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Quarta, 02 Novembro 2016 12:35

O Céu não é lugar de vadiagem

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Diante da morte de alguém, é comum a gente ouvir aquela frase batida: “Bem, ao menos agora ele(a) descansou!”. Certo, é uma tentativa gentil de ver o lado bom das coisas. Porém, o que a Tradição da Igreja nos ensina sobre a morte não tem nada a ver com este conceito de feriado eterno.

Sabe aquela imagem do pessoal lá no Céu fiscalizando a natureza, pulando de nuvenzinha em nuvenzinha, tocando harpa... Esquece! O bicho tá pegando aqui embaixo, imagina se o povo lá ia ficar de braços cruzados?!

No Antigo Testamento, podemos ver que Deus ainda não havia revelado aos hebreus que as pessoas permanecem conscientes após a morte. Então, eles imaginavam que os defuntos estavam como que adormecidos.

"Com efeito, os vivos sabem que hão de morrer, mas os mortos não sabem mais nada; para eles não há mais recompensa, porque sua lembrança está esquecida. Tudo que tua mão encontra para fazer, faze-o com todas as tuas faculdades, pois que na região dos mortos, para onde vais, não há mais trabalho, nem ciência, nem inteligência, nem sabedoria." (Ecle 9,5;10)

"Os mortos já não louvam a Javé, nem os que descem ao lugar do silêncio." (Sl 115,17)

Também no Novo Testamento o termo “dormir” é associado em diversas passagens à morte, até mesmo por Jesus: “Lázaro, nosso amigo, dorme, mas vou despertá-lo” (Jo 11,11). Porém, olhando o Evangelho como um todo, fica evidente que a nossa alma fica bem espertinha lá do outro lado:

  • Na Parábola do Rico e o Lázaro, Jesus mostra a alma desses personagens – um no Inferno e outro no Céu – conversando normalmente (Lc 16,22-24);
  • Na cruz, o bom ladrão recebe a promessa de que, ainda naquele dia, estaria com o Senhor no Paraíso (Lc 23,43);
  • São Paulo diz que deseja morrer para “estar com Cristo” (Fil 1,23);
  • Em sua visão do Apocalipse, São João viu as almas dos santos mártires, que “clamavam em alta voz” por justiça (Apo 6,9-10).

mj3E aí, depois de morrer, já sabe: é seguir rumo ao Céu, ao Inferno ou ao Purgatório. Quanto às almas do Inferno, destas não vamos tratar agora, pois não fazem parte do tema que queremos abordar: a Comunhão dos Santos.

O termo “santos” não se refere aqui aos que alcançaram a santidade, mas sim a todos os membros do Corpo Místico de Cristo, isto é, da Igreja. Fazem parte deste Corpo:

  • a Igreja Militante, que são todos os membros vivos;
  • a Igreja Padecente, isto é, as almas que se purificam no Purgatório;
  • e a Igreja Triunfante, que são os santos propriamente ditos, canonizados ou não.

A rede de amor e solidariedade entre os membros destas três “igrejas” é a chamada de Comunhão dos Santos.

De modo geral, todos aqueles que creem no Cristo estão, de alguma forma, ligados a Jesus e aos membros da Sua Igreja. É claro que essa união nem sempre é perfeita, e o grau de comunhão de cada um varia conforme a sua vivência da Fé Católica. Uma pessoa que esteja em pecado mortal, por exemplo, participa de modo muito precário desta comunhão. Não vamos nos deter sobre os casos excepcionais (ah, e aqueles que não têm fé no Cristo e na Igreja, como ficam?), veremos isso em outro post.

Os sacramentos são o principal meio pelo qual se estabelece o vínculo sobrenatural entre os vivos e os mortos, como ensina o Catecismo da Igreja Católica:

"§950 A comunhão dos santos é a comunhão operada pelos sacramentos... O nome comunhão pode ser aplicado a cada sacramento, pois todos eles nos unem a Deus... Contudo, mais do que a qualquer outro, este nome convém à Eucaristia, porque é principalmente ela que consuma esta comunhão."

