Pio IV – Um papa virtuoso, mas pouco popular

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Gian de Médici era o nome de batismo de Pio IV. Ele não era parente direto dos Médicis de Florença; era de um ramo pobre da família. Curiosamente, este papa nasceu na Páscoa, foi eleito no Natal e foi coroado no Dia de Reis (seis de janeiro de 1560).

Pio IV foi um alívio humano na coleira apertada até o limite do estrangulamento pelo seu predecessor. Ele aliviou muitas das severidades de Paulo IV, em especial, com as seguintes medidas:

  • usou de suavidade para com os suspeitos de heresia;
  • reabilitou cardeais condenados, sem provas, por heresia;
  • reviu o Index de Paulo IV;
  • relaxou os excessos da Inquisição;
  • apertou a mão de Felipe II (o cabra macho de Lepanto, lembram-se?).

Como vemos, Pio IV era um cara legal, e tinha tudo para cair nos braços do povo. Mas não foi isso que aconteceu…

Vamos explicar o porquê. Com relação à questão financeira, pra variar, o papado estava quebrado. O papa anterior destruíra as finanças dos Estados Pontifícios com sua insana querela com Felipe II. Isto forçou Pio IV a pesar a mão nos impostos em terras pontifícias, o que provocou descontentamento geral. A rapaziada tentou, literalmente, matar o Papa.

Seu sangue Médici falou alto quando retomou o hábito dos papas serem mecenas de grandes artistas. Michelangelo, aquele mesmo, agradeceu, já que Paulo IV havia deixado esses chupins à míngua. Entre seus principais legados à arquitetura romana, cito a Porta Pia e partes da cúpula da Basílica de São Pedro.

CORTANDO AS ASINHAS DO CARAFA

Foi o sobrinho de Paulo IV, o Cardeal Carlo Carafa, quem organizou um grupo de cardeais que elegeu Pio IV. Era a Véspera de Natal de 1559. Carafa era um sujeito de péssima fama: na juventude fora bandoleiro e bandido, e quando maduro se mostrou cruel e sedento de poder.

Carafa se achava intocável. Mas não era bem assim… Pio IV, ao tomar ciência dos seus desmandos e os do seu irmão Giovanni, duque de Palino, os pôs a ferros e mandou julgá-los. Ambos receberam a pena de execução por assassinato, roubo e outras patifarias.

Essa sentença foi posteriormente declarada injusta pelo papa São Pio V.

UM SANTO À FRENTE DA INQUISIÇÃO

Pio IV nomeou para o tribunal da Inquisição o cardeal-arcebispo de Milão, seu sobrinho. O novo manda-chuva da Inquisição era umas das mentes mais afiadas e perspicazes de toda a Renascença, um homem justo e bom, que se tornaria o patrono dos catequistas, e que entrou para história como São Carlos Borromeo (já falamos sobre ele aqui). Estava bem de sobrinho ou não, esse papitcho?

O CONCÍLIO DE TRENTO

Depois de um hiato de dez anos, foi Pio IV quem vez a reconvocação do Concílio de Trento – a principal reivindicação do conclave que o elegeu.

Antes disso, havia dúvidas no ar: deveria ser convocado um novo concílio, e dar Trento por encerrado – como era o desejo do Imperador Fernando I do Sacro Império Romano-Germânico – ou continuar os trabalhos iniciados em Trento – como queria o Rei da Espanha, Fernando II?

Pio IV soube lidar muito bem com a situação: promulgou uma bula convocatória em 29 de novembro de 1560, chamada Ad Ecclesiam Regimen. Contando com o auxílio do Cardeal Morone, Pio IV habilmente conseguiu levar a termo o Concílio de Trento após 25 sessões, confirmando seus Decretos em 4 de dezembro de 1563, consolidados na bula Benedictus Deus em 30 de junho de 1564.

Agora faltava pôr as determinações do Concílio em prática. O papa criou uma congregação de cardeais para supervisionar esse trabalhão. Despachou os bispos conciliares para casa e ordenou que eles lá residissem (naquele tempo, era comum o “absenteísmo”, ou seja, muitos bispos “turistas” viviam fora do território de suas dioceses, e assim os fiéis ficavam às moscas). Ainda em 1564, publicou o novo Index dos livros proibidos, deu início à compilação de um novo catecismo da Igreja Católica e reformou o Missal e o Ofício Divino.

Na luta contra a expansão protestante em terras antes católicas, Pio IV afrouxou as rédeas, na esperança de reconciliação com os separados – principalmente com os nichos francês, inglês e alemão da Deforma Protestante. Absteve-se de excomungar a rainha Elisabeth I, da Inglaterra.

