Javé: Homem ou Mulher?

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No imaginário geral, Deus Pai é um senhor sisudo de barba branca, bem parecido com Jesus, só que mais velho. Mas a verdade é que Ele não é mesmo assim. Bem, talvez até seja… mas não existem bases para afirmar que Ele tenha alguma forma humana, seja de homem ou de mulher. Ele é espírito, e não se enquadra dentro de nenhuma destas categorias biológicas.

O Catecismo da Igreja Católica define muito bem essa questão:

“Deus não é de modo algum à imagem do homem. Não é nem homem nem mulher. Deus é puro espírito, não havendo nele lugar para a diferença dos sexos.” (CIC, 370)

Ou seja, quando a Bíblia diz que fomos criados à imagem e semelhança de Deus, não se refere à forma física, mas sim ao intelecto superior às demais criaturas, à capacidade moral que nenhum outro animal tem, ao dom da vida eterna, à capacidade de se relacionar de forma consciente e livre com Deus. Tanto isso é verdade que, logo após dizer “Façamos o homem à nossa imagem e semelhança”, Deus determinou:

“Que ele reine sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos e sobre toda a terra, e sobre todos os répteis que se arrastem sobre a terra.” (Gen 1,26)

É bem verdade que Deus Filho veio ao mundo como um Menino, porém, quanto a Deus Pai… “Ninguém jamais viu Deus” (João 1,18). Se bem que teve um sujeito que passou bem perto disso: Moisés. Confiando na intimidade de que gozava com o Criador, o profeta ousou pedir que Deus se revelasse aos seus olhos. Deus não topou, mas ao menos lhe deu a imensa graça de vê-Lo de costas.

Moisés disse: “Mostrai-me vossa glória”. E Deus respondeu: “Vou fazer passar diante de ti todo o meu esplendor (…). Mas, ajuntou o Senhor, não poderás ver a minha face, pois o homem não me poderia ver e continuar a viver. (…)

Quando minha glória passar, te porei na fenda da rocha e te cobrirei com a mão, até que eu tenha passado. Retirarei depois a mão, e me verás por detrás. Quanto à minha face, ela não pode ser vista.”

(Êxodo 33,18-23)

Deus não é homem nem mulher, mas uma coisa é certa: Ele quis se revelar nas Escrituras por meio de uma personalidade masculina. É fácil perceber que a maioria esmagadora das referências do Antigo Testamento se refere ao Senhor como um ser masculino; ele sempre é chamado de “Senhor”, e jamais de “Senhora”. Sim, há as algumas passagens em que Deus se coloca em um contexto mais feminino (“Mas agora grito, como mulher nas dores do parto” – Is 43,14), mas são bem raras.

É importante notar que esta absoluta predominância do tratamento masculino a Deus nas Escrituras não é determinada simplesmente pelo contexto cultural do povo hebreu, ou seja, pelo patriarcalismo. Afinal, o próprio Cristo se referia ao Criador como Pai, e se dizia “Filho do Homem”. E, quando ensinou seus discípulos a rezar, disse: “Pai Nosso…”.

Mas, para ajudar a embananar as coisas, certa vez o Papa João Paulo I declarou que Deus é pai, mas é mãe também (1). Neste sentido, Bento XVI parece discordar de João Paulo I. No seu livro “Jesus de Nazaré”, o Papa alemão observa que “Deus nunca é designado como mãe” na Bíblia, mas somente como pai. Ele também salienta que, “apesar de todas as imagens do amor materno, ‘mãe’ não é nenhum título divino, não é nenhuma alocução para Deus” (2).

Certo, Deus se revelou na Bíblia por meio de uma personalidade masculina, mas por quê? Bento XVI explica que o Deus de Israel precisava mostrar a Sua total diferenciação das divindades maternas adoradas pelos povos que cercavam os israelitas:

“…a imagem do pai era e é adequada para exprimir a alteridade entre Criador e criatura, a soberania do ato criador. Somente por meio da exclusão das divindades maternas podia o Antigo Testamento levar à maturidade a sua imagem de Deus, a pura trascendência de Deus”. (2)

No livro, Ratzinger esclarece ainda que a sua tese não explica todo o mistério, e nem tampouco tem a pretensão de ser uma verdade absoluta. Bem, mas já nos ajuda a compreender algo do Ser de Deus Pai.

*****

Notas:
(1) Site do Vaticano. Papa João Paulo I – Angelus Domini. 10/09/1978
(2) Bento XVI, Papa, 1927 – Jesus de Nazaré : primeira parte : do batismo no Jordão à transfiguração / Joseph Ratzinger; São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2007, p. 130-131

20 comments to Javé: Homem ou Mulher?