Nós os vivos devemos viver a caridade: socorrer-nos mutuamente, compartilhando as alegrias e os dons, ofertando os sofrimentos, aceitando as nossas cruzes sem revolta. Além disso, com nossas boas obras, orações e sacrifícios, podemos ajudar o pessoal que está penando no Purgatório a sair de lá mais rapidamente. Assim, você pode fazer o bem e aliviar o sofrimento de uma pessoa que nem conhece e que mora lá na China, ou até mesmo consolar a alma de um falecido.

Por sua vez, os santos e beatos que habitam o Céu podem dar uma mãozinha pra nós aqui na Terra, pois méritos eles têm de sobra! Por isso, um santo que morreu há 1500 anos pode te ajudar hoje a sair da maior roubada, como se fosse o teu camarada mais próximo.

A galera que conquistou a glória está longe de viver uma vida de sombra e água fresca. Tudo indica que Eles trabalham duro junto ao Pai pela salvação de todos, dando continuidade no Céu à missão que exerciam na Terra. Santa Teresinha do Menino Jesus era bem clara sobre os seus planos para a vida depois da morte: “Vou passar o meu céu fazendo o bem na terra!".

O dia de Finados nos lembra esse mistério maravilhoso: a nossa irmandade em Cristo é tão forte que nem a morte ou a distância podem nos separar.

*****

Para a elaboração deste post (publicado originalmente em 02/11/2011), exploramos a boa-vontade do nosso amigo Cadu Sindona, que nos enviou o resultado de suas pesquisas sobre o tema. Valeu, Cadu!

