Grupos Jovens: servindo à Igreja em harmonia com o pároco, sem desafinar

violao

O Guilherme Souza, do blog Pensar Pensamentos, é catequista e coordenador da Pastoral da Juventude – PJ (“não faça cara feia, somos diferentes! pode acreditar!”) na Diocese de Marília/SP. Ele nos enviou algumas perguntas, e algumas delas apresentamos aqui.

– O que se deve ter em um grupo de jovens que pensa antes em SER Igreja do que ser mais a bandeira de uma pastoral, movimento?

Vou resumir a resposta em quatro termos, e depois explicar cada uma. Um grupo jovem (do tipo “PJ”, não ligado a qualquer movimento) deve ter: objetivos, caminho, humildade e liderança adequada.

OBJETIVOS

O grupo precisa ter claro quais são os seus objetivos e como eles serão alcançados. Será um grupo voltado para desenvolver a espiritualidade de seus membros? Será um grupo voltado unicamente para o serviço (apoio às pastorais da paróquia, caridade junto aos pobres etc.). Ou será um grupo que une os dois aspectos, espiritualidade e serviço?

Se ficar definido que o grupo será voltado para o serviço, é importante especificar que tipo de serviço será prestado (visita aos doentes no hospital, auxílio à catequese etc.) e com que regularidade.

CAMINHO

Já se o grupo jovem se propuser a promover a espiritualidade de seus membros, é FUNDAMENTAL que fique claro de qual fonte irão beber e qual metodologia de trabalho irão utilizar, ou seja, qual caminho seguirão para alcançar a meta definida.

  • Farão estudos bíblicos?
  • Estudarão os discursos e homilias do Papa?
  • Estudarão os escritos de algum santo?
  • Cantarão músicas? De que tipo?

São mil e uma possibilidades. Mas é importante se ater a uma linha de abordagem da fé cristã e a uma metodologia, para que o grupo possa ter foco e identidade.

Esses pontos, após definidos, devem ser registrados no papel, como uma espécie de estatuto. Isso ajuda o grupo a ter mais estabilidade e continuidade em suas atividades, ainda que a coordenação mude. Encontrei um bom exemplo de estatuto na Internet, é de um grupo chamado Jupec – clique aqui para ver (neste documento, pra mim, só não ficou clara qual é a identidade espiritual do grupo e a metodologia de trabalho eles usam em seus encontros e atividades).

HUMILDADE

Quanto à preocupação em “ser Igreja”, é preciso uma contínua atenção para que o grupo seja continuamente solícito e obediente ao pároco e, eventualmente, ao padre por ele designado para cuidar da direção espiritual do grupo. Aí entra a humildade.

LIDERANÇA ADEQUADA

Especialmente se o grupo for voltado para a formação espiritual, a pessoa que lidera as reuniões e atividades, ainda que seja jovem, deve ter um bom conhecimento teológico, e também uma fé madura.

Por falta de uma liderança adequada, boa parte dos grupos jovens são espiritualmente insossos e pouco acrescentam aos seus participantes. São mais clubinhos de católicos amigos do que qualquer outra coisa. Não ajudam ninguém a aprofundar as razões da própria fé e nem tampouco iluminam o caminho para que o cristianismo seja vivido de forma corajosa e pública, fora das paróquias, no cotidiano.

– Qual a finalidade de se ter um grupo de jovens na paróquia?

Como dito antes, a finalidade do grupo jovem pode ser definida pelas lideranças do grupo, sendo depois exposta à aprovação do pároco. Mas, se quer uma opinião… Creio que um grupo jovem pode ser, na paróquia, um centro inicial de atração, de acolhida e de evangelização para os jovens, que, com o tempo, fluirão para outros movimentos e pastorais da Igreja.

Em geral, o grupo jovem marca o período de transição das pessoas para grupos de espiritualidade mais bem estruturada. Não estou dizendo que os grupos jovens, necessariamente, possuem uma espiritualidade rasa, mas é muito difícil que um grupo de caráter transitório (ninguém é jovem pra sempre, certo?) tenha uma proposta de formação espiritual consistente a ponto de sustentar uma pessoa por muitos anos.