  • Lindo o seu blog! Já o divulguei na minha lista de blogs, na postagem do meu blog sobre o 2E-blog e o coloquei no meu “board” Católicos no Pinterest.

    Se tiver tempo coloque um comentário na sua postagem sobre seu blog no diretório abaixo.

    VAMOS PARA O ENCONTRO NACIONAL DE BLOGUEIROS!
    BEIJOS,

    http://DIRETORIO-BLOGS-CATOLICOS.BLOGSPOT.COM.BR/
    http://vida-em-sociedade.blogspot.com.br/2012/04/eblog-encontro-de-blogueiros-catolicos.html

  • Além disso temos que, embora o papel da genitora seja indiscutivelmente louvável, é inerente à constituição biológica que procedemos do pai e a ele estamos mais intimamente ligados pelos laços que transcendem a causalidade genética. Ficou confuso bagarai, eu sei, hehe. Mas é mais ou menos isso:

    É um exemplo infeliz, mas tomemos um caso de um homem viúvo que teve um filho com a falecida e tem um filho com a atual esposa. Os filhos são meio-irmãos um do outro pelo laço que se liga ao pai.

    Acho que foi mais ou menos por esse raciocínio que nosso aniversariante Bento XVI apontou a necessidade de Deus apresentar-se como pai, para que a humanidade inteira soubesse que possui a mesma origem.

    • Sim, Bruno, é isso mesmo que Bento XVI diz em seu livro, mas com outras palavras.
      Ele diz que as deusas que eram adoradas na palestina naquela época faziam parte de cultos de concepção panteísta.
      E, depois, era como se todos os seres humanos emanassem, viessem de dentro da “deusa mãe”.
      Quando na verdade Deus queria deixar bem claro a distinção entre Criador e criatura, e, é claro, o fato de Ele ser o único Deus.

      • Leilah

        Caríssima catequista,

        Dias atrás fuçando os posts antigos desse blog, encontrei sua postagem intitulada “São Nunca, padroeiro das mulheres de batina” onde você buscava fundamentar a opção da igreja pela não ordenação das mulheres. Não sei se é coincidência ou não, mas de algum modo essa postagem de agora responde à minha fraterna “provocação” (que fiz em relação ao post do São Nunca) acerca de suas falas sobre a personalidade masculina de Deus ao menos como revelada na Bíblia.
        Quero lhe parabenizar por esse bonito espírito de busca, de aprofundamento contínuo que não só lhe faz crescer como catequista e cristã, como estabelece uma interação bacana com os internautas, ajudando-nos a ter essa mesma atitude de querer “crescer na graça e no conhecimento do Senhor”. Gostei muito da citação de Ratzinger que você traz, ajudando a compreender como a imagem paternal foi um método “esperto” de Deus para purificar as imagens errôneas da divindade que circundavam o povo eleito. Muito bacana essa clarificação. Contudo eu colocaria mais ênfase nas suas falas que mostram o Senhor como sendo O TOTALMENTE OUTRO e absolutamente diverso e distinto de nós. Ainda que pai seja uma imagem que o Senhor julgou mais adequada tomar do contexto cultural para amadurecer a concepção de Israel acerca de Deus, concordo com você e com Bento 16 quando também enfatizam que Deus está além de tudo quanto possamos imaginar. Pois como diz São Tomás de Aquino é mais “fácil” falar de Deus a partir do que Ele não é, que falar do que ele é. Por isso usamos tanto o prefixo IN: Indizível, Inefável, Infinito… Etc. E por isso nos prostramos em adoração boquiaberta. As imagens e linguagens humanas que o Espírito Santo foi nos dando ao longo da História da Salvação, nos ajudam a purificar nossa imagem de Deus como você tão bem salientou, mas ao mesmo tempo nos dizem: “MAIS ALÉM, MAIS ALÉM…”. Fico muito edificada com seu esforço de aprofundamento e de sincera ortodoxia. Isso é até exemplo para muitos ditos “teólogos” de hoje, pois muito acertadamente, em vez de ir descartando logo a tradição em busca de uma explicação supostamente mais coerente e adequada (como costuma ser o critério automático e instintivo de tantos “teólogos” de hoje)você antes de tudo, tem o instinto da confiança na tradição, na bíblia, na autoridade da igreja e por isso começa do jeito certo. Pois a atitude lógica do convertido é confiar em quem lhe trouxe a conversão (lembro-me aqui do depoimento do Leonardo Boff de como desde menino, ele foi criado num clima que embora “católico” era hiper-saturado de críticas azedas à igreja e ao clero, sobretudo por parte de seu pai. Ora, criado em tal ambiente, não é de se estranhar que seu ponto de partida, tenha sido justamente a má vontade, a desconfiança para com a igreja, a partir da versão de “igreja” veiculada nas críticas do pai, que acabou por contaminar de antemão a versão de “igreja” do filho, sem a honestidade de se dar ao trabalho de conhecer o que era criticado, sob outros ângulos) Mas sua atitude é a da convertida grata pelo dom recebido: “bom, se a tradição, a bíblia e autoridade da igreja têm trazido esses dados desde sempre, vou primeiro me esforçar por apreender o sentido disso”, me parece ser o seu raciocínio. E de fato, se há essas imagens de Deus reveladas assim e assado, isso não é por acaso. Se é verdade que a revelação divina é recebida em contextos sócio-culturais e históricos que influenciam a comunicação humana dessa revelação, por outro lado também é verdade (e é mais decisivo até!) que a Revelação Divina não se prende à esses contextos como se fossem amarras que tornem impossível ou muito nebuloso compreender o que tem sido revelado, pois se assim fosse, seria inútil Deus se revelar. Se os contextos socioculturais fossem grossas camadas de neblina tornando nebuloso aquilo que Deus quer dizer, então Deus estaria nos metendo num beco sem saída. Mas como sua revelação para nós é vital e indispensável e é salvadora, apesar das camadas socioculturais, é claro que Deus nos concede um entendimento certo e seguro da sua mensagem, através do carisma e missão do sagrado magistério pontifício (Glória a Deus!) e sou-lhe grata por essa atitude firme e bonita de adesão ao magistério vivo da igreja. Quem vai por aí não erra. E até mesmo por isso, eu gostaria de sugerir com fraterna confiança e simplicidade que você buscasse aprofundar mais um pouquinho o sentido dessa expressão “O FILHO DO HOMEM” para nos ajudar a crescer ainda mais. Pois fiquei me perguntando se essa expressão em vez de querer dizer FILHO DE DEUS (sendo Deus aqui o “homem”, como seu texto parece sugerir) não quer se referir à humanidade do Senhor. “Filho do Homem” não teria então o sentido de ‘verdadeiramente homem”, verdadeiramente feito carne, nascido da carne humana? Tenho certeza, de que como sempre, você irá aprofundar essa questão e nos presentear com os frutos do seu dedicado estudo das belezas da nossa fé. E mais uma vez, muito grata por seu belíssimo testemunho.

