Porque Jesus não é o Profeta Gentileza

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Jesus expulsa os vendilhões do templo. Humor sobre pintura de Tissot.

Não tem nada mais irritante do que ouvir que não temos o direito de nos irritar em hipótese alguma, pelo simples fato de sermos cristãos. Eis alguns dos itens básicos do manual de etiqueta da Madame Lili Carola: nunca levantar a voz, só proferir palavras doces e jamais demonstrar revolta em relação às atitudes alheias. Cá pra nós, isso tá mais pra ideologia “paz e amor” de hippye-maconheiro do que pra cristianismo.

Muitas pessoas, é verdade, têm um temperamento irascível, são com frequência arrogantes no trato com os demais ou vivem de mau-humor. Certamente, isso não é nada bom. Mas nem sempre a irritação é uma coisa censurável, pelo contrário: se o motivo for justo, este sentimento é expressão de virtude.

Basta olhar para o exemplo de Jesus que, em diversas passagens do Evangelho, aparece cuspindo marimbondos. Sente só o jeito meigo com o qual Ele se dirigia aos fariseus e escribas:

“Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Percorreis mares e terras para fazer um prosélito e, quando o conseguis, fazeis dele um filho do inferno duas vezes pior que vós mesmos.” (Mt 23,15)

“Sois semelhantes aos sepulcros caiados: por fora parecem formosos, mas por dentro estão cheios de ossos, de cadáveres e de toda espécie de podridão.” (Mt 23,27)

“Serpentes! Raça de víboras! Como escapareis ao castigo do inferno?(Mt 23,33)

Pegou pesado, hein, Mestre…

Há também o famoso episódio da expulsão dos vendilhões do templo. Em vez de tentar convencer o pessoal a respeitar o lugar sagrado com diálogo e gentileza, Jesus simplesmente varreu todo mundo dali na base da chibatada:

“No Templo, Jesus encontrou os vendedores de bois, ovelhas e pombas, e os cambistas sentados. Então fez um chicote de cordas e expulsou-os a todos do Templo juntamente com as ovelhas e os bois; espalhou as moedas e derrubou as mesas dos cambistas. E disse aos que vendiam pombas: ‘Tirai tudo isto daqui! Não transformeis a casa de meu Pai num mercado'”. (Jo 2,14-16)

Outra passagem muito ilustrativa é aquela em os discípulos não conseguem curar um menino que sofria de uma grave enfermidade (provavelmente epilepsia). O pai então recorre a Jesus, que se mostra frustrado com a falta de fé de seus discípulos. E os censura duramente, diante de todos:

“Mestre, eu te trouxe meu filho, que tem um espírito mudo. Este, onde quer que o apanhe, lança-o por terra e ele espuma, range os dentes e fica endurecido. Roguei a teus discípulos que o expelissem, mas não o puderam. Respondeu-lhes Jesus: Ó geração incrédula, até quando estarei convosco? Até quando vos hei de aturar? Trazei-mo cá!” (Mc 9,17-19)

Porque Jesus não os corrigiu de forma mais cortês? Bem, delicadeza era coisa bastante secundária diante do sofrimento de uma criança. O Senhor tinha uma preocupação muito urgente: libertar e aliviar a dor daquelas pessoas. Sua irritação traduzia o grande zelo que Ele nutria pela felicidade de cada ser humano, e assim cobrava energicamente de Seus discípulos (aqueles que dariam continuidade ao seu apostolado) a mesma postura. Além do mais, depois de tudo o que eles tinham visto e ouvido, o Mestre esperava deles uma fé mais sólida.

jesus_expulsa_os_vendilhoes_do_templo_humorPorém, não podemos ser levianos imaginando que Jesus tratava todos os pecadores na base da chicotada. Na maior parte do tempo, Ele era muito amável: sentava-se à mesa para comer com prostitutas e todo tipo de gente de má fama, frequentava a casa de publicanos e, na cruz, prometeu levar um ladrão sem escalas para o Paraíso. Assim, transformou o coração e a vida de muitos com a Sua doçura.

O Senhor parecia ter, entretanto, pouca tolerância com a hipocrisia, com o desrespeito às coisas sagradas e com a falta de fé por parte daqueles que deveriam ser os primeiros a crer (os discípulos). Por isso, em primeiro lugar, devemos detestar essas coisas em nós, e pedir que Ele nos converta a cada dia; depois, não precisamos ser frescos a ponto de nos cobrarmos serenidade e simpatia em tempo integral. Ninguém tem sangue de barata.

Como todo respeito ao Profeta Gentileza (figuraça que andou pelas ruas do Rio de Janeiro entre as décadas de 1970 e 90), gentileza gera gentileza, sim, mas às vezes um “pedala Robinho” cai muito bem.