Isso não é um defeito, mas é uma característica comum aos grupos jovens: a transitoriedade. Este aspecto não diminui em nada a sua importância, já que, sem esses grupos, muitos jovens ficariam sem referências e não teriam oportunidade de criar vínculos dentro da paróquia, deixando logo de frequentá-la.

COROAS_GRUPO_JOVEMO que vou dizer agora pode parecer óbvio, mas, acreditem, é importante ressaltar: GRUPO JOVEM É PARA JOVENS!!! Se você já tá passou dos 25 anos há alguns carnavais, esse tipo de grupo não é pra você.

Já vi muitos coordenadores estimulando a frequência de adultos (até coroas) em grupos jovens, visando “fazer número” e inchar o grupo. Assim, os encontros acabam perdendo a eficácia na reflexão do cristianismo aplicado ao cotidiano do jovem.

Por que será que o grupo se chama “jovem”? Pra reunir um monte de gente de 30 e 40 anos é que não deve ser! Então, se você é adulto, não se deixe vencer pela Síndrome de Peter Pan e busque um grupo mais adequado à sua realidade.

– Por que muitos sacerdotes ainda têm medo?

padre_resistenciaQuanto à eventual resistência de alguns padres: isso surge, muitas vezes, da falta de humildade da coordenação do grupo jovem. Muitos coordenadores querem agir de forma independente, como se não fizessem parte de um corpo, e como se não devessem satisfações ao pastor que está à frente da paróquia.

Se, desde a criação do grupo, os seus objetivos e o seu método de trabalho for apresentado à apreciação do pároco, certamente muitos conflitos, desconfianças e incompreensões serão evitados. Caso a paróquia receba um pároco novo, é importante que o grupo apresente a ele o seu estatuto e se mostre disponível para ajudar e obedecer no que for necessário.

28 comments to Grupos Jovens: servindo à Igreja em harmonia com o pároco, sem desafinar

  • JR

    Sacerdote pegando em arma!? Isso aí é montagem né? O que Jesus Cristo pensaria disso?

    • Não é montagem, não, JR. De qualquer forma, não se trata de um sacerdote católico romano (é de alguma igreja ortodoxa) e o cara tá só matando a curiosidade em relação ao trabuco. Pecado nenhum.

  • Padre Anderson

    Excelente artigo, irei utilizá-lo com os coordenadores de grupo de jovens. Parabéns ao site “catequista”, gosto muito dos artigos propostos.

  • Carlos de Jah

    Artigo muito bom, mais um vez o Blog esta de parabens…
    Ja ate estou usando esse artigo com o Grupo de Jovens da minha paroquia… kkkk

    A Paz de Cristo e o Amor de Maria a todos…

  • Gostaria de pontuar alguns conteudos expostos aqui a luz do que está presente no Documento 85 da CNBB (evangelização da juventude):
    1) A respeito de liderança adequada, um dos objetivos do grupo de jovens É formar lideranças (jovens capazes de exercer a sua fé com autonomia e que ajudem outros, jovens ou não, a também encontrar-se com Cristo e viver uma fé madura). Quem coordena grupo de jovens e dirige as reuniões são JOVENS (18 a 29 anos segundo o referido documento). Maaaaaaas existe uma figura importante para o grupo, que na verdade é quem vai cuidar de aprofundar as coisas quando a tendencia for a mantê-las rasas: O ASSESSOR ADULTO! Esse camarada, vai ajudar a manter o protagonismo juvenil, garantir o dialógo e o completo envolvimento do grupo com a paróquia (demais pastorais, movimentos, Pároco, etc.)! É ele o educador na fé, que auxilia, sem tomar a frente, tem direito a voz, mas nunca a voto, e deve sempre estar em contato com outros assessores, e receber a devida formação, para evitar que ele se torne a lideranã do grupo, matando então o protagonismo e por fim o próprio grupo.
    2)Ora-AÇÃO são duas coisas indissosiáveis, uma oração fecunda, me leva com certeza a amar mais, e a servir melhor os demais, logo, um grupo com espiritualidade adequada vai com certeza realizar um trabalho social-pastoral EXTREMAMENTE fecundo!
    3) Formação INTEGRAL:
    *Pessoal (EU x EU),
    *Comunitária (EU x OUTROS),
    *Teológico-espiritual (EU x DEUS),
    *Sócio-político-ambiental (EU x MUNDO) e
    *Capacitação técnica (EU x PRÁTICA)!

