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Daniel Araújo

Daniel Araújo

Eram os velhos tempos de Orkut. Não lembro se a comunidade era sobre Tolkien, Senhor dos Anéis, cristianismo ou literatura.

Na época, eu com meus doze anos, li em uma discussão algo mais ou menos assim: “Mas Senhor dos Anéis e Crônicas de Nárnia são coisas ocultistas! TEM MAGIA! Bruxaria!”

Foi o suficiente para deixar o coração do menino, que ia à missa todo domingo, bastante aflito. “Caramba, eu gosto de coisa do capeta?”

E lá fui eu pesquisar no Google. Que foi outra burrice. A internet é um perigo.

Devo ter jogado algo como “Senhor dos anéis é do diabo?", e lá pelas tantas estava lendo um texto que dava as definições dos seres da Terra-Média, do tipo: “anão: ser da mitologia nórdica que vive embaixo da terra, demônio”; “elfo: ser da mitologia celta que vivem bosques e pratica travessuras com os transeuntes, demônio da floresta”.

Provavelmente era um site ligado à Universal, mas menino de doze anos confere as fontes?

Pessoal, não vamos cair nesse erro. Tem que ser muito tapado para ver qualquer coisa anticristã nessas obras.

As Crônicas de Nárnia são profundamente alegóricas: Aslam é Jesus em forma de leão (morre para salvar um traidor e ressuscita). Ele literalmente DIZ ISSO, quando fala para as crianças: “no seu mundo tenho outro nome”. A coisa era tão na cara que Tolkien, autor de Senhor dos Anéis, brigou com C.S. Lewis, autor de Nárnia, alegando que ele forçava muito a barra.

É a obra de um dos maiores apologetas cristãos do século XX. Lewis escreveu mais defesa da fé cristã do que ficção (leiam Cristianismo Puro e Simples, Os Quatro Amores, A Abolição do Homem...). Só bobeou por ser anglicano (mas eu creio que hoje é católico, no Céu).

E o autor do Senhor dos Anéis não é para menos. Tolkien, de fato, não era um apologeta do cristianismo. Não ficava escrevendo sobre a defesa da fé cristã. Mas o homem viveu seu catolicismo. Foi a amizade dele que trouxe C.S. Lewis para o cristianismo, para início de conversa.

Tolkien foi criado por um sacerdote oratoriano, Padre Francis Morgan, pois perdeu os pais cedo. Teve quatro filhos, um deles sacerdote. Catolicíssimo, suas cartas valem a leitura para qualquer cristão, e se não foi beatificado, sua vida é no mínimo muito exemplar.

O Senhor dos Anéis não se propõe a ser alegórico. Tolkien só quis contar uma história. Mas, assim como já vimos com Flannery O’Connor, tudo o que saía da sua mente era reflexo de uma vida católica e a partir de uma perspectiva católica.

Por isso vemos, em Aragorn, a figura de um rei aguardado, que retorna para restaurar um reino (e que cura pelas mãos; e que é desprezado no início; e cuja vinda era aguardada... tá bom, a coisa beirava o alegórico). Vemos em Frodo uma figura que está disposta a dar a vida pela salvação de muitos. Vemos até mesmo, na data que Tolkien escolheu para a derrota de Sauron, um forte sinal – 25 de março, quando lembramos a Encarnação do Verbo no seio de Maria.

Então, não vamos cair em puritanismo (que aliás, é heresia). Há magia em histórias fantásticas. Mas antes de jogar na fogueira (esse hábito de países puritanos, alheio ao catolicismo) se pergunte o que é a magia ali? Onde está o bem? Onde está o mal?

O próprio Tolkien reconhece que a fantasia pode ser usada para o mal, em seu ensaio “Sobre Histórias de Fadas”:

“É claro que a Fantasia pode ser levada ao excesso. Pode ser malfeita. Pode ser empregada para maus usos. Pode até mesmo iludir as mentes das quais surgiu. Mas de que coisa humana neste mundo decaído isso não é verdade?”

