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Paulo Ricardo

Paulo Ricardo

Terça, 14 Fevereiro 2017 17:18

Papa Pio IV, um vovôzão paz e amor

E aqui vamos nós de novo!

Depois dos anos de “porrada, tiro e bomba”, com a rigidez de Paulo IV, temos agora um papa mais paz e amor. Pio IV era muito amável, um vovôzão bacana que foi posto à cabeça da Igreja de Cristo nos tempos da Contra-Deforma.

Seu nome de batismo era Gian Angelo de Médici – mas não era membro da famosa família florentina (ainda bem, depois de dois desastres ambulantes como Leão X e Clemente VII, ninguém aguentava mais Médicis na Cátedra de Pedro). Foi governador de Parma, arcebispo de Ragusa e cardeal-sacerdote de Santa Pudenziana e Santa Prisca. Seguiu ainda uma brilhante carreira sob o Papa Júlio III, mas não se dava bem com aquele que seria seu antecessor, Paulo IV.

Pra variar, sua eleição foi outra confusão, com a ala francesa do conclave discutindo sem parar com os espanhóis. Carlo Carafa, o sobrinho do falecido Paulo IV, resolveu a celeuma, fechando com o cardeal de Médici (Pio IV). Habemus Papam! Era a véspera de Natal de 1559.

Curiosidade (sua vida dá um haikai):

  • Nasceu na Páscoa;
  • Eleito no Natal;
  • Coroado na Epifania.

Essas foram suas primeiras medidas de maior destaque: relaxou a prisão de Giovanne Moronne, cardeal acusado de heresia pelo papa anterior; liberou os monges andarilhos, deixando eles fazerem o que faziam melhor... andar; estabeleceu uma profunda reformulação no Index de Paulo IV, que era muito exagerado em seu rigor; nomeou um certo Carlos Borromeo – São Carlos, cuja história já contamos aqui – como cardeal-arcebispo de Milão. Nepotismo quase sempre é ruim, mas dessa vez foi bola dentro!

No campo político, aproximou-se de Felipe II e acabou com as disputadas com os espanhóis. Os frutos desta aproximação seriam colhidos em breve, e de forma crucial para toda a civilização ocidental (já adiantamos um post sobre o assunto aqui, a famosa Batalha Naval de Lepanto).

Aquém de tudo isto, a iniciativa mais importante de Pio IV foi cumprir a sua principal promessa: encerrar o já arrastado Concílio de Trento – marco da Contra-Deforma. Convém salientar que este era um mundo convulsionado. Os calvinistas huguenotes pululavam pela França. Era necessário, o quanto antes, dar um desfecho ao Concílio.

O único obstáculo eram os ânimos acirrados entre Felipe II e o imperador Fernando I do Sacro Império Romano-Germânico. Felipe queria chutar o balde de vez com os protestantes, enquanto Fernando tinha esperança de uma reconciliação - afinal, era ele quem teria que aturar os filhotes de Lutero a maior parte do tempo.

Mas vamos às datas. Mantendo o controle da situação com maestria, Pio IV – com o auxílio luxuoso do cardeal Morone – conseguiu encerrar o concílio em 4 de dezembro de 1563, em sua 25ª sessão. Em 26 de janeiro do ano seguinte, o papa confirmou as atas e decretos e, por fim em 30 de junho de 1564, foi promulgada a bula Benedictus Deus.

Para dar prosseguimento à difícil missão de pôr a máquina para funcionar, Pio IV criou uma congregação de cardeais que deveriam orientar os trabalhos de implementação das decisões conciliares. Seguindo o exemplo de Paulo IV, determinou que os bispos retornassem as suas dioceses e lá residissem (naquela época era comum que os bispos quase nunca dessem as caras em suas dioceses).

Em 13 de novembro de 1564, ordenou que todo mundo aderisse à “profissão de fé tridentina” (um dos quatro credos oficiais da Igreja Católica, que serve como uma “vacina” contra a heresias protestantes), dando início à compilação de um novo catecismo e à reforma do Missal Romano e do Ofício Divino.

De coração bondoso e temeroso de afastar ainda mais as ovelhas que tinha como missão apascentar, absteve-se de excomungar a Rainha Elisabeth I (que não tinha um coração tão bom assim). Sua grande frustração foi não ter conseguido deter o avanço protestante na França, na Alemanha e na Inglaterra.

Seu antecessor, Paulo IV, havia deixado os cofres da Santa Sé numa penúria de dar dó, por conta de suas celeumas com a Espanha. Isso obrigou Pio IV a tributar pesadamente as terras pontificais, o que gerou um grande movimento de insatisfação popular. Talvez isso tenha motivado o atentado contra a sua vida, do qual ele escapou por pouco, em 1565.

Para alegria dos micareteiros da arte do século XVI, Pio IV reavivou a tradição de gastar rios de dinheiro com artistas, renovou a universidade romana e instalou uma prensa para imprimir cópias da bíblia e de outros textos cristãos (ué, num era us católico ki num querião ki ninguein lesse a bibra?). Com a ajuda de Michelângelo, construiu novos edifícios e igrejas, como a Porta Pia e a Igreja de Santa Maria degli Angeli que, ironicamente, fica dentro do complexo de casas de banhos públicos de Diocleciano (um dos piores perseguidores do povo de Cristo, lembram dele?).

Esse foi um grande papa, um homem empreendedor, gentil, determinado e justo. Um papa necessário para tempos muito, muito difíceis na História da Igreja. E ele fez isso tudo que aqui narramos sofrendo de dores terríveis, por conta de crises de gota crônicas. Faleceu no dia 9 de dezembro de 1565. Foi sepultado na Basílica de São Pedro, mas, em janeiro de 1583, seu corpo foi exumando e sepultado novamente na igreja de Santa Maria degli Angeli, onde um dia existiram as Termas de Diocleciano.

Isso sim que é fina ironia. Que Deus o guarde.

Fontes:

McBRien, Richard C.. Os Papas: Os Pontífices de São Pedro a João Paulo II. Ed. Loyola, 2004.

Bellitto, Christopher M. 21 Concílios da Igreja: de Nicéia ao Vaticano II. Ed. Loyola, 2010.

paulo_iv_papa

Giovanni Pietro Carafa era um homem de nascimento nobre. Sua genealogia inclui casas nobres italianas, reis, duques, marqueses. Sua eleição, politicamente, deu-se pela necessidade de um consenso, pois o Conclave estava dividido entre franceses e imperiais, o que deixou o Imperador, obviamente, insatisfeito. Adotou o nome de Paulo em homenagem a Paulo III, que o nomeara cardeal.

Paulo IV tinha 79 anos quando subiu ao trono de Pedro. Se nos nossos tempos Bento XVI, eleito já idoso, foi chamado pela imprensa de “Papa de transição”, imagina como se considerava um papa desta idade nos idos de 1555! Vai ver por isso mesmo que o velhinho, ao contrário do seu predecessor (Marcelo II, que tinha 55 anos), fez questão de dar uma festa de arromba para celebrar sua coroação, em 26 de maio de 1555.

festa_arromba

INDEX E REAÇÃO AO PROTESTANTISMO

Muitos biógrafos, incluindo McBrien, tratam Paulo IV como um grande e cruel conservador antissemita. McBrien, embora seja uma excelente fonte, é um sujeito meio comuna. A imagem de Paulo IV está irremediavelmente ligada à Santa Inquisição – e à criação do Index de livros proibidos, prato cheio para os progressistas e comunistas de plantão.

