Franciscanos e Dominicanos: os mendigos que renovaram a Igreja no séc. XII (parte I)

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Detalhe dos pés de um frade franciscano, no Centro de São Paulo. Foto: NILTON FUKUDAAE

E aí meu povo,

Esse capítulo especial da história dos Papas serve para contextualizar esse tempo culturalmente tão rico que foi o século XII, caracterizado pelo florescimento das heresias. Tudo converte para o momento crucial dessa era: o surgimento das Ordens Mendicantes (franciscanos e dominicanos). O conceito principal que tratamos aqui é a formação da identidade própria de cada Ordem.

Foi Inocêncio III o papa responsável pelo lançamento da primeira Cruzada dentro de território europeu; seu alvo não era o infiel islâmico ou qualquer outro inimigo não cristão: a luta era contra um grupo de hereges que se diziam “cristãos” e que se autoproclamavam os seguidores mais “puros” do cristianismo. Eram os cátaros ou albigenses (nome derivado da cidade francesa identificada pela historiografia tradicional como primeiro centro de suas atividade – Albi).

A heresia cátara foi a grande responsável pelo surgimento dos mendicantes, que se apresentaram como uma forma de reação da Igreja, indicativa dos novos rumos que tomará a espiritualidade no Ocidente.

Quem eram os cátaros?

Os cátaros surgiram a partir da penetração na Europa Ocidental, através da rota Reno-Danúbio, das ideias e pensamentos dos bogomilos, hereges da Europa Oriental que floresceram no Império Búlgaro a partir do século X e prolongaram-se até o século XIV – em longevidade sobrepujando em muito aos cátaros.  Os bogomilos eram maniqueístas, ou seja, tinham suas bases teológico-filosóficas oriundas do século III, do pensamento do pseudo-sábio persa Mani, para quem o mundo não é realização de um Criador, mas sim de dois – um bom e outro mau (mais detalhes futuramente na série de posts Heresias, aqui nO Catequista).

Os termos albigenses, cátaros e bogomilos são correlatos, equivalendo-se até certo ponto, mas não devemos esquecer que cada um deles apresenta peculiaridades. Confira:

  • Albigenses – termo que deriva da cidade de Albi, um dos principais núcleos da heresia na região do Midi francês, ou melhor, do condado de Tolosa. Albi é identificada pela historiografia tradicional como primeiro centro das atividades destes hereges. O termo “albigenses”, prevaleceu sobre as demais porque foi utilizado por todos os cronistas do século XIII que discorreram sobre a “Cruzada”.
  • Cátaros – o termo advém do grego e quer dizer “puros”, um dos epítetos atribuídos aos líderes dessas comunidades religiosas.
  • Bogomilos – em eslavo quer dizer “Amigo de Deus”. O termo está associado à figura lendária de Bogomil, um heresiarca que teria vivido no século X, ou na Bulgária, ou nos confins da Macedônia e da Trácia.

Como bons “descendentes” dos maniqueístas, os cátaros se caracterizavam especialmente por dualismo gnóstico, no qual o “Deus bom” criou a realidade espiritual, que foi aprisionada na matéria criada pelo “Deus mau”, criador do mundo físico.

Por que a pregação catára era tão atraente?

No século XII, a heresia cátara surgiu no horizonte como uma novidade desafiadora para a Igreja, em especial pela sua nova forma de pregação evangélica.

A Europa Ocidental passava por um processo de revitalização na virada do século XII para o XIII, que a tornou mais “moderna e dinâmica”. Havia uma paz relativa obtida a partir do século XII, passando por um renascimento também de caráter econômico. Assim, o retorno a uma vida mais urbana acabou por despertar um desejo pela experiência religiosa mais profunda e, consequentemente, fomentou o debate intelectual. Este foi o terreno fértil para o desenvolvimento de novas formas de ver a religiosidade que iam além dos postulados ortodoxos do catolicismo, que até aquele momento haviam tão bem cumprido seu papel de propagar o cristianismo. O homem medieval passou a buscar uma proximidade maior com seu Criador.

