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Quarta, 18 Janeiro 2017 23:20

O dia em que Martin Luther King fez padres voltarem a usar batina

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No início de 1965, o Pe. Maurice Ouellet, da Congregação Edmundite de Saint Elizabeth, em Selma (Alabama), ouviu uma batida à sua porta. Ao abri-la, viu diante dele ninguém menos do que... Martin Luther King! O pastor lhe disse: "Os negros me disseram que há um homem branco em Selma que é negro, e eu quero conhecê-lo". King estava em meio à histórica campanha para que os negros tivessem direito ao voto. O padre Ouellet foi o primeiro cidadão branco de Selma a apoiar abertamente a campanha. Por conta disso, recebeu vários telefonemas ameaçadores, inclusive de ameaças contra sua vida. maurice_ouellet Em 7 de março de 1965, a polícia atacou de forma brutal os manifestantes pacíficos, impedindo que eles marchassem de Selma à capital do estado, Montgomery. Dezessete negros foram hospitalizados, e uma mulher foi espancada quase até a morte. O episódio ficou conhecido como “Domingo Sangrento” (Bloody Sunday). Pe. Ouellet correu para o Hospital Bom Samaritano e ajudou médicos e enfermeiros a atender as vítimas. Em resposta ao ataque, Luther King ligou para diversos líderes religiosos dos EUA, pedindo para que se unissem a ele na próxima marcha de Selma a Montgomery. Em Chicago, Mathew Ahmann, leigo católico e diretor da Conferência Católica Nacional para a Justiça Interracial, entrou em ação para formar o “bonde” dos católicos. É nóis, mano! Aos sacerdotes, Ahmann dizia: “Coloque seu traje clerical. Se você não o usa mais, procure debaixo de sua cama”. Naquele tempo, muitos padres já haviam abandonado o uso da batina ou camisa clerical. Mas, para que a presença católica fosse distinta e representativa no protesto, era indispensável a força desse símbolo. Veja só que coisa doida: de forma indireta, um pastor batista foi o responsável por fazer padres católicos se vestirem como padres! E o nome do tal pastor, em versão aportuguesada, era "Rei Martinho Lutero". Ah, nada como a História e suas ironias... protesto_selma Mais de 900 padres, freiras e leigos católicos atenderam ao chamado – formando quase um terço do total de manifestantes! Delegações vieram de todas as regiões do país. Só da cidade de Nova York, 32 sacerdotes e sete leigos marcaram presença, com mais dez sacerdotes das quebradas do Brooklyn. Os protestos se seguiram por dez dias, aguardando a autorização do governo para marchar até a capital. As freiras estavam entre as mais animadas! O jornalista de Atlanta, Ralph McGill, ficou emocionado ao vê-las na dianteira do protesto, e relatou: "A presença dos católicos romanos... inspirou o comitê e envergonhou os tímidos”. catolicos_selma A galera estava toda apinhada em frente às TVs, quando o presidente Lyndon Johnson declarou que enviaria ao Congresso o projeto de lei de direitos de voto. Gritos, lágrimas, palmas, cantos e louvores explodiram entre os manifestantes! Em 17 de março de 1965, um juiz federal autorizou a marcha para Montgomery. Cerca de 3 mil manifestantes partiram de Selma, e um deles merece uma citação especial: Jim Letherer, ativista do Conselho Interracial Católico de Michigan. Ele andou cerca de 86 quilômetros de muletas, com uma perna só! Não é lindo de chorar? jim_letherer Infelizmente, o Arcebispo de Mobile, Thomas Toolen, era contra o envolvimento dos católicos com as manifestações de Selma, e mandou o padre Ouellet embora da cidade. Os paroquianos de Saint Elizabeth apelaram ao bispo, mas ele manteve a decisão. Em 27 de junho de 1965, Pe. Maurice Ouellet se despediu do povo de Selma. Humilde e sábio, aconselhou sua congregação a permanecer fiel ao bispo e a evitar a raiva: "Tudo o que fazemos, devemos fazer com o amor. Como pessoa e indivíduo, eu importo muito pouco. No entanto, a Igreja importa, e importa estarmos em acordo”. Falou tudo, Pe. Maurice Ouellet! E por falar em acordo... Toda essa história mostra que católicos e protestantes podem se unir em torno de causas comuns. Atividades pró-vida, luta contra a ideologia de gênero nas escolas, ações de socorro aos pobres etc. É o que o Papa Francisco chama de "cultura do encontro". Fonte: National Catholic Reporter e Irish Central

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É apressado e, talvez, muito injusto julgar o Arcebispo Toolen como um vilão. Ele sempre foi um homem dedicado à causa da igualdade racial e, nesse sentido, ajudou a comunidade negra a obter muitos avanços. Toolen abriu várias igrejas, orfanatos, hospitais e outras instituições destinadas exclusivamente aos negros, a ponto de os racistas o chamarem de "o bispo negro". Em 1950, supervisionou a construção do Hospital São Martinho de Porres, que foi o primeiro hospital no Alabama onde médicos negros e brancos podiam trabalhar lado a lado. Ele também convenceu um hospital a se tornar o primeiro no Alabama a atender gestantes negras. Em 1964, Toolen deu fim à segregação racial em escolas católicas na diocese. Então, o que o levou a se opor à participação de católicos nas manifestações pelos Direitos Civis? Bem, pelas suas cartas, podemos ver que ele temia que os padres da Congregação Edmundite fossem assassinados. Também deve-se considerar a sua idade: como um homem mais velho, ele era profundamente apegado a ideia de obediência às autoridades - e os protestos de Selma não eram permitidos pela lei.

