Os Papas do Século XII (Parte II) – Tempos de Cruzadas e de um Certo Barbarossa

Voltamos meu povo,

Nesse tempo, os hereges cátaros, hoje tidos como tão bonzinhos, espalhavam-se pelo sul da França, pela Itália e, se contarmos os bogomilos, pela Europa Oriental.  Atualmente, seu pseudo-heroísmo é propalado aos quatro ventos; esconde-se descaradamente o seu dualismo herético doentio, e não consta no mapa da fé o quanto de almas esses seres andaram prejudicando. Mas tratamos isso quando falarmos de heresias. Vamos continuar então com a história de nossos papas. Começando com:

papa_inocencio_ii

Mosaico da igreja de Santa Maria in Trastevere (Roma)

Inocêncio II – Seu papado começou de forma turbulenta (ai, ai). Tendo sido eleito por uma facção composta de jovens cardeais, uma outra, composta por cardeais de mais idade, resolveu eleger o antipapa Anacleto II como sucessor de Honório II (é muito “II”, não acham?”).  Enquanto Inocêncio era consagrado em Santa Maria Nuova in Campo Vincino, o outro grupo consagrou Anacleto em Latrão. E assim permaneceu durante oito anos.

A curiosidade desse período foi o surgimento das famosas profecias de São Malaquias da Irlanda, em que todos os papas da nossa era são apresentados. Por São Malaquias, Bento XVI é o penúltimo. O próximo Papa, Pedro Romano, liderará a Igreja durante o período conhecido como “última grande perseguição”, no qual a Igreja e seus fiéis verão a destruição de Roma e a sede mundial da Igreja passará a ser Jerusalém (medo!). Bom, rezemos então.

Os fatos de maior relevância do trabalho de Inocêncio II foi o apoio dispensado aos Templários, dando-lhes completa autonomia. Além disso, na esfera política, o senado de Roma resolveu que transformaria a cidade numa república, aos moldes do que já ocorria em outras localidades do Norte da Itália. Para tanto retirou o poder temporal do Papa, o que viria a provocar distúrbios por mais de 40 anos. Papa de 1130 a 1143.

Celestino II – Ao contrário de seu antecessor, foi eleito por unanimidade. Durante seu reinado, houve uma celeuma com o Rei Luis VII da França, que acabou por fazer com que o papa levantasse um interdito a todos que dessem abrigo ao Rei dos franceses. Celestino II também  recusou-se a ratificar o tratado que concedia a soberania da Sicília e do sul da Itália a Rogério II. Essa situação com o Rei Rogério só foi atenuada em virtude dos distúrbios internos em Roma e das pressões que sofriam os Estados Pontifícios em suas fronteiras. Seu papado durou cerca de seis meses somente, de 3 de outubro de 1143 a 8 de março de 1144.

indiana_jonesLúcio II – Não estranha não gente, que tem mais Papas “II”.  A vida e morte de Lúcio II foi uma aventura, e no seu curto papado aconteceram coisas de deixar Indiana Jones morrendo de inveja. Eleito em 12 de março de 1144, foi imediatamente consagrado para não abrir brechas para antipapas engraçadinhos.

Foi o Papa Lúcio II que estabeleceu a suserania papal sobre o Condado Portucalense o que, na prática, criou o Estado português, retirando, daquele momento para sempre, qualquer pretensão da coroa espanhola sobre nossa pátria-mãe. Enquanto isso, em Roma, o Senado proto-marxista (tá, tá, é anacronismo, eu sei) botava suas manguinhas de fora e fazia com que os sacerdotes se restringissem às suas atividades espirituais.

O Papa em pessoa organizou uma força militar para botar ordem no galinheiro (é isso aí, Papa tinha que andar sempre com a faca nos dentes e preparado para enfiar a mesma na caveira). Durante um assalto das forças papais ao Capitólio, Lúcio II foi mortalmente ferido a pedradas e veio a falecer no mosteiro de São Gregório, em 15 de fevereiro de 1145. Papa de 1144 a 1145.

Eugênio III – Terminou a sequência de “II”, meu povo! Eugênio III era um Papa austero e honesto. Eleito Papa, manteve o hábito e o estilo de vida dos monges. Foi o responsável pela convocação da 2ª Cruzada, motivada pela tomada de Edessa pelos turcos. Estabeleceu uma reforma clerical e presidiu três sínodos importantes: Paris, Triers e Reims.

Eugênio III prometeu ao Rei Frederico Barbarossa que lhe daria a Coroa Imperial que um dia fora de Carlos Magno. Por sua vez, o Rei garantiu que não faria acordos com o Senado Romano e com os normandos sem o consentimento do Papa, que buscava retomar o poder temporal.

Esse período foi conturbado, muito graças ao senador Arnaldo de Breschia, que buscava colocar no trono de Pedro um Papa que coadunasse suas ambições políticas.