668 Domingo, 23 Abril 2017 22:44

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Comentários   

0 # João Pedro Strabelli 04-11-2016 09:50
Não é exatamente sobre o tema deste tópico que vou falar, mas senti vontade. Ou necessidade. É sobre o santo desconhecido. Aquele que você não conhece, nunca foi canonizado, viveu ao lado de quem até achava ele legal, mas nunca imaginou que era tão bom e quando chegou no céu foi recebido muito bem poder Jesus e por Nossa Senhora porque fez tudo o que Deus quis dele, quietinho e humilde no seu canto. Ou suportou o que tinha que suportar, por amor a Deus. Pra mim o maior modelo deste santo desconhecido é São José. Eu sei que ele é conhecido, mas é que não tinha jeito de contar o nascimento de Jesus sem falar dele. Mas qual palavra dele está na Bíblia? Se dependesse dele próprio, que era justo, jamais saberíamos que ele existiu. Só pra lembrar, Maria confiou nele e Jesus confiou nele; precisa de mais do que isso? A maioria destes santos não vai ver nem participar de nenhum milagre em sua vida terrena. A gente costuma se encantar com milagres e assim que alguém é tido como santo, procuramos logo algo fora do normal que ele fez. Isso costuma ter um pequeno efeito colateral, a gente acaba não prestando atenção que santidade é outra coisa, é o amor a Deus e a tentativa de fazer somente a vontade d’Ele. E uma última coisa: estes santos são muito amados por Deus. Mas é muito difícil a gente perceber isso, a gente se foca em detalhes extraordinários e o amor está dentro do coração. É por isso que tem uma infinidade de santos que jamais conheceremos daqui da terra; ou, se conhecermos, não vamos reparar. Aquele mendigo, a varredora da rua, o inexpressivo funcionário do banco que mantém escondidinha a imagem de Nossa Senhora (porque o dono do banco é laico, acha que o mundo deve ser ateu mas o funcionário não abandona sua fé), até aquela prostituta, aquele drogado, o cara da farmácia… Enfim, da mesma forma que tem tranqueira de todo lado, também tem santo. Ou nosso mundo já teria acabado. Tudo isso daí que falei, na verdade, é porque não consigo esquecer o caso do padre Jacques Hamel, aquele sacerdote idoso que foi degolado dentro de uma Igreja na França, logo depois da comunhão. Eu senti quando fiquei sabendo do caso, mas não fiquei chocado. Infelizmente a gente vai se acostumando à barbárie, de tanto ouvir notícias horríveis, que a gente até sente, mas isso não abala tanto quanto deveria. O que me deixou parado foi quando li que ele disse que não ia se aposentar e que trabalharia até seu último suspiro. Lembro que fiquei um bom tempo vendo esta frase na tela do computador. Meu cérebro tinha entendido a coisa, mas para sentir e ter noção completa daquilo eu gastei um bom tempo. A primeira coisa que consegui pensar, e acho que foi mais sentir do que pensar, é que ele devia ser muito amado por Deus. Só pode. Afinal, Deus permitiu que ele cumprisse exatamente o que tinha dito: trabalhar até o último suspiro. Mais, permitiu que seu último suspiro fosse exatamente depois da comunhão, não tirou ele nem antes nem depois de sua função, mas no cumprimento dela. E mais ainda, permitiu que fosse o primeiro religioso mártir do século em solo europeu. Não é possível outra interpretação, Deus amava demais aquele padre velhinho. Quem conhecia Jacques Hamel antes? Ele era o bom e calmo padre que nunca ninguém reparou direito. E quem lembra dele hoje? Não houve comoção na França por causa dele, não se bombou na internet um Je suis Jacques Hamel, e como morreu só ele, o caso já está esquecido. Não sei se ele vai ser canonizado. Sei que existem normas e procedimentos e até que muita gente faz burrada na vida e podem encontrar alguma dele, mas no momento pro meu coração ele já é. Assim como milhares de outros.
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0 # Geraldo 08-11-2016 22:04
