Misericordia et Misera – O legado do Jubileu da Misericórdia

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Oi Povo Católico!

Papa Francisco mal lançou sua Carta Apostólica Misericordia et Misera e o povo já danou a falar em mudanças na Igreja (errado, como sempre). E, pra variar, estamos aqui com o nosso resumão, pra te ajudar a entender exatamente o que Francisco disse no documento.

Vamos começar pelo nome Misericordia et Misera que, no meu latim de boteco, traduzi por “A Misericórdia e a Miserável”. O nome já é justificado logo no início, quando o encontro de Jesus com a adúltera (Jo 8, 1-11) é citado. E esse é o tom da carta: nós miseráveis, que somos alcançados pela graça de Deus através da Igreja.

“Nada que um pecador arrependido coloque diante da misericórdia de Deus pode ficar sem o abraço do seu perdão. É por este motivo que nenhum de nós pode pôr condições à misericórdia”

Papa Francisco – Misericordia et Misera (2)

O documento se propõe a ser um guia do legado do Ano Jubilar. Logo no início, relembra o verdadeiro sentido de termos celebrado este Ano Jubilar e fala da mudança de atitude necessária diante de um mundo cada vez mais individualista e impessoal.

“Numa cultura frequentemente dominada pela tecnologia, parecem multiplicar-se as formas de tristeza e solidão em que caem as pessoas, incluindo muitos jovens. Com efeito, o futuro parece estar refém da incerteza, que não permite ter estabilidade. É assim que muitas vezes surgem sentimentos de melancolia, tristeza e tédio, que podem, pouco a pouco, levar ao desespero. Há necessidade de testemunhas de esperança e de alegria verdadeira, para expulsar as quimeras que prometem uma felicidade fácil com paraísos artificiais.”

Papa Francisco – Misericordia et Misera (3)

Depois disso, Francisco vai dando instruções pastorais precisas para viver esse novo tempo de uma Igreja que, passando pela Porta Santa, se comprometeu com uma nova conversão em direção à Misericórdia.  Pede que os sacerdotes prestem mais atenção na preparação das suas homilias e que, também na catequese, sejam menos baseadas em exercícios de retórica e mais em “um coração pulsante da vida cristã”. Ok, não se empolgue… isso não significa que chegamos no tempo de só falar de “amô no corassaum” e “não julgueis”, mas passamos do tempo de só falar de regras.

Sobre a confissão, o Papa chama atenção especial, dizendo que “o sacramento da Reconciliação precisa de voltar a ter o seu lugar central na vida cristã”. Pede aos padres que sejam mais cuidados e disponíveis com este ministério e libera definitivamente o poder de dar o perdão do aborto a todos os sacerdotes, sem amenizar a gravidade do pecado:

“…concedo a partir de agora a todos os sacerdotes, em virtude do seu ministério, a faculdade de absolver a todas as pessoas que incorreram no pecado do aborto. Aquilo que eu concedera de forma limitada ao período jubilar fica agora alargado no tempo, não obstante qualquer disposição em contrário. Quero reiterar com todas as minhas forças que o aborto é um grave pecado, porque põe fim a uma vida inocente;”

Papa Francisco – Misericordia et Misera (12)

ATENÇÃO: essa medida foi tomada a exemplo do que já acontecia no Ano da Misericórdia. Normalmente somente bispos e padres autorizados podem levantar excomunhões (como a do aborto – existem outras diferentes), mas durante este ano todos os padres foram autorizados a fazer isso. A única mudança é que essa autorização continua valendo. Não apareceu nenhuma proposta de mudança no código de direito canônico. Portanto, quem aborta CONTINUA INCORRENDO EM EXCOMUNHÃO. Cuidado com a boataria!

Outra medida importante conceder que os sacerdotes da Fraternidade de São Pio X continuem podendo conceder válida e licitamente o perdão dos pecados dos fiéis que os procurarem. Já era assim no Ano da Misericórdia e, a exemplo do que foi feito para o perdão do aborto, será estendido até que surjam “novas disposições sobre o assunto”.  Uma consideração importante sobre essa decisão é a disposição do Papa em trazer a fraternidade para a plena comunhão da Igreja.

“Para o bem pastoral destes fiéis e confiando na boa vontade dos seus sacerdotes para que se possa recuperar, com a ajuda de Deus, a plena comunhão na Igreja Católica…”

Papa Francisco – Misericordia et Misera (12)

Por fim, Francisco estabelece que no 33º domingo do Tempo Comum a Igreja passará a celebrar o Dia Mundial dos Pobres. A ideia é criar um sinal concreto do Ano Jubilar que perdure para sempre e nos ajude a lembrar das obras de misericórdia para as quais nossa atenção se voltou neste ano.

Enfim, certamente ainda teremos que aprofundar mais esta nova Carta Apostólica e seus desdobramentos. Além disso, claro que irão aparecer duzentos mil boatos dizendo que o Papa Francisco liberou geral… mas aqui em cima você vê que os principais pontos da carta em nada alteraram a Doutrina da Igreja Católica.

Leia a carta completa no site do Vaticano:

http://m.vatican.va/content/francescomobile/pt/apost_letters/documents/papa-francesco-lettera-ap_20161120_misericordia-et-misera.html

52 comments to Misericordia et Misera – O legado do Jubileu da Misericórdia

  • João Pedro Strabelli

    Primeiro, parabéns pelo post (e podem procurar internet afora, é difícil de eu falar isso).

    Ontem, quando fecharam simbolicamente as portas da Igreja Matriz aqui onde moro, me veio a certeza de que eu nunca vou conseguir dimensionar o tamanho deste Ano da Misericórdia. E também que este ano teve o dom de parecer simples, o que achei a sua maior virtude. Fica aquela meia impressão de que isso não deu em nada, mas em geral as coisas mais duradouras são aquelas em que as raízes se fixam primeiro. Ninguém vê. Eu mesmo não segui o Ano Santo como deveria, acho que nem como podia, mas sou uma pessoa muito melhor agora.

    Quando o papa Francisco começou, achei que a principal característica dele era a simplicidade. A impressão que tive é a de que cada papa que chegava abolia um item da longa lista de protocolos e homenagens que fazia parecerem mais reis do que papas. Aí, chegou aquele argentino e parece que aboliu tudo de uma vez só.

