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Especiais (1)

Saudades de nossos especiais? Olha nóis aqui de volta!!

Quem foi João Calvino? Seus atuais sucessores, os autoproclamados “evangélicos”, empurram pela goela abaixo dos incautos uma biografia cheia de buracos: dizem que foi um grande homem, que implantou a reforma protestante em Genebra, Suíça.

Seu nome virou sinônimo da teologia da predestinação e, consequentemente, da prosperidade. Mas Calvino está para muito além disso, como disse Hilarie Belloc (grifos meus):

“Apesar das férreas afirmações calvinistas terem se enferrujado (cujo núcleo era a admissão do mal na natureza divina pela permissão de somente uma Única Vontade no universo), ainda assim sua visão de um Deus Moloch permanece, e a coincidente devoção calvinista ao sucesso material; o antagonismo calvinista à pobreza e a humildade, sobrevivem vigorosamente. A usura não estaria corroendo o mundo moderno não fosse unicamente por Calvino. Tampouco os homens estariam se rebaixando para aceitar a inevitável ruína, não fosse unicamente por Calvino. Nem tampouco o comunismo estaria entre nós como está hoje, não fosse unicamente por Calvino. E, finalmente, o monismo científico não dominaria o mundo moderno, como faz, matando a doutrina do milagre e paralisando o livre-arbítrio, não fosse unicamente por Calvino.”

A palavra “calvinista” só chegou ao mundo 20 anos depois de Lutero plantar as sementes da Deforma Protestante. Calvino provocou muito mais dano no edifício da fé do que Lutero jamais seria capaz ou desejaria. Se Lutero trouxe o fósforo e o carvão, Calvino trouxe o álcool para começar o “churrasco da fé cristã”.

Nascido em 1509 na cidade de Noyon, no Nordeste da França, João Calvino era filho de Gérard Calvin, advogado dos religiosos locais e secretário de Charles Hangest, bispo local. A mãe de Calvino era uma pia jovem chamada Jeanne Lefranc, que faleceu ao dar à luz o sexto filho. Foi a Igreja Católica malvada que custeou os estudos de Calvino, desde os seus doze anos de idade.

Seu pai, Gérard, que também era o contador da diocese, se envolveu em um escândalo financeiro e foi excomungado. Também respondeu um processo por heresia. Depois de anos doente, Gérard veio a falecer. Ele teria sido enterrado em terreno não consagrado (uma vergonha das maiores na época), mas seu filho mais velho, Carlos, conseguiu lhe dar um enterro descente.

Isso teve um impacto violento sobre o jovem Calvino. Alguns historiadores atribuem ao tratamento dado pela Igreja (embora justo) ao seu pai como um dos principais motivadores do reformador francês.

Em 1523, Calvino foi para Paris para estudar latim, humanidades e Teologia. Em 1528, iniciou seus estudos jurídicos (ele se tornaria advogado), primeiro em Órleans e depois em Bourges. Neste local, estudou com Melchior Wolmar, um luterano convicto. Provavelmente foi por meio dele que Calvino deu os primeiros passos em direção ao protestantismo.

O empurrão final foi dado pelo seu primo Pierre Robert Olivétan. Foi ele o responsável pela primeira tradução da bíblia para o idioma franco (a “bíblia de Olivétan”). E Calvino escreveu o prefácio.

Estamos no ano de 1533. Calvino, já convertido ao protestantismo, iniciou um modus operandi que não será apenas padrão para os protestantes do século XVI, mas por tantos outros movimentos de caráter agnóstico revolucionário ao longo destes últimos quase 500 anos: a militância.

No mesmo ano de 1533, Calvino teve que fugir de Paris, acusado de ser coautor de um discurso de Nicholas Cop, reitor da Universidade de Paris e cripto-protestante. Não sabemos ao certo o que aconteceu, mas há um fragmento do discurso em Genebra que foi escrito pelo próprio Calvino. O documento original, por sua vez, está em Estrasburgo. Estaria realmente Calvino envolvido com o caso do discurso de Cop? Há indícios de que sim, mas seria leviandade para com quem já tem tanto sobre si, cravar que isso realmente ocorreu. Fica a dúvida até que venham a surgir novos documentos que joguem luz sobre esse momento da história.

Deixo agora uma provocação para você: releia o parágrafo do professor Belloc. Agora, leia de novo. Você é um bom católico ou um calvinista? Não se surpreenda se, depois de um exame de consciência profundo, você descobrir que é calvinista. Eu, por muito tempo, fui. Ainda há em mim resquícios desse mal. Por isso Calvino é tão importante, muito mais do que a Lutero!

Ao aprender quem foi o sujeito, podemos detectar a presença de seu espectro nas pequenas coisas que vão se avolumando, tomando vulto, e ocupam espaços nos quais não deveria estar.

Calvino é influente para muito além da religiosidade, dos huguenotes franceses aos puritanos do May Flower, passando pelos modernos evangélicos aos revolucionários de Sierra Maestra e Rosa Luxemburgo, sem esquecer Dawkins e os neo-ateus; ele está em muitos mais lugares do que imaginamos a princípio.

Fiquem com Deus e até a próxima!

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Fontes:

BELLOC, Hilaire. As Grandes Heresias

CHESTERTON, G. K. O Homem Eterno

SCHAFF, Philip. History of the Church, Vol. VIII: Modern Cristianity. The Swiss Reformation

DYER, Thomas. The Life of John Calvin

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