Mas também foi Paulo IV que fundou a ordem dos teatinos, clérigos dedicados a uma vida de estrita pobreza e à Reforma Eclesiástica. Como tal ferrabrás, designado como legado papal para a Inglaterra por Leão X, pôde ser assim tão malvado?

Paulo IV foi sim conservador e travou muitas políticas reformistas, mas palavras ditas fora de contexto são perigosas e denigrem em muito a imagem de um homem que não está mais aqui para se defender. Não podemos esquecer que estamos nos anos de florescimento de um protestantismo jovem e muito agressivo, que ainda não havia sido posto no seu devido lugar e que não controlava os próprios impulsos. O Papa foi extremamente reativo, fechou-se a qualquer aproximação com os luteranos e sim, intensificou a Inquisição – o Index é prova disso.

A lista de livros proibidos por Paulo IV evitou que muitas almas pouco fortalecidas fossem envenenadas por heresias, e assim se precipitassem no Inferno? É bem possível. Mas os estragos também foram grandes. Para São Pedro Canísio, o Index nada mais era do que uma "pedra de escândalo". As críticas do cardeal Ghislieri - que seria o próximo papa - não foram menos duras, classificando o Index como ridículo.

Como diria Alicia Keys: THIS BOOK IS ON FIRE!!!

livro_fogo

O rigor e zelo de Paulo IV para defender a fidelidade à fé talvez, tenha mesmo descambado para uma "neurose de ortodoxia" - como aponta Ludovico Pastor, em sua Historia dos Papas - que o levava a ver heresia em toda a parte.

Falando ainda sobre os aspectos políticos do seu papado, Paulo IV uniu-se aos franceses contra Felipe II, cabra macho que venceu a batalha naval mais importante da Idade Moderna, Lepanto, já narrada por nós aqui. Óbvio que ter tal homem como inimigo nunca poderia ser uma boa ideia! O Papa perdeu a peleja.

Outro fato importante foi opor-se a Paz de Augsburgo, que reconhecia a coexistência de católicos e protestantes nas terras do Sacro Império Romano-Germânico. Por fim, foi inábil ao lidar com a questão inglesa: foi durante seu reinado que a rainha Elisabeth I deitou e rolou, consolidando o anglicanismo na Grande Ilha.

Se Paulo IV pecou no que diz respeito ao trato com os protestantes, foi por excesso de zelo apostólico. A principal motivação dele para a confecção do primeiro Index nada mais foi do que eliminar os livros que, a seu ver, ajudariam os protestantes a espalhar suas falsas doutrinas.

ANTISSEMITISMO

Seu antissemitismo deve-se ao fato que este Papa foi um dos primeiros a obrigar os judeus a usar aqueles chapéus pontudos ridículos (imagem abaixo) para diferenciá-los dos cristãos, proibiu-os de exercer diversas profissões e atividades comerciais e confinou-os em guetos. Assim, a partir da bula Cum numis absurdum, cessaram os direitos e liberdades antes garantidos aos judeus pelo Papa Gregório Magno, no século VI.

chapeu_judeu

Essas medidas foram duramente aplicadas em Roma e no restante da Itália, mas foram quase que completamente ignoradas no restante da Europa (segundo o Centro Online de Estudos Judaicos).

Mas o que a maioria dos historiadores gosta de omitir é que Paulo IV assim procedeu porque acreditava que a comunidade judaica estava apoiando os protestantes. Para atingir um inimigo que tirava seu sono, tomou medidas contra outrem.

Se os judeus auxiliavam os protestantes ou não dentro dos Estados Papais, não temos como afirmar que toda uma comunidade assim procedia. Por outro lado, também não há como negar que é muito provável que um número significativo desta comunidade o fizesse. Só para constar: o Papa não mandou matar nenhum judeu, nem mesmo usou aquela estratégia que alguns utilizavam, para lavar as mãos do sangue, de "entregar ao braço secular".

Paulo IV teve sua cota de erros como, por exemplo, retornar à prática do nepotismo. Mas também foi zeloso na escolha de cardeais e na exigência do comprometimento dos sacerdotes em suas dioceses, punindo com prisão aos padres que gostassem de tirar muitas férias por ano.

Os italianos não foram receptivos à severidade de Paulo IV. Uma amostra dessa hostilidade se deu quando ele faleceu, em 18 de agosto de 1559: os black blocs da pizzaria destruíram a sede do Santo Ofício e libertaram os prisioneiros da Inquisição.

Fontes:

Ludwig, Freiherr von Pastor. History Of Popes. Kegan Paul, Trench, Trubner & Co. Ltd. 1932.

Ranke, Leopold von. The History of the Popes during the Last Four Centuries (Vol. I). G. Bell and Sons, LTD., 1913.

Johnson, Paul. La Historia Del Cristianismo. Ed. Zeta, 2010.

McBrien, Richard P.. Os Papas - Os Pontífices de São Pedro a João Paulo II. Edições Loyola, 2004.

marcelo_ii

Depois de uma longa ausência (cerca de um ano) ela voltou! A sua série aqui n'O Catequista que fala um pouco sobre a história dos Sumos Pontífices. Nosso último post foi sobre um bispo de Roma um pouco... “estranho” - o Papa Júlio III. Agora seguimos falando do seu sucessor, Marcelo II.

Grande humanista e bibliotecário. Durante o papado de seu antecessor, Marcelo foi responsável pela biblioteca do Vaticano, botando ordem na casa.

Marcello Cervini nasceu em Montefano, em 1501, e foi o último Papa a manter seu nome de batismo quando assumiu o pontificado. Foi eleito no maior clima de "agora vai!".

merida_alegria

Como veremos mais logo adiante, essa alegria durou pouco...

merida_decepcao

Quando era ainda cardeal, Marcelo foi um dos maiores críticos do estilo festeiro e purpurinado do Papa Júlio III. Por conta disso, foi obrigado a retirar-se para a Diocese de Gubbio. Era um homem sábio e humilde, tanto que, em sua coroação, dispensou qualquer exagero nas festividades, e não suportava bajuladores a cercá-lo.

Outra forte característica de sua personalidade era o horror ao nepotismo – um traço marcante dos papas insensatos da Renascença–, tanto que proibiu que seus parentes fossem a Roma vê-lo. Isso mesmo! O Papa proibiu até aquele primo chato e o cunhado sem noção de aparecer para tomar um chá com torradas. Sabe como é… Parente é serpente.

O Papa Marcelo apresentou uma série de propostas para a reforma da Igreja, que eram sumariamente ignoradas por Júlio III. Sua ideia naquele instante era “se ninguém quis fazer, faço eu”. Pretendia reunir tudo e promulgá-las sob a forma de uma bula.

Esse é um daqueles Papas dos quais se lamenta a partida, especialmente porque ele morreu antes que pudesse realizar sua visão para a Igreja. Seu pontificado foi um dos mais curtos da história: apenas 21 dias. Uma das poucas medidas que teve tempo de pôr em prática incluiu a redução do tamanho da cúria.

Infelizmente, no dia 1º de maio de 1555, sofreu um derrame fulminante. Sua vontade foi respeitada, e recebeu um sepultamento simples na cripta da Basílica de São Pedro (uma das missas clássicas mais bonitas, de autoria de Palestrina, foi composta em homenagem ao Papa Marcelo II. Já falamos dela na saudosa Liga dos Blogueiros Católicos e vamos falar ainda mais em um CateMusic vindouro).

Em breve tem mais minha gente.