    Isso é um pouco do que aprendi e tento fazer!!!

    PS.: O grupo Jupec citado tem espiritualidade carismática, ainda que não tenha ligação direta com a RCC!

    • Lais Oliveira

      A Paz de Cristo irmão!

      Concordo com sua fala e devo dizer que a falta de um Assessor adulto na minha antiga paróquia era um dos maiores complicadores. Eu assumi uma coordenação de grupo de jovens e não existia apoio, não sabia até onde eu podia e devia ir. No início até tínhamos um acompanhamento mas depois ficamos sós, e assim não conseguimos prosseguir. Uma pena.
      Agora que estou um pouco mais velha rs, que encontrei um movimento no qual fui chamada como Igreja (RCC). Participo dentro do Ministério Universidades Renovadas, somos jovens ( um pouco mais velhos, é fato), coordeno um grupo com a diferença de que agora tenho a quem responder, isso torna o serviço menos trabalhoso e com um sentimento de menos desamparo.

      Paz e Bem

  • Victor Picanço

    Existe um cardeal (não me recordo o nome) que possui um arsenal (ele é colecionador). Além do mais, simplesmente “ter” armas não é pecado. O pecado passa a existir com o mau uso delas.

  • Marcos

    Muito bom mesmo este post.

    O “acaso” me levou a participar de um grupo de jovens (EJC) em outra paróquia.
    É mto bonito ver uma igreja com mais de 400 jovens, mas qdo estou lá, se não fosse uma ou outra ave maria q rezamos iria pensar q estavamos em um culto protestante. Resumidamente, nas reunioes ouvimos testemunhos e cantamos aline barros e diante do trono.
    Há ainda diversos outros problemas q vejo ser fruto de uma fé imatura.

    O post me encorajou a analisar o movimento e levar todas as questoes ao paroco.

    Somos jovens e queremos ter uma fé madura guiada pelos ensinamentos da igreja.

  • Olá!!!
    As minhas férias me deixaram off totalmente!
    Muito obrigado pelas respostas!
    Deus abençoe a todos!
    Feliz 2013!

  • André

    Nao precisava nem dizer que o grupo tinha espiritualidade carismática, Rafael Rosa… a mescla de pentecostalismo protestante com gotículas católicas se infiltrou na juventude de modo que jovens não-RCC (eu p.ex) são tidos por eles até mesmo como ATEUS(! ! !)Só por não gostarmos de “louvar”, rezar na língua de pseudo-anjos, nem bater palmas “sacras” na missa…meu crisma há 2 anos foi a gota d’água! Músicas espalhafatosas (“um siri louvava com i, o urubu louva com u” // BentoXVI deve entoar essa preciosidade da nossa tradição bimilenar diariamente), e, claro, o famigerado batismo no Espírito, pré requisito pra se crismar, que eu fingi ter acontecido comigo quando na verdade busco o Espírito Santo na minha cotidianeidade, não por fórmulas oracionais instantâneas, que te dão a graça de Deus mais rápido fui que o drive do Mcdonalds te dá um hambúrguer. Em suma, depois desses traumas não tão passados, meu “grupo de jovens” virou missa diária (por increça que parível, além de mim só há velhinhas ou os parentes dos eventuais falecidos, nunca ha galerinha jóvê, inclusive nos dias em que as apos a celebração esse povo se reúne), Angelus, Rosário, leitura de documentos da Igreja… apesar de me considerar com uma fé extremamente densa pra idade, o povo me olha escandalizado por não me engajar,aparentemente, em “nada”! Fazer oq… =/
    Em tempo: esse comentário deveria ser em reply ao de Rafael mas por algum obscuro motivo só consegui postá-lo aqui em baixo, lá deu página de erro…