Pode ser usado para propagar ocultismo? Claro que pode. Mas isso até as novelas podem (e o espiritismo cresceu muito no Brasil graças a elas).

Mas, como disse Chesterton, que muito influenciou Tolkien: “o bebê conhece intimamente o dragão desde que começa a imaginar. O que o conto lhe dá é um São Jorge para matá-lo”. Magia, fantasia, e mesmo a ficção mais trevosa e hardcore podem ser usados para nos levar ao heroísmo, à virtude, e a conhecer um pouco de Deus, o maior dos autores.

Longe de nós, puritanismo! Examinai tudo e ficai com o que é bom (e voltai aqui para mais dicas e recomendações).

Responda rápido aí: o que você imagina quando te apresentam um livro de ficção escrito por um católico? Quando o escritor é cristão?

Não sei você, mas por muito tempo eu imaginava algo como “Um amor para recordar”, do Nicholas Spark. A menininha santa e do bem vai convertendo o bad boy da escola. Tudo água com açúcar, limpinho e tocante.

Ou então aquelas histórias meio auto-ajuda, meio relativistas, meio “cristãs” do Augusto Cury (que, aliás, lota muita livraria católica. Vamos mudar isso, pessoal).

Se você gosta, nada contra. Mas isso está longe de ser a verdade.

Em meu último artigo falei da importância de levar a vocação de escritor a sério, de como exemplo a vida da escritora católica Flannery O’Connor. Ela é um exemplo de que a literatura de um católico comprometido não é necessariamente uma coisa fofinha e juvenil. É menos John Green e mais Stephen King.

Assassinatos e maldades em geral são coisas comuns em suas histórias. Sim, você leu direito. E como disse um amigo meu: se o católico por vezes se choca com fotos de Bento XVI mandando um canecão de chope para dentro, ou de São João XXIII fumando um cigarro (como onze a cada dez italianos, aliás), imagine como não foi a reação que Flannery O’Connor recebeu de muitos irmãos de fé.

Prova disso é uma carta onde sugerem a ela que sua mensagem era “imoralista”. A resposta que ela dá a acusação vai exatamente onde quero chegar:

“Minha ‘mensagem’ (se queres chamá-la assim), no entanto, é altamente moral. Agora, se é ‘moralista’ ou não, não sei. Em todo caso, creio que o senso moral do escritor deve coincidir com o seu senso dramático, e isso quer dizer que o juízo moral tem de estar implícito no ato da visão.

Vamos dizer tudo às claras: escrevo do ponto de vista da ortodoxia cristã. Nada me é mais repulsivo do que a ideia de pôr-me a criar um pequeno universo de minha própria escolha e propor uma mensagenzinha imoralista. Escrevo com uma fé sólida em todos os dogmas cristãos

Ela diz ali com todas as letras que é católica e escreve sem deixar de ser católica. E classifica sua mensagem como “altamente moral” (embora não moralista, o que seria um erro: reduzir a fé a uma lista de regras).

E se é moral, e altamente moral, uma coisa não pode ser ignorada: o mistério da iniquidade. O problema do mal.

Nos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola, as primeiras meditações são sobre a queda dos anjos e o inferno. Em nossa Bíblia, encontramos episódios de violência até a morte (Juízes 19) e inclusive vemos o povo de Sodoma querendo fazer bobagem com o Anjo do Senhor (tá lá em Gênesis 19: toda a população, dos idosos às crianças, querendo “conhecer” o forasteiro). O católico não varre o problema do mal para baixo do tapete. Muito pelo contrário! Meditamos isso constantemente, e devemos praticar um minucioso exame de consciência, buscando as más paixões dentro de nós e pedindo a graça de ter horror a esse mal.

E se é para ter horror, retratar essa maldade grotesca, perturbadora e satânica na literatura tem um grande mérito.

Curiosamente, o “Stephen King católico” é um padre. Sim, no século passado, um inglês convertido do anglicanismo que abraçou o sacerdócio deixou uma obra com pelo menos três livros que podem ser classificados como “terror”, além de um romance sobre o fim dos tempos.