Ah João Pedro, o silêncio por vezes é tão eloquente!Eu não sinto que São José pega carona na narrativa do nascimento de Jesus (se é isso que você quis dizer). Para mim ele tem um lugar todo dele, todo especial no Evangelho. Nossa cultura tão verborrágica, por vezes não faz a devida leitura dos gestos e do silêncio. Mas a Sagrada Escritura menciona alguns personagens de um modo que parece ligeiro e casual, mas perfeitamente coerente com a lógica surpreendente de Deus: "Onde está o sábio? Onde está o escriba? Onde está o inquiridor deste século? Porventura não tornou Deus louca a sabedoria deste mundo?Mas Deus escolheu as coisas loucas deste mundo para confundir as sábias; e escolheu as coisas fracas deste mundo para confundir as fortes (...) E Deus escolheu as coisas vis deste mundo, e as desprezíveis, e as que não são, para aniquilar as que são; Para que nenhuma carne se glorie perante ele. 1 Coríntios 1:20,27-29 Nessa lógica de Deus, tanto a vida de José quanto a de Maria, são eloquentes mensagens evangelizadoras EXATAMENTE por causa do silêncio e da simplicidade. E a igreja sempre souber ler e interpretar o que Deus quis nos comunicar através desse silencioso testemunho de santidade. Tanto é assim que considera São José o seu patrono universal e dedica a ele duas festas anuais. "A vós, São José, recorremos em nossa tribulação e, depois de ter implorado o auxílio de vossa santíssima esposa, cheios de confiança solicitamos também o vosso patrocínio. Por esse laço sagrado de caridade que vos uniu à Virgem Imaculada, Mãe de Deus, e pelo amor paternal que tivestes ao Menino Jesus, ardentemente suplicamos que lanceis um olhar benigno sobre a herança que Jesus Cristo conquistou com Seu sangue, e nos socorrais em nossas necessidades com o vosso auxílio e poder. Protegei, ó guarda providente da divina família, a raça eleita de Jesus Cristo. Afastai para longe de nós, ó pai amantíssimo, a peste do erro e do vício. Assisti-nos do alto do céu, ó nosso fortíssimo sustentáculo, na luta contra o poder das trevas e assim como outrora salvastes da morte a vida ameaçada do Menino Jesus, assim também defendei agora a Santa Igreja de Deus das ciladas de seus inimigos e de toda a adversidade. Amparai a cada um de nós com o vosso constante patrocínio, a fim de que, a vosso exemplo e sustentados com o vosso auxílio, possamos viver virtuosamente, morrer piedosamente, e obter no céu a eterna bem-aventurança. Assim seja. _______________ Agora santos anônimos eu conheci alguns. Talvez uns cinco ou seis.Certa vez, meu pároco, na missa de Todos os Santos, disse o seguinte à comunidade durante a homilia: "Levante a mão, quem conhece algum santo pessoalmente." Pouquíssimas mãos se levantaram e ele então falou: "É muito triste que não saibamos perceber o quanto Deus fala conosco nas atitudes e na vida dos nossos irmãos. É triste que não saibamos perceber que Cristo está vivo aqui e agora, e transforma vidas, com sua graça!" Sensibilidade para perceber o perfume de Cristo. Precisamos desenvolver isso.
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0 # João Pedro Strabelli 09-11-2016 21:05
Oi, Geraldo Que bom ler um comentário seu novamente. Realmente o que eu quis dizer não tem nada a ver com carona. Acho que não me expressei direito e nem sei se consigo, mas para mim, se dependesse do próprio São José, o nome dele não apareceria lá. Nenhum justo se vangloria e nenhum justo gosta de se ver elogiado. Não sei se é isso, mas é assim que sinto. Gostei demais disso que seu pároco fez. Vou pensar muito nisso.
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0 # Paulo Cesar 04-11-2016 01:32
Olá Fernanda. Segue uma transcrição parcial do video do Padre Júlio Gritii (Link no final do texto) arespeito das indulgências. Creio que em nossas igrejas e nos cursos de formação raramente se fala sobre isso. Somente há poucos anos tomei conhecimento desse assunto Indulgências (Padre Júlio Gritti – Missionárias do Amor Misericordioso do Coração de Jesus) O Papa Paulo VI no dia 14 de junho de 1968 com o decreto da Sagrada Penitenciaria Apostólica aprovou o novo Manual das Indulgências: I. O que são as indulgências? Indulgência é a remissão, o perdão diante de Deus das penas temporais do pecado já perdoados quanto à culpa a nossa disposição e das almas do Purgatório que o fiel, devidamente disposto pelo cumprimento de certas condições, alcança por meio da Igreja, a