Papas do Séc. X (parte III) – Roma sente o bafo do inferno

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Detalhe de obra do pintor Francis Bacon (1953)

E lá vamos nós novamente! Agora que Marózia Teofilacto, ao que parece, foi obliterada pela sua própria cria, entra em cena a sua própria cria. O rei da Itália, Alberico II, quis transformar o trono de Pedro em uma latrina e foi, sem dúvida, um déspota desalmado e cruel; mas é amado por historiadores protestantes.  Ele é o personagem político principal nessa terceira fase do Saeculum Obscurum.

Pessoalmente, tenho uma tríade a que chamo de “trio demônio”, composto por aqueles que considero o time dos piores papas que já existiram: Sérgio III, João XII e Alexandre VI.  Neste post será apresentada a figurinha nojenta de João XII… depois vocês me dizem se tenho ou não tenho razão.

Um conselho: se você conhece alguém chamado Teofilacto ou Tusculum, saia correndo!

Estêvão VIII – O corpo do papa Leão VII nem tinha esfriado e Alberico II tratou logo de eleger o seu sucessor, o qual confinou, como seu antecessor, a funções meramente eclesiásticas (isso se deve ao desejo dos Teofilacto de controlar secularmente os Estados Pontifícios).

O final do seu papado foi obscuro.  Alberico II foi vítima de um atentado e, como bom paranóico que era, suspeitou que o papa havia participado dele.  Utilizando-se da truculência genética de sua família, encarcerou e mutilou o Estêvão VIII, que faleceu em virtude dos ferimentos, vendo o sol nascer quadrado. Papa de 939 a 942.

Marino II – Ninguém chegava ao papado nessa época, absolutamente ninguém, sem que fosse Alberico a colocá-lo sentado lá.  E nenhum deles poderia desafiá-lo.  Marino II se comportou como um funcionário chulé, daquele tipo de Barnabé que só faz o mínimo necessário para justificar o salário de fome.  Papa de 942 a 946.

Agapito II – Como seus antecessores, este papa confirmou os privilégios de Cluny e providenciou para que os monges de Gorze viessem a Roma para restaurar a disciplina na abadia da Basílica de São Paulo-Fora-dos-Muros.  Interferiu na disputa entre os reis Oto I da Alemanha e Luís IV da França e fez, sob pena de excomunhão, com que Oto se submetesse a Luís.

Para evitar conflitos e um Oto chatíssimo enchendo o saco dele e de Alberico, Agapito II protegeu este último, inclusive permitindo que seu irmão Bruno usasse o pálio (estola de lã que simbolizava a autoridade papal, e funcionava na prática como uma espécie de crachá). Estendeu o domínio de Oto para a Dinamarca e transformou o mosteiro construído por esse rei em Magdenburgo em Sé metropolitana.

Mas o grande fato do papado de Agapito II tem a ver com a morte de Alberico II.  Tendo adoecido repentinamente (é mesmo? jura? Chama o C.S.I. Roma!) o tirano se fez transladar para Basílica de São Pedro; lá, convocou o clero e a nobreza e os instigou a eleger seu filho ilegítimo Otaviano Túsculo como sucessor do Papa Agapito, que ainda estava vivo.  Reparem que o decreto 499 de São Símaco e nada era a mesma coisa para essa turma (é proibido eleger um novo papa antes que o atual venha a falecer).

Alberico II, em seu leito de morte, deixou gotejar pela boca seu sangue Teofilacto, e com certeza sua mamãe Marózia ficou orgulho lá da sua bógia do inferno.  Um ano mais tarde, Agapito II faleceu e Otaviano foi ocupar seu lugar.  Papa de 946 a 955.

coringaJoão XII – Esqueçam de tudo que vocês sabem sobre devassidão.  Essa imagem de papas devassos construída pelos iluministas diz respeito apenas aos papas da modernidade e nem todas são reais; aliás, a maioria é inventada.  No quesito “Sodoma e Gomorra e bailinhos depravados na Basílica de Latrão” João XII é pule de dez.  É o segundo dos papas daquela que considero “a tríade do demônio”.

Esse xexelento, cujo nome de batismo era Otaviano, era filho ilegítimo de Alberico II e neto de Marózia.  Conseguiu, na minha opinião, a façanha de ser o pior ser humano já nascido com sangue Tusculum-Teofilacto – olha que isso é muito, muito difícil.  Tinha 18 anitchus quando foi eleito!