    Depois, principalmente quando simplificou os procedimentos para declarar a nulidade do casamento e permitiu que sacerdotes pudessem perdoar o aborto, passei a achar que a característica maior dele é a misericórdia.

    Agora, mudei de opinião de novo. Simplicidade é uma característica inata dele, seu foce é a misericórdia, mas a maior característica dele é buscar a ovelha perdida. A cultura do encontro, a do diálogo, simplificar procedimentos é o jeito que ele tem de chegar ao pecador e, principalmente, a aquele pecador mais afastado. E vai fazer isso do jeito mais afável que puder.

    Não sei se eu melhorar fazia parte da minha história, se faz parte do meu amadurecimento (afinal de contas ninguém faz meio século impunemente), se foi pelo Ano Santo que nem não vivi como queria ou se um pouco de tudo isso. Mas mudou muita coisa. Acho que não só para mim. A devoção por São Dimas foi uma dessas coisas. Antes eu sabia que se um pecador bagunça a vida inteira e se salva no último dia eu deveria ficar contente pois Jesus salvou alguém. Saber eu sabia, mas sempre ficava a necessidade de eu tentar me convencer que ele não saiu ganhando em farrear a vida inteira enquanto eu estou lá me esforçando. Agora mudou, isso não me incomoda mais, porque eu sei que, lembrando do irmão do filho pródigo, eu vivi junto do Pai, e isso não foi nenhum prejuízo para mim. Muito pelo contrário, eu tenho que me alegrar de verdade com isso. E já está acontecendo isso comigo.

    Não sei o quanto isso veio deste Ano Santo, mas tem uma parte dele sim nesta minha melhora.

    Que Francisco continue assim.

    • Paulo Cesar

      Olá João. “Agora, mudei de opinião de novo. Simplicidade é uma característica inata dele, sua face é a misericórdia, mas a maior característica dele é buscar a ovelha perdida…” Essa sua conclusão me ajudou muito. Vou procurar me lembrar dela como uma uma chave de interpretação das declarações do Papa Francisco. Acho que essa realmente é a essência de seu papado. Me ancorando nisso, penso que poderei “exorcisar” minhas resistências com relação a ele. Muito obrigado e que Deus te abençoe.

  • Lua

    Misericórdia e Miséria segundo a tradução do site do Vaticano 🙂

  • Catequista, queria que vcs fizessem um post detalhado sobre o Concilio Vaticano II, por que atualmente nas redes sociais proliferam várias páginas de católicos conservadores dizendo que este concilio foi uma heresia e, desmentiu doutrinas católicas anteriores, pra vcs se situarem procurem no facebook a página Católicos Romanos, segundo queria que vs falassem a respeito do Cardeal burke que quer esclarecimentos sobre uma carta do Papa Francisco

  • João Pedro Strabelli

    O título do post fala em “legado do Jubileu da Misericórdia”. Contrariando meu costume de nunca falar de coisas pessoais, vou deixar um depoimento aqui.

    O meu legado vai ser de um único segundo. Foi durante a comunhão, em uma Missa. Era fim de setembro, eu tinha acabado a Quaresma de São Miguel Arcanjo no meio da semana e, por algum motivo, naquela Missa minha família não pode ir. Fui só. Acho que foi Deus que quis assim, pois algumas coisas eu preciso estar sozinho para fazer. Foi quando a Ministra da Eucarística falou “Eis o Corpo de Cristo”. Naquele momento eu me senti amado por Deus. É diferente de saber que eu sou amado, isso eu sei desde criança. Mas foi como se eu, de repente, visse aquilo, não era uma coisa só do coração, me parece que era mais da inteligência. É difícil explicar. Não é que eu senti totalmente que sou amado por Deus, é mais como seu eu sentisse isso minimamente e ficasse diante da possibilidade de sentir isso muito mais, mas ao mesmo tempo sabia que era incapaz de tanto. Sou pequeno demais para isso. Mal comparando, é como seu eu chegasse perto de um Salão de festas enorme, com uma luz muito brilhante dentro e pisasse na porta com uma parte mínima do meu corpo no portal e o resto para fora e não conseguisse olhar diretamente para o salão, mas percebesse o seu brilho. Agradeci a Deus por não durar mais do que aquele momento, porque seria incapaz de aguentar. Por sorte, ou graça de Deus, depois da Missa o Santíssimo ficou alguns minutos vazio e pude ficar sozinho lá e chorar um pouco em paz. Lembro que o caminho todo de volta pra casa a única coisa que eu pensava é que não merecia isso e que não precisava me dar mais nada.

    Curioso que ontem, na Missa, indo pra fila da comunhão, lembrei disso e foi automático o pedido que fiz pra Deus: “Hoje não”. Tenho medo de ser pretensão achar isso, mas foi automático, eu não estou preparado para outra dessas tão cedo. Ou melhor, não estou preparado mesmo. Seria como eu ir com uma canequinha e de repente me oferecerem algumas toneladas de água.

    Não sei o quanto do Ano Santo teve nisso, mas sei que teve e este será o legado de 2016 para mim.

  • José Nunes junior

    Parabéns Catequista. Conheci vocês no Sem Censura de hoje,da Leda Nagle. Muito interessante a “metodologia”de vocês, de informar a todos sobre a nossa Doutrina Católica.
    Não tem nenhuma instituição no mundo que tenha 2.000 anos de existência e nunca nenhum Papa contradisse seu antecessor, porque quando guiados pelo mesmo Espírito Santo, a Igreja nunca erra.
    José Nunes Junior
    Itapetininga SP.

  • Cesar

    Ignorando a excomunhão ipso facto que sofre tanto quem aborta como quem colabora com o aborto, o que Bergoglio fez na verdade foi equiparar o pecado de aborto ( homicídio voluntário) a qualquer outro pecado. Antes era requerido se dirigir ao Bispo, porque apenas esse tinha o poder de suspender a excomunhão que tal pecado acarreta automaticamente.
    Agora, pelo visto, (já que não é mencionado na Carta Apostólica) a excomunhão ainda permanece, mas é como se não existisse mais. Você pode ir direto ao sacerdote no confessionário e num passe de mágica desaparecem tanto o pecado do aborto como a pena da excomunhão acarretada por ele.

  • LUIZ ANTÔNIO

    É muito perceptível a pressão secular. Aos poucos, a Igreja sente a necessidade de rever sua ortodoxia; seus ensinamentos.
    Hoje, quase ninguém sabe qual a orientação da Igreja para os fiéis divorciados com relação a possibilidade de receber a Santa Eucaristia.