É aí que reside o apelo cátaro. Assim como bogomilos e dualistas gnósticos de outras vertentes, os cátaros enfatizavam a importância do contato direto com o divino. Muito embora pese o fato de o catarismo não ser estruturado como o catolicismo – havendo segundo as fontes, várias dissidências internas em que surge inclusive um papa cátaro –, de uma forma geral, os cátaros efetivamente excluíam a necessidade de um sacerdócio ou hierarquia institucional (olha os tataravôs do pessoal da Teologia da Libertação, aí, gente!).

Os cátaros tinham ainda um trunfo importantíssimo: eles usavam uma forma itinerante de pregação. Os “puros” viajavam sempre a pé pelos campos e, em suas andanças, geravam novos convertidos. Esta é, evidentemente, uma característica inversa da vida monástica à qual muitos religiosos católicos se dedicavam, pois viviam enclausurados e fixos em suas paróquias e mosteiros.

Não é difícil entender porque o povo se identificava tanto com os pregadores cátaros: enquanto os hereges se faziam próximos a eles e partilhavam de sua vida humilde, os altos escalões eclesiásticos da Igreja pouco interagiam como a população campesina e viajavam cheios de guardas, com a maior pompa.

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#SeEuAcreditasseEmReencarnação, juraria que certos pregadores de hoje são hereges albigenses reencarnados!

Para pregar sua heresia de uma forma que consideravam verdadeiramente apostólica, os cátaros dedicavam-se ao estudo das Escrituras (sabe aqueles crentes que se gabam de saber citar todos versículos da Bibra de cor? Então, eles eram mais ou menos assim). E, buscando promover de forma mais eficiente a difusão destes textos, realizaram a sua tradução do latim para a língua vernácula.

Os albigenses observavam com rigor um padrão de conduta, tendo como base a simplicidade do modo de vida e integridade. Os valores expressos em alguns textos do Novo Testamento e nos livros sapienciais do Antigo Testamento eram a base da teologia cátara. Os demais textos da Bíblia, que não pareciam dar suporte à sua teologia, eram simplesmente ignorados.

Eles negavam todos os Sacramentos da Igreja Católica, inclusive o matrimônio. As uniões entre homens e mulheres eram “toleradas”, mas não eram realizadas por meio de nenhum Sacramento; afinal, como o sexo era visto como algo intrinsecamente mau, não havia sentido em conferir tal dignidade à união dos esposos. O mundo material e a carne, para eles, eram totalmente malignos, pois foram criados pela divindade má (não é muito parecido com as pregações do pessoal da Bíblia com zíper?).

Advém dessa visão a rigorosa austeridade dos cátaros, que, em tese, seria a busca de uma imitação da vida de Cristo e de seus apóstolos, vistos como seres mais espirituais do que humanos (mais de mil anos passaram-se e a bobagem maniqueísta, já reduzida a nada por Santo Agostinho, continuava seduzindo as mentes).

Nesse contexto, havia uma real possibilidade do catarismo deslocar o catolicismo como a religião predominante no Sul da França e, dali para espalhar-se pelo continente, poderia ser algo alcançado com extrema facilidade. Por isso, as Ordens Mendicantes, principalmente os dominicanos, tiveram na sua origem uma grande atuação nessa área. Um exemplo da abrangência e alcance que os cátaros passaram a ter a partir de meados do século XII é a existência de igrejas cátaras na Itália e a fixação de comunidades cátaras nos Países Baixos.

A reação da Igreja: o nascimento das ordens mendicantes

Desde sua ascensão como principal religião do Ocidente, o cristianismo sempre se colocou na linha de frente do combate às heresias, para construir sua identidade ante as diferenças em um mundo em transformação. Ao longo de toda a sua história, uma luta sem tréguas custou inúmeras vidas. A priori, seria possível retomar até os primórdios da Igreja para elencar um sem número diferentes medidas que padres, bispos e prelados utilizaram para combater as heresias, em diferentes épocas. Mas, para dar fim às heresias, a Igreja obteve êxito não tanto por meio da força (o que muitas vezes se justificava), mas principalmente pela utilização de padrões e métodos “copiados” de seus próprios inimigos.