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Fontes:

Ludwig, Freiherr von Pastor. History Of Popes. Kegan Paul, Trench, Trubner & Co. Ltd. 1932.

Ranke, Leopold von. The History of the Popes during the Last Four Centuries (Vol. I). G. Bell and Sons, LTD., 1913.

Johnson, Paul. La Historia Del Cristianismo. Ed. Zeta, 2010.

McBrien, Richard P.. Os Papas - Os Pontífices de São Pedro a João Paulo II. Edições Loyola, 2004.

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Todos devem saber que “roliúdi” hoje em dia é fortemente anticlerical. Podemos atestar isto diante da incensação de filmes nem tão bons assim, mas que falam mal da Igreja ou levantam dúvidas a respeito dela – o caso mais recente e mais ilustrativo disto é o filme Spotlight. Só que nem sempre foi assim. Filmes geniais e que lidavam com os temas cristãos (tais como O Bom Pastor, Os Sinos de Santa Maria, A Canção de Bernadette e Meninos Não Choram) ganhavam caminhões de Óscares e são ainda hoje clássicos absolutos.

O silêncio sacramental do sacerdote em relação aos pecados ouvidos em confissão, inclusive, foi o tema de fundo de um dos melhores filmes de suspense de todos os tempos, dirigido com brilhantismo pelo mestre dos mestres nesta seara: Alfred Hitchcock. Trata-se do seminal A Tortura do Silêncio (no original, I Confess).

É a história do zelador da Igreja de St. Marie, em Quebec, no Canadá francês: Otto Kellar, um imigrante alemão do pós-guerra. Ele se sentia frustrado e oprimido; sua esposa Emma trabalhava até a exaustão, e ambos tinham uma vida muito sacrificada. Desesperado, Otto cometeu um crime horrendo. Tomado pela culpa e pelo desespero, confessou seu crime ao padre Michael Logan – uma interpretação minimalista e quase perfeita de Montgomery Clift.

Inoportunamente, ficamos sabendo aqui que o padre Logan também possuía uma ligação “perigosa” com a vítima de Otto, o que acabou por colocá-lo no radar da polícia de Quebec.

padre_logan

A força da interpretação de Clift neste filme está em sua cara de pedra. À primeira vista, suas feições inabaláveis podem dar a impressão de frieza e distanciamento psicótico. Mas toda a condução do ambiente, a opressividade da situação deslindada pelo roteiro, assomada à responsabilidade sacerdotal nunca antes descrita nas telas como neste filme, exigem que o padre Logan assim aja.

Mais do que todos à sua volta, o padre Logan sabe que as consequências que seus atos podem ter, não tanto para os homens, mas para sua alma imortal e para a sua fidelidade aos mandamentos da Santa Igreja, que ele jurou defender e respeitar. Para quem não sabe, se um sacerdote revelar um segredo de confissão, ele é excomungado.

Hitchcock constrói o suspense tratando com muita dignidade e respeito os santos sacramentos e a fé. Como fiel católico, para mim, o principal aspecto do filme foi ver como podemos utilizar o sacramento como válvula de escape para a culpa – e até como uma forma de envolver o sacerdote em nossos crimes, o que é bem o caso aqui. Isto ocorre quando a confissão não é acompanhada pelo real arrependimento e entrega de nossas culpas aos desígnios de Jesus Cristo. Tal confissão apenas vai alimentar o pior inimigo do confessado: o remorso.

O padre Logan sofre o preço secular dos pecados de Otto, mas o remorso e a loucura cobram o seu preço ao velho zelador, que vai ficando mais e mais paranoico e mentiroso. Ele desconfia de quem nunca lhe deu motivos para desconfiança, e sua loucura fica a ponto de explodir e machucar os que estão mais próximos dele.

Com a força que vem da fé, o padre Logan tudo enfrenta com serenidade, apesar de ser atacado com as mais insidiosas acusações que podem ser feitas a um sacerdote. No tribunal, nada importa ao Estado acusador, apenas que exista um culpado e uma condenação.

O filme foi feito de um roteiro adaptado, de autoria a quatro mãos por George Tabori e Willian Archibald. Era originalmente uma peça teatral de Paul Anthelme, chamada Nos Deux Conscience, que tem um final diferente e muito mais trágico do que o do filme. O fim foi alterado para satisfazer o senso de justiça anglo-saxão, mas isso não compromete a experiência nem os valores que o filme quer nos mostrar.

Completa o pacote a lindíssima fotografia em preto e branco de George Burks, que valoriza ainda mais as locações da belíssima Quebec.

Um filme necessário, belíssimo e sóbrio. Um dos melhores suspenses do mestre dos mestres!

P.S.: Uma coisa que nem todos sabem. A diferença entre suspense e mistério. Suspense: você sabe quem é o culpado, o que ele fez e como fez, quem nunca sabe disso são as personagens do filme. No suspense o espectador é um observador privilegiado. Mistério: no mistério o espectador nunca sabe de nada, ele está sempre às cegas e são as personagens que sabem o que está de fato ocorrendo. As dinâmicas de ambos os gêneros são antagônicas. Na prática isso quer dizer que é muito mais fácil dar spoiller de filme de suspense do que de mistério (você estraga o último).

Fiquem com Deus e até a próxima.

Ficha Técnica:

Gênero: Suspense

Direção: Alfred Hitchcock

Roteiro: George Tabori, William Archibald

Elenco: Anne Baxter, Brian Aherne, Charles Andre, Dolly Haas, Karl Malden, Montgomery Clift, O.E. Hasse, Roger Dann

Fotografia: Robert Burks

Trilha Sonora: Dimitri Tiomkin

Duração: 95 min.

Ano: 1953

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Sob os Arcos da Lapa, um dos cartões postais mais bonitos do Brasil, haverá o LANÇAMENTO OFICIAL do livro "As Grandes Mentiras sobre a Igreja Católica", da Editora Planeta. Entre os dias 28 e 30/10, Viviane e Alexandre Varela estarão lá para conhecer os leitores e fazer a dedicatória nos livros.

No nosso estande, em parceria com a Livraria Saraiva, esperamos vocês lá, no Festival Halleluya Rio de Janeiro!

concilio_trento “Os homens é que devem ser transformados pela religião, e não a religião pelos homens”.

- Egidio de Viterbo, introdutória ao Concilio do Latrão V (1512).

Estamos nos aproximando do fim da série sobre Martinho Lutero. Antes de chegarmos ao capítulo final, precisamos falar um pouco do Concílio de Trento, em que bispos e padres do mundo inteiro se reuniram para discutir as medidas necessárias para promover a retidão moral do clero, revitalizar a Igreja Católica e reaproximar católicos e protestantes.

Ao contrário daquilo que muitos imaginam, a Igreja não instituiu o Concílio de Trento por "vingança" contra a Deforma Protestante ou por "medo de perder terras e fiéis", mas motivada pelo melhor espírito de autocrítica e desejo de conciliação.

A brecha por onde Satanás inseriu o protestantismo - fenda incorrigível e resiliente no muro cristão - surgiu durante a era dos ditos "papas insensatos" da Renascença, mas também não devemos esquecer que Jesus nos deu alguns dos maiores de seus santos (S. Felipe Néri, Sta. Teresa de Jesus, S. João da Cruz, S. Inácio de Loyola, S. Pedro de Alcântara, S. Francisco de Sales) nesses mesmos tempos. Viva o Espírito Santo!

