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Segunda, 26 Setembro 2011 09:00

“Um santo triste é um triste santo”

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O MORALISMO TORNA A FÉ UM FARDO

Zé vai à missa todos os domingos. Não perde uma procissão, atua em mais de uma pastoral e integra uma comunidade de formação espiritual. É um cara honesto e gentil. Ainda assim, uma estranha aridez resseca a sua alma... e um gosto amargo de frustração nunca deixa a sua boca. Sua fé aparentemente fervorosa contrasta com sua vida pálida e sem gosto.

O personagem é fictício, mas o drama é real. Muitos são aqueles que tem a Jesus como um parâmetro religioso e moral, mas que não o reconhecem como uma companhia concreta e efetiva no cotidiano. Seguem as regras da religião como se carregassem um pesado fardo, e não como fontes de autêntica liberdade e alegria. De fato, como bem disse São Francisco de Salles (não tenho certeza de que o autor é mesmo ele), "um santo triste é um triste santo".

Em mais um post sobre o moralismo, apresentamos um texto de D. Luigi Giussani, fundador do Movimento Católico Comunhão e Libertação.

*****

"Nós, com todo o nosso discurso cristão, (...) podemos viver como se Cristo não existisse."

por: D. Luigi Giussani (texto adaptado)

O cristianismo (...) o que é no mundo, se não aquele grupo de homens, aquele pedaço de humanidade que reconhece que Deus tornou-se uma pessoa entre nós, e pronto? Seria o grupo de homens perfeitos, que não dizem mentiras, que não roubam, que não fazem mal aos outros, que usam bem do próprio corpo e do corpo de outros? Seria este o grupo de cristãos? Se fosse, seria realmente um grande milagre. Mas não é: os cristãos são os seguidores de Cristo, isto é, aqueles que O reconhecem (...), aqueles que vivem a consciência da Sua Presença.

Ora, existe uma coisa mais impressionante do que o fato de que ninguém perceba a Sua Presença?  É assim na Bíblia ("Veio entre os seus, e os seus não O acolheram. Veio à casa deles, e eles não O receberam") e pode ser assim conosco! Nós, com todo o nosso discurso cristão, com a fé que temos, com as práticas que fazemos, podemos viver como se Cristo não existisse! Então toda a nossa moral o que é? A nossa moral não é mais um comportamento verdadeiro; a nossa moral é seguir regras por medo ou  presunção.  É como cumprir um contrato.  Em outras palavras: é um moralismo!

Mas, no Cristianismo de fato, deve ser justamente o contrário: toda a lei é amar a Cristo, é a afeição a Cristo! Não precisamos, não devemos arrancar nada de nós: é preciso apenas converter-se!

O amor a Cristo torna tudo diferente!  É o mesmo que acontece quando nos apaixonamos. Entra em nós algo de diferente, como se tivéssemos um coração diferente, mas sem arrancar nada do que realmente somos: o dinheiro que temos, o temperamento que temos etc.  Claro, que com o tempo e a convivência, o amor nos educar em certos aspectos.  Se verdadeiramente queremos bem ao outro, acabamos nos tornando capazes de coisas que não éramos antes.

Mas isso acontece com o tempo, como uma consequência! A questão central não é ser capaz de fazer isso ou aquilo, de respeitar as leis assim e assim. O que importa realmente é a afeição a Cristo. A partir de então, não existe mais ambiguidade (...), não se reduz mais a nossa moralidade às coisas que somos capazes de fazer, enquanto sobre outras fechamos um olho. Não! A afeição a Cristo não deixa trégua nunca, é uma guerra, é uma inquietude que é cheia de paz, de letícia (...).

*****

O texto acima é uma adaptação livre do trecho do livro La fraternitá di Comunione e Liberazione, publicado no Jornal Corriere della Sera (Itália) do dia 15.10.2002.  A adaptação do texto foi necessária para torná-lo mais direto e adequado a um blog.