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O encontro de São Francisco de Assis com São Domingos, em Roma. Destalhe de afresco do Santuario de N. Sra. do Loreto, Sevilla

Em outras palavras: era preciso dar aos hereges uma dose de seu próprio remédio, utilizando-se dos métodos destes para reacender a chama do cristianismo institucionalizado, representante de Cristo na Terra – a Santa Igreja Católica.

Daí a imensa importância do surgimento e crescimento das Ordens Mendicantes: os religiosos filhos de São Francisco de Assis e de São Domingos, assim como os cátaros, se faziam próximos do povo e abraçavam uma vida de pobreza radical. No entanto, muito diferente dos hereges, promoviam a difusão do verdadeiro Evangelho, sempre em comunhão com o Papa.

*****

A seguir: a Cruzada Albigense (ou Cruzada Contra os Cátaros). O Bicho vai pegar.

13 comments to Franciscanos e Dominicanos: os mendigos que renovaram a Igreja no séc. XII (parte I)

  • Victor Picanço

    Amigos, coloquei no imageshack duas fotos do livro de história usado na 5ª série de uma escola aqui de Belém/PA. É assombroso: http://imageshack.us/photo/my-images/856/001igh.jpg/ e http://imageshack.us/photo/my-images/12/0002kpj.jpg/

    Vejam este trecho: “as prostitutas tiveram um tratamento mais tolerante pela Igreja que procurava sempre que possível atraí-las para o SACERDÓCIO” (!!!!!!!!!!!!!!!!!!!).

    Ainda fala que os Valdenses defendiam a igualdade e sobre os Albigenses também.

    • Agora imagine um professor sério, que sabe que esse tipo de coisa é baboseira… como ele deve agir? Tenha em mente que se o idiota que apreende essa coisa sem exercitar o senso crítico segue feliz vida afora, ignorante da própria ignorância e chega ás raias de uma dessas Universidades qualquer nota que pululam por aí como um cara antenado e ciente da história do mundo. Resumindo: um descoladão. Bom, esse débil mental é nosso universitário médio e ele passa no vestibular reproduzindo esse tipo de besteira.
      Quanto ao professor, pobre coitado, vive entre sua consciência e a alimentação de seus filhos. A única coisa que lhe resta é o trabalho lento e metódico para não soltar pelo mundo outra ninhada de toupeiras.

  • Aproveito o post para apresentar o “Reflexões Franciscanas” >> http://www.reflexoesfranciscanas.com.br Sejam bem vindos!

  • João

    Mais um texto excelente da equipe do O Catequista. Parabéns, Paulo Ricardo. É uma alegria muito grande saber e entender de forma didática a história tão bela da nossa Igreja.

    Muito me alegra o serviço que esse site proporciona aos católicos (e aos não tanto assim).

    • João,
      Vou aproveitar o seu comentário pra bajular meu parceiro de blog. De fato, este post tá nota mil; eu nunca soube que os franciscanos e os dominicanos se encaixaram como uma luva dentro de um contexto histórico tão dramático para a Igreja, em que ela perdia muitos fiéis – e estava ameçada de perder mais ainda – para os hereges cátaros. O Paulo Ricardo aparece com essas novidades aqui, e a gente até fica se sentindo mais culto, rsrs.

      Obrigada pelas suas palavras sobre o nosso trabalho, João. Esse apoio é importante para nós, pq, na verdade, ouvimos muita opinião contrária também. Vira e mexe aparece alguém aqui dizendo que o nosso blog é uma porcaria, rs, que não temos o direito de nos identificar como católicos, que prestamos um desserviço à Igreja. Bem, vamos seguindo, conforme a graça de Deus. Abraço!