Eugênio III morreu de febre em Tívoli, antes de poder consagrar Frederico. Seu restos mortais jazem ao lado de Gregório VII na Basílica de São Pedro. Foi beatificado em 1872. Papa de 1145 a 1153.

papa_anastacio_ivAnastácio IV – Conrado di Suburra já era avançado em anos quando foi consagrado bispo de Roma. Era um homem de origem humilde e pouco se sabe de seu passado. Foi feroz opositor de Anacleto II, o antipapa que infernizou o papado de Inocêncio II, e graças a isto foi nomeado cardeal-bispo de Sabina.

De espírito conciliador, aproximou-se de Barbarossa, impedindo assim as pretensões dos partidários do senador Arnaldo di Brechia (chamados arnaldistas) ao poder em Roma. Anastácio estendeu os benefícios dados aos Templários a também à famosa Ordem dos Cavaleiros do Hospital (hospitalários).

Quando a fome instalou-se na cidade eterna, o bom Anastácio alimentou o povo com o tesouro papal – é… papas realmente são, invariavelmente, seres humanos terríveis. Onde já se viu, dar comida a quem tem fome?  Partiu desse mundo em dezembro de 1154 e foi sepultado na Basílica de Latrão. Papa de 1153 a 1154.

Adriano IV – Papa “english” men! Aliás, o único até hoje. Coube a Adriano travar a batalha final contra Sauron, ops!, o senador Arnaldo di Breschia, que queria tomar o poder em Roma: com o auxílio de Barbarossa, prendeu e arrebentou, desculpe, executou Arnaldo em 1155. Não era à toa que o nome de batismo do Papa era “breakspear” (quebra lança).  Defendeu com unhas e dentes a primazia papal sobre o poder temporal até o fim de seus dias. Papa de 1154 a 1159.

Alexandre III – E começou outra confusão. Uma minoria resolveu eleger um certo Octaviano como novo Papa (lembranças de João XII) e, com o auxílio do Imperador Barbarossa, excomungar o legítimo ocupante do trono, Alexandre III. Graças ao apoio dos reis da França e da Inglaterra, Alexandre foi confirmado como Papa.

Só que as coisas não se resolveram assim de forma tão simples. Com as tropas do Imperador Barbarossa ocupando Roma, o Papa não pôde retornar à cidade, tendo que viver na França. Foi por meio de um convite do próprio povo romano que Alexandre III pôde voltar.  Mesmo assim, teve que engolir o despotismo de Barbarossa, que fez subir ao poder mais dois antipapas em sequência: Pascoal III e Calisto III. Só depois de um quebra-pau violento, em 1178, Alexandre teve um pouco de sossego. Mesmo assim, no ano seguinte, arrumaram outro antipapa: Inocêncio III.

Um grande marco histórico para nós que vivemos em Pindorama foi o reconhecimento formal da Igreja da Independência portuguesa e do seu primeiro Rei, pai da nação, Dom Alfonso Henriques em 1179. Alexandre III não teve sossego nem depois de morto, pois os revoltados da comuna romana profanaram seu corpo que jazia na Basílica de Latrão. Papa de 1155 a 1181.

Lúcio III – A inquisição gera o maior dos blá-blá-blás anticatólicos. Bom, já falei um pouco dela aqui no blog e ainda falaremos muito ao logo da história dO Catequista, pela glória de Nosso Senhor Jesus Cristo. Mencionei isto porque foi o Papa Lúcio III que lançou as bases da Inquisição medieval e do tribunal do Santo Ofício. Só mais um dado para enriquecer a luta contra as inúmeras mentiras divulgadas sobre essa história: em Toulosse, centro principal dos hereges Cátaros, num período de 100 anos, 42 pessoas foram executadas.  Isso é lá um número de execuções que justfique a fama de um tribunal impiedoso e sangrento? Detalhe: havia uma guerra ali! Toulosse foi o local em que mais pessoas “inocentinhas” foram condenadas. Outra coisa, a Inquisição foi a primeira instituição de cunho jurídico a desconsiderar a confissão sob tortura como válida.

Lutando contra os rebeldes romanos e contra as reivindicações da condessa Matilde de Toscana, Lúcio III pediu o auxílio de Barbarossa. O Imperador, avançado em anos, queria coroar seu filho Henrique IV. Não houve acordo e, antes que o imperador se jogasse contra o papado de vez, Lúcio III faleceu em novembro de 1185. Papa de 1181 a 1185.

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O temido Imperador Barbarossa (barba ruiva)

Urbano III – Foi pé na porta e soco na cara. Recusou-se a coroar como co-imperador o filho de Henrique VI, suspendeu o patriarca da Aquiléia por coroar o filho do rei da Itália, recusou o candidato do imperador à sucessão e apoiou uma revolta contra o imperador, entre outras coisas. Mas, no final, teve que se render à força maior do Barbarossa. Exilado em Verona, Urbano III foi expulso de lá pelas autoridades da cidade que apoiavam Barbarossa. Enquanto se dirigia a Ferrara, adoeceu e morreu. Papa de 1185 a 1187.

Gregório VIII – Ao contrário do seu antecessor, buscou uma política mais “paz e amor” com o Imperador Barbarossa. Foi um reformista, que buscou coibir a participação do clero em lutas armadas (o Frei Tuck, de Robin Hood, não ia se criar com esse papa). Iniciou os preparativos para uma nova cruzada e tentou convencer o Barbarossa a embarcar nessa, empreitada na qual não obteve sucesso. Durante uma viagem de Ferrara para Roma, adoeceu e morreu (tinha algum “problema” essa estrada de Ferrara, não?). Papa de em 1187.