qual, como dispensadora da redenção, distribui e aplica com autoridade o tesouro das satisfações, isto é, dos méritos infinitos de Cristo e dos santos. Quer dizer que quando morremos, caso não tenhamos pago todas as penas merecidas por nossos pecados, devemos pagá-las no Purgatório, visto que para o Céu somente podem ir os sem pecado e sem pena. A Indulgência Plenária apaga toda a pena que a alma ainda tem para pagar, ou seja, se uma alma que está no Purgatório teve uma indulgência plenária sai imediatamente para o Paraíso. Será certamente a maior obra de caridade que podemos fazer por ela. As indulgências plenárias somente podem se ganhar 1 vez ao dia, exceto em artigo de morte, quando pode ganhá-la mesmo já tendo ganhado uma no mesmo dia. Ganha indulgência plenária também o fiel que usa devotamente um objeto de piedade: um terço, crucifixo, escapulário, medalha etc, benzidos por um padre ou diácono, mas se for benzida pelo Papa ou um bispo pode ganhar também uma indulgência plenária no dia da festa dos apóstolos São Pedro e São Paulo, acrescentando, porém, qualquer forma legítima como o Credo. II. Quem pode ganhar a Indulgência Plenária? Para ganhá-la, requer-se o cumprimento da obra indulgenciada e das três condições seguintes: 1 – Confissão sacramental; 2 – Comunhão eucarística e 3 – Oração segundo as intenções do Papa Além disso, é necessário que não exista nenhum afeto por qualquer pecado, mesmo venial. Podem-se ganhar várias indulgências plenárias por uma só confissão sacramental, mas com uma só comunhão eucarística e uma única oração segundo as intenções do Santo Padre só pode ganhar-se 1 indulgência plenária. As 3 condições podem ser cumpridas vários dias antes ou depois de realizada a obra prescrita. Convém, no entanto, que a comunhão e a oração segundo as intenções do Papa se façam no mesmo dia em que se realiza a mesma obra. Se faltar a plena disposição (não se cumprir todas as condições indicadas, ou não houver desprendimento de todos os pecados, mesmo dos veniais) – salvo o prescrito que permite aos confessores de comutarem qualquer obra prescrita, àqueles que legitimamente as estejam impedidos de as cumprir – as indulgências serão apenas parciais. A condição de rezar pelas intenções do Sumo Pontífice fica plenamente cumprida rezando-se 1 Pai Nosso e 1 Ave Maria. Podem, todavia, os fiéis rezarem qualquer outra oração segundo a devoção e piedade de cada um. III. Quando podemos ganhar a indulgência plenária? Uma vez por dia nestas ocasiões (desde que cumpridas as 3 condições apresentadas anteriormente): 1. Adoração ao Santíssimo Sacramento por pelo menos meia hora; 2. Rezando o terço na igreja, ou em família, ou na comunidade; 3. Fazendo a leitura das Sagradas Escrituras por ao menos meia hora; 4. Visitar um cemitério entre o dia 1 de novembro ao meio dia ao dia 2 de novembro à meia noite pela intenção dos defuntos; 5. Visitar um cemitério entre 1 e 8 de novembro rezando pelas intenções dos defuntos (pode-se ganhar 1 indulgência plenária em cada um dos 8 dias); 6. Participando de uma missa solene de uma primeira comunhão, ou a 1ª. missa de um sacerdote, ou de um jubileo sacerdotal de 25, 50 ou 60 anos; 7. Renovando as promessas do batismo durante a vigília pascal no Sábado Santo; 8. Adorando a Santa Cruz durante a cerimônia solene da 6ª feira Santa; 9. Recebendo a benção do Papa, mesmo que seja recebida pelo rádio ou pela televisão; 10. Na hora da morte o morimbundo pode ganhar a indulgência plenária beijando a Cruz, contanto que tenha rezado alguma vez na sua vida; 11. Passando pela Porta Santa, no Ano Santo ou Ano da Misericórdia (jubileo extraordinário). Em anos jubilares, além da confissão e oração pelo Papa, é necessário fazer também um ato de misericórdia (*), ou um ato penitencial, ou um ato de piedade e passar pela Porta Santa (Confissão + Oração pelas intenções do Papa + Um ato de misericórdia, ou penitência, ou caridade + passar pela Porta Santa). Prazo: 20 dias para cumprir as condições (em estado de graça) (*) Consultar as 14 obras de misericórdia da Santa Igreja: 7 espirituais e 7 corporais https://www.youtube.com/watch?v=-kK1ayrR6z0