    • “…batismo no Espírito, pré requisito pra se crismar…”
      Me pergunto se sua paróquia tem pároco, e se ele acompanha a catequese… Mas com a situação em que estamos, tudo é possível, né?
      Acho que hoje está claro, especialmente na América Latina, o que Paulo VI quis dizer com “a fumaça de Satanás entrou na Igreja”. É com essa fumaça que alguns bispos e padres andam incensando suas igrejas. São Paulo avisou há séculos, mas alguns permanecem surdos:
      “Porque vai chegar um tempo em que os homens não suportarão a sã doutrina, mas, sentindo cócegas nos ouvidos, reunirão em volta de si mestres conforme suas paixões. Deixando de ouvir a verdade, eles se voltarão para as fábulas.” (2Tm. 4,3s)

      • André

        minha paróquia tem um pároco cujos distúrbios mentais e litúrgicos só são passíveis de serem comentados sob absoluto anonimato meu, como tbm extrema necessidade do interlocutor em saber… quase nunca frequento missa lá (se é que pode chamar de missa aquilo que ele criativamente e sem auxílio do missal inventou), mas como pro crisma dava pra ir à pé, decidi me despreparar lá pra unir o útil ao desagradável !!! E não,o padre nada fiscalizava o povo do crisma, percebi isso quando a trupe de catequistas “pra animar?” dançou com som alto e fantasiados YMCA durante a abertura do 1o retiro de aprofundamento de espiritualidade… acho difícil achar outro indivíduo que — ainda menor de idade — já tenha vivenciado (obs.: é diferente de ouvido falar) tanta podridão na igreja mas que tem a fé potencializada e o coração mais conexo com Roma… Marketing (quase desmaiei, no dia em que vi a bênção só pra uma marca de água) politicagem, monopólio de paroquia, abuso litúrgico proposital , pedofilia (sim, pra quem ainda duvida, ela existe! Com força! Não é ganha-pao de jornal oportunista), etc… enquanto o centro da minha igreja for Roma e seu sustento, a Rocha, nada inescrupuloso que aconteça na Banânia diminui meu amor por ela 🙂

  • Boa tarde amigos!

    Estou passando aqui novamente para mostrar um pouco do nosso trabalho pastoral nesta CF 2013, veja abaixo pequeno documentário produzido pelos jovens:

    https://www.youtube.com/watch?v=RIarpLeWgnk

    Deus abençoe!

  • Aline Tavares

    Gostei muito do artigo. No final, vocês falam que uma das principais fontes de problemas entre padres e grupo de jovens residem na independência dos dos coordenadores dos grupos em relação ao pároco. Porém, o que fazer quando os coordenadores procuram o pároco para que possam trabalhar juntos, mas o pároco dificulta esse contato, e ainda não valoriza o trabalho realizado pelo grupo?

  • É possível ser um grupo de jovens sem ser de fato “pj”?, Na minha paroquia pensam que não.

    • Claro que é possível. É engraçado como alguns leigos entendem a fé do povo como algo “burocratizável”. Porque raios um grupo de jovens paroquianos reunidos precisa seguir necessariamente o padrão de um movimento X ou Y da Igreja? A Igreja abraça a diversidade, os grupos jovens não precisam ser todos iguais, todos PJ.

  • Sabe,meu pároco parece não levar muita fé no nosso grupo de jovens, ja estamos a 3 anos na paroquia e muitos frutos de fora colhidos no meio da nossa juventude, somos mais direcionados a oração e ao zelo litúrgico,entretanto nosso padre insiste que sejamos PJ, ele disse que não somos um grupo de oração pq não somos da RCC e não somos pastoral pq não somos PJ, e com as palavras dele ” O que diabos vcs são?” Confesso que isso nos machuca, pois tudo que fazemos fazemos pela evangelização da juventude e mesmo na nossa limitação tem dado certo pela Graça de Deus. Como lhe dá com essa “pressão” que sofremos, pelo fato de não ser nem “a” nem “b”? Estamos de certa forma desanimados, peço sua valiosa opinião e nos recomendamos as vossas orações!