O Concílio de Trento é cercado de preconceitos e é muito mal explicado. Por isso, pouca gente sabe que ele foi o mais ecumênico de todos. Até mesmo os protestantes foram convidados a fazer parte!

O Imperador Carlos V queria que o Concílio fosse no território do Sacro Império, para que os príncipes reformistas (protestantes) participassem e não usassem a distância como desculpa para a sua ausência. Era desejo do Imperador a unificação da Igreja.

O primeiro impasse foi o desejo do Papa de que o Concílio fosse em uma cidade italiana. Todos tinham algo a dizer, mas as divergências criaram muitos e embaraçosos impasses. O Concílio, primeiramente, deveria ser em Mântua ou Vicenza, e o Papa fez a convocação para ambas as cidades, só que ninguém foi. No final, venceu o Imperador, já que Trento era uma cidade alemã (vemos aqui, mais uma vez o quanto a Igreja é "malvada" e "ditatorial". É nos detalhes que se esconde a verdade).

Na segunda parte do Concílio, os protestantes deram o ar da graça, porém, para variar, já chegaram aprontando. Foram, basicamente, seis meses de desaforo, desde outubro de 1551 até março de 1552. Apesar de tudo, os católicos permaneceram no espírito da boa vontade.

Só que não dava muito para negociar; a posição dos reformistas era irredutível, exigindo a ab-rogação dos decretos até então promulgados sobre o protestantismo e a realização de novos estudos sobre esses assuntos. E ainda queriam a renovação dos decretos dos Concílios de Constança e Basileia sobre o Conciliarismo; por fim, pleiteavam que os membros do Concílio fossem desligados do juramento de obediência ao Papa. Como, cáspite, obter unidade, se o símbolo e garantia desta unidade é justamente a figura do Sucessor do Pescador?

A cena abaixo resume a postura dos protestantes no Concílio de Trento...

lalala

Esse pequeno introito sobre o Concílio de Trento é para ilustrar que o espírito divisionista protestante não é fenômeno da modernidade, mas é, isso sim, uma real deforma de caráter presente desde a gênese. Sinceramente, se você quer REFORMAR ALGO, você tenta primeiro ver o que deve ser aproveitado e ouvir seus pares. Em vez disso, os protestantes chegaram na sala, botaram os pés na mesa e disseram: "vai ser assim, assim e assado!". Isso não é reformar, isso é querer destruir para colocar outra coisa no lugar e uma coisa conforme o seu gosto. Protestantismo: pai orgulhoso da geração mi-mi-mi!

Óbvio que a verdade da Santa Igreja permaneceu incólume e, sinceramente, os protestantes sabiam que mesmo com a presença deles lá, isso não mudaria. O embuste mesmo nasce do entendimento luterano de que o pecado original, como definido por Santo Agostinho, é a corrupção total da natureza humana. O relativismo tosco que vemos em nossa sociedade (lembremos que Kant, o pai do relativismo, era protestante e nunca faltava a um culto) vem daí.

Falando propriamente do nosso querido monge maluco, em resposta às medidas do Concílio, ele escreveu um livreco muito mimoso chamado Contra o papado romano, estabelecido pelo diabo (veja abaixo a ilustração da capa da edição original, com o Papa saindo da boca de uma besta, cercado de demônios). Quando um protestante vier dizendo para vocês que o Papa está "reconhecendo que os protestantes têm razão", lembre a ele que o Sr. Lutero chamou o Papa de "infernalíssimo".

Até hoje só vejo católico procurando chamar os protestantes de volta à unidade. Protestante eu nunca vi pedir desculpas nem por uma coisa, nem por outra. Para piorar, o tal libreto trazia as ilustrações de uma certo Cranach, em que a mais suave ilustrava dois demônios enfiando baldes de lixo na cabeça do Papa (sobre essas ilustrações abjetas, saiba mais aqui). Bom, "siga la pelota".

Fiquem com Deus.

contra_papado

FONTES:

Jorge, Fernando. Lutero e a Igreja do Pecado. Ed. Mercuryo.

Aquino, Felipe. História da Igreja: O Concílio de Trento. Disponível em http://cleofas.com.br/historia-da-igreja-o-concilio-de-trento/

Denifle, Heinrich. Luther and Lutherdom. Torch Press, (EUA).

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Bom dia meu povo!

Hoje é dia de história. Um caso da vida real que relata na prática muitas das diretrizes de Nosso Salvador, e demonstram a santidade da Doutrina que a Igreja Católica legou ao mundo.

Era um bom tempo para se viver aqueles anos 70 - exceção para os comunistas. Havia problemas, havia dificuldades e o país se ressentia de nunca realizar seu sonho de ser uma grande nação (não realizou até hoje e, provavelmente, nunca o fará). Poucos anos antes, o melhor time de futebol da história desfilou triunfante pelos gramados do México.

Havia segurança nas ruas e, ao mesmo tempo, políticas desenvolvimentistas malucas e irresponsáveis. Frutos do espírito estatizante dos milicos, que fundaram essa república de quinta sob um lema positivista - Ordem e Progresso, coisa que se as pessoas soubessem o real significado, pediriam perdão à Família Real e devolveriam a eles sua legitimidade. E depois, numa aventura ditatorial estranha, levaram a uma situação de inflação que os moleques de hoje com menos de 30 anos enlouqueceriam só em imaginar.

Mas fazer um tratado de política e economia não é nossa finalidade aqui. Esta é uma história muito, muito humana.

Uma família bem pobre, mas dignificada pelo labor do dia a dia. Um matriarcado em uma grande cidade deste país. Era uma casa humilde, porém ampla, na qual vivia um clã de mulheres cuja velha matriarca era mãe de sete filhos: três homens (todos falecidos jovens) e quatro mulheres - das quais três ainda estão vivas, todas octogenárias. Ela criou suas filhas e filhos sob os princípios morais e a ética católica, e eles dignificaram seu nome.

Duas dessas filhas nunca se casaram, e castas viveram suas vidas. Duas outras casaram-se; uma teve duas filhas e ficou viúva ainda muito jovem; a outra teve mais três filhos. Somente um dos seus filhos teve descendência: três meninas. É a história de duas dessas meninas que passamos a contar.

Ela era jovem e bonita, a menor (em altura) das três irmãs. Ele surgiu vindo da distante (e quase mítica por aquelas bandas) cidade de São Paulo. Era um sujeito bonitão, o típico macho alfa, grande e um tanto quanto rústico. Tinha sido transferido para aquele canto do mundo meio que a contragosto, e lá encontrou a menina pobre trabalhando como telefonista. Foram uns meses muito, digamos, loucos para os dois. Lembrem-se que eram os tempos de Pink Floyd; Emerson, Lake & Palmer e Secos e Molhados.

Já a irmã mais nova da menina bonita não tinha tempo para isso. Ela passava dias e dias apenas dedicada aos livros da biblioteca pública, pois estava para se formar, e a faculdade era, como dizia sua tia, o caminho para dias melhores.

estudava

E então aconteceu. A menina bonita engravidou. Não, não foi aquela história clichê em que o cara engravida a menina e cai fora. Ele não renegou o filho. Ele assumiu a situação. Mas a menina não era casada. Para o matriarcado de onde ela saiu, era um escândalo. Mas ele não se importava, levava no jeito. Com seu estilo bonachão e sua convicção, passava a todos confiança. Até o dia em que seu empregador e os desígnios do Criador intervieram na celeuma.