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0 # Fernanda Gomes Alves 04-11-2016 10:39
Obrigada pelo esclarecimento Paulo César. Deus abençoe!
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0 # Paulo Cesar 03-11-2016 23:52
Seguem, como contribuição algumas referências sobre o Purgatório: "é preciso tirar mais consolação do que temor do pensamento do Purgatório" (São Francisco de Sales) Desde os primórdios a Igreja acredita na purificação das almas após a morte, e chama este estado, não lugar, de Purgatório. Este conceito doutrinário é, para nós católicos uma exigência da razão e mesmo da caridade de Deus por nós e foi formulado, principalmente, nos concílios de Florença (1438-1445) e de Trento (1545- 1563). O Catecismo da Igreja Católica (CIC) ensina: no. 1030: “Aqueles que morrem na graça e na amizade de Deus, mas imperfeitamente purificados, estão certos da sua salvação eterna, todavia, sofrem uma purificação após a morte, a fim de obter a santidade necessária para entrar na alegria do céu”. no. 1031: "A Igreja chama de purgatório esta purificação final dos eleitos, purificação esta que é totalmente diversa da punição dos condenados”. Este estado de purificação está amparado nas Sagradas Escrituras: 1 - Mt 12,31: “Por isso vos digo: todo pecado e blasfêmia serão perdoados aos homens, mas a blasfêmia contra o Espírito Santo, não será perdoada nem neste século (neste mundo) nem no século futuro (mundo futuro)”. Nesta afirmação está implícito que há pecados que serão perdoados no mundo futuro. O pecado contra o Espírito Santo, ou seja a pessoa que recusa, de todas as maneiras, os caminhos da salvação, não será perdoado nem neste mundo, nem no mundo futuro. 2 – 2Mc 12, 39-45 (Obs: Os livros Macabeus I e II não constam da Bíblia Protestante): Narra-se aí que alguns soldados judeus foram encontrados mortos num campo de batalha, tendo debaixo de suas roupas alguns objetos consagrados aos ídolos, o que era proibido pela Lei de Moisés. Então Judas Macabeus mandou fazer uma coleta para que fosse oferecido em Jerusalém um sacrifício pelos pecados desses soldados . “Então encontraram debaixo da túnica de cada um dos mortos objetos consagrados aos ídolos de Jâmnia, coisas proibidas pela Lei dos judeus. Ficou assim evidente a todos que haviam tombado por aquele motivos… puseram-me em oração, implorando que o pecado cometido encontrasse completo perdão… Depois [Judas] ajuntou, numa coleta individual, cerca de duas mil dracmas de prata, que enviou a Jerusalém para que se oferecesse um sacrifício propiciatório. Com ação tão bela e nobre ele tinha em consideração a ressurreição, porque, se não cresse na ressurreição dos mortos, teria sido coisa supérflua e vã orar pelos defuntos. Além disso, considerava a magnífica recompensa que está reservada àqueles que adormecem com sentimentos de piedade. Santo e pio pensamento! Por isso, mandou oferecer o sacrifício expiatório, para que os mortos fossem absolvidos do pecado”. Neste caso, vemos pessoas que morreram na amizade de Deus, mas com uma incoerência, que não foi a negação da fé, já que estavam combatendo no exército do povo de Deus contra os inimigos da fé. Cometeram uma falta que não foi mortal. 3 – Com base nos ensinamentos de São Paulo, a Igreja entendeu também a realidade do Purgatório. Em 1Cor 3,12, ele fala de pessoas que construíram sobre o fundamento que é Jesus Cristo, utilizando uns, material precioso, resistente ao fogo (ouro, prata, pedras preciosas) e, outros, materiais que não resistem ao fogo (palha, madeira). São todos fiéis a Cristo, mas uns com muito zelo e fervor, e outros com tibieza e relutância. E S. Paulo apresenta o juízo de Deus sob a imagem do fogo a provar as obras de cada um. Se a obra resistir, o seu autor “receberá uma recompensa”; mas, se não resistir, o seu autor “perderá a recompensa ”, mas não será a condenação; pois o texto diz explicitamente que o trabalhador “se salvará, mas como que através do fogo” O fogo neste texto tem sentido metafórico e representa o juízo de Deus. 4 – Lc 12,45-48: ”Mas, se o tal administrador imaginar consigo: ‘Meu senhor tardará a vir’. E começar a espancar os servos e as servas, a comer, a beber e a embriagar-se, o senhor daquele servo virá no dia em que não o esperar (…) e o mandará ao destino dos infiéis. O servo que, apesar de conhecer a vontade de seu senhor, nada preparou e lhe desobedeceu será açoitado com numerosos golpes. Mas aquele que, ignorando a vontade de seu senhor, fizer coisas repreensíveis “será açoitado com poucos golpe.” É uma referência clara ao que a Igreja chama de Purgatório. Após a morte, portanto, há um “estado” onde os “pouco fiéis” haverão de ser purificados. 