar um desconto a ele aqui: em 1513, três anos antes de sua ordenação, Alessandro Farnese largou a sacanagem e se preparou para o sacerdócio. Após esse ano, não há mais registros de suas saidinhas bíblicas, e parece que ele abraçou a castidade.

vovoOs historiadores classificam Paulo III como um típico Papa renascentista. Isso se atribui mais ao fato de que ele continuou a tradição de mecenas artístico dos seus antecessores. Deu emprego a Michelângelo só para ser sacaneado por este. Coisinhas de artista temperamental... Ocorreu que Paulo III não gostou de ver tanta gente pelada na cena do Juízo Final da Capela Sistina, e reclamou. Por conta disso, Michelângelo incluiu a figura do Papa entre os amaldiçoados; pintou-o com orelhas de asno e uma cobra enrolada no corpo. Sutil, o infeliz...

Com relação à sua família, Paulo III seguiu o ditado "farinha pouca, meu pirão primeiro". Nomeou cardeais a dois de seus netos, um de 14 e outro de 16 anos. Por outro lado, fez excelentes escolhas para o Colégio Cardinalício: Gian Carafa, futuro Papa Paulo IV; Reginald Pole, que por pouco não se tornou Papa também; São João Fisher, um dos gigantes defensores da fé na Inglaterra; Giovanni Morone, de grande papel na Contra-Reforma; Marcelo Cervini, futuramente Marcelo II; e Gasparo Contarini, importante reformador leigo.

O CONCÍLIO DE TRENTO (QUE QUASE NÃO SAIU E QUASE NÃO FOI EM TRENTO)

Paulo III tinha o firme propósito de dar uma resposta contundente aos protestantes. Para tanto, ele estabeleceu como necessidade primordial a instalação de um Concílio Geral que, a princípio, seria em Mântua (1537), depois, em Vicenza (1538).

Só que Carlos V não estava muito a fim de desagradar seus barões alemães - que estavam se dando muito bem, obrigado, com as cachorradas de Lutero. O imperador resolveu boicotar até onde pudesse o Papa, impedindo que os bispos alemães e espanhóis, que estavam sob sua esfera de influência, participassem do Concílio. Afinal, Paulo III já era um homem bastante idoso para aqueles tempos e, com sorte, ele morreria e Carlos V poderia manipular os cardeais para colocar alguém mais "mansinho", no Trono de Pedro.

Paulo III também não era do agrado do saco de pancadas imperial, o rei da França Francisco I, sem contar que ambos, Francisco e Carlos, estavam em permanente estado de beligerância. Foram sete anos de enrolação até o inícios dos trabalhos, em 1545.

Nesse meio tempo, Paulo III excomungou Henrique VIII, o rei do bilau guloso (cuja sentença anterior, dada por Clemente VII, havia sido suspensa). O problema é que as nações católicas da Europa, já contaminadas pelo espírito dos tempos e pelo nacionalismo secular, preferiram apoiar as causas de Henrique VIII, no sentido de autodeterminação dos ingleses, afastando ainda mais a Inglaterra da Igreja.

Santo Inácio de Loyola estava em Roma nesse tempo, e em 1540 recebeu de Paulo III a aprovação da Companhia de Jesus, em 27 de setembro de 1540.

concilio_trento

Por fim, em 1542, a 21 de julho, Paulo III funda a Congregação para a Inquisição Romana, com amplos poderes punitivos e de censura (isso para a alegria dos historiadores desocupados que nada mais têm o que fazer, a não ser bradar por aí que as culpas dos males do mundo são da Inquisição, e dos manés que volta e meia vem aqui no blog cantar esse mantra só para nos dar o trabalho de excluir mais um comentário inútil).

Em 1544 foi assinada a Paz de Crépy. França e o Sacro Império Romano-Germânico, enfim, estavam em paz um com o outro. Assim, não havia mais desculpas para enrolação e, conforme sugestão do imperador Carlos V, foi realizado no Norte da Itália, na cidade de Trento, a partir de 13 de dezembro de 1545 o tão aguardado Concílio.

As sete primeiras sessões do concílio abordaram o relacionamento entre as Sagradas Escrituras e a tradição, o pecado original, a justificação e os sete sacramentos. Não demorou a surgirem novas tensões entre a Igreja e o Estado - representados aqui pelas figuras do Papa e do Imperador.

Uma epidemia de tifo fez com que o Papa mudasse a sede do Concílio de Trento para Bolonha. Isso não agradou em nada o Imperador, que proibiu a presença dos bispos alemães e espanhóis. Por conta desse esvaziamento, o Papa suspendeu a oitava sessão em primeiro de fevereiro de 1548. O resultado é que Paulo III não viu seu projeto de Contra-Reforma concluído, passando seus últimos dias resolvendo querelas internas dos Estados Papais.

Faleceu em 10 de novembro de 1549, aos 81 anos, e foi sepultado na Basílica de São Pedro. Seu túmulo é um dos mais bonitos da Basílica.