  • O que eu gostei muito no post também Vivi é exatamente ver a ação do Espírito Santo num momento em que as heresias cresciam. Paulão, apesar de já estarmos no século XIII será que você poderia nos falar do Concílio de Éfeso? Aquele que derrubou o Nestorianismo? Esse também foi um momento em que as heresias quase desestabilizaram o Depósito da Fé. Você poderia me mostrar um bom lugar que fale dessa época? Valeu e parabéns!

  • O Concílio de Efeso e o nestorianismo serão tratados quando nós falarmos de heresias. Tem muito material pintando por aí, mas vai demorar um pouco

  • Vem Espírito Santo de Deus renovar todos os dias a sua Igreja.
    estamos repletos de pregadores cátaros e Albigenses causando confusão na mente do povo de Deus. é isso que eles pregam e afirmam sem cessar.

  • Roger Bressan

    Muito bom o post, pois tinha essa duvida sobre a origem destas ordens. Mas me chamou atenção um ponto que não ficou bem esclarecido, que era: “(…)para dar fim às heresias, a Igreja obteve êxito não tanto por meio da força (o que muitas vezes se justificava).” Sou católico apostólico romano e convicto! Mas fiquei muito triste em ler esse trecho, pois me pareceu que a doutrina católica foi colocada acima do próprio DEUS que é amor e misericórdia. Quem quer aderir a JESUS deve aderir livremente e não por imposição, pois ele mesmo disse que: ” as portas do inferno não prevalecerão sobre a igreja” (Mateus 16,18), portanto, se a nossa é a verdadeira igreja de CRISTO, vigiemos e façamos a nossa parte. e se puderem me esclarecer, sobre a minha duvida sobre o trecho eu agradeço!

  • Paulo

    Excelente o texto, Paulão! Quando vc vai falar dos nossos arqui-inimigos de ontem, de hoje e de sempre, os gnósticos?

  • Sidnei

    O problema nesta história toda é que os altos escalões da Igreja (Papa, Bispos, Presbíteros, Religiosos em geral) é o comodismo. Foi por cauda do comodismo, de acreditar pertencer a uma religião da maioria é que levou os clérigos da época das heresias cataras a se afastar do povo e deixa-los como ovelhas sem pastor, resulta, os lobos fizeram a festa e quando foram ver o que teriam que fazer aí era tarde demais, ou se resolvia por meios pacíficos e aí entram na história as ordens medicantes dos franciscano e dominicanos ou por meios violentos como a cruzadas contra estes hereges. O mesmo aconteceu anos mais tarde com Martinho Lutero e hoje em dia com a TL, muitos dormem no ponto, mas quando forem ver, uma boa parte do rebanho já foram embora.

  • Sidnei

    E gostaria de tecer mais dois comentários sobre este assunto:
    1º) Já vi protestantes alegarem que já haviam protestantes antes de Lutero e estes protestantes eram justamente os cátaros e albigenses, diante de tudo que sabemos até hoje sobre estes hereges me pergunto, o porque dos protestantes querer se identificar com esta turma toda?. Já li alguns protestantes dizerem que a história contada até hoje foi a dos vencedores, ou seja, de nós católicos, e que portanto muitas coisas foram escondidas e nunca se saberá a verdadeira história, horas, se for assim em que nunca se saberá a história de fato, então quem são eles para julgar a Igreja Católica dizendo que ela esta mentindo com relação ao que ocorreu naquela época, então se ninguém conhece o que realmente aconteceu então estamos livres para atacar e ao mesmo tempo defender a Igreja Católica?, o mais lógico nesta história toda é que deveríamos ser imparciais, mas, imparcialidade e lógica, é uma coisa muito difícil no meio protestante.

    2º) “A seguir: a Cruzada Albigense (ou Cruzada Contra os Cátaros). O Bicho vai pegar. ”
    Gostaria de saber se vocês já fizeram este post e aonde se encontram ou estão em vias de fazer, estou curioso de ler sobre esta parte da história, o qual á li em outros blogs, sites e livros, mas, gostaria de saber a opinião de vocês.

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