Uma qualidade ele tinha: era muito peitudo.  Reivindicou os poderes temporais de volta para a Igreja. Só que ele não era São Nicolau e o resultado, entre outros, foi a criação dos bispos-condes, uma confusa mistura de poder secular com poder sacerdotal.  Lindo né?

João XII foi o terceiro papa na história a trocar de nome ao assumir o papado. Sob a pressão dos muçulmanos, a Igreja da Espanha buscou o seu conselho.  Em 957 e 960, respectivamente, o papa concedeu o pálio aos arcebispos de York e da Cantuária (São Gregório I deve ter ficado arrepiado vendo isso).  Joãozinho tentou até ser um bom garoto por uns… 15 minutos, e fez uma peregrinação à abadia de Subiaco.  Provavelmente, seu péssimo hábito de estuprar qualquer mulher que encontrasse em seu caminho estragou a viagem…

João XIII tentou pela força aumentar os Estados Pontifícios, terra dada por Deus e confirmada pelos homens. Claro que não logrou êxito.  Mas, se tem uma coisa certa, é que quando você está convencido de que é o dono da maior “espada” do mundo, cedo ou tarde aparece um fulano com a “espada” maior que a sua.  Foi bem esse o caso, e pior: little John foi mandar chamar o “espadão”.  Quando o Rei da Itália começou assaltar o Norte, o papa mandou chamar o Rei tedesco Oto I e prometeu coroá-lo imperador em troca de proteção.  Esse aqui é o início oficial do Sacro Império Romano Germânico, e Oto foi seu primeiro imperador.

exibicionista

o Papa João XII flagrado em um de seus passeios pelas ruas de Roma.

Liutpranto, padre de Cremona que foi a principal fonte dessas histórias, nos dá a entender que nos tempos de João XII o maior bordel de Roma era justamente o Palácio de Latrão.  João XII armou orgias, estuprou meninas e (dizem alguns) meninos. Quando não estava… – err,  bom vocês entenderam – estava no meio da jogatina; bebia como um gambá e comia como um porco.

Seu comportamento transtornou como nenhum outro o povo de Roma. Dizem que as mulheres de Roma evitavam até passar por perto de João, caso o vissem.  Se ele cismasse com uma, moça já era.  E ele estuprava no meio da rua, na maior cara de pau!  É ou não é o orgulho da vovó?

Oto I, claro, quando aceitou a coroa, não fazia ideia de quem era a criatura.  Mas à medida que tomou conhecimento de quem era seu protegido, o que andava fazendo e a imundíce que ele levou ao trono do Príncipe dos Apóstolos, ficou escandalizado.  Mas não achem que Oto I era um campeão da causa católica: era antes de mais nada um político. Colocou no lugar do espúrio João o não menos Espúrio Leão VIII. Leão VIII era SOBRINHO de Marózia, MEU DEUS!!!!!!  Mas falaremos dele mais tarde…

Aqui é importante notar que Leão VIII era um antipapa que virou papa. Não vou dizer que Oto trocou seis por meia dúzia, porque nada poderia ser pior que João.  Mas Leão VIII era um leigo e pior, um estrangeiro. Oto foi a Roma chutar João e sentar Leão no trono, o que fez. Mas como o rei não podia ficar ali o tempo inteiro, mal ele saiu, começaram os tumultos.  Leão era um títere de Oto.  Tanto que concedeu a este e a seus sucessores o direito de homologar a eleição papal, punindo com a excomunhão todos os que se recusassem a aceitar esse édito.  Só que o povo não queria trocar João por Leão, e esse antipapa quase conseguiu a façanha de ser tão odiado quanto seu antecessor.

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O Papa João XII torturou e matou seus opositores.

Little John não estava parado, fez aliança com seu antigo rival Berengário, Rei da Itália, que entre o papa e Oto preferia se aliar ao primeiro.  Com o auxílio de Berengário, João forçou o antipapa Leão VIII a fugir na calada da noite, ainda em 963. O que se seguiu foi uma infâmia sem par.  João se superou na arte do morticínio: exigindo vingança daqueles que o depuseram no sínodo presidido por Oto, passou  todos a fio de espada, com exceção de dois ou três, os quais ele preferiu arrancar a pele com eles vivos e cortar os dedos das mãos.

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A morte do Papa João XII. Detalhe de pintura de Fritz Röber (1879).