  • Sabe,meu pároco parece não levar muita fé no nosso grupo de jovens, ja estamos a 3 anos na paroquia e muitos frutos de foram colhidos no meio da nossa juventude, somos mais direcionados a oração e ao zelo litúrgico,entretanto nosso padre insiste que sejamos PJ, ele disse que não somos um grupo de oração pq não somos da RCC e não somos pastoral pq não somos PJ, e com as palavras dele ” O que diabos vcs são?” Confesso que isso nos machuca, pois tudo que fazemos, fazemos pela evangelização da juventude e mesmo na nossa limitação tem dado certo pela Graça de Deus. Como lhe dá com essa “pressão” que sofremos, pelo fato de não ser nem “a” nem “b”? Estamos de certa forma desanimados, peço sua valiosa opinião e nos recomendamos as vossas orações!

    • Luiz Antônio Pereira

      Talvez um grupo de jovens com autêntico compromisso com a Igreja devesse ser apenas o que vocês são: grupo de jovens católicos e nada mais.

      Já pertenci a um grupo de jovens que no início era da PJ, mas passou a ser da RCC. Quando da RCC era muito afinado realmente com a Igreja em questões de obediência, doutrina, etc, só sinto mesmo pela tal de obediência à coordenação da RCC, que de vez em quando ia dar pitacos, censurar e cometer outros abusos para mostrar quem mandava no pedaço. Nunca vi com bons olhos a obediência que a RCC impõe aos seguidores, quando creio ser regra a obediência apenas à Igreja e sua hierarquia.

  • Guizo

    O problema é que alguns grupos são dignos de show de axé. Cheios de músicas com coreografias, parece que está todo mundo malhando.

  • Há 10 anos saí do opus dei!

    Há 10 anos saí do opus dei. É a primeira vez que falo em público – ou melhor, que escrevo na Internet, o que é praticamente a mesma coisa – sobre essa mancha em minha vida. Fui numerário por 10 anos e quando saí e olhei para mim, vi que eu era um limão espremido, de quem haviam tirado quase toda a seiva. Pensei que levaria outros 10 anos para me recompor como pessoa humana. De fato, a estimativa estava certa. Somente agora, que tenho 40 anos de idade, posso falar dessa experiência traumática sem tremer.

    Ainda fico constrangido, obviamente, pelo fato de que revelar que fiquei 10 anos lá dentro é um gesto que equivale a escrever na própria testa – “sou idiota”. Mas, como disse, agora isso não me impede mais.

    É claro que para eu criar coragem de escrever aqui cooperaram, em muito, meu casamento e o nascimento de minha filha.

    Também contribuiu o contato com pessoas que haviam passado pelo mesmo drama, muitos em situação bem pior que a minha.

    Ter sido numerário do opus dei era motivo de vergonha íntima, pois pensava que só eu tinha passado por isso. Mas vejo que outras pessoas, nada idiotas, caíram no mesmo golpe. Além disso, tenho a meu favor o fato de ter conhecido o opus dei com 18 anos, e ter entrado lá com 20 anos. Sinceramente, eu não posso me envergonhar de ser imaturo nessa idade, a ponto de ter sido seduzido pelas armadilhas dessa maldita seita.

    No opus dei, eles dizem que “a porta é pequena para entrar e grande para sair”. Mais ou menos. Que a porta seja pequena para entrar, eu não duvido. Há uma seleção que envolve até aspectos físicos. Quando eu conheci o centro, fui para assistir a um curso de astronomia, enquanto fazia cursinho pré-vestibular. Não deram muita importância para mim. Ocorre que ao final do ano eu ingressei na USP. Imediatamente o tratamento deles mudou comigo. Me ligavam, não me deixavam em paz. Eles gostam muito de quem faz curso de exatas, como era o meu caso. Depois vim a entender o interesse súbito. É que eles queriam que eu, entrando para o opus dei, pudesse levar outras pessoas “selecionadas” para lá. São uns oportunistas, interesseiros.

    Mas a porta de saída não é grande. Na verdade, eles morrem de medo que uma pessoa saia e conte os segredos e os absurdos que fazem com as pessoas lá dentro. Entrei no opus dei em 1985. Seis meses depois eu já queria sair, e manifestei isso explicitamente. Você acha que foi fácil? Há dezenas de pessoas que praticamente não trabalham nem fazem nada apenas para cuidar que você não saia, depois de ter entrado. Fiquei nas mãos desse pessoal por 9 anos e meio. Toda a estratégia deles consiste em dizer: se você não está satisfeito e quer sair, é porque ainda não foi a fundo. Minha atitude então foi como daquele motorista que, perdido, acelera mais para tentar sair mais rápido de onde está, o que acaba por levá-lo para mais longe do caminho certo.