Um de seus mais importantes legados para a Igreja foi a Profissão de Fé Tridentina, que é um dos quatro credos oficiais da Igreja Católica (junto com o Credo dos Apóstolos, de Nicéia e de Atanásio). Esse credo, que hoje raramente é utilizado, serve como antídoto para afastar os católicos das heresias protestantes.

Podemos dizer que Pio IV mais acertou que errou, e foi um bom papa. Sofria de gota e faleceu em 9 de dezembro de 1565, cercado em seu leito de morte por São Filipe Néri e por São Carlos Borromeo. Seu corpo foi sepultado na Basílica de São Pedro e, em 1583, seus restos mortais foram transladados para a Igreja de Santa Maria degli Angeli, construída por ele.

Em breve tem mais minha gente!

Fontes:

Ludwig, Freiherr von Pastor. History Of Popes. Kegan Paul, Trench, Trubner & Co. Ltd.  1932.

Ranke, Leopold von. The History of the Popes during the Last Four Centuries (Vol. I). G. Bell and Sons, LTD., 1913.

Johnson, Paul. La Historia Del Cristianismo. Ed. Zeta, 2010.

McBrien, Richard P.. Os Papas – Os Pontífices de São Pedro a João Paulo II. Edições Loyola, 2004.

15 comments to Pio IV – Um papa virtuoso, mas pouco popular

  • Sidnei

    Apesar deste Papa ter pesado a mão com relação a cobranças de impostos, para cobrir o rombo nas finanças do estado papal, o que desagradou a toda população aonde o Papa é quem governava, pois quem gosta de ver aumento de impostos?, até que achei este Papa bem simpático, perto do antecessor que era linha dura, e não frouxava as rédeas de jeito nenhum. Agora esperamos o próximo Papa sucessor de Pio IV, o grande São Pio V.

    • Padre Orlando Henriques

      Pois é, Sidnei, um governante de má memória para a sua nação (Estados Pontifícios), mas excelente enquanto Papa para toda a Igreja. Nada mau! Também gostei.

  • marcos

    Onde está escrito “Contando com o auxílio do Cardeal Morone, ‘Paulo IV’ habilmente conseguiu levar a termo o Concílio de Trento” não deveria ser Pio IV?

  • Bom dia.

    Existiu algum Catecismo (ou resumo oficial da fé da Igreja) antes do de Trento?

    • Náila Anjos

      No século I já existia. O primeiro da Igreja foi o Didaquê (não sei se escrevi certo), escrito no sec I. Depois disso já deve ter tido vários, não sei, só conheço esse primeiro.

      • João

        É, já dei uma lida nele. Mas o Didaquê era quase um livro canônico, vamos assim dizer.

        Depois dele, durante toda a Idade Média, não havia catecismo?

  • Mariele

    Boa Tarde!

    Sei que esse não é o assunto do post. Mas de novo a internet está uma confusão por que estão dizendo que o Papa Francisco disse que “Comunistas pensam como Cristãos”. Lembro daquele post que colocaram aqui “As entrevistas dos Papas: são tantas emoções”. São muitas emoções mesmo, ainda mais quando se tem Catolicos, que são a favor do Comunismo/Socialismo, Teologia da Libertação. Eu estou passando por um momento muito difícil da minha Vida, por viver a verdade de Cristo, sendo chamada de radical, por falar para alguns Amigos meus, que a Igreja condena o Comunismo/Socialismo, dizendo que estou querendo defender o lado errado na politica. Sou radical por ajoelhar na Ora da Consagração, e perceber que todo mundo te olha como doida, radical, querer ser melhor que todo mundo. Tem vários Amigos meu que só faltaram me bater, quando disse que quem apoia Comunismo/Socialismo e quem vota nestes partidos estão excomungados. Estou falando de Ministros da Santa Eucaristia, Homiliastas, Catequistas, de varias Pastorais.
    Nossa… Tem dias que mim sinto sozinha, pois não posso falar sobre a Verdade da Igreja, nem mesmo com o Padre, que quase nunca tem tempo para receber aqueles que mais necessitam dele, principalmente na Confissão. Aí, quando agente acha que não pode piorar, a mídia vai lá e coloca como noticia principal que o Papa Francisco disse que “Comunistas pensam como Cristãos”. Já estou até vendo, as pessoas dizendo que eu sou contra o Papa, que se o Papa disse isso, ele apoia o Comunismo/Socialismo.
    Só sei que a semana vai ser difícil…

    Desculpa pelo desabafo, mas neste momento que não temos ninguém para conversar… As vezes temos a necessidade de desabafar.