João teria feito pior, mas não teve tempo.  Há duas versões sobre sua morte.  Segundo o cardeal e historiador Baronius, ele teria sofrido um derrame depois de se refastelar na cama de uma dama (chamo essa a versão: sexo, drogas e rock’n’roll); a outra versão, do bispo João Crescêncio, diz que João foi enviado diretamente ao colo do capeta em virtude de uma série de marteladas no coco desferidas por um marido que o pegou na cama com sua mulher… em outras palavras: ou foi derrame cerebral ou derramaram o cérebro dele.

Dói chamar esse cara de papa, o mesmo título de Pio X e João Paulo II, mas são fatos e a Igreja não esconde sua história. Papa de 955 a 964.

Leão VIII – A fase antipapa de Leão VIII nós já relatamos nos acontecimentos do papado de João XII.  Quando morreu este monstro, Bento V foi eleito para sucedê-lo.  Mas o imperador, muito sutil, promoveu um cerco a Roma e delicadamente disse que, caso não reintegrassem Leão, todo mundo lá dentro ia morrer de fome.  Com um pedido assim tão gentil quem iria recusar?

Ao eleito Bento V foi permitido manter o título de diácono, sendo deportado para Hamburgo.  Leão morreu pouco tempo depois, encerrando um papado um tanto quanto duvidoso do ponto de vista canônico.  Papa de 963 a 965.

Bento V – Papa no estilo “viúva Porcina” – era, sem nunca ter sido. Logo depois de eleito, foi exilado para dar lugar a Leão VIII. Por pressão de franceses e italianos, Oto I foi obrigado a reconhecer sua eleição, mas Bento sequer voltou a Roma.  Papa em 964.

*****

Para vários historiadores, encerra-se aqui o Saeculum Obscurum.  O caos instaurado ainda vai causar ferimentos à Igreja, mas os Teofilactos e os Tusculum já não possuem o mesmo poder da época de Alberico II.  Eles continuam e ainda vão aparecer na história, mas por hora o Sacro Império Romano-Germânico tem um papel de destaque.

A fealdade do Saeculum Obscurum não é para, de forma alguma, abalar a fé cristã, muito pelo contrário: serve para confirmá-la.  É mais uma prova que o inferno, por mais que tente, nunca prevalecerá sobre a Santa Igreja.  Convenhamos: perto de um João XII e de um Sérgio III, o que é uma Teoria da Libertaçãozinha?   Vamos vencer, porque Deus não pode perder.  Sempre!

7 comments to Papas do Séc. X (parte III) – Roma sente o bafo do inferno

  • EU AMO ESSES POSTS! Paulao vc é o cara. A Igreja nunca tombará frente ao inferno. Joao XII era um Papa um tanto quanto hormonal-diabolical do Saeculum Obscurum. Agradeço a Deus por honrá-lo ja em minha juventude. Ver esses crapulas mancharem, por seus imundos traseiros, a Catedra Petrina é triste, mas a Igreja nao tem nd a esconder. A Igreja é santa independente dos pecados dos seus membros.

    • Paulo Ricardo

      Eles, os Teofilactos, vão voltar. No século XI eles ainda fazem três papas. Mas podem ficar tranquilos que, embora não tenham sido grande coisa, pelo menos não baixaram tanto o nível quando seus antecessores.

  • […] VI, Credo do povo de Deus, n. 19). Pecados e misérias na Cúria Romana existem desde os tempos do infame João XII ou do corrupto Alexandre VI. O que não pode fraquejar com isso é a nossa fé na Igreja, no fato […]

  • Rodrigo Bórgia foi qual papa?

  • joao

    Olha, de tudo o que eu pude ver dessa série dos “papas” (tbm me dói chamá-los pelo título do seu cargo), concluo que a Idade Média foi o período em que o poder civil lutou constantemente para comandar a religião, como nos velhos tempos romanos.

    A tese do “O Jardim das Aflições” se confirma. Graças a Deus pelo Tratado de Latrão, que, finalmente, reconhecia a autonomia da Igreja. Pelo menos para uma coisa o Mussolini serviu.

    PS: me impressionou como o Senhor extrai o bem desses períodos sombrios. Nesse século das trevas surge uma grande ordem monástica, e em todos os períodos sombrios surgem muitos santos. Só lembrar do século XII (S. Francisco, S. Domingos), do infame século XVI (santos espanhóis).

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