      • Patrick

        Na verdade está definido que deve-se realizar o acompanhamento dos casais de segunda união, deve-se realizar um “caminho penitencial” e de discernimento caso a caso.

        Há muitas realidades diferentes, e muitas pessoas que praticamente não foram catequizadas. O Santo Padre quer buscar estas “ovelhas perdidas”, não bagunçar a Doutrina como alguns tem sugerido nas entrelinhas.

        Este caminho visa não afastar as pessoas, e sim lhes fornecer instrução, para que possam discernir sua situação perante Deus, e quem sabe possam optar por uma vivencia sem a prática sexual.

        Veja esta entrevista de Dom Henrique:

        https://www.youtube.com/watch?v=Z2IyKvA-K-g&feature=youtu.be

        E aqui muito bem explicado pelo Pe. Anderson:

        http://www.presbiteros.com.br/site/amoris-laetitia-permite-dar-a-eucaristia-a-divorciados-em-segunda-uniao/

        Além disso o próprio O Catequista e diversos outros sites e sacerdotes Católicos abordaram o tema, todos neste mesmo sentido.

        Paz e Bem!

        • Cesar

          Caro Patrick, grato pela publicação mas vou declinar da sua sugestão em face do exposto pelo Pe Paulo Ricardo tendo em vista toda discussão sobre as interpretações contraditórias que estão circulando no orbe católico sobre o Cap. VIII da Amoris Laetitia.

          Graça e Paz

          • Patrick

            Sem problemas, o Pe. Paulo Ricardo é um sacerdote que admiro muito, acompanho diariamente, sei que é piedoso e justo. Sua escolha é justa.

            Creio que realmente o Pe. Paulo não tenha manifestado-se recentemente sobre o assunto (eu não vi pelo menos), mas o Pe. José Eduardo, que é bem próximo do Pe. Paulo Ricardo, tem várias formações sobre o assunto. Caso lhe interesse, fica mais esta dica.

            Paz e Bem!

  • Não quero criticar, avançar à frente de nossos prelados que tecerão suas observações em tempo certo.
    No entanto, confiram:
    Num trecho de 32 linhas na íntegra encontrei a palavra misericordia 20 vezes.
    Noutro de 5 linhas, 3 vezes.
    Noutro de 4 linhas, 2 vezes.
    Noutro de 7 linhas, 4 vezes.
    Noutro de 7 linhas, 5 vezes…
    Salvo engano, referencia à justiça apenas uma vez, e nada teria encontrado de penas aos pecadores indispostos a se converterem e muito menos condenação ao inferno.
    Poderiam me explicar o por que de tantas citações do termo “misericordia”, quase um atrás do outro?

    • Patrick

      Talvez por que o tema do documento era Misericórdia, não acha?

      É importante lembrarmos que Deus é Misericórdia e Justiça. Se exigimos apenas (ou prioritariamente) Justiça, o primeiro com o qual Deus utilizará a régua da Justiça é conosco.

      Portanto, é melhor sermos misericordiosos com os que caíram, pois Cristo nos ama com amor infinito e irá nos levantar em nossa quedas.

      Deus não esquecerá da Justiça… nem da Misericórdia.

      Paz e Bem!

      • geraldo

        E também porque é claramente uma NECESSIDADE atual, já percebida por São João Paulo II, que também fez da misericórdia uma ênfase central em seu pontificado, com várias iniciativas como a festa da misericórdia, a devoção à Santa Faustina, uma encíclica especial sobre isso, onde o termo misericórdia também se repete muitas vezes.

        Numa época onde o pecado se torna não só abundante como banalizado, é óbvio que há muito mais necessidade de salvação, que é exatamente a misericórdia. “Onde abundou o pecado , SUPERABUNDOU a graça”, já dizia São Paulo.

        Muitas vezes a palavra misericórdia é mal compreendida, como se fosse condescendência com o mal. O que não faz o menor sentido, pois a condição indispensável para fazer a experiência da misericórdia é exatamente reconhecer o mal praticado.

        Como pode haver a cura, se nem se admite sequer a existência da doença?

        Os abortistas morrem de raiva quando o papa fala em perdão ao pecado do aborto, pois recebem isso como juízo de valor acerca daquilo que fazem como sendo um mal. Só que para eles a luta pelo aborto é uma virtude social de altíssimo valor, numa completa e cínica inversão ética onde o mal é chamado de bem e vice – versa.

        Quanto mais se enfatiza a misericórdia mais claramente aparece a maldade e a crueza do pecado e não o contrário. Pois misericórdia é amor ao miserável, é cura da ferida.

        E desde quando o nosso mundo aceita reconhecer que é miserável?

        O que ele quer é se reconheça como virtude aquilo que é objetivamente mal.

        Misericórdia não tem nada a ver com parar de chamar de pecado, o que pecado é. Mas exatamente o oposto. Se não estaríamos falando de amor a que miséria afinal, se a existência concreta dessa miséria sequer fosse reconhecida?

        Para haver misericórdia, é preciso que haja a miséria, ora essa, a ferida a ser curada. É preciso que se reconheça e se aponte claramente a sua existência. Como o médico pode curar alguém se não souber sequer citar o nome da doença, se não souber localiza-la com precisão no corpo do doente?

        Agora, quanto à extensão da faculdade de absolvição do pecado do aborto, o papa não o disse, mas eu penso que um dos motivos óbvios é a tremenda multiplicação desse pecado nefando entre nós.

        Pense no genocídio enorme que se pratica hoje nos EUA, no Canadá, na França, na Inglaterra.

        Caso a mensagem do amor e do respeito à vida dos inocentes tocasse o coração de todos os envolvidos no crime do aborto , por exemplo, de Nova York, os nove bispos da cidade seriam suficientes para ouvir tanta confissão assim?

        O aborto hoje é praticado de maneira extremamente rotineira e banalizada em vários países. Matam-se crianças em formação, numa quantidade muito maior que várias guerras juntas. Toda a sensibilidade da consciência e do coração foi anestesiada de modo torpe.