4531 Quinta, 01 Junho 2017 16:28

Comentários   

+2 # Pedro 12-08-2014 19:56
Caríssimos, o texto usa uma linguagem profundamente perigosa. Existem santos que viveram aridez espiritual constante em suas vidas. Isso não significa que estes foram tristes. Felicidade é consequência de santidade e ascese. Nem todos passam por uma experiência metafísica para amar a Nosso Senhor. Jesus nos convidou ao sofrimento. E aquele que aceita de bom coração esse sofrimento é feliz porque entende que sua dor é a dor de Nosso Senhor. Salve Maria. PS. Os senhores tem alguma relação com a espiritualidade carismática?
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+3 # A Catequista 12-08-2014 20:15
Oi, Pedro! Salve Maria! Sim, temos relatos da "noite escura" de São João da Cruz, das "trevas de Teresa" (pouco mais de um ano de aridez vividos pela santa de Lisieux), décadas de aridez de Madre Tereza de Calcutá... Entretanto, eles e outros santos só foram capazes de permanecerem firmes na fé durante esse período de aridez porque, antes, experimentaram grandes consolações e uma alegria profunda em Cristo. E foi a memória dessa alegria, a certeza da beleza que um dia os tocou que, com a graça de Deus, os manteve fiéis à fé cristã. Bem diferente é a aridez que descrevemos aqui: uma aridez infrutífera, que no fim conduz ao ateísmo prático ou à apostasia completa. É a aridez de quem não experimentou de forma efetiva a alegria da amizade com Cristo. E vai tocando a vida de fé com a barriga, como um fardo, uma mera obrigação moral. E isso, mais cedo ou mais tarde, leva à descrença completa. No mais, noto que em nenhum momento dissemos que é necessário passar "por uma experiência metafísica para amar a Nosso Senhor". Não sugerimos isso nem de leve, aliás. Já publicamos até mesmo um post explicando que, na maior parte das vezes, a beleza da fé cristã se encontra na banalidade do cotidiano, e não em grandes eventos miraculosos: http://ocatequista.com.br/archives/8993 Sim, Jesus nos convidou ao sofrimento. "Quem quiser me seguir, pegue a sua cruz e venha atrás de mim...". Entretanto, mesmo em meio ao sofrimento é possível experimentar uma alegria que vem da graça sobrenatural. Tanto isso é verdade que santos muito penitentes, perseguidos e sofridos, como Padre Pio, eram reconhecidos pela sua alegria, e até bom humor. Por fim, não, nenhum membro da nossa equipe pertence à RCC.
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+2 # Frank Matos 08-06-2012 14:13
A Paz de Cristo e o amor de Maria! Gostei do post, pois é o que eu sempre digo: 'Quem ainda não conheceu essa verdade, continua sendo escravo do pecado. Jesus através da sua morte na cruz nos deu a liberdade, para que aquilo que era pecado, agora já não o seja.'. Parabéns pelo blog! Conheçam os meus blog`s: frankmatos.blogspot.com.br. Que Deus vos abençoe!
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+1 # Cadu Sindona 14-03-2012 17:40
Ser santo é carregar já na alma a alegria que o Espirito Santo proporciona a quem quer seguir Jesus.
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+1 # Leilah 14-03-2012 15:14
Muitíssimo parabéns por usar um texto do grande Giussani! Um dos maiores cristãos de nossa época e sem dúvida um dos mais competentes em mostrar a inteligência e atualidade da fé cristã.
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+1 # Ramiro 26-09-2011 14:05
É! Ser cristão não é fácil como parece. Não basta dizer: aceitei Jesus Cristo e está tudo resolvido. Muitas vezes somos os primeiros a ter a postura moralista. Por isso ressalto, na experiência que fazemos dentro do carisma do Movimento Comunhão e Libertação (de D. Giussani)dois fatores que me ajudam muito: a obediência e o olhar. Obedecer a quem indica e ter para quem olhar. Olhar e aprender. Boa e santa semana a todos! Grande abraço.
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