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1299 Terça, 07 Fevereiro 2017 16:46

Comentários   

+1 # Paulo 08-02-2017 12:12
Obrigado por este texto, ótimo exemplo de união de católicos e protestantes para um objetivo comum e cristão. Precisamos deixar as diferenças de crença de lado NESTES CASOS para uma união na definição dos rumos que o país toma. Deus abençoe o ministério de vocês.
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0 # Karina 31-01-2017 16:49
Que texto delicioso de ler! Obrigada, turma d´O Catequista!
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0 # Rivaldo Roberto Ribeiro 26-01-2017 00:27
Como faço para publicar isso no meu blog? pois é lindo. É uma questão que muitas vezes pego no pé dos padres mornos que temos hoje em dia. Aqui na minha cidade tem um padre que prefere citar no FaceBook escritores de literatura do que a literatura da Bíblia para evangelizar, pois esse é sua missão. Na minha cidade se conhece um padre apenas na Missa, pois na rua eles andam com homens normais e muitas vezes como boys.
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0 # A Catequista 29-01-2017 10:37
Rivaldo, pode publicar este texto no seu blog, basta citar e fonte e colocar o link para o nosso blog.
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0 # Sidnei 21-01-2017 22:20
Gostaria de saber quando Hollywood vai fazer um filme sobre esta história?, pois fazer filmes para detonar a Igreja Católica, como spolin segredo revelados, eles sabem, fazer filmes que colocam os católicos como vilões, eles sabem, agora fazer um filme em que mostra católicos, que juntamente com as igrejas protestantes nos Estados Unidos lutaram contra a segregação racial, isto eles fazem de conta que não enxergam e nem escutam, se faze de cegos e surdos, pois para eles o lance é atacar a Igreja Católica o resto é resto. A partir dos momento que os católicos começarem a boicotar filmes que atacam a Igreja Católica, aí pode ser que eles comecem a enxergar e escutar alguma coisa.
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0 # Fran 20-01-2017 22:56
No contexto do post, existiu o que deveria existir hoje no Brasil: uma união forte entre católicos e protestantes contra o aborto, contra a ideologia de gênero, o politicamente correto, e a favor do homeschooling, do fortalecimento da família.
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0 # Lenny 20-01-2017 19:38
Ola ! Parabéns pelo trabalho lindo , sempre coloco vocês em minhas orações , graças a este site venho "desenjujubando"minha cabeça significativamente. Gostaria de saber se preciso de um programa especifico para acessar o player dos catolicast , não estou conseguindo. Desde já obrigada.
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0 # Ana Cássia 20-01-2017 13:25
Realmente um belo episódio, um belo "achado" do blog, uma bela reflexão. Incrível também pensar que toda essa realidade de segregação racial é tão recente :/
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0 # Juliana 20-01-2017 07:22
Emocionante! Obrigada por mais um texto genial!
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0 # Marcio Monteiro 19-01-2017 12:28
Olá turma "afiada" de "O CATEQUISTA"! Mais um ótimo, histórico e esclarecedor artigo de vocês. Parabéns! Mas por favor, não querendo ser chato, mas já sendo, vocês que falam tanto, e com razão, da ditadura do relativismo nos dias de hoje, da praga do "politicamente correto", pelo amor de DEUS, não se igualem aos adeptos destas ideias nefastas! Porque digo isso? Bem, sei, é claro, que vocês não partilham destes "ideais", mas, como diz o velho ditado, "a mulher de César não basta ser honesta. Tem que parecer honesta também". Sendo assim, para que vocês escreverem neste texto missão "afro-americana"? (certamente não era assim que tal missão se intitulava, pois naquela época não tínhamos o tal "politicamente incorreto"). Ora "afro-americano" é um termo "politicamente correto" até a medula! Então agora vamos nos referir aos brancos como euro-americanos? Por favor, parem com isso!! Somos brancos, negros, amarelos, mestiços, etc, como no próprio texto vocês escreveram também. Quanto aos padres americanas voltarem a usar camisa clerical e batina, hummmm.....bem, não sei se era assim naquela parte do país, mas, de qualquer forma, mesmo depois do Vaticano II, pelo menos os padres americanos, em sua maioria, sempre foram fiéis aos trajes clericais, e confesso, achei estranho esta menção no texto. Aliás, até hoje eles só andam na "estica". Bom já falei (digo, escrevi) demais. Um abraço turma boa!!
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0 # A Catequista 19-01-2017 12:58
Tem razão, vamos ajustar. Obrigada!
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0 # roberta fernanda 19-01-2017 12:04
Nossa!!! Esse texto eh jóia msm.. Muito enriquecedor..
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0 # Carol Ribeiro 19-01-2017 01:15
Que pérola esse texto! Cada vez mais apaixonada pelo site... devorando tudo, pois só o conheci agora. Parabéns aos Catequistas e ao Historiador! Deus os abençoe!
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0 # A Catequista 19-01-2017 11:26
Obrigada, Carol! Deus te abençoe tb!
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