        Criou-se uma cultura fria e frívola, cínica e leviana, com consequências civilizacionais que tem ido para muito além da questão do aborto em si: a mentira , a negação do fato bruto debaixo do próprio nariz, a tremenda superficialidade nos relacionamentos, a repugnância diante de qualquer chamado a por em jogo a própria consciência, um enorme desprezo pela filosofia e a razão como mediações válidas no debate público, a prevalência do grito e do ódio como armas políticas, a relativização total do bem e do mal, a incapacidade de discernimento moral nas questões mais básicas, o desapreço pela honestidade intelectual, a justificativa fácil e leviana de sejam quais forem os meios de luta para se conquistar o que é tido como justo [vejam, por exemplo, essas vexaminosas invasões de escolas, impostas a todos por uma minoria – manipulada por outros – que se julga a dona da verdade e incapaz de trazer um argumento sólido e defensável além de “o coletivo – de meia dúzia – decidiu o que todos- mesmo aqueles que não fazem parte dessa meia dúzia – devem fazer” (sic) ] .

        É óbvio que não foi apenas a cultura do aborto que gerou todas essas consequências de apodrecimento civilizacional.

        As causas se entrelaçam e o contexto que as explica é bem maior e mais complexo: um inicial relativismo ético e cultural como arma para a posterior imposição uniforme do absolutismo de uma minoria que se julga mais esclarecida que todos.

        “Estar em dia com as demandas da contemporaneidade , não ser ultrapassado!” Essa é uma frase repetida ad nausean, hoje em dia.

        Mas na prática, isso significa simplesmente o seguinte: obedecer cega e acriticamente, à uma meia dúzia de iluminados que mandam no mundo.

    • Augusto Paiva

      “A propósito de um pecado perdoado, não estejas sem temor, e não acrescentes pecado sobre pecado. Não digas: A misericórdia do Senhor é grande, ele terá piedade da multidão dos meus pecados, pois piedade e cólera são nele igualmente rápidas, e o seu furor visa aos pecadores. Não demores em te converteres ao Senhor, não adies de dia em dia, pois sua cólera virá de repente, e ele te perderá no dia do castigo.” (Eclesiástico 5,5-9)

  • Luiz Antônio Pereira

    Pode um papa, na atual conjuntura de relativismo moral, secularização e hedonismo, banalizar a recepção do perdão sacramental a pessoas envolvidas no crime do aborto?

    Os pecados envolvendo aborto geram excomunhão automática. A Igreja nunca negou o Sacramento da Reconciliação à fiel arrependida, porém, exigia um “protocolo”: confissão com o Bispo mais ritual específico.

    O mais importante é compreender o porquê de a Igreja ter empegado esta fórmula. Teria sido porque a Igreja era “opressora”? Porque é ritualista? Não! Porque agia com zelo, tanto com relação ao fiel pecador, como com relação à santidade do Sacramento.

    Um Bispo tem a plenitude do sacerdócio e, em regra, é alguém mais preparado para explicar ao fiel a gravidade do seu ato. Este “protocolo” tinha um valor pedagógico importantíssimo.

    Assim como Cesar questiona, pergunto também eu: “Como ficarão as instruções contidas no código de direito canônico?” Não apareceu nenhuma proposta de mudança, mas a decisão exige isso, senão a bagunça tá feita.

    • Patrick

      Vou reproduzir exatamente o que escreveu o Pe. Ricardo de Barros Marques (Doutor em Direito Canônico em Roma) no seu Facebook:

      “Eu não sei vocês o que fazem quando leem uma asneira sobre um tema que vocês manjam, mas eu tenho vontade de entregar um atestado de burrice pra pessoa que escreveu.

      É o que tem acontecido desde ontem sobre esse assunto do Papa e do aborto. Há críticas muito boas, juro, até me ajudam a repensar certas coisas. Mas quando eu leio “pode o Papa contrariar o Direito Canônico?”, tenho vontade de escrever: “seu burro, o Papa é o Legislador da Igreja. Se você não aceita isso, saia e funde a sua própria Igreja, como fez um rei da Inglaterra, contrariado com o Legislador”.

      Agora, seguem dois complementos: a) essa minha crítica é quanto ao aspecto jurídico-canônico; b) não há no caso do documento papal nenhuma contradição quanto ao atual Código.”

      Sei que colocar em resposta aqui pode parecer ríspido ― o comentário do padre é bem forte ―, mas como a mensagem dele não dirigia-se a alguém específico, e sim aos burburinhos de Facebook (creio eu), acredito que é válido postar aqui.

      Paz e Bem!

      • Luiz Antônio Pereira

        Bom, aí depende de sua intenção. A do padre foi genérica, não a alguém específico, já que você diz. Mas o seu está respondendo a alguém específico, logo…

        Se foi erro em postar como resposta, ok, mas se foi efetivamente o que você pretendeu – dirigir aquele comentário do padre a alguém específico -, aguardo manifestação.

        • Patrick

          Minha intenção é explícita: tentar responder a dúvida com os argumentos do padre (os quais eu concordo).

          Por isso expliquei o tom ríspido do padre, para não parecer uma resposta ofensiva de minha parte, pois aqui não é relevante o tom (como dito, acredito que era dirigido aos tumultuadores de Facebook).

          O que considero importante é que o padre, especialista no assunto, declara que muitas pessoas estão opinando apressadamente e sem conhecimento suficiente, e com isso causando tumulto (principalmente nas redes sociais).

          Aqui a resposta do padre resumidamente: além do Papa não contrariar o atual Código, ele tem o direito para isso, pois é o legislador da Igreja.

          Este é o foco, pois é esta parte em especial que responde a seu questionamento e ao do Cesar.

          Fora isso, e que me preocupa é que assim como fizeram com Amoris Laetitia, muitos estão apenas se focando em um possível ponto polêmico e ignorando o restante do documento.

          Eu li Misericordia et Misera (estou relendo) e gostei bastante de alguns pontos em especial, e por enquanto prefiro refletir mais e analisar a opinião de outros padres, bispos, sites Católicos etc.

          Na internet, assim como na vida real, existem muitos “pequeninos na fé”, e numa ânsia desenfreada de sanarmos nossas dúvidas e/ou quimeras internas, muitas vezes acabamos escandalizando estes “pequeninos”.

          Não quando são questionamos respeitosos e honestos (o que vemos por aqui), mas em específico quando vemos afirmações temerárias (como vemos nas redes sociais, ofensas e todo tipo de insinuações desrespeitando o Papa). Não é o caso daqui repito, apenas citei pois acredito que a maioria já deve ter se deparado com coisas assim.