    Nesses 10 anos que passei fora de lá, pude entender o que, na época, foi impossível: quais as estratégias que utilizaram para me fazer entrar, e me impedir de sair.

    Não vou relatar tudo aqui, mas estou disposto a conversar com quem quiser sobre essa minha experiência traumática. Fico aflito em pensar que outros jovens possam cair no mesmo golpe, pois o prejuízo não é só financeiro (se bem que é financeiro também!). Perder os anos de vida que transcorrem entre os 20 e os 30 anos de idade não é nada aconselhável.

    Gostaria apenas de, destacar, aproveitando essa ocasião, a importância do segredo na estratégia do opus dei para conseguir que uma pessoa entregue todos os seus bens para eles e passe a trabalhar para eles como escravo.

    Estou convencido de que o segredo é tudo para eles. Vou contar dois fatos. Dois dias antes de pedir admissão no opus dei (na verdade, a gente pede admissão mas são eles que colocam esse “pedido” em nossa boca e a gente escreve uma carta pedindo para entrar em um contexto de total coação, já que estamos movidos pela pesada sedução empregada por eles …), ou seja, nas vésperas desse passo importante, em que eu “veria claramente minha vocação” (efeito de pesada sugestão), é que fiquei sabendo, estarrecido, que não só aquele meu “amigo” que conversava comigo a fim de me fazer entrar não tinha namorada, mas que nenhum daqueles rapazes e homens feitos que moravam no centro tinham namoradas, esposas … Mas essa informação (que acho importante, não?) foi passada para mim como se fosse um pormenor. O importante era minha “vocação”. Ora, vocação para que exatamente? Cerca de uma semana depois que pedi a tal admissão, entrei na parte do centro cujo acesso me era proibido. Estava embebido da euforia de quem, com 20 anos de idade, está tomando decisões eternas de forma totalmente inconseqüente. Ocorre que, cerca de uma semana depois, ao abrir uma porta para procurar um livro na sala de estar dessa parte proibida, encontrei uma caixa que abri por mera irreflexão. Lá dentro estavam objetos misteriosos para mim. Algo que parecia uma corrente dentada para prender cachorro bravo, e um chicotinho para lambar burros ariscos. Eram os famosos “cilício” e “disciplina”, objetos de auto-flagelação que eu viria a conhecer muito bem nos 10 anos seguintes.

    Mas reparem na situação. Eu mostrei essa caixa, que pertencia a um outro adjunto mais velho que eu (adjunto é um numerário antes de morar no centro), ao diretor, fazendo alguma piada, que não lembro. O que me recordo claramente foi a expressão contrariada do diretor, que me tomou aquilo das mãos e deu uma bronca no adjunto descuidado que deixara eu ver aqueles objetos secretos. Então o diretor me levou para sua sala e, após algumas broncas, me disse que eu tinha uma série de coisas para aprender, cada uma no seu tempo, e que as mortificações corporais eram para eu aprender mais tarde (acho que dali a um mês). Mas, como eu tinha visto aquilo (nessa hora eu me lembro bem que estava em profundo estado de pânico), então ele ia me adiantar essa aula …

    Não vou, como prometi, me alongar falando de minha triste – e ao mesmo tempo interessante, não posso negar, história. Apenas queria dar esses dois exemplos para mostrar que a tática deles é o segredo revelado aos poucos. Ninguém provido de juízo aceitaria o seguinte convite: “Abandone sua família, passe a usar 2 horas por dia de cilício, use disciplinas 2 vezes por semana (no mínimo), passe a levantar às 5 da manhã e tomar um banho frio, durma uma vez por semana no chão duro, para de olhar para mulheres, esqueça a idéia de casar e ter filhos, obedeça cegamente a diretores neuróticos e maníacos, passe a pedir dinheiro para conhecidos e desconhecidos, venda livros inexistentes, faça amizades por interesse, deixe seus sonhos profissionais de lado …”