5 – Lc 12, 58-59: “Ora, quando fores com o teu adversário ao magistrado, faze o possível para entrar em acordo com ele pelo caminho, a fim de que ele não te arraste ao juiz, e o juiz te entregue ao executor, e o executor te ponha na prisão. Digo-te: não sairás dali, até pagares o último centavo.” Ou seja, Jesus ensina que devemos sempre entrar “em acordo” com o próximo, pois caso contrário, ao fim da vida seremos entregues ao juiz (Deus), Que nos colocará na “prisão” (Purgatório); dali não sairemos até termos pago à justiça divina toda nossa dívida, “até o último centavo”. Mas um dia haveremos de sair. A condenação neste caso não é eterna. A mesma parábola está em Mt 5, 25-26: “Assume logo uma atitude reconciliadora com o teu adversário, enquanto estás a caminho, para não acontecer que o adversário te entregue ao juiz e o juiz ao oficial de justiça e, assim, sejas lançado na prisão. Em verdade te digo: dali não sairás, enquanto não pagares o último centavo” . A chave deste ensinamento se encontra na conclusão deste discurso de Jesus: “serás lançado na prisão”, e dali não se sai “enquanto não pagar o último centavo”. 6 – A Passagem de São Pedro 1Pe 3,18-19; 4,6, indica-nos também a realidade do Purgatório:”Pois também Cristo morreu uma vez pelos nossos pecados (…) padeceu a morte em sua carne, mas foi vivificado quanto ao espírito. É neste mesmo espírito que ele foi pregar aos espíritos que eram detidos na prisão, aqueles que outrora, nos dias de Noé, tinham sido rebeldes (…).” Nesta “prisão” ou “limbo” dos antepassados, onde os espíritos dos antigos estavam presos, e onde Jesus Cristo foi pregar durante o Sábado Santo, a Igreja viu uma figura do Purgatório. O texto indica que Cristo foi pregar “àqueles que outrora, nos dias de Noé, tinham sido rebeldes”. Temos, portanto, um “estado” onde as almas dos antepassados aguardavam a salvação. Não é um lugar de tormento eterno, mas também não é um lugar de alegria eterna na presença de Deus, não é o céu. É um “lugar” onde os espíritos aguardavam a salvação e purificação comunicada pelo próprio Cristo. Todo homem foi criado para participar da felicidade plena de Deus (CIC, no.1) e gozar de sua visão face-a-face. Mas, como Deus é "Três vezes Santo", como disse o Papa Paulo VI, e como viu o profeta Isaías (Is 6,8), não pode entrar em comunhão perfeita com Ele quem ainda tem resquícios de pecado na alma. A Carta aos Hebreus diz que: "sem a santidade ninguém pode ver a Deus" (Hb 12, 14). Então, a misericórdia de Deus dá-nos a oportunidade de purificação mesmo após a morte. Devemos entender, então, que o Purgatório, longe de ser castigo de Deus, é graça da sua misericórdia paterna. O ser humano carrega consigo uma certa desordem interior, que deveria extirpar nesta vida; mas quando não consegue, isto leva-o a cair novamente nas mesmas faltas. No purgatório essa desordem interior é totalmente destruída, e a alma chega à santidade perfeita, podendo entrar na comunhão plena com Deus, pois, com amor intenso a Ele, rejeita todo pecado. O purgatório não é de fogo terreno, já que a alma, sendo espiritual, não pode ser atingida por esse fogo. No purgatório a alma vê com toda clareza a sua vida tíbia na terra, o seu amor insuficiente a Deus, e rejeita agora toda a incoerência a esse amor, vencendo assim as paixões que neste mundo se opuseram à vontade santa de Deus. Neste estado, a alma se arrepende até o extremo de suas negligências durante esta vida; e o amor a Deus extingue nela os afetos desregrados, de modo que ela se purifica.
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0 # Fernanda Gomes Alves 03-11-2016 10:45