        • Oi, Leilah!
          Outro dia, Paulo Ricardo me mandou um email perguntando de vc. Todos notamos que vc havia “sumido”, rs. Que bom ver um comentário seu de novo.
          Na verdade, este post aqui foi motivado justamente pelos seus questionamentos no post sobre a ordenação sacerdotal de mulheres. Eu havia feito um comentário lá dizendo a vc que faria um post sobre isso.
          Agradeço o seu ponto de vista generoso sobre a forma como buscamos trabalhar aqui. De fato, não temos a pretensão de ser teólogos, coitados de nós! Somos apenas um historiador, dois catequistas e um designer.

          Essa expressão “O FILHO DO HOMEM” é mesmo intrigante. Não sei mesmo se serei capaz de falar algo útil e coerente sobre isso, rs, mas vou me deter sobre a questão com cuidado e carinho. Se eu conseguir algo relevante para fazer um post, te aviso por email. Grande abraço!

  • A visao nossa masculina de Deus tem haver acredito com autoridade. O amor de Deus é pessoal, eterno, sem fim, é exatamente como uma mãe e um pai se sente em relaçao ao seu filho. Um amor que perdoa, redime, ajunta, cura, cicatriza é um amor que só nosso Senhor e Pai tem!

    O Catecismo é perfeito nisso: Deus é puramente Deus! Sua forma de Espirito tomou a natureza humana e se fez Homem na pessoa do Verbo, mas Ele é e sempre sera um Espirito perfeito, cheio de amor e gloria que nos criou livremente para ama-Lo, honra-Lo, bendize-Lo para sempre!