          É isso. No mais acho plenamente justas as dúvidas, e também o temor de que em certos ambientes possam distorcer as coisas, para banalizar mais ainda e crime e gravíssimo pecado do aborto.

          Paz e Bem!

          • Luiz Antônio Pereira

            Bom! Nem eu, e creio que nem Cesar – ele que responda por ele – questionamos se o papa pode contrariar o Código de Direito Canônico e o tenha contrariado, e sim, como ficarão as instruções contidas no código de direito canônico, mas isso nem é o foco da questão, pois respondida já está pelo próprio papa. Foi apenas um adendo. O mais importante da questão é a possível banalização de tal pecado, pois que, em análogo modo, como que desceu a hierarquia da gravidade, pois já não é mais necessária a figura do bispo e todo o procedimento. O tempo que vivemos pediria uma maior observância creio eu, à importância de tal pecado, pois as pressões são justamente para diminuir a importância e gravidade do crime no meio secular.

            No mais, se o padre chamou de burros a ofensores contumazes do papa, não vejo problemas nisso, a não ser um discurso inócuo ao ato execrável, pois os ofensores não estão nem aí, mesmo. Mas enfim, a resposta do padre, não caberia a este comentário, nem ao de Cesar… a não ser que sim, realmente nos tome por burros.

        • Patrick

          Luiz Antônio Pereira, ao seu comentário de novembro 23, 2016 at 4:41 pm:

          Não quis insinuar que seria “burro”, até porque se o fizesse, além de ser mal educado, seria mais burro ainda por dedicar tempo dialogando com alguém que considerasse como tal.

          Nestes diálogos de internet, nunca levo nada no pessoal ― e por vezes procuro expandir os horizontes do debate ―, pois, embora em alguns casos minha resposta para você possa ser pouco útil, poderá vir a servir para outros espectadores do debate. E vice-versa. Por isso coloquei a postagem do padre na íntegra. Perdoe-me se pareceu uma ofensa ou insinuação, espero que esta questão esteja esclarecida.

          Como anteriormente citei, considero justa a preocupação sua e de muitos com a banalização do aborto, e creio que alguns modernistas vão realmente instrumentalizar isso para banalizar mais ainda.

          Fato é que se tentarmos enquadrar o pensamento do Papa em correntes ideológicas (TL, esquerdismos, modernismos etc.), vamos invariavelmente cair nesta celeuma de questionar a legitimidade da atitude de quem é nosso Pastor na terra. Eu já caí nisso seguindo certos “gurus” de internet. Encontrei (encontro, pois é busca incessável) a resposta na oração e na Palavra.

          Fato também é que o Papa está sendo prático, ao meu ver. Como banalizar algo que já está banalizado?

          Governos civis tiveram sucesso em legalizar a prática abominável do aborto em quase todo o mundo. Enquanto os filhos das trevas tiveram sucesso gigantesco, nós além de não conseguirmos nos mobilizar no âmbito civil, permitimos que muitas católicas praticassem o aborto. E se essas católicas abortaram, é porque todos nós ― em escala menor ou maior ― falhamos miseravelmente em nossa tarefa de catequizar.

          Um cristão bem formado jamais apoiaria um aborto. Uma católica bem formada jamais abortaria. E por que isso acontece o tempo todo? Por que de certo modo falhamos ― eu, catequistas, padres, bispos…

          Governos, ONGs, grande mídia etc. pregam o aborto com muito mais força e eficácia do que nós conseguimos pregar a vida. A grande maioria de nós é omisso e se abstêm do assunto aborto simplesmente porque ele incomoda aos outros, incomoda o mundo.

          A mídia é deles, mas a família ainda é nossa, é aí que eu vejo que hoje muitos católicos falham, e nisso os documentos do Papa Francisco tem insistido muito: Família. Na família salvaremos o futuro. Mas infelizmente os debates ficam no campo das polêmicas, dos possíveis erros e ideologias, e esquecemos o lado da Esperança. Queremos Justiça, e esquecemos da Misericórdia. Apontamos os erros, mas esquecemos da evangelização. Esquecemos muitos de nós de nossa própria formação.

          E assim muitas mulheres abortam. Muitas delas católicas pelo Batismo. O Corpo de Cristo sofre com esses membros doentes, mortos na Graça.

          E neste momento me recordo que rezamos diariamente para Jesus: “levai as almas todas para o céu e socorrei principalmente as que mais precisarem.” E quais mais precisam do que as que “morreram” devido ao aborto?

          Portanto, prefiro, para não colocar minha Fé e Esperança em risco, me colocar no meu miserável lugar, e acreditar que é o Espírito Santo quem guia o Santo Padre nesta atitude de expandir o acesso à Misericórdia, ao perdão de Deus através do Sacramento da Penitência, concedido por qualquer sacerdote ― que na absolvição dos pecados age in persona Christi ― para estas pessoas que caíram na desgraça de praticar ou participar de um aborto.

          Eu abomino com todas as minhas forças o aborto, mas infelizmente ele acontece, mais e mais. Por isso, agradeço a Misericórdia de Deus, que o Papa tem insistido em apresentar aos que caíram. E certamente, como Misericordia et misera explícita, o sincero arrependimento permanece necessário, como sempre.

          Paz e Bem!

          • Luiz Antônio Pereira

            Obrigado pelo esclarecimento!

            Não tentei enquadrar o pensamento do papa em corrente alguma. Apenas levantei questionamentos, que não eximem a figura do papa por ser legislador.

            Pode-se banalizar ainda mais o que já é banalizado. De forma ao menos implícita tirou-se um caráter mais sério na questão ao deslocar para baixo na hierarquia a remissão do pecado (ainda que esta não tenha sido a intenção, e sou avesso a ideia de que tenha havido uma maquinação dessas). A queda vertiginosa da moral foi a causadora do precipício do Império Romano. À imoralidade que já era imoral, acentuou-se condicionalidade, relatividade, permissão, e o fim. Aponto isso apenas como analogia e não como suposição de iminente catástrofe no caso discutido.