Ele seria transferido para um lugar muito, muito distante dali. Não havia como ficar. Então convidou a jovem para ir com ele para desbravar um novo mundo. Mas não era fácil para ela atirar-se numa aventura, longe de sua família e de todas as suas referências. Por isso ela disse não. E ele partiu para voltar uma única vez, tempos depois.

casablanca

Ela estava sozinha e grávida. Sozinha? Não. As velhas senhoras estavam com ela e, mesmo cobertas de vergonha, não a expulsaram. Mas foram severas ao apontar o seu pecado, pois ela expôs aquela casa (não dá pra não lembrar do lema do Frei Clemente Rojão: a misericórdia é grande mas a penitência é braba). Outros tempos.

Mas tanto a jovenzinha quanto suas tias tinham uma certeza absoluta: a vida é sagrada e o aborto é condenação ao inferno, tanto para quem pratica quanto para quem ajuda a praticar. Mesmo com toda a pobreza, com toda a dificuldade, com toda a vergonha e os olhares condenatórios, aquela criança tinha que nascer.

A jovem gestante estava decidida cumpriu o mandamento de seu coração, conforme os valores que lhe foram passados pela família. A velha tia que a criou se comprometeu a assumir a criação do bebê como mãe substituta, como havia feito com as filhas do irmão falecido.

Enquanto isso a irmã mais nova da jovem estudava, estudava...

E a criança nasceu. A irmã mais nova foi a primeira a ver a criança recém-nascida. E ficou encantada. Encontrou ali seu primeiro filho, mesmo sendo uma moça sem marido, sem dinheiro, sem emprego, prestes a se formar. Tinha apenas o auxílio de suas tias. Foi a luta por ela e pelos seus.

A jovem parturiente sabia que seu papel havia sido encerrado. Partiu para fazer sua vida em outro lugar, deixando seu filho para sempre com sua irmã.

A história segue como tantas outras histórias de família. Mas apenas esse momento específico é suficiente para ilustrar os pontos do título.

1 - O Aborto NUNCA É SOLUÇÃO PARA NADA. A jovem mãe, criada em ambiente cristão católico, estava convicta de que abortar era assassinato e que não havia outro caminho senão aquele que leva à vida.

2 - Os Dez Mandamentos são tão poderosos que às vezes obedecemos mesmo sem querer. A família, o honrar pai e mãe, estão tão presentes nessa história que eu desafio os leitores a identificar os trechos onde o quarto mandamento não se faz presente como força invencível que é.

3 - A maternidade não está no parir, ou pelo menos não unicamente neste. A maternidade está no toque em nosso coração que Deus dá ao olhar uma criança, o amor que desperta sem que saibamos de onde, nem para onde vai.

4 - Quanto maior a família, maiores são as possibilidades de apoio mútuo. Isso o capeta sabe, por isso fez de tudo para plantar nos corações a mentalidade antinatalista, e conseguiu. Hoje nego tem um ou dois filhos, e olhe lá.

Este post tem por objetivo mostrar aos jovens que nenhuma noite é tão escura, nenhum problema é insolúvel, nenhuma cruz é tão pesada que não se possa carregar. Nesse mundo hedonista, onde sempre se busca a solução mais cômoda e prazerosa, estamos assassinando mais e mais inocentes a cada dia.

Vejam o exemplo da jovem formanda. Ela chamou para si a responsabilidade da criação de um ser que não era sua responsabilidade. Quantas jovens de hoje você conhece que fariam isso?

Ninguém me contou esta história. Eu estava lá. Foi assim que eu nasci. O menino cabeludo da foto no início do post sou eu, aos dois anos de idade.

Aquela jovem formanda me chama hoje de filho. Com orgulho, eu a chamo de mãe.

Fiquem com Deus.

Paulo Ricardo, historiador membro da equipe do blog O Catequista, está publicando uma série de posts relatando as coisas mais interessantes de sua viagem a Israel.

jesus_maria

Nosso último dia em Israel foi o mais emocionante em todos os sentidos. Teve de tudo! Acordamos bem cedo para sermos brindados com uma linda vista da mais santa das cidades. Do mirante onde estávamos, em pleno Rosh Hashaná, ficamos extasiados com a mesma vista que, provavelmente, teve Cristo quando chorou pela cidade ancestral.

Antes de partir para a próxima, as pernas tremiam. Íamos fazer pela primeira vez o caminho que Jesus percorreu em direção ao Calvário. Aí começaram os problemas...

Em primeiro lugar, para quem não sabe, Jerusalém dentro das muralhas é uma cidade dividida em três: uma parte cristã, uma parte muçulmana e outra judia. Entramos pela Porta das Flores, a frente, as três primeiras estações da Via Sacra. Meu momento mais emocionante da viagem foi na Igreja da Condenação. Confesso que não consegui ficar mais do que dois minutos dentro da Igreja (celebrava-se na hora uma missa). A sensação oprimente de ver meu Senhor e Salvador condenado pelos homens foi demais para mim. Chorei como há muito não chorava - desde, talvez, quando aprendi com o The Cure que "Boys Don't Cry".

via_sacra

Mas aí nós os ouvimos. Eles gritavam "Allahu Akbar". Eles diziam estar ali por Deus, eles queriam ser as vítimas. Como eu disse, estávamos no ano novo judeu, o Rosh Hashaná. Judeus de todo o mundo vão a Jerusalém para orar na SUA CIDADE. Antes de mais nada é a cidade deles, pronto, acabou. Então temos um bando de folgados, bandidos, pilantras, que usam (ninguém me contou, eu vi) crianças de dez, onze anos para provocar a polícia de Israel. Enquanto isso, os "corajosos" ficam atrás, distribuindo cópias do Corão (muito bonitas, por sinal), bem vestidos e cheirosos, na porta das igrejas cristãs, sempre com um grande sorriso nos lábios. E vocês aí, continuem acreditando aí que o Islã é religião de paz...

A confrontação se dá na confluência do bairro muçulmano com o bairro judeu; a polícia de Israel, bem preparada, armada até os dentes, segura a onda enquanto pode. Por trás das crianças, um velhote taca uma pedra em direção à polícia israelense, que acaba atingindo uma fiel cristã. A polícia responde com bombas de efeito moral. Nessa hora, estávamos perdidos em meio ao conflito, entre a polícia e os muçulmanos. Chove pedras da parte dos muçulmanos.

Íamos em direção à Quarta Estação. Tínhamos três opções: ou retroceder para a segurança relativa da Porta das Flores; encarar todos os malucos do mundo, indo em direção da Porta de Damasco; ou seguir em frente, como fez Jesus. Optamos por essa última. Destarte, não tivemos alternativa senão correr, correr muito. À frente de um grupo de fiéis idosos, íamos minha esposa e eu. Sou mais rápido, mas atrasava o passo para protegê-la, não da polícia, mas dos fanáticos. Uma bomba de efeito moral explodiu ao lado dela. Estava tudo um caos.  Felizmente, ninguém se feriu. Após subir uma rua, tudo terminou tão rápido quanto começou.

Um comerciante árabe que falava bem inglês parou do meu lado, começava a abrir seu estabelecimento. Ele tentou nos acalmar:

- Não se preocupe. Aqui é assim sempre nessa época do ano.

- Sempre assim? - perguntei. Com um sorriso nos lábios ele retrucou:

- Sempre.

Mundo estranho. Vi velhos com roupas típicas sentados em suas lojas conversando calmamente em meio ao tumulto. Não vi um só movimento de agressão partir da polícia israelense. Mas vi um bando de cinegrafistas idiotas - com a cara típica de bicho grilo ocidental - focando na polícia israelense, doidinhos para pegá-los num ato de força "desnecessário" contra os muçulmanos "oprimidos".