    Ao invés disso, eles dizem: “Venha ser feliz e sorrir o dia inteiro, doando-se a Deus e ao próximo para salvar a humanidade”. Só que nada disso é verdade quando se trata do opus dei. O sorriso é mortificação de numerários cansados, que depois de alguns anos sorriem mesmo quando alguém lhes pisa no calo (literalmente). Não há Deus no opus dei, que prega uma forma de adoração aterrorizada a Deus que tem as mesmas características de um demônio sádico. Não se dá a menor atenção ao próximo, ninguém lá dentro pensa em “salvar a humanidade”, e a felicidade realmente só existe, como na piada do sapato apertado, quando você vence todas as barreiras psicológicas e todo o assédio moral e finalmente decide-se a ir embora de lá, com uma mão atrás outra na frente (já que todo o seu patrimônio foi roubado, inclusive te obrigam a escrever um testamento deixando tudo para eles).

    Outra coisa que nunca dizem é o que acontece com quem sai. Ora, se você mora 10 anos com um pessoal, divide o quarto com eles, por que, no dia seguinte ao de sua saída, você passa a ser ignorado completamente por eles? Não é apenas falta de caráter ou caridade deles não. É estratégia. Quem está lá dentro não pode ter contato com quem sai, para que possam cultivar o absurdo aforismo de que, quem sai, está condenado a ser infeliz.

    É claro que a pessoa sai de lá bem infeliz (ainda que eu saí aliviado, pois foram anos e anos de esforço pessoal para vencer o assédio moral contínuo deles). Infeliz por quê? Porque você passou 10 anos sem ver a cor do seu salário, sem carro, sem objetos pessoais, até suas anotações de anos (no meu caso, caixas e caixas de fichas), você tem que deixar lá. Eu estava com 30 anos e sem nenhuma maturidade emocional, pois passei todo esse tempo tentando ignorar minha sexualidade (gostaria de escrever um livro sobre a visão do opus dei sobre a sexualidade), tentando ser um estranho no meio das pessoas que conviviam comigo. Enfim, a história da reconstrução da minha alma fica para outra ocasião.

    Bem, gostei da oportunidade do desabafo, feito sem revisão, de uma vez só, e estou como disse aberto para contatos e esclarecimentos principalmente para quem esteja pensando em cair nesse golpe, ou seja, entrar na perigosa seita opus dei.

    Antonio Carlos Brolezzi

    • Felipe Martins

      Salve Maria. Olá Antonio, quanta coragem em testemunhar!
      Louvado seja Deus pela sua vida!
      Já andei pesquisando sobre a Opus Dei, e muito me surpreendeu tudo isso que você veio nos falar. Tenho total interesse em conversar melhor com você a respeito dessa obra.

      Abraço

  • vanessa

    Sei que talvez aqui nao seja o lugar certo, parta gostaria de entrar em contato com vocês, para esclarecer uma duvida que esta surgindo na minha paroquia sobre a igreja catolica e a anglicana….vcs poderiam entrar em contato comigo?? obrigada

  • N

    Boa tarde!
    Fui convidada a um encontro de jovens, por uma conhecida. Por saber mais ou menos o que ela pensa em relação à religião e “as regras da Igreja Católica e amor de Jesus”, perguntei à ela se nesse encontro, ainda tinha missas ou não era voltado para a religião em si; ela me disse que nesse encontro, não fala de religião, não tem missa, fala somente de Deus. Ela disse que pessoas de várias religiões e até quem não acredita em Deus faz esse encontro.
    Perguntei por qual igreja esse encontro estava sendo organizado, e ela me informou o nome da paróquia (sim, católica).
    Perguntei se era a PJ que organiza, mas ela disse que não sabia.

    Bem, minha dúvida é: isso realmente é um EJC da igreja católica ou trolagem?
    Pois eu já fiz há alguns anos atrás, é bem, não era assim. Deixava claro a doutrina da Igreja Católica.
    Perguntei a outra conhecida se ela conhecia a paróquia citada e ela disse que sim, que é um dos melhores encontro de jovens, e quando expliquei pra ela o ocorrido acima, ela ficou em choque rs.

    Será possível que as coisas estão tão enraizadas mesmo dentro da Igreja?

Leave a Reply

You can use these HTML tags

<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>