Continuaremos nossa série sobre a História dos Papas falando de um pontífice que tinha complexo de diva e saudade das baladas dos tempos de Leão X: Júlio III. Até lá!

Fontes:

Burckhardt, Jacob. A Cultura do Renascimento na Itália.

Johnson, Paul. La História Del Cristianismo. Zeta, 2010(Argentina).

McBrien, Richard P. Os Papas. Loyola, 2004.

*****

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664 Terça, 27 Dezembro 2016 19:39

Comentários   

0 # Cadu Sindona 07-06-2015 19:24
O Concílio de Trento foi a maior luz eclesial da Idade Média. Santos homens os padres conciliares. Sobre e o Cardeal Pole Paulo, é verdade que ele, como plantageneta que era, podia reivindicar o trono de Santo Eduardo em Londres? Os Tudor odiaram ele por causa disso não?
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0 # Sidnei 10-06-2015 09:02
O Concílio de Trento foi realizado ainda na Idade Média ou naquilo que muitos dizem que já era a Idade Moderna que inicio em 1453 com a queda de Constantinopla?.
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0 # Cadu Sindona 18-06-2015 20:17
É, já era mesmo o início da Idade Moderna.
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0 # Paulo Ricardo Costa Pinto 09-06-2015 23:38
Ele era visto como uma ameaça permanente meu amigo. Aliás, essas famílias dinásticas eram todas paranóicas. César amarra-se à Terra com tanta força que ficam cegos para as coisas de Deus.
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0 # Cadu Sindona 18-06-2015 20:18
O Cardeal Pole foi um daqueles que presidiu o Concílio.
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0 # Dalvio Machava 02-06-2015 15:07
Cara, Nunca li tanto um blogue como leio "O CATEQUISTA" até faço questão de o recomendar todos os Sabados aos meus catequizandos... Alguns temas Eu faço questão de imprimir para ler no "Chapa" (Transporte público em Moçambique). Partilho e partilho sempre! Vocês até parece que sabem o que Eu quero saber, agora já não me deixo intimidar pelo ermãos... Sempre dou graças a Deus por ter vocês para me ajudarem e encaminhar Khanimambo!!!
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0 # A Catequista 02-06-2015 16:29
Agradecemos muito sua mensagem, Dalvio! Ficamos contentes em ser úteis.
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0 # Tiago 27-05-2015 14:03
Interessante. Não seria melhor mudar ou algo assim o teto da Capela Sistina? Que imbecil, o Michelangelo.
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0 # Paulo Ricardo 27-05-2015 18:05
Michelângelo, segundo alguns biógrafos, era um cara temperamental e dado a ataques de pelanca. Sabe aquele clichês do artista nojento cheio de vontades que se acha? O cara era por aí. Odiava ser contrariado ou criticado.
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0 # Aubrey Byrne 27-05-2015 05:31
Ola amigos. So uma pergunta o retratado nao foi Biagio da Cesena que criticou michelangelo dizendo que "as pinturas eram obscenas como um bordel ?
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0 # Ana Cláudia Marques 31-05-2016 22:58
Foi ele sim. O cara encheu tanto a cabeça de Michelangelo por causa das figuras desnudas na pintura que o pintor resolveu ir à forra colocando-o no meio dos condenados ao inferno. Quando Cesena foi se queixar ao papa*, recebeu a resposta gaiata de que se ele estivesse no purgatório poderia até dar um jeito, mas como estava no andar de baixo... Nada podia fazer. * Será que foi este incidente que deu origem àquela expressão?
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0 # Ronnan Pimenta 27-05-2015 00:14
Ele ter sido eleito bispo antes de ser ordenado sacerdote era como que uma função apenas? Não tinha ainda os poderes que o sacerdócio confere apesar de já ser bispo não, não era bispo como hoje vemos que é o grau máximo da ordenação, é isso?
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0 # Saulo Carmo 27-05-2015 16:05
Acredito que era como um administrador diocesano... Tudo o que fosse necessário ser sacerdote, delegava a algum prelado, ou membro do cabido, mas o que se refere ao governo da diocese ele mesmo realizava.
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0 # Padre Orlando Henriques 27-05-2015 12:32
Pois, parece que antigamente havia, por vezes, muita separação entre ter o OFÍCIO e ter o BENEFÍCIO, como no caso dos abades dos mosteiros: havia o abade que era abade "mesmo", que era quem, de facto, dirigia o mosteiro; e havia o “abade” chamado "abade comendatário", que era, normalmente, um leigo que tinha esse título e que nada mais fazia do que… RECEBER UMA RENDA! o que quase sempre acabava por ser ruinoso para o mosteiro, como era de esperar. Os reis e outros senhores feudais faziam aos seus vassalos essas distribuições de títulos e cargos honorários, com os respectivos rendimentos. Assim, meuitas era um aquele que tinha o título (e o benefício), mas era outro aquele que lá estava a exercer, de facto, o ofício. Só não sei é se terá sido ou não em contornos como estes que Paulo III foi bispo antes de ser sacerdote...
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0 # Paulo Ricardo 27-05-2015 17:59
