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Sexta, 07 Outubro 2016 10:32

A aparente contradição entre as cartas de Tiago e Paulo

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Somos salvos pela fé, não pelas obras, garante São Paulo. Aí vem São Tiago e manda a real: ora, a fé sem obras é morta. Briga! Briga! Briga!

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Não, não vai rolar pescotapa nem vai ter apóstolo riscando o chão com a peixeira. A contradição entre as cartas desses Apóstolos, na Bíblia, é apenas aparente. Sobre a doutrina da salvação, Tiago e Paulo ensinam a mesmíssima coisa, porém, cada um enfatiza um aspecto diverso da questão.

A Carta de Tiago (que Lutero queria arrancar da Bíblia, como já mostramos aqui) está em perfeita harmonia com a teologia de Paulo. Afinal, Paulo também afirma que, no dia do Juízo, o Senhor"retribuirá a cada um segundo as suas obras" (Rom 2,16), e que “diante de Deus não são justos os que ouvem a lei, mas serão tidos por justos os que praticam a lei” (Rom 2, 13).

Sobre isso, Bento XVI esclarece:

Assim a carta de São Tiago mostra-nos um cristianismo muito concreto e prático. A fé deve realizar-se na vida, sobretudo no amor ao próximo e particularmente no compromisso pelos pobres. É com esta base que deve ser lida também a famosa frase: "Assim como o corpo sem alma está morto, assim também a fé sem obras está morta" (Tg 2, 26).

Por vezes esta declaração de Tiago foi contraposta às afirmações de Paulo, segundo o qual nós somos tornados por Deus justos não em virtude das nossas obras, mas graças à nossa fé (cf. Gl 2, 16; Rm 3, 28). Contudo, as duas frases, aparentemente contraditórias com as suas perspectivas diversas, na realidade, se forem bem interpretadas, completam-se.

São Paulo opõe-se ao orgulho do homem que pensa que não precisa do amor de Deus que nos antecipa, opõe-se ao orgulho da autojustificação sem a graça simplesmente doada e não merecida. Ao contrário, São Tiago fala das obras como fruto normal da fé: "a árvore boa dá bons frutos", diz o Senhor (Mt 7, 17).

- Audiência geral. 28/06/2006

Durante muitos anos, teólogos católicos e luteranos dialogaram intensamente, buscando chegar a um consenso sobre a doutrina da justificação. O ponto central das discussões era: afinal como a pessoa decaída é resgatada e salva? Durante o papado de João Paulo II, em 1999, o Vaticano publicou a Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação e um documento Anexo em que a Igreja Católica e a Federação Luterana Mundial declaram concordar em muitas verdades básicas, permanecendo, entretanto, algumas discordâncias.

A conclusão desse documento é: não é incorreto dizer que somos justificados somente pela fé, e não pelas nossas obras. De fato, somos aceitos por Deus pelos méritos de Cristo, e não pelos nossos méritos. Entretanto, sem estar devidamente conectada a outras verdades de fé, esta fórmula luterana – a Sola Fide (somente pela fé) – pode gerar a CONFUSÃO em uma multidão de almas, levando-as ao erro e ao inferno. Afinal, muitos podem pensar: “Já que não é pela observação dos mandamentos que somos justificados, então posso pecar à vontade. Basta crer que Jesus é o Senhor, que serei salvo de qualquer modo!”.

Ao mesmo tempo que ensina que a justificação é dom gratuito de Deus, Santa Igreja reforça que o cristão não pode e não deve ficar sem obras, pois elas são sinal e fruto da fé verdadeira. “Nem todo aquele que me diz: Senhor, Senhor, entrará no Reino dos céus, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus.” (Mt 7, 21). Os católicos entendem que a fidelidade aos Mandamentos conserva e aprofunda a amizade com Cristo, e também com base nisso seremos julgados no Juízo Final. As boas obras têm a promessa de recompensa no Céu, além de, nesta vida, contribuírem para o crescimento da graça em nós.

A simplificação extrema da fórmula “somente pela fé” serve, assim, como uma arapuca para muitos cristãos. Por isso, a tese da Sola Fide foi condenada pela Igreja Católica no Concílio de Trento (séc. XVI). E isso vale até hoje, porém, pode-se dizer que tal condenação não se aplica mais aos luteranos atuais, ao menos àqueles que entraram em acordo com o Vaticano.

1784 Domingo, 23 Abril 2017 22:48

Comentários   

0 # Alvino 15-10-2016 12:50
Não é possível fazer boas obras sem Fé. Também não se justifica a Fé sem boas obras. Isso está mais que claro. O problema é que nós, seres humanos, adoramos uma contenda. E aí é tanta confusão e perda de tempo que provocamos pelos séculos... Mas é assim mesmo. Estamos aprendendo. O importante é que Deus continua tendo esperança no nosso crescimento. Na medida em que compreendermos cada vez mais o Novo Mandamento de Jesus, "amai-vos como Eu vos amei", deixaremos os desentendimentos de lado e serviremos melhor aos propósitos santos que Jesus pregou em Seu Evangelho.
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0 # João 07-10-2016 18:54
Ao ler a Declaração só não entendi pq as condenações de Trento não se aplicam aos luteranos. Podem "traduzir"?
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0 # Rubens Jabur Caleiro 07-10-2016 16:43
boa tarde minha esposa e eu estamos nos programando para criar um site católico voltado para liturgia e catequese e eu gostaria de saber se posso publicar alguns assuntos do seu site, isto copiar mesmo, porque achamos muito interessante e acompanhamos pelo facebook direto. Somos de Jardinópolis-SP
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0 # A Catequista 07-10-2016 16:57
Sim, Rubens, pode publicar nossos textos daqui do blog em seu site. Abraço!
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0 # Emanuel 07-10-2016 14:25
Gente , voçes estão frenéticos com os posts.E eu não estou reclamando. Essa questão de fé e obras me parece muito simples. Os protestantes ficam fazendo tempestade em copo d`agua.Não vejo confusão nisso.
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0 # Fábio Nascimento 07-10-2016 11:47
Gente ... Como pode ter alguém que vê confusão nisso? É a fé que nos leva as obras. E as obras que amplificam a nossa fé.
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0 # Andrea Vaz 07-10-2016 11:43
Eu amei esta explicação. Minha tia apostatou e frequentou uma 'igreja' que prega se pode fazer tudo, pq Jesus já nos salvou com seu sacríficio... meu Deus...
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