O balé entre manifestantes e policiais continuou, mas nós não estávamos lá para resolver querelas milenares. Nosso guia espiritual, Pe. Rodrigo Sate, nos reuniu e continuamos pelos caminhos de Jesus. Infelizmente, tivemos que pular a Quarta, a Quinta e a Sexta Estações - continuamos a partir da Sétima. Foi tudo muito tranquilo a partir daí, estávamos na segurança do Bairro judeu.

Da Décima Estação em diante, tivemos a companhia dos ortodoxos, pois a guarda dessas é compartilhada. Estávamos em paz, pudemos participar da celebração da Santa Missa, feita pelo padre Rodrigo, ali, no local da crucificação.

O saldo foi muito positivo, apesar desse tumulto. Fomos ver os judeus em sua rezas no muro das lamentações. No local, reunia-se a polícia de Israel, depois de lacrar os acessos de muçulmanos ao muro santo. Um guarda parou para conversar com nosso guia, em hebraico. O guia indagou sobre a situação naquele instante. O rapaz disse algumas palavras, apontou para os céus e se despediu. Eu fui perguntar ao guia o que eles tinham conversado. Ele me respondeu que o jovem considerou esse um ano razoavelmente calmo; que seu trabalho, aquela hora (cerca de uma da tarde, sob um sol escaldante) estava apenas começando e que Aquele que está nos céus os protege e guarda. Amém.

Fica a dica: Jerusalém, em geral é pacífica. Confusões, quando acontecem, se dão dentro das muralhas, e principalmente no Rosh Hashaná. Evitando esse período do ano, tudo fica bem. Palavra de uma testemunha ocular.

A Igreja da Visitação, após o almoço, foi nossa última visita na Terra Santa. No lugar onde ficava a casa de Santa Isabel, pudemos desfrutar de uma merecida paz. A igreja fica fora da cidade, nas colinas, e é muito bonita; destaque para o piso da nave central.

O diário d' O Catequista na Terra Santa se despede aqui. Em breve, falaremos de nossas viagens a dois dos principais santuários de peregrinação mariana da Europa: Fátima e Lourdes.

Fiquem com Deus e até a próxima!

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E aí meu povo! Vamos a mais um post da nossa série sobre os Papas.

Giovanni Maria De'Ciocchi del Monte foi eleito Papa em 8 de fevereiro de 1550. Ele era o carmelengo de Julio II, e por conta disso, adotou o seu nome: Julio III. Foi bispo de Pavia e governador de Roma por duas vezes. Foi também arcebispo de Siponto e mais um monte de outros títulos que fica chato de descrever todos aqui (um baita currículo).

Por muito pouco não tivemos um papa inglês, já que o Cardeal Reginald Pole perdeu a eleição por apenas um voto. Isso depois de um conclave de dez semanas.

Tudo bem, tudo bem, eu havia dito em outro post que os papas insensatos da Renascença tinham ficado para trás, mas vemos nos seus sucessores muitos ranços do passado. Esse papa aqui é um típico exemplo disso. Começou pegando o nome do Júlio e andou fazendo umas coisas bem, hã... constrangedoras.

constrangedor

Era chegado a caçadas, banquetes faustosos, teatro, baladas mil e garotões - infelizmente, é isso mesmo. Causou escândalo quando catou um moleque de 15 anos chamado Innocenzo, fez o irmão adotá-lo e depois ainda nomeou-o cardeal. O moleque acabou em cana. Mas esta ferida aberta na nossa história não pode ser varrida para debaixo do tapete (aliás, que outra instituição vocês conhecem que apresenta as portas mais abertas para o conhecimento de suas figuras de proa que a Igreja Católica Romana?).

Mas vamos a questões mais importantes do que esse "pormenor". Foi durante o Pontificado de Julio III que o Concílio de Trento voltou a reunir-se, durante os anos de 1551-1552, caminhando aos trancos e barrancos. Por conta da rivalidade entre os alemães do Imperador Carlos V e dos franceses do rei Henrique II, desencadeou-se uma baita crise e mais uma revolta dos barões alemães - já sempre predispostos a revoltas por qualquer motivo besta. Sem base de apoio político, o Concílio de Trento foi suspenso mais uma vez.

O papitcho baladeiro, então, resolveu construir sua versão particular de Ibiza (a Vila Giulia, em Porto Del Popolo) e foi curtir uma vida loka, vivendo no ócio e não dando a mínima para assuntos da Santa Sé. Só dava as caras no trampo sob muita, muita pressão.

Mas nem tudo foi perdição. Julio III confirmou a constituição da Companhia de Jesus e tinha Santo Inácio de Loyola nos seus pecaminosos calcanhares. O santo conseguiu do papa a permissão para fundar o Colégio Alemão em Roma, instituição fundamental para a reconstrução do catolicismo nas terras contaminadas pelas ideias nojentas de Martinho Lutero.

O derrotado no conclave, Cardeal Reginald Pole, foi nomeado por Julio III núncio da Inglaterra quando a Rainha Maria I (uma outra figura histórica fantástica e mal compreendida, que recebeu a alcunha escrota dos historiadores ingleses de "bloody Mary") ascendeu ao trono da ilhota lamacenta.

Graças a Deus, Julio III não ficou muito tempo à frente da Igreja: sofria de gota e, segundo as fontes, essa doença foi sua causa mortis, que ocorreu em 23 de março de 1555. Foram somente cinco anos de pontificado. O fato de a Igreja ter atravessado os séculos e permanecido com a doutrina Sã e intacta, a despeito de maus papas com esse, é prova de que ela é governada pelo Espírito Santo.

É isso aí meu povo. Voltaremos em breve para continuar essa fascinante viagem pela história da Santa Igreja.

Fontes:

Burckhardt, Jacob. A Cultura do Renascimento na Itália.

Johnson, Paul. La História Del Cristianismo. Zeta, 2010(Argentina).

McBrien, Richard P. Os Papas. Loyola, 2004.

michelangelo

E aí meu povo,

Vamos continuar a contar a história dos sucessores de Pedro? Aê!! Começando com um papa que procurou retomar a linha depois de um dos períodos mais turbulentos e violentos da história: Paulo III.

Seu nome de batismo era Alessandro Farnese, tendo nascido em 1468. Foi eleito Papa por unanimidade em 13 de outubro de 1534. Havia sido candidato nos dois concílios anteriores, mas perdeu por conta da influência dos Colonna e dos Médici, que lhe faziam oposição. Naquele instante, depois dos desastrosos eventos ocorridos no papado de Clemente VII, e da participação criminosa dos Colonna nos eventos que culminaram com o saque de Roma, o velho cardeal de 67 anos obteve a chance que lhe foi negada duas vezes.

Adotou o nome de Paulo III em homenagem ao Papa Paulo II, que ocupava a Cátedra de Pedro quando ele nasceu. O povão adorou, pois foi o primeiro Papa romano a ser eleito em 103 anos.

Umas considerações a serem feitas da vida pregressa desde Papa. Paulo III não pode ser considerado um insensato do naipe de Alexandre VI ou Clemente VII, mas também não era exatamente um santo. Antes, foi um homem de seu tempo, conforme os valores da sociedade que o produziu. Alexandre VI o nomeou, ainda muito jovem, cardeal-diácono e tesoureiro da Santa Sé. Entre os seus muitos títulos, foi bispo de Corneto e Montefiascone; depois, bispo de Parma. Tudo isso até 1509 (tinha 41 anos).