O nosso Papa aqui visto Padre era, realmente, podre de rico e parte dos seus proventos vinha daquilo que o senhor apontou. Daí tanta guerra entre barões, cardeais, bispos e quetais.
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0 # Paulo Ricardo 27-05-2015 03:42
Sim. Era uma grande confusão, infelizmente. Mas o Espírito Santo agiu e consertou as coisas. No seu tempo. Salve Nosso Salvador e obrigado pelo comentário.Vamos ver isso aos poucos e esclarecendo na medida do possível.
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0 # Sidnei 26-05-2015 19:11
"O resultado é que Paulo III não viu seu projeto de Contra-Reforma concluído, passando seus últimos dias resolvendo querelas internas dos Estados Papais." Eu acredito, e posso estar errado, mas se não tivessem existido estes estados papais, ou tivesse havido, desde o inicio, um estado aos moldes que é o Vaticano hoje, os Papas no passado teria mais tempo de se preocupar com o governo da Igreja em si, e não em questões mundanas, como no governo destes territórios papais.
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0 # Paulo Ricardo 26-05-2015 23:28
Perfeita sua observação Sidnei. Quando os Papas quiseram ser Césares, a Igreja caiu dentro de uma armadilha secular da qual não conseguiu mais sair.
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0 # Rodrigo 26-05-2015 17:06
Não tem como dar um "like"? rs
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0 # Raul Lansing 26-05-2015 14:46
Essa é a beleza da nossa Santa Igreja: não são os homens, pobres pecadores, mas é CRISTO quem atua e vive nela
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0 # Fabão 26-05-2015 14:15
Excelente! Essa série sobre os papas está FELOMENAL! :-) Paulão, só é preciso corrigir um detalhe. No sexto parágrafo você coloca o ano da ordenação do Papa Paulo III em 1519, e no parágrafo seguinte você coloca "...em 1513, três anos antes de sua ordenação...". Seriam seis anos antes, ou essa conversão não foi em 1513? Abração!
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0 # Paulo Ricardo 26-05-2015 23:25
certo, foram seis anos antes. Obrigado pela atenção. Onde está três, leia-se seis.
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0 # Alexandre Fernandes 26-05-2015 13:22
Mais uma vez "O Catequista" apresenta um texto didático, bem humorado e conveniente. Agradecimentos.
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0 # Francildo Medeiros 26-05-2015 12:47
Gostei, o comentarista foi bem realista com os acontecidos naqueles tempos, parabéns...
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0 # Eli Rodrigo 26-05-2015 11:23
Paz e bem Paulo e equipe do catequista. Ótimo post, como sempre. Quando você começou a se interessar pela história da igreja? Há algum curso específico para quem quiser aprender mais, ou até chegar a dar aula?
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0 # Anderson Morais 01-06-2015 12:52
Eu decidi aprender também sobre História da Igreja e comprei a coleção do Daniel-Rops. Não me arrependi.
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0 # Paulo Ricardo 26-05-2015 23:22
Comecei o meu interesse ainda garoto, aumentou muito quando li o livro "O Nome da Rosa" de Umberto Eco, isso por volta de 1987 - tinha eu 15 anos. Quando estava na heresia Rosacruz, meu interesse por história medieval aumentou muito e li o "Malleus Malleficarum" com prefácio da Rose Marie Muraro. É, bem, sei que é muita esquerdice e heresia, mas eu sentia que estava vendo algo errado. E segui em frente. Por isso eu digo: é impossível ser um pesquisador sério da Igreja e não perceber ali a presença do Espírito Santo. Sou autodidata, com relação a cursos sobre o assunto, infelizmente não lhe posso recomendar nada porque nada conheço. Aliás, acho bem melhor pesquisar por conta própria. Não acredito muito em cursos.
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0 # Padre Orlando Henriques 27-05-2015 12:26
Rosa cruz? Tenho que confessar a minha ignorância, mas acho que nunca tinha ouvido falar disso… É uma espécie de maçonaria, certo?
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0 # Paulo Ricardo 27-05-2015 17:55
É sim Padre. A Rosa Cruz ou AMORC (Antiga e Mística Ordem Rosa Cruz) foi fundada por um trambiqueiro no começo do século passado. Tem lojas espalhadas por toda parte e é hoje umas das mais fortes dessas ditas ordens que pululam por aí. É muito doida. Eles se consideram herdeiros da Lemúria e dos conhecimentos atlantes - que, aliás, são os responsáveis pela civilização egípcias. Maior viagem na maionese, não lembro de ter visto.
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0 # Jorge Felippe 26-05-2015 12:25
OLá Eli. Você pode fazer o Mater Ecclesiae, ele não é um curso de história da Igreja, é um curso de introdução à Teologia e tem uma disciplina de história da Igreja. Eu gostei muito do conteúdo da referida disciplina. Se você mora no Rio de Janeiro, procure um núcleo e tente começar por história da Igreja. Um abraço.
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