Falo do Monsenhor Robert Hugh Benson.

O sacerdote, filho de um arcebispo da Cantuária (uma espécie de “papa anglicano”) ficou famoso pela distopia apocalíptica O Senhor do Mundo, onde retrata, de maneira romanceada, os tempos do anticristo. O livro já recebeu elogios de Francisco e Bento XVI e está longe de ser uma coisa cândida, suave e good vibes. Para vocês terem uma noção, logo no início do livro temos um padre apostatando. Não faltam martírios cruéis, com o mundo fechando o cerco aos cristãos, e cenas de loucura generalizada descrevendo a grande apostasia.

Não é para corações fracos. E é bom que seja assim: o livro do Apocalipse é um livro de consolação, mas Deus não diz que será fácil. Diz que estará conosco.

Mas a imaginação católica de Monsenhor Benson também nos brindou com livros de terror. Sim, porque o maligno é aterrorizante e deve ser temido – mas sem perdermos do horizonte de que Deus é maior.

Falo aqui das coletâneas The Light Invisible e A Mirror of Shallott, e do romance The Necromancers, infelizmente, todos sem tradução. O monsenhor viveu na época em que espiritismo estava virando modinha, e ele queria lembrar ao povo duas preciosas verdades: o diabo existe e bruxaria leva direto pro inferno.

Que falta nos faz um pouco dessa ficção mais casca grossa. Nossa fé não é um pique nique romântico: o mal existe, o pecado arrasta nossa alma para o inferno, e o preço da nossa salvação foi o derramamento de sangue do próprio Deus, executado como um malfeitor.

Todo apoio aos escritores que nos lembrem a dimensão de tudo isso e às histórias que mostrem, com a arte, essa realidade. São verdades que não devem ser esquecidas.

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E falando em livros... na próxima quinta, dia 12 às 19h, tem o LANÇAMENTO OFICIAL DO NOSSO NOVO LIVRO: As Verdades que nunca te contaram sobre a Igreja Católica! Será na Livraria Saraiva do Botafogo Praia Shopping (no RJ), pertinho do Metrô Botafogo! Esperamos você lá! Convide os amigos...

Ei... quer que façamos um evento de lançamento aí na sua cidade? Então deixe a sugestão nos comentários!!! A gente quer conhecer todos vocês!

Você! Você mesmo!

Você conhece Flannery O’Connor? Ela venceu muitos obstáculos e se tornou uma escritora incrível. E um dos fatores do seu sucesso foi encarar o dom de escrever como uma verdadeira vocação. E você? Já pensou que esse pode ser o seu chamado também?

É impressionante a quantidade de gente que trabalha ou estuda sem fazer o que gosta, querendo apenas “ganhar dinheiro” (e isso é bem discutível, porque hoje nada dá dinheiro...). Muitos além de não encherem o porquinho de dinheiro, acabam enchendo a gaveta com montes de contos autorais. Mas encaram a escrita como hobby, não como trabalho ou vocação...

Se você é um desses, talvez não entenda como “Jogos Vorazes” vendeu tanto e “Dragões de Éter” ganhou uma nova edição. E mais! Talvez esteja certo de que as trinta páginas que você conseguiu escrever poderiam ser um livro muito melhor do que esses.

Se você é assim ou conhece alguém assim, dê uma olhada nesse trecho da carta que São João Paulo II escreveu aos artistas:

“Quem tiver notado em si mesmo esta espécie de centelha divina que é a vocação artística — de poeta, escritor, pintor, escultor, arquiteto, músico, ator... —, adverte ao mesmo tempo a obrigação de não desperdiçar este talento, mas de o desenvolver para colocá-lo ao serviço do próximo e de toda a humanidade”.

Olhe bem o que esse Papa santo coloca como uma obrigação: não desperdiçar esse talento! Você lembra como Nosso Senhor disse que seria tratado o servo que enterrasse o talento? Pois é. Nada legal. Escritor católico, se você tem vocação, trate ela com seriedade!