ELEITO BISPO, ANTES DE SER PADRE

O único detalhe que vai pirar o cabeção de vocês é que Alessandro Farnese, futuro Paulo III, só tornou-se sacerdote em 1519, aos 51 anos, muito anos depois de sua eleição episcopal (naquele tempo, essas coisas eram bagunçadas mesmo). E ele havia adiado sua ordenação sacerdotal pelo motivo mais safado do mundo: muié. Apelidado de "Cardeal das saias", o pegador teve quatro filhos ilegítimos com uma nobre italiana chamada Silvia Ruffini.

Isso não é um comportamento aceitável a quem abraça a carreira eclesiástica, mas vamos dar um desconto a ele aqui: em 1513, três anos antes de sua ordenação, Alessandro Farnese largou a sacanagem e se preparou para o sacerdócio. Após esse ano, não há mais registros de suas saidinhas bíblicas, e parece que ele abraçou a castidade.

vovoOs historiadores classificam Paulo III como um típico Papa renascentista. Isso se atribui mais ao fato de que ele continuou a tradição de mecenas artístico dos seus antecessores. Deu emprego a Michelângelo só para ser sacaneado por este. Coisinhas de artista temperamental... Ocorreu que Paulo III não gostou de ver tanta gente pelada na cena do Juízo Final da Capela Sistina, e reclamou. Por conta disso, Michelângelo incluiu a figura do Papa entre os amaldiçoados; pintou-o com orelhas de asno e uma cobra enrolada no corpo. Sutil, o infeliz...

Com relação à sua família, Paulo III seguiu o ditado "farinha pouca, meu pirão primeiro". Nomeou cardeais a dois de seus netos, um de 14 e outro de 16 anos. Por outro lado, fez excelentes escolhas para o Colégio Cardinalício: Gian Carafa, futuro Papa Paulo IV; Reginald Pole, que por pouco não se tornou Papa também; São João Fisher, um dos gigantes defensores da fé na Inglaterra; Giovanni Morone, de grande papel na Contra-Reforma; Marcelo Cervini, futuramente Marcelo II; e Gasparo Contarini, importante reformador leigo.

O CONCÍLIO DE TRENTO (QUE QUASE NÃO SAIU E QUASE NÃO FOI EM TRENTO)

Paulo III tinha o firme propósito de dar uma resposta contundente aos protestantes. Para tanto, ele estabeleceu como necessidade primordial a instalação de um Concílio Geral que, a princípio, seria em Mântua (1537), depois, em Vicenza (1538).

Só que Carlos V não estava muito a fim de desagradar seus barões alemães - que estavam se dando muito bem, obrigado, com as cachorradas de Lutero. O imperador resolveu boicotar até onde pudesse o Papa, impedindo que os bispos alemães e espanhóis, que estavam sob sua esfera de influência, participassem do Concílio. Afinal, Paulo III já era um homem bastante idoso para aqueles tempos e, com sorte, ele morreria e Carlos V poderia manipular os cardeais para colocar alguém mais "mansinho", no Trono de Pedro.

Paulo III também não era do agrado do saco de pancadas imperial, o rei da França Francisco I, sem contar que ambos, Francisco e Carlos, estavam em permanente estado de beligerância. Foram sete anos de enrolação até o inícios dos trabalhos, em 1545.

Nesse meio tempo, Paulo III excomungou Henrique VIII, o rei do bilau guloso (cuja sentença anterior, dada por Clemente VII, havia sido suspensa). O problema é que as nações católicas da Europa, já contaminadas pelo espírito dos tempos e pelo nacionalismo secular, preferiram apoiar as causas de Henrique VIII, no sentido de autodeterminação dos ingleses, afastando ainda mais a Inglaterra da Igreja.

Santo Inácio de Loyola estava em Roma nesse tempo, e em 1540 recebeu de Paulo III a aprovação da Companhia de Jesus, em 27 de setembro de 1540.

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Por fim, em 1542, a 21 de julho, Paulo III funda a Congregação para a Inquisição Romana, com amplos poderes punitivos e de censura (isso para a alegria dos historiadores desocupados que nada mais têm o que fazer, a não ser bradar por aí que as culpas dos males do mundo são da Inquisição, e dos manés que volta e meia vem aqui no blog cantar esse mantra só para nos dar o trabalho de excluir mais um comentário inútil).

Em 1544 foi assinada a Paz de Crépy. França e o Sacro Império Romano-Germânico, enfim, estavam em paz um com o outro. Assim, não havia mais desculpas para enrolação e, conforme sugestão do imperador Carlos V, foi realizado no Norte da Itália, na cidade de Trento, a partir de 13 de dezembro de 1545 o tão aguardado Concílio.

As sete primeiras sessões do concílio abordaram o relacionamento entre as Sagradas Escrituras e a tradição, o pecado original, a justificação e os sete sacramentos. Não demorou a surgirem novas tensões entre a Igreja e o Estado - representados aqui pelas figuras do Papa e do Imperador.

Uma epidemia de tifo fez com que o Papa mudasse a sede do Concílio de Trento para Bolonha. Isso não agradou em nada o Imperador, que proibiu a presença dos bispos alemães e espanhóis. Por conta desse esvaziamento, o Papa suspendeu a oitava sessão em primeiro de fevereiro de 1548. O resultado é que Paulo III não viu seu projeto de Contra-Reforma concluído, passando seus últimos dias resolvendo querelas internas dos Estados Papais.

Faleceu em 10 de novembro de 1549, aos 81 anos, e foi sepultado na Basílica de São Pedro. Seu túmulo é um dos mais bonitos da Basílica.

Continuaremos nossa série sobre a História dos Papas falando de um pontífice que tinha complexo de diva e saudade das baladas dos tempos de Leão X: Júlio III. Até lá!

Fontes:

Burckhardt, Jacob. A Cultura do Renascimento na Itália.

Johnson, Paul. La História Del Cristianismo. Zeta, 2010(Argentina).

McBrien, Richard P. Os Papas. Loyola, 2004.

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Salve, povo católico!

Vamos falar um pouco agora sobre o Martinho Lutero escritor, aquele que os barões alemães defendiam tão ardorosamente como um sábio sem igual. Quem mais lambia o monge maluco era a baixa nobreza, muito mais por ganância do que por zelo religioso. Essa gente viu ali uma oportunidade de ouro - e COM ouro - de subir na vida cortando a garganta de padres.

Ulrich von Hutten era um dos barõezinhos e líder desse movimento, mas era Frank von Sickingen o cabeça militar. Ambos espalharam o terror luterano em suas voltinhas pelo Sacro Império, pilhando, saqueando e matando. Mas vamos esquecer esse pessoal por hora.

Lançar as sementinhas do mal pelo mundo era a especialidade de Lutero. E uma dessas ideias perniciosas fomentou a potencialização do antissemitismo na Alemanha.

JUDEUS ILUDIDOS

Engana-se quem pensa que os judeus alemães começaram a comer o pão que o diabo amassou somente nos tempos do bigodinho ridículo (Hitler); essa perseguição teve início alguns séculos antes. Para quem não sabia disso, contaremos aqui algumas das histórias que ocorreram na Alemanha durante o século XVI (antes, o aviso: não associem isso aqui com a Inquisição, olha o que eu sempre falo das armadilhas da tia Teteca!). Quem perseguia e matava esses judeus era o próprio povo alemão, utilizando bases religiosas como justificativa.