  • Alexandre José

    Temos que considerar a questão cultural, como no caso das “deusas” pagãs já citadas, mas também lembrar que o filho é do pai e não da mãe. No sentido que o pai é quem lhe dá o nome, ou seja define para si a propriedade.
    Até hoje, em algumas culturas, como ainda creio ser no judaísmo e no maometano, e em algumas culturas não-urbanas cristãs e algumas animistas, é essa regra que vale. Quando a mulher abandona o lar, a lei diz que os filhos ficam com o pai.
    Se uma mulher não tem filhos, a culpa é dela e não do homem, o que permite a ele abandoná-la e procurar outra que lhe dê filhos.
    Quando o pai morre é obrigação do irmão cuidar da prole da sua cunhada.
    Poderíamos dizer que é o pai que “gera”, o filho lhe é consubstancial. Daí quem vê o filho vê o pai.

  • Lavínia

    Atenção feministas!
    Isso não significa que é pra começar a chamar Deus por mulher, como as wicca!
    UASUHASUHASUHASU

  • Isabela Cristina Gonçalves

    sabe hj mesmo eu estava discutindo com meu professor de filosofia , ele n acredita em Deus , e chegou ate flar com esta palavras ” eu axo q Deus eh hermafrodita” q Deus perdoe ele mais realmente nao temos esta certeza , como iremos provar pra ele q Deus n é isso , q Ele existe , q isso tudo eh um misterio sendo q nao temos como provar ele mesmo me disse , ” eu só acredito se compreender , se puder ver , ou pegar , algo racional ” ele nesta atitude foi muito infeliz e me fez ate lembrar de Tomé , mais eu flei pra ele ” Feliz akeles q acreditam sem terem visto ! ” e mesmo assim ele continuou falando … eu nao tenho como provar , eu tento mais eh a mais pura falta de respeito comig q acredito e com o proprio Deus …

  • Ana Afonso

    Meus queridos irmãos desde de criança, e durante toda tranjectoria da construção da minha fé eu sempre acreditei num Deus PAI, além disso num Deus pai fisíco, como tinham dito no início um senhor sisudo de barba branca, bem parecido com Jesus, só que mais velho. pricipalmente quando clamo a Santissíma Trindade na minha memoria (imaginação) só vejo o Espirito santo como espiríto…fiquei emocionada e até fascinada com este post amo-vos e sinto muito a benção de Deus no vosso trabalho ..parabenizo-vos muito bom trabalho… Cabo Verde /Africa Ocidental também segue voçês..Paz e bem!!GRANDE CATEQUISTA!!

  • Rafael Fuzisawa

    Boa tarde pessoal,

    Uma pessoa do meu grupo de jovem perguntou o seguinte: “Como posso eu acreditar no Espírito Santo, ou que Deus é um espírito, sendo que nossa religião não acredita em espíritos, ao contrário do espiritismo?”

    Sei que foi uma pergunta estranha e confusa, ate simples mas que fiquei com medo de “embananar” e decidi pesquisar… vocês podem me ajudar?

    • Rafael,
      Quando se diz que a Igreja Católica não acredita em espíritos, isso significa que ela ensina que é pecado procurar obter mensagens de espíritos, ou seja, evocar os espíritos dos mortos. Mas não significa, de forma alguma, que a Igreja não creia na existência de espíritos: ela crê sim!

      O que é um espírito? É um ser que está além da matéria, que não está dentro das categorias biológicas. Assim, há os espíritos dos mortos, que um dia tiveram corpo e agora são só espírito, e há os anjos, que são seres puramente espirituais, assim como são Deus Pai e o Espírito Santo. Já o Filho, após a Sua Encarnação, tornou-se Deus feito Homem, então Ele não é puro espírito: é o Verbo que se fez carne.

  • Gabriel

    Olá, primeira vez que visito o site, e gostei muito da seriedade dos conteúdos e como as pessoas se relacionam =)
    Pra mim Deus é amor, e nós falamos O amor e não A amor, seria uma palavra masculina, por isso Pai, na minha opinião leiga. Talvez todos esses mistérios não sejam tão complexos como pensamos, o que fazem muitas pessoas “baterem cabeças”.

  • Luan

    Bem, sempre tive muitas dúvidas com relação ao gênero de Deus! Agora isso ficou mais claro na minha cabeça.

  • Gostaria apenas de acrescentar a tão sábias considerações já feitas, a questão da pura categoria gramatical: assim a questão da masculinidade atribuída a Deus é puramente gramatical. Ou seja, Deus, nas Escrituras e no linguajar judeu/cristão e em geral é masculino quanto à gramática: substantivo masculino.
    Espírito, em hebraico(ruah) é feminino! Espírito, em grego e latim= masculino…Estas línguas antigas possuem 3 gêneros gramaticais: masculino, feminino e neutro.

  • Daniel Medeiros

    Olá. gostaria de ler algum material que fale sobre os Evangelhos segundo Maria Madalena e segundo Judas.
    Obrigado.

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