Ótimo post Catequista! O dia de ontem ressaltou uma questão a qual eu não tenho muito conhecimento. A questão das indulgências. Queria saber como funciona, quando pode-se fazer, para quem elas são válidas e tudo mais. Vocês poderiam sanar as minhas dúvidas? Deus abençoe!
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0 # Dias 03-11-2016 11:16
Não é argumento dos evangélicos,a bíblia não dá respaldo a intercessão de mortos.
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0 # Sidnei 03-11-2016 13:13
A Bíblia não dá respaldo a intercessão dos mortos?. Bem dos mortos espiritualmente no inferno não da mesmo, mas dos mortos corporalmente mas bem vivinhos espiritualmente nos céus, dá respaldo e sobra. Talvez não dê nas bíblias protestante, mas aí é um problema dos protestantes, que se apegam a letra mas não ao espírito, quando sabemos que a letra mata, mas é o Espírito quem da a vida.
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0 # DIAS 03-11-2016 20:42
Em qual livro e versículo está escrito? tirando os livros espúrios a bíblia é a mesma, não tem essa conversa de "bíblia protestante"o fato de não se apegar a letra não significa ignora-la totalmente.
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0 # Sidnei 04-11-2016 07:58
Correção: A onde se diz: "antes do anos 100 a.c" o correto é: "antes do ano 100 d.c
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0 # Sidnei 03-11-2016 21:43
Quais livros espúrios, você está falando dos deuterocanônicos? Querido, tais livros não são espúrios, se fossem, desde que a Igreja estabeleceu o cânon das Sagradas Escrituras elas não se encontrariam lá, que estabeleceu como espúrios forma os judeus do Concílio de Jamnia antes do anos 100 a.c., mas aí foi a autoridade judaica que fizeram isto, mas nós não seguimos autoridade judaica alguma, seguimos aqueles a quem JESUS deu autoridade para confirmar na fé todos os irmãos, e esta autoridade esta na Igreja na pessoa do Papa, e foi a Igreja quem confirmou os deuterocanônicos como livros sagrados, portanto seguimos a autoridade da Igreja e não dos judeus, se vocês protestantes querem seguir a autoridade dos judeus, que sigam, mas nós seguiremos da Igreja pois esta vem de CRISTO. "Em qual livro e versículo está escrito? " Querido, você quer algo do tipo: "Lá no céu, Maria roga por nós diante de seu filho JESUS", pois é não tem, que pena, mas quero que você me mostre com todas as letras algo dizendo: "EU JESUS sou DEUS" lesse bem?, quero assim, não pode ser diferente, mas como eu coloquei, e também quero algo assim "JESUS disse, ide levai o evangelho escrevendo tudo que eu disse, e depois dai ao povo que leiam, e assim serão meus discípulos", e também outra que diz: "É a Bíblia coluna e sustentáculo da Verdade". Depois de tudo isto, eu te mostrarei não só um capítulo e versículo que se baseia a fé na Comunhão dos Santos e a intercessão daqueles que estão em DEUS por nós aqui na terra, mas diversos capítulos e versículos.
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0 # Julio Bacelar 03-11-2016 10:34
Show de bola o post. Deus abençoe a equipe, Alexandre, Viviane e filhos. Esse post inclusive já desmistifica o argumento dos nossos irmãos evangélicos sobre a Intercessão dos Santos. Não haveria o porque eles estarem descansando se aqui na Terra existem muitas almas a serem salvas.
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0 # Luiz Fernando Assad 03-11-2016 10:18
Fala catequistas! Seguinte, queria encomendar um post... sobre a legalização e moralidade do uso de maconha! Sempre ocorrem essas discussões, e os apoiadores se utilizam de varias "pesquisas" que, aparentemente, reforçam essas coisas! Sempre tenho dificuldade em responder perguntas como: E se legalizar, o uso da maconha continuaria sendo pecado? Usar maconha não seria a mesma coisa que usar alcool? E o cigarro? A maconha faz bem menos mal!
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0 # Andrey 02-11-2016 14:24
Muito bom o texto. Parabéns! Que Nosso Senhor abençoe sempre e continuem evangelizando através da págna!
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