Obviamente, muitos acreditavam piamente estar, assim, cumprindo a vontade de Deus; outros eram motivados por ganância pura e simples. Não dá para saber exatamente o quanto havia de uma ou de outra em cada caso. Só podemos imaginar e deixar-nos levar pela narrativa do contista ou historiador. Por isso Jesus nos alerta sobre o julgamento, pois o ato de julgar revela muito do nosso próprio caráter. Não imagine esses alemães pelos seus olhos modernistas anacrônicos, para não acabar comparando-os a carrascos nazistas. Apenas sinta o relato. 

Em Berlim, maior cidade alemã desde sempre, no ano de Nosso Senhor de 1510, 38 judeus foram torturados e queimados, acusados de profanar hóstias e matar crianças (como eu disse, todo mal-intencionado coloca essa onde? Na conta da Inquisição, e muitos de nós, trouxas, abaixamos a cabeça e acreditamos). Em Ratisbona, uma cidade milenar que existe desde os tempos romanos, os judeus foram expulsos em 1519, com uma mão na frente e outra atrás. Não bastasse esse humilhação, ainda tiveram que presenciar a destruição de sua sinagoga, das suas "lujinhas" e a depredação dos túmulos do cemitério judaico local.

Portanto, não é de se estranhar que, num primeiro momento, os judeus alemães recebessem com esperança os agentes da "Deforma" Protestante. O Sacro Império Romano-Germânico era uma região pobre, o povo ali sempre viveu ao Deus dará. Era um salve-se quem puder, e, entre os desamparados, os judeus eram os mais desamparados, apanhavam por todos os lados. Os barões só os toleravam porque os judeus eram, para variar, os principais banqueiros da Europa, ocupando o vácuo deixado pelos Templários.

Sempre fazendo a necessária confissão histórica, é mister lembrar que muitos príncipes católicos foram perseguidores de judeus. Mas essa nunca foi regra geral da Santa Igreja, pois é cultivada por nós a esperança de que, no Final dos Tempos, os judeus se converterão em massa. Pela aliança dos Patriarcas, destarte, serão salvos na confirmação da Nova e Eterna Aliança (ver Romanos 11,26-27). É do cristianismo real as características da perseverança e da paciência. Já de Lutero...

"IRMÃOS DE NOSSO SENHOR"

Empolgadão com umas puxadas de saco que recebeu das comunidades judaicas do Império, Lutero escreveu um livreto chamado "Jesus Cristo Nasceu judeu"Como não poderia deixar de ser, vou transcrever literalmente a seguir as palavras do monge maluco:

"Pois os nossos papas dementes, bispos, sofistas e monges, grandes cabeças de asnos, até agora se comportaram de tal forma com os judeus, que quem tem sido bom cristão, gostará de ser judeu. Tratam os judeus como se fossem cães e não homens, roubaram-lhes os seus bens... e no entanto são parentes de sangue, primos e irmãos de Nosso Senhor... pertencem muito mais a Jesus Cristo do que a nós. Portanto, peço a meus caros papistas que me chamem de judeu, quando se cansarem de chamar de herege...  Enquanto usarmos de violência e mentiras, e continuarmos acusando-os de empregar sangue cristão para eliminar os seus fedores, e não sei quantas idiotices mais, enquanto os impedirmos de viver e trabalhar entre nós, em nossas coletividades, e os abrigarmos a praticar a usura, como eles podem se juntar a nós?"

- Lutero. "Jesus Cristo nasceu judeu", 1523

Ah, que coisa linda, não acham? Que idílio poético de paz e cristianismo! Isso atraiu os judeus (e sua grana) para a causa luterana como abelhas são atraídas por mel. Salutar é relembrar que a estratégia dos revolucionários, em geral, deve muito a este senhor perturbado - por exemplo, o costume de dizer uma coisa aqui e agora e desdizer tudo em um momento futuro.

"POVO MALDITO"

Passaram-se vinte anos entre o panfleto "Jesus nasceu judeu" e um outro chamado "Dos judeus e suas mentiras". Neste novo trabalho, Lutero inicia demonstrando todo seu santo e fofo amor pelos judeus:

"Havia me proposto a não escrever mais sobre ou contra os judeus

mas como soube que esses infelizes não param com as tentativas de aliciar a nós, cristãos, para o seu campo

resolvi publicar esse pequeno livro

para figurar como testemunho entre aqueles que resistiram e alertaram os cristãos

contra este venenoso propósito dos judeus, jamais pensei que um cristão pudesse se deixar enganar ao ponto de praticar o que os judeus praticam

mas o demônio é o senhor do mundo que faz o que quer

lá onde não está a palavra de Deus

não só com os fracos

mas também com os fortes

que Deus nos ajude.

Amém."

- Lutero. "Dos judeus e suas mentiras", 1543

E isso é só o começo. O texto continua a associar os judeus um grande número de adjetivos pouco lisonjeiros; se antes Lutero os tratava como "parentes de sangue de Nosso Senhor", agora os chama de "palermas orgulhosos", "povo maldito e obstinado". E ainda incita o povo alemão a incendiar as sinagogas.

O que faz um homem mudar de posição tão radicalmente assim? Baixou o Raul Seixas no sujeito, a síndrome de "metamorfose ambulante"? Realmente, quem considera esse tipo de coisa normal? O nome ideal a ser aplicado aqui para explicar as diferenças entre o primeiro texto e o segundo é a FRUSTRAÇÃO. O monge maluco criou uma expectativa enorme sobre si mesmo (soberba?) e viu-se como o responsável por concluir, vejam só, o trabalho de Jesus e São Paulo: a conversão dos judeus. Não tendo alcançado seus objetivos, chutou o pau da barraca e avacalhou.

Por trás do discurso aparentemente tolerante do primeiro texto, escondia-se já o Lutero antissemita do segundo texto. A conversão dos judeus, enfim, só era importante para ele mesmo se provar como bom pregador e ungido do Senhor. "...vaidade das vaidades! Tudo é vaidade" (Eclesiastes 1,2).

No final das contas, a prosperidade judaica feria de morte o orgulho de Lutero. Uma breve explicação para quem não entendeu: Lutero demonstrou-se preocupado com o fato de cristãos estarem imitando e utilizando-se de aspectos do modo de vida judeu. Por quê? Simples, porque no meio do miserê daquele fim de mundo que era a Alemanha da época, os judeus prosperavam economicamente. A sua inveja se evidencia nestes termos:

"Os judeus, por certo, nada deviam ter, porque é tudo nosso. Como não trabalham, a nada têm direito, muito menos que os paguemos com nosso dinheiro. No entanto, eles têm nosso dinheiro e nossos bens, e apesar de estrangeiros, são donos em nossa terra. "

Essa mesma desculpa foi utilizada pelos nazistas. Esses e muitos outros textos de Lutero - todos de fácil acesso - estão à disposição para o buscador da verdade em Cristo.

No próximo post desta série: o casamento de Lutero. Que a paz do Senhor esteja sempre convosco!

Fontes:

DAVIES, Michael. El Ordo Divino de Cranmer. Ed. Espanhola, 1994.

FITZER, Gottfried. O Que Lutero Realmente Disse. Civilização Brasileira, 1968.

JORGE, Fernando. Lutero e a Igreja do Pecado. Ed. Mercuryo, 1992.

LUTERO, Martinho. Dos Judeus e Suas Mentiras. Ed. Revisão, Porto Alegre. 1990.

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