            Difícil supor quantitativamente sobre católicas que abortaram ou mesmo proporções na escala geral, e mais ainda que a culpa recaia sobre os próprios católicos. É temeroso falar em falha da Igreja quando até hoje não havia diminuído a percepção da gravidade de tal ato. Estava claro, sempre foi claro! Porque uma católica aborta? Não é fácil a resposta! Invariavelmente é conhecida a gravidade por parte das católicas. Muitas questões podem influir, e creio ser mais da alçada de psicólogos arguir causas e motivos, porque pode haver um intrincado fator a que a complexidade humana está volúvel. O desespero de uma católica abortando, sabendo o que isso representa, a faz objeto da misericórdia, e não vejo onde transferir o poder do perdão na hierarquia auxiliará a consciência quanto à gravidade do aborto, penso ser mais provável sim a banalização. Uma católica bem formada e consciente pode acometer o pecado do aborto, e de quem será a culpa? Não é questão de levantar culpados, mas de estabelecer as coisas como elas são. Ela, mais cedo ou mais tarde, em contrição se jogará aos pés da Misericórdia e A encontrará, então que esse entendimento de tão grave ato não acabe se enlanguescendo na alma dessas que têm consciência… ainda.

            Não falo em justiça e esquecimento da Misericórdia. Pelo contrário, deixar o aborto em sua condição tal qual estava é sinal da mais entranhada Misericórdia a impelir para a sua gravidade com holofotes, para que fique bem claro, e a obra restauradora seja realmente eficaz. Não há problemas em apontar erros, aliás se faz necessário apontar possíveis erros – para que a questão seja discutida a quem compete (ainda que não exclua a meros mortais discuti-las também), afinal estamos lidando com almas, com salvação, não podemos nos abster de apontar aquilo que pensamos ser erros em vista de uma evangelização, porque apontando erros também se evangeliza. A evangelização não pode amputar braço algum de tudo que se encerra na doutrina e do Magistério.

            Não me sinto colocando em risco minha fé e esperança duvidando que em todos os atos e decisões papais esteja ele sendo movido pelo Espírito Santo. Grandes papas voltaram atrás em suas decisões, e isso é salutar para desmistificar certa onipotência quando a infalibilidade não o abona. Não acuso o papa de socialista, comunista nem nada. Há coisas que podem ser questionadas mesmo partindo do papa, sem que eu caia em desrespeito ante ao sumo pontífice.

            A Igreja deixando o aborto na condição que estava não falta no acolhimento e não deixa de levar as almas todas para o Céu. Não se estava tirando um direito de quem foi envolvida pela Redenção. A Igreja não oprimia essas mulheres mandando-as direto ao bispo.

    • Cesar

      Caríssimo Luiz Antônio Pereira, o tema foi pouco abordado aqui no O Catequista, vale muito postarmos aos leitores o questionamento muito bem fundamentado por Cardeais da Igreja, cumprindo estritamente suas funções de guardiões do Sagrado Magistério da Igreja Católica.

      Quanto ao código de direito canônico, muitas dúvidas e confusões permanecem não respondidas inclusive pela própria Congregação para a Doutrina da Fé Card. Gerhard Ludwig Müller.

      Retirado do site Deus Lo Vult

      Foi hoje tornada pública uma carta ao Papa Francisco onde um grupo de cardeais interpela Sua Santidade a respeito de algumas interpretações contraditórias que estão circulando no orbe católico sobre o Cap. VIII da Amoris Laetitia. Trata-se de uma atitude duplamente excelente, no conteúdo e na forma. No conteúdo, porque o seu objetivo é pôr freios à loucura generalizada que se apossou de muitos ambientes católicos; na forma porque tudo se fez de maneira exemplar, com toda a deferência exigida ao Soberano Pontífice.

      Um simples olhar sobre o caso mostra a diferença gritante, estratosférica, entre ele e a histeria virtual generalizada que, aqui no blog, tanto me censuram por combater.

      Em primeiro lugar a carta é, toda, de uma elegância exemplar. No lugar dos xingamentos, os preitos de submissão; no lugar das acusações vagas, as questões formuladas com todo o rigor acadêmico. Em nenhum momento o Papa é diminuído em qualquer das suas prerrogativas, em nenhum parágrafo as suas intenções ocultas são perscrutadas e censuradas. Não se encontra na carta — nem mesmo! — uma afirmação taxativa de que tal ou qual passagem da exortação apostólica esteja em desacordo com a doutrina da Igreja; simplesmente se pergunta se as disposições antigas ainda estão válidas e, se sim, de que modo.

      Depois: a carta foi redigida por quatro cardeais da Santa Igreja, não pelo Zé das Couves da esquina. Foi entregue ao Santo Padre e não divulgada no Facebook. É total a diferença entre os Príncipes da Igreja, membros da cúria pontifícia, e o leigo brasileiro que mal ajuda a sua paróquia territorial. É absoluta a dessemelhança entre o documento formal, cerimoniosamente entregue ao próprio Soberano Pontífice, e o panfleto passional espalhado aos quatro ventos internet afora e cuja leitura só provoca a indisposição dos espíritos para com o Cristo-na-terra.

      Finalmente, o modo de proceder dos cardeais foi aquele estabelecido por Nosso Senhor nos Evangelhos: primeiro o Papa foi procurado privadamente, e somente depois — quando tomaram consciência de que a resposta pontifícia não viria — os autores da carta decidiram ampliar a discussão, tornando-a pública. Não está, portanto, em questão aqui a pessoa do Romano Pontífice, o juízo moral sobre as suas atitudes, nada disso: o que se objetiva é, tão-somente, o esclarecimento dos fiéis católicos a respeito de algumas questões morais surgidas a partir da leitura de um capítulo da última exortação apostólica publicada pelo Papa Francisco.

      As dubia enviadas ao Santo Padre são as seguintes:

      1 Se é agora possível (AL 305 c/c nota 351) conferir a absolvição sacramental, e consequentemente a Comunhão Eucarística, a uma pessoa que, conquanto possua um anterior vínculo matrimonial válido, viva more uxorio com alguém que não é o(a) legítimo(a) esposo(a).

      2 Se, após o n. 304 da Amoris Laetitia, ainda existem normas morais absolutas que proíbem incondicionalmente atos intrinsecamente maus e que são obrigatórias a todos, sem exceções.

      3 Se após o n. 301 da Amoris Laetitia ainda é possível afirmar que uma pessoa que habitualmente viva em contradição com um mandamento da Lei de Deus (e.g. o que proíbe o adultério) encontra-se em uma situação objetiva de pecado grave habitual.

      4 Se, à luz das “circunstâncias que mitigam a responsabilidade moral” (AL 302), permanecem válidos os ensinamentos de S. João Paulo II de acordo com os quais as circunstâncias, ou as intenções, não podem jamais transformar um ato intrinsecamente mau em algo subjetivamente bom ou defensável como uma escolha.