13 comments to Porque Jesus não é o Profeta Gentileza

  • Cadu Sindona

    Como tudo na vida, aqui tambem vale moderar. Descobrir a linha que separa a passividade da intromissão de respeito. Jesus aqui se irou contra aquele povo não simplesmente pelo pecado que eles estavam fazendo, mas pelo fato de estarem blasfemando contra a santidade da casa de Deus. A ira é diferente disso. A ira é um pecado gravíssimo caso ela cegue a pessoa transformando a raiva em fúria, e é durante a fúria que agimos sem pensar, podendo causar coisas horrivéis. Jesus não se enfureceu pra fazer mal mas Jesus educou através daquele gesto. Saber também discernir é fundamental pois sentir raiva pela raiva não é pecado, e usar a raiva como pretexto para dar o troco é sim.

  • Opa! Boa Cadu! A Ira não é pecado por si mesma, mas o pecado está nos seus potenciais efeitos e dar corda pra ela pode ser realmente perigoso. Exatamente como você disse: é preciso saber andar na linha da temperança. Não devemos simplesmente soltar os cachorros, mas temos que acabar com o mito de que católico tem que andar de cabeça baixa e aceitar qualquer coisa! Força Católicos!!!

  • Cadu Sindona

    Você Alê é quem disse, eu só expliquei do meu jeito. Mas eu é que agradeço e recebo essa força do Espírito Santo que você, a Vivi,e o Paulo mandam! Força católicos!! Força povo santo e pecador!!

  • Ninguém é de ferro. Nem sempre se irritar é pecado. Tanta desgraça ocorrendo no mundo e é pra ficar só na paz e no amor? Se junto à irritação vier uma boa ação, tudo bem.
    Oras, Jesus era pacífico e não uma mosca-morta, perdão pela palavra. Acham que porque somos cristão devemos ser calmos, com uma paciência tremenda.
    Ah, me poupe

  • Paulo Ricardo "O Historiador"

    Ahahahahahaha,

    Essa é das minhas. Mais ações e menos palavras vazias!!! Amar de verdade Nosso Senhor e voadora no baço de quem quiser nos impedir de amá-Lo.

  • É, Paulo Ricardo, você pegou a inspiração certa. Gostei… voadora no braço de quem impedir.

  • David A. Conceição

    Algo que é bom diferenciar, foi o modo como Jesus se manifestou entre os vendilhõe e os *nossos* atuais xingamentos, totalmente com teor sexual.

    Já vi muita gente enchendo a boca para xingar uns C! F! PQP! e se justificar fazendo a comparação com Nosso Senhor. Totalmente sem noção.

    Embora o item lexical M! tenha se popularizado e entrado nos novos dicionários, eu ainda me escandalizo quando vejo qualquer pessoa xingando.

    Você pode ter tomado um banho de loja, estar cheirando a avon, xingou, perde toda a elegância como se estivesse rolando numa poça de esterco. O mesmo vale para a questão espiritual.

  • “O Senhor parecia ter, entretanto, pouca tolerância com a hipocrisia, com o desrespeito às coisas sagradas e com a falta de fé por parte daqueles que deveriam ser os primeiros a crer (os discípulos). Por isso, em primeiro lugar, devemos detestar essas coisas em nós, e pedir que Ele nos converta a cada dia;”
    O segredo do texto (muito bem elaborado aliás) está aqui. A raiva demonstrada por Jesus era o zelo espiritual, o zelo pelos que sofrem e contam com Ele. Devemos sim demonstrar zelo! Mas sem obviamente agir sem pensar ou xingar. Jesus, em Sua humanidade, ao ver o que faziam no templo deve ter ficado pasmo de susto. Mas o que Ele fez? Saiu gritando e batendo em todo mundo? Não. Ele fez um chicote de cordas. Na hora da raiva ele fez um chicote de cordas. E já mais calmo, mas igualmente zeloso, expulsou todos dali com palavras firmes e duras. Ora, ele nos ensinou. O zelo, diferente da raiva irracional que nos faz xingar, brigar e até falar coisas que nos arrependemos depois, é racional, é educar de uma forma mais direta e dura, para quebrar nossa passividade e nossa falsidade. Os santos viveram muitos episódios como esses, de grande zelo. Um exemplo: Padre Pio.

  • Felipe

    Excelente post, poderia sugerir uma publicação, os ateus e os jujubas tem a insistência de falar que Jesus permitia os pecados das prostitutas, dos pecadores públicos, etc. Poderiam então fazer um post que diz que Jesus amava todos mas detesta os pecados, tanto que eles os perdoava e dizia para não pecar mais, pq não aguento mais esses relativistas falando que Jesus permite tudo.

  • Náila Anjos

    Gostei do post!

  • Anderson Silva

    Olá, queriaque fosse feita uma postagem sobre o liberalismo, sobre a doutrina da igreja, mas que tivesse foco no campo da economia e voltada para o socialismo. Tenho dúvidas a respeito, pq sei que não se pode ser liberal culturalmente-sociológicamente, porém não tenho convicções no campo da economia. Queria saber a posição da Igreja. Abraços!

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