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Segunda, 11 Dezembro 2017 16:57

A ditadura religiosa de Calvino em Genebra

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Tendo o poder militar dos príncipes alemães a seu serviço, Lutero fez de tudo para exterminar e varrer da Alemanha os protestantes que não se submetessem à interpretação que ele fazia da Bíblia. Mas quem viveu sob a tirania de João Calvino certamente devia considerar Lutero uma flor de pessoa, o suprassumo da tolerância.

O líder da Deforma Protestante na Suíça não só se empenhava em reprimir violentamente as ideias de protestantes discordantes dele, como também se achava no direito de se intrometer nos hábitos mais banais dos cidadãos de Genebra. Criou-se uma cultura de vigilância permanente na comunidade, em que as menores faltas dos cidadãos eras denunciadas aos ministros calvinistas.

CALVINO, O FISCAL DE DECOTES E PENTEADOS

O Consistório criado por Calvino era uma o equivalente ao Tribunal da Inquisição católico, mas com duas diferenças essenciais: era muito mais severo e considerava crime as coisas mais ridículas, como o fato de uma mulher usar um estilo de penteado proibido pela igreja. Em dezembro de 1582, as filhas do Dr. Pierre de Lansard e do senhor Recolin foram repreendidas por seu penteado alto e extravagante.

Em janeiro do ano seguinte, um grande grupo de mulheres teve que comparecer ao Consistório para prestar satisfações sobre seus estilos de cabelo e vestimentas, sendo obrigadas a mudar a aparência. A senhora de Seynes foi especialmente advertida por usar um decote muito grande no vestido.

O Consistório também perseguia quem participasse de danças ou frequentasse tavernas. Muitas pessoas foram presas por dançar. Três homens que riram durante um sermão tiveram que amargar três dias na cadeia. Três crianças que saíram da igreja durante o sermão para comer bolo (quem nunca?) receberam castigos físicos. Mas nada foi mais estúpido e cruel do que o ato de decapitar uma criança que bateu em seus pais.

Quem não comparecesse ao sermão de domingo era punido com multa, e todos os cidadãos eram obrigados a estar em casa às nove da noite.

Um homem ousou enfrentar aquela implacável disciplina, e se recusava a aceitar o regime de supressão nas liberdades individuais: Jacques Gruet. Um dos seus diversos crimes foi usar calças com dobras na altura dos joelhos. Gruet foi preso em 1547. Sofreu as torturas mais atrozes por um mês inteiro, dia e noite. Jamais qualquer réu das Inquisições chegou perto de sofrer tratamento semelhante. O infeliz implorou para que lhe tirassem a vida, e finalmente foi decapitado, se tornando a primeira vítima fatal do Consistório.

SERVET: LIBERTADO PELOS CATÓLICOS, QUEIMADO PELOS CALVINISTAS

A vítima mais célebre de Calvino foi Miguel Servet, primeiro médico a descrever precisamente a circulação pulmonar. Ele se tornou protestante, depois gnóstico, e publicou um livro em que buscava refutar a doutrina pregada por Calvino. Suas heresias o levaram a ser denunciado e preso pelas autoridades católicas de Lyon, sendo entregue à Inquisição em 1553.

Além de ser o médico do Arcebispo de Vienne, Servet era muito querido e admirado por todos, sendo reconhecido por sua caridade. Ninguém desejava queimar um homem de tamanho valor, e acabaram deixando-o fugir no meio da noite – e depois todo o mundo fez papel de desentendido, tipo “nossa, ele escapou, que coisa né...”. Fizeram um boneco e realizaram a queima em efígie.

Servet obteve misericórdia quando esteve sob o poder da Inquisição Romana, mas não teve a mesma sorte diante das autoridades calvinistas. Meses depois de sua fuga, ele seguiu para Genebra – justamente a cidade que estava sob a mão de ferro de Calvino. O “reformador” o denunciou ao Consistório por heresia e blasfêmia. Servet foi preso, condenado e morto na fogueira.

A CAÇA ÀS BRUXAS PROMOVIDA PELOS CALVINISTAS

Calvino entrou de cabeça na onda da caça às bruxas. Em 1545 o Consistório enviou para a fogueira 31 pessoas condenadas por feitiçaria – ou seja, em um único ano, superou o que o total de vítimas da do Tribunal da Inquisição de Roma no século XVII inteiro! (Henry Kamen. A Inquisição na Espanha).

Ao migrar da Inglaterra para os Estados Unidos, fugindo da perseguição religiosa anglicana, os puritanos calvinistas trouxeram a paranoia na bagagem, e promoveram várias campanhas de perseguição e matança de “bruxas” na nova terra. O episódio mais famoso das Bruxas de Salém: em 1692, 21 pessoas foram condenadas pelo júri e executadas.

Livros que fundamentam este artigo:

Amy Nelson Burnett (editor). John Calvin, Myth and Reality: Images and Impact of Geneva's Reformer

Richard Taylor Stevenson. John Calvin: The Statesman

Mark Pattison. Calvin at Geneva. Artigo publicado em The Westminster Review - Volume LXX

Philip Schaff. History of the Christian Church - Volume VIII: Modern Christianity

Daniel-Rops. A Igreja da Renascença e da Reforma. Tomo IV

Henry Kamen. A Inquisição na Espanha

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5494 Segunda, 11 Dezembro 2017 17:27

Comentários   

+1 # Everton Caiçara PB 13-12-2017 10:43
Maravilhoso texto! Sei que estou pedindo demais, mas era possível traduzirem alguns textos do David A. Anders, ex-calvinista convertido à Santa Religião Católica Romana? Aqui vão alguns links...

http://www.calledtocommunion.com/2012/03/have-you-been-born-again-catholic-reflections-on-a-protestant-doctrine-or-how-calvins-view-of-salvation-destroyed-his-doctrine-of-the-church/

http://www.calledtocommunion.com/2011/11/why-john-calvin-did-not-recognize-the-distinction-between-mortal-and-venial-sin/
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+3 # Samara 12-12-2017 10:52
Temos que vigiar para não nos tornarmos igualmente irracionais. Tem até perfil querendo acordar o povo, no Instagram, que se aproxima bastante dessa postura aí... Às vezes, desconfio que há calvinistas travestidos de católicos (sob a desculpa de fazer exortações, tratam de forma indigna outras pessoas). Xingam até o Papa!

Gosto muito das abordagens feitas por aqui, em O Catequista: informações de qualidade, bem fundamentadas, bem escritas, com bom humor, mas sem perder a gravidade. Parabéns e muito obrigada!
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