      5 Se, após o n. 303 da Amoris Laetitia, permanece válido o ensinamento segundo o qual a consciência nunca pode legitimar exceções a normas morais absolutas que proíbem atos intrinsecamente maus em virtude do seu objeto.

      O debate franco, aberto e desapaixonado a respeito dessas questões é da mais alta importância, e em muito boa hora os eminentíssimos cardeais as trazem a lume. Que a clareza das perguntas possa dar uma exata dimensão daquilo que atualmente se está discutindo; que elas propiciem respostas cada vez mais claras, a fim de fazer cessar a confusão instaurada no seio da Igreja Santa de Deus.

      Nos resta saber se o Papa Francisco irá responder ou permanecerá em silêncio ciente das consequências.

      Graça e Paz

      • Luiz Antônio Pereira

        Cesar, que bom o Colégio Cardinalício amparar-nos com zelo apostólico. Aguardarei esperançoso que o papa sane essas dúvidas, que são de todos nós interessados.

  • Natalia farias

    Catequista, acredito que seja 33o domingo.

  • Padre Orlando Henriques

    Foi muito bom o Papa Francisco conceder a todos os sacerdotes a faculdade de absolver o pecado de aborto.
    Gostei mesmo! Penso que é uma medida muito importante e que até já devia ter sido aplicada há mais tempo. É que as pessoas, muitas vezes, nem têm noção que há pecados reservados, e se já pode ser bem difícil dar o passo de se ir confessar por esse pecado, imaginem o padre ter que dizer à pessoa: «Não posso dar-lhe a absolvição, tem que ir à sede da Diocese receber a absolvição do Sr. Bispo ou do cónego penitenciário…».
    Bem jogado, Papa Francisco!

    Corrigam uma gralha que há no texto: «o pofder de dar o perdão do aborto»

    • Luiz Antônio Pereira

      Padre, o sacerdote não precisa ser curto e groso dizendo “Não posso dar-lhe a absolvição, tem que ir à sede da Diocese receber a absolvição do Sr. Bispo ou do cônego penitenciário”. Como é um pecado importante e a situação delicada, ele pode dar mais atenção ao penitente, explicando com brandura e acolhimento tudo o que se encerra nisso. Creio que ninguém ficaria retraído ou raivoso com o sacerdote depois disso. Antes, ficariam mais cientes da gravidade e pressurosos da misericórdia, impelidos entranhadamente a não mais fazer e apoiar a vida.

    • Cesar

      Tenho minhas sérias dúvidas sobre centrar a misericórdia no ato de perdão ou da absolvição. A excomunhão, a negação dos sacramentos, também são atos de misericórdia! São atos de misericórdia na medida em que confrontam o pecador com a realidade do seu pecado.

    • Padre Orlando Henriques

      Compreendo que o aborto não se pode encarar de forma leve e bem sei que as medidas disciplinares da Igreja também são actos de misericórdia; mesmo assim, a minha experiência diz-me que, pelo menos em certos contextos, é vantajoso o sacerdote ter jurisdição para absolver esse pecado.

      • Padre Orlando Henriques

        Não estou, evidentemente, a dizer que o sacerdote vá absolver sem ter jurisdição, mas sim que é bom que a jurisdição tenha, agora, sido alargada.

  • João Pedro Strabelli

    Padre Orlando

    Fiquei muito feliz com este seu comentário, era o que faltava para completar um raciocínio que comecei ter há algum tempo. Acho que esta medida de papa Francisco foi o primeiro arranhão que o aborto sofreu. O mundo tem uma defesa formada do aborto que me parecia intransponível, porque a pessoa se fechava na alegação que a mulher é dona do seu corpo e, por mais que usássemos todos os argumentos disponíveis, a desculpa alheia já estava pronta e imutável. Ficava aquela coisa de que o mundo é assim e não tem nada que pode mudar; quem for contra, que guarde sua opinião para si.O que me parece agora é que, finalmente, esta barreira sofreu seu primeiro arranhão. Pela misericórdia. Não vai afetar quem não está nem aí com a religião ou com Deus, e pra estes a medida do papa não faz diferença nenhuma e nem é este que vai aparecer no confessionário, faz diferença para quem quer voltar a Deus. Muita gente vai voltar para Deus.

    Relendo o que escrevi, lembrei da pecadora arrependida. Acho que os pés de Jesus vão voltar a ser lavados por muitas lágrimas.

    • Padre Orlando Henriques

      Pois, como já disse, penso que é útil em alguns casos a pessoa que se vai confessar do pecado de aborto poder ser absolvida logo ali; nalguns casos, quem sabe se a pessoa voltará para ser absolvida por quem tenha jurisdição? Como diz o João Pedro, esta medida do Papa não vai afectar quem não liga a Deus nem à religião, mas pode fazer a diferença para muitas pessoas que estejam na iminência de voltar para Deus.

  • Augusto Paiva

    São Padre Pio e o pecado do aborto

    O rigor de São Padre Pio diante do pecado de aborto salvava as almas dos pecadores. Ele tinha certeza de que tal pecado não podia ser tratado com banalidade.

    Certa vez, o Pe. Pellegrino disse a São Padre Pio: “O Senhor esta manhã negou a absolvição a uma senhora porque esta fez um aborto. Por que foi tão rigoroso com aquela pobre desgraçada?”

    Respondeu São Padre Pio: “O dia em que as pessoas (…) perderem o horror ao aborto, este será um dia terrível para a humanidade. (…) O aborto não é somente um homicídio, mas também um suicídio. E, para aqueles que estão à beira de cometer com um só golpe um e o outro delito, temos que ter a coragem de mostrar a nossa Fé.”

    “Por que suicídio?”, perguntou o Pe. Pellegrino.

    Atacado por uma daquelas, não habituais fúrias divinas, compensadas por uma ilimitada doçura e bondade, São Padre Pio respondeu: “Entenderia esse suicídio da raça humana se, com o olho da razão, o Sr. visse a terra povoada de velhos e despovoada de crianças, queimada como um deserto. Se refletisse assim, entenderia a dupla gravidade do aborto: a mutilação também da vida dos genitores.