E como o exemplo arrasta mais do que as palavras, eu vou contar uma história. A história de uma católica que encarou a escrita como vocação.

Era uma vez uma jovem norte-americana que, com muito esforço e dedicação, deixou sua casa na zona rural para se dedicar ao seu sonho: escrever.

Ela foi aprovada em uma escola literária de prestígio, após concluir um mestrado em belas artes, e foi para NY. Lá, conviveu com os grandes escritores da época, em um ambiente de efervescência cultural, e foi tratada como uma igual.

Além disso, revisava seu primeiro romance, com vistas à publicação. Que alegria!

Mas tudo isso mudou quando ela passou mal e foi diagnosticada com lúpus. A doença incurável que matou seu pai, dez anos antes.

De uma hora para outra, tudo desabou.

Por muito menos, não poucos jogam tudo para o alto e se revoltam ou se entregam à depressão. Seria razoável supor que a jovem abandonou sua carreira.

Mas essa é a história de Flannery O’Connor, uma das maiores escritoras do século XX. E ela era profundamente católica.

Flannery abraçou sua cruz e seguiu o Cristo. Retornou a fazenda de sua mãe (e seus 44 pavões. Sim, bastante exótico) e, naquele retiro interiorano, longe das grandes mentes da cidade, viveu uma rotina de religiosa. Mas de religiosa escritora.

Começava seus dias cedo, com a missa. Depois de um café da manhã simples, escrevia sem parar por três horas, diariamente. Após o almoço, recebia visitantes, respondia correspondência, lia (e um escritor deve sempre estar lendo alguma coisa), e... alimentava os pavões (todo mundo precisa contribuir com a fazenda da família). Após a janta, ela lia um pouco mais, fazia suas orações da noite e meditava questões da Suma Teológica (sim, a de Santo Tomás!), até às 21h.

E no outro dia, tudo de novo. Foi sua rotina ao longo dos 14 anos em que combateu o lúpus. Morreu cedo, aos 39, e muitos dizem que só não ficou entre os grandes nomes da literatura universal por ter nos deixado em tão pouco tempo.

Nesse tempo, levou a sério as palavras de São João Paulo II:

“A vocação diferente de cada artista, ao mesmo tempo que determina o âmbito do seu serviço, indica também as tarefas que deve assumir, o trabalho duro a que tem de sujeitar-se, a responsabilidade que deve enfrentar”.

Vendo a vida de uma escritora piedosa, você até pode até ter se animado para continuar aquele livro que você enrola há 5 anos para dar continuidade, mas talvez esteja pensando: “Daniel, eu não sei escrever histórias bíblicas e vidas de santos. Só gosto de falar de dragão, vampiro e cabeça decepada. Não seria um bom escritor católico”.

Primeiramente: tamo junto!

Em segundo lugar: o exemplo de Flannery O’Connor é ótimo justamente por isso. Ela, como Tolkien, Chesterton e tantos outros escritores católicos, estava interessada em ser uma boa escritora, e não em escrever contos piedosos (o que é justo e necessário, mas não era a vocação dela).

Ela queria escrever boas histórias que atingissem ao público, e seus dois romances e mais de 80 contos ficaram famosos pelo uso do grotesco e do violento. E não há nada de errado nisso, pois são histórias que, indiretamente (e por vezes, explicitamente) mostram um mundo marcado pelo pecado que necessita da misericórdia divina.

Se você alimenta sua alma com a Palavra e os sacramentos, medita os mistérios da fé e busca dar testemunho, necessariamente sua arte vai refletir isso. Ainda que fale de apocalipse zumbi, máfia ou impérios intergalácticos.

Uma vez perguntaram a Flannery porque ela escrevia. Sua resposta? “Porque sou boa nisso”.

Ela não estava se exibindo. Estava mostrando um catolicismo consciente que reconhece que todos os dons vêm de Deus. Precisamos usar isso para a maior glória Dele.

Não enterremos nossos talentos.

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