Clemente III – Foi durante o seu papado que o Barbarossa partiu desse mundo, tendo morrido afogado com o peso da própria armadura após cair de seu cavalo ao atravessar uma ponte (convenhamos, uma morte meio idiota). Seu papado foi marcado pelos preparativos para a terceira cruzada.

Clemente III foi o primeiro papa romano eleito desde a revolta dos arnaldistas. Seu nome foi bem aceito pelo povo; seu caráter bondoso e conciliador facilitou a assinatura de um tratado entre os defensores da Roma secular e os defensores da Roma mais espiritualizada. Isso, de certa forma, foi o lançamento das ideias que levam ao nosso “estado laico”, da mesma forma que os arnaldistas são os tetravôs do movimento revolucionário. Os Estados pontifícios, tomados pelo Barbarossa, foram restituídos à Santa Igreja. Teria sido Clemente III a coroar o novo imperador, mas faleceu subitamente antes que esse chegasse a Roma. Papa de 1187 a 1191.

Celestino III – Esse papa teve problemas sérios com a irresponsabilidade do novo Imperador: Henrique VI, ao voltar para a Alemanha, começou a nomear bispos a torto e a direito (com ordem de quem, bwana?).

Além disso, Henrique encarcerou o Rei da Inglaterra Ricardo Coração de Leão, vitorioso da terceira cruzada e sob proteção do Papa. O papa demorou a se manifestar contras as arbitrariedades de Henrique, bem como contra seu plano de promover a união entre o Sacro Império e a Sicília como reino hereditário e permanente.

Henrique faleceu em 1197.  Velho e doente, o papa pretendeu renunciar em favor do cardeal Giovanni de Santa Prisca, mas sua proposta foi recusada pelo colégio cardinalício. Papa de 1191 a 1198.

*****

Terminado o século XII, iniciaremos agora um período onde veremos a atuação das ordens mendicantes – A Ordem dos Frades Menores, de São Francisco de Assis e a Ordem dos Irmãos Pregadores, de São Domingos. Os próximos posts serão dedicados a melhor conhecer e entender os motivadores dessas duas grandes ordens, tão importantes para nossa amada Igreja.

Aguardem.

7 comments to Os Papas do Século XII (Parte II) – Tempos de Cruzadas e de um Certo Barbarossa

  • Bom dia!
    “A curiosidade desse período foi o surgimento das famosas profecias de São Malaquias da Irlanda, em que todos os papas da nossa era são apresentados.”
    Li tempos atrás que essa profecia de São Malaquias na verdade é apócrifa, e que não há nenhum documento que comprove sua existência antes do século XVI. Alguns historiadores duvidam muito que o próprio santo seja o autor das mesmas… E duvidam mesmo que ela tenha sido escrita no tempo do santo, sendo portanto bastante posterior. O que vocês sabem a esse respeito? Um abraço, parabéns pelo site!

    • Suas fontes estão corretas: assim como as profecias de Nostradamus, as de São Malaquias estão sempre sendo “relidas”. Eu as citei apenas como curiosidade histórica e para colocar alguma “pimenta”. As profecias de São Malaquias não têm credibilidade e a Santa Igreja não corrobora. Os manuscritos que chegaram a nós são muito posteriores realmente.
      Um grande abraço e obrigado pela colaboração.

  • Grande Paulão! Três perguntas: ouvi dizer que Barbarossa foi excomungado é verdade? E os cátaros que que eles queriam? A heresia deles a gente vai discutir com Lutero, Calvino e compania?

  • Primeira Pergunta:

    Foi sim, mas depois foi perdoado, depois excomungado, depois perdoado…. o cara não tinha jeito.

    Segunda Pergunta:

    Já tem um post pronto que explica quem eles eram e a Vivi está fazendo a revisão. A princípio eles queriam o que O Cérebro queria todas as noites: dominar o mundo. Eram dualistas, originários da Bulgária, que instalaram suas idéias, advindas do maniqueísmo, combatido muitos séculos antes por Santo Agostinho, pelo país de Oc (Sul da França), península Itálica e algumas outras partes da Europa Ocidental.

    Terceira pergunta:

    Sim, faremos algumas analogias do catarismo com o luteranismo. Mas o catarismo é algo que tem mais a ver com new age e filosofias orientais como o zoroastrismo.

  • claudinei ribeiro

    Conheci por acaso essa página e já gostei do que encontrei, curto demais história da Igreja .

  • Christiane

    Caros, bom dia! Descobri o site há pouco tempo e apenas agora estou lendo esta série sobre os papas. A respeito da dita profecia de São Malaquias, tem este excelente post do Pe. Paulo Ricardo a respeito (só para enriquecer, pois já foi dito que ela não tem respaldo nenhum da Igreja):

    http://padrepauloricardo.org/episodios/a-profecia-de-sao-malaquias

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