    Deus e Nossa Senhora tem me consolado!

    • Sidnei

      Queres um conselho?:

      Não esquenta, solte as rédeas que o diabo já tomou conta de tudo. Cuide de sua salvação e o resto deixa nas mãos de DEUS.

    • João Pedro Strabelli

      Oi, Mariele

      Já traduziram aqui mesmo n’O Catequista (http://ocatequista.com.br/archives/14281/comment-page-1#comment-743291) o que o papa disse.

      Que o papa vai ser mal interpretado, vai. Se tiver o menor jeito de entender errado, vão entender errado; e se não tiver, vão distorcer um pouco e fazer uma interpretação fantasiosa até distorcer. Da sua fé você pode cuidar, da dos outros…

      Mas você também está angustiada com a questão política. Essa situação é bastante complicada: se na última palhaçada, digo, disputada presidencial você fosse seguir estritamente essa norma, um dos partidos é nominalmente social. Ia votar em quem? Sei que eles não pensam exatamente assim, mas há muito disso nos raciocínios. Por exemplo: qual dos partidos tem realmente uma pauta pela vida? Pela família? Pelos valores cristãos? Nenhum. A diferença é que uns vão tentar empurrar e os outros vão analisar a situação, um eufemismo para empurrar do mesmo jeito.

      Já no caso de suas devoções e da sua forma e oração, ela é sua. Faça com humildade. Deus pede a cada um o que ele pode fazer, então muitos de seus amigos não poderão fazer tanto. Outros não vão querer mesmo. Mas veja o exemplo de pessoas como São Francisco de Assis ou Madre Teresa de Calcutá. Eles eram suaves e serviam muito mais como exemplo, é isso que funciona. E faziam a parte deles e deixavam a parte de Deus com Deus.

      Fique calma, tranquila e faça a sua parte.

    • Padre Orlando Henriques

      Mais um equivoco sobre o Papa decifrado:

      «se há alguma semelhança» entre cristãos e comunistas, já que ambos erguem bandeira da defesa dos pobres, «então são os comunistas que pensam como os cristãos», e não os cristãos que pensam como os comunistas, porque antes de os comunistas terem surgido e se terem apropriado da causa dos pobres, já a defesa dos pobres era uma causa dos cristãos; cristianismo e comunismo nada têm a ver, mas «SE» há alguma semelhança entre ambos, não são os cristãos que são semelhantes aos comunistas, mas o contrário.

    • Sidnei

      Se não me engano, esta frase não foi citada pelo Papa antes, e já não tinha sido dada a explicação do entendimento dela?. Porque isto voltou a baila novamente?.

      Bem, de qualquer forma, o texto foi devidamente: decifrado, esclarecido e explicado, entenda quem quer, quem não quer, não enche o saco.

  • Mariele

    Boa Noite Padre! Sua Benção…

    Eu vi a reportagem, e vi que eles como de costume distorceram as Palavras do Papa. A algum tempo atras vi um video do Padre Paulo Ricardo falando com a midia muitas vezes distorcem as palavras do Papa.

    Mas o problema é que muitos Católicos não buscam saber a Verdade, confiando naquela noticia. Principalmente quando está como noticia principal de vários sites da internet. Então quando vamos orientar nossos Irmãos, o estrago já foi feito. E quando tetamos mostrar a Verdade por de trás daquela noticia, dizem que somos radicais, que o Papa disse aquilo mesmo e eu entendi do jeito que quis. A coisa é mais triste ainda, quando praticamente muitos Católicos são a favor dessa ideologia.

    Penso eu, que no momento o que podemos fazer é Orar. Pedindo o Senhor Misericórdia!

    • João Pedro Strabelli

      Mariele

      O problema é que tem muito católico mais de nome do que de coração. Para estes, uma notícia dessas é uma maravilha porque a pessoa pode adotar um monte de teorias (que ela gosta mais do que a Igreja) e ainda manter um pé na Igreja, mesmo que a maior parte do corpo esteja em outro lugar. Eu não sei porque isso acontece. Às vezes é porque Deus dá uma chance da pessoa mudar lá pra frente, e o pézinho na Igreja ajuda a não se perder de vez; outras vezes é para dar as glórias mundanas que a pessoa quer, e aí o caminho é o pior possível.

      Mas católicos mesmo, de verdade, sempre vão achar um jeito de não cair nessa. Esse “achar um jeito” costuma vir do alto.

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