    “A estes genitores, espalharei a cinza dos seus fetos destruídos, para mostrar as suas responsabilidades e para negar a eles a possibilidade de apelar a própria ignorância. Um aborto provocado não pode ser tomado com falsas considerações e falsa piedade. Seria uma abominável hipocrisia. Aquelas cinzas precisam ser jogadas nas faces dos seus pais assassinos. Se eu lhes deixar sentindo inculpados, me sentirei envolvido em seus próprios delitos.

    “Veja, eu não sou santo e também jamais me senti próximo da santidade, quando digo palavras, talvez, um pouco fortes, mas justas e necessárias àqueles que cometem esse crime, eu estou certo de ter obtido a aprovação de Deus para o meu rigor”.

    Em seguida, o Pe. Pellegrino objetou que, se não se consegue eliminar as fixações obsessivas da mente daqueles que praticaram o aborto, seria inútil maltratá-los com o rigor da Igreja. São Padre Pio, então, lhe disse: “O meu rigor, enquanto defende a vinda das crianças ao mundo, é sempre um ato de fé e de esperança”.

    ***

    Padre Pio

    São Padre Pio de Pietrelcina.

    Certo dia, na sacristia, em frente ao confessionário no qual São Padre Pio atendia os penitentes, esperava pela sua vez um homem chamado Mario Tentori. Enquanto fazia seu exame de consciência, ouviu o Padre Pio gritar: “Vai embora, animal, vai embora…!”. As palavras do Santo estavam direcionadas a um homem que, apenas havia se ajoelhado, saia de dentro do confessionário humilhado, agitado e confuso.

    No outro dia, Mario pegou o trem para Foggia para retornar a Milão. Tomou lugar no compartimento no qual havia um só viajante que começou a observá-lo e exprimia uma vontade de iniciar uma conversa. Finalmente, perguntou o viajante : “Você, ontem, não estava em San Giovanni Rotondo, na sacristia, para se confessar com Padre Pio?”

    “Sim”, respondeu Tentori.

    Retomou o outro: “Nós estávamos sentados no mesmo banco, eu o antecedia. Eu sou aquele que o Padre Pio chamou de ‘animal’. Se lembra?”

    “Sim”, disse Mario.

    Continuou o companheiro de viagem: “Vocês que estavam perto do confessionário talvez não ouviram as palavras que motivaram o Padre Pio a me mandar embora. Ora, o Padre Pio me disse: ‘Vai embora, animal, vai embora, porque, de acordo com a sua esposa, você abortou três vezes’. Entendeu? O Padre Pio disse ‘você abortou!’. Se dirigiu a mim, porque a iniciativa de minha esposa abortar partiu de mim.”

    E começou um pranto que exprimia – como ele mesmo confessou – dor, vontade de não pecar e a firme determinação de voltar a São Padre Pio para receber a absolvição e mudar de vida.

    O rigor de São Padre Pio havia salvado a vida de um pai que, após ter negado a vida a três de seus filhos, estava correndo o perigo de perder a sua própria alma por toda a eternidade, caso o Padre Pio tivesse banalizado o pecado cometido.

    (Trechos extraídos da obra “Il Padre San Pio da Pietralcina, la missione di salvare le anime”, di P. Marcellino Iasenza Niro, Edizioni Padre Pio da Pietralcina, 2004)

    Fonte: IPCO

  • Natália

    Somente aproveitando que o post é sobre o papa, gostaria de tirar uma dúvida:

    Li em um site gringo, que uma universidade pontifícia será reformulada, por decisão do papa. E dentro dessa reformulação, será aceito professores de todas as religiões e não somente católicos.
    Isso não poderia enfraquecer o ensino no local?
    Por exemplo, numa aula de teologia, um aluno católico faz uma ponte entre o novo e o velho testamento, mas aquela situação é abominada na religião do professor e ele decide ensinar ao aluno a doutrina da religião dele. Não perderia o sentido?

    Não sei bem se é verídico isso, mas é uma dúvida.
    Obrigada!

    • João Pedro Strabelli

      Natália

      Não posso dizer sobre esta notícia específica porque não vi, nem por universidades por não saber como funcionam, mas posso falar de colégios católicos, pois já vi alguns. Alguns destes colégios aceitam professores não católicos desde que eles sigam a filosofia do colégio. Ninguém precisaria ser católico para dar aulas de matemática, por exemplo. Isso não mudaria em nada a filosofia do colégio. Já, se o colégio tiver aulas de religião, aí sim teriam alguém com formação específica. É mais ou menos como um hospital católico aceitar um médico não católico.

      Também é preciso lembrar que muitas escolas católicas são apenas escolas. Pense na África, onde existem pouquíssimas escolas. Se o governo permitir que se funde uma escola, mas nos moldes que eles querem, o que se faz? Aceita-se esse serviço ou deixe pra lá já que não pode ter aulas de religião?

      O que costuma acontecer em lugares difíceis e complicados é que apenas os religiosos encarem a encrenca de ficar lá.

  • Elias

    Talvez eu faça aqui uma pergunta um tanto tola, mas estou realmente em duvida, se foi cedido aos Padres perdoarem o aborto, porém o aborto continua incorrendo em excomunhão, como é que fica? se você foi perdoado por um padre, você continua não podendo mais comungar? quem puder me ajudar… Obrigado

    • Elias, sua pergunta é pertinente. Assim que o padre perdoa o pecado do aborto à pessoa arrependida que se confessa, a excomunhão dessa pessoa é levantada (cancelada). Portanto, só permanece excomungado quem pratica ou incentiva o aborto, e não se arrepende nem se confessa.

  • Leniéverson

    E por falar em aborto, o Blog irá escrever sobre a decisão de ontem no STF sobre o assunto? E CNBB, sabe se já se manifestou sobre o assunto? Aguardando respostas.

  • Maria

    Olá, quem tomou várias vezes a pílula do dia seguinte, ou seja, pílula abortiva,corre o risco de ter abortado. A pessoa nesse caso está excomungada? Me confessei e o padre me perguntou se eu sabia que a pilula era abortiva, eu falei que nao tinha certeza, mas assumi o risco (ou seja, tive culpa). Ele me absolveu. E agora? estou ou nao excomungada? Gente, me ajudem!

  • Leopoldo Carvalho

    “A Igreja sempre se opôs a estes erros; muitas vezes até os condenou com a maior severidade. Agora, porém, a esposa de Cristo prefere usar mais o remédio da misericórdia do que o da severidade. Julga satisfazer melhor às necessidades de hoje mostrando a validez da sua doutrina do que renovando condenações.”( São João XXIII).

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