Papa Paulo IV: o zelo pela casa de Deus o consumiu. Até demais!

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Giovanni Pietro Carafa era um homem de nascimento nobre. Sua genealogia inclui casas nobres italianas, reis, duques, marqueses. Sua eleição, politicamente, deu-se pela necessidade de um consenso, pois o Conclave estava dividido entre franceses e imperiais, o que deixou o Imperador, obviamente, insatisfeito. Adotou o nome de Paulo em homenagem a Paulo III, que o nomeara cardeal.

Paulo IV tinha 79 anos quando subiu ao trono de Pedro. Se nos nossos tempos Bento XVI, eleito já idoso, foi chamado pela imprensa de “Papa de transição”, imagina como se considerava um papa desta idade nos idos de 1555! Vai ver por isso mesmo que o velhinho, ao contrário do seu predecessor (Marcelo II, que tinha 55 anos), fez questão de dar uma festa de arromba para celebrar sua coroação, em 26 de maio de 1555.

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INDEX E REAÇÃO AO PROTESTANTISMO

Muitos biógrafos, incluindo McBrien, tratam Paulo IV como um grande e cruel conservador antissemita. McBrien, embora seja uma excelente fonte, é um sujeito meio comuna. A imagem de Paulo IV está irremediavelmente ligada à Santa Inquisição – e à criação do Index de livros proibidos, prato cheio para os progressistas e comunistas de plantão.

Mas também foi Paulo IV que fundou a ordem dos teatinos, clérigos dedicados a uma vida de estrita pobreza e à Reforma Eclesiástica. Como tal ferrabrás, designado como legado papal para a Inglaterra por Leão X, pôde ser assim tão malvado?

Paulo IV foi sim conservador e travou muitas políticas reformistas, mas palavras ditas fora de contexto são perigosas e denigrem em muito a imagem de um homem que não está mais aqui para se defender. Não podemos esquecer que estamos nos anos de florescimento de um protestantismo jovem e muito agressivo, que ainda não havia sido posto no seu devido lugar e que não controlava os próprios impulsos. O Papa foi extremamente reativo, fechou-se a qualquer aproximação com os luteranos e sim, intensificou a Inquisição – o Index é prova disso.

A lista de livros proibidos por Paulo IV evitou que muitas almas pouco fortalecidas fossem envenenadas por heresias, e assim se precipitassem no Inferno? É bem possível. Mas os estragos também foram grandes. Para São Pedro Canísio, o Index nada mais era do que uma “pedra de escândalo”. As críticas do cardeal Ghislieri – que seria o próximo papa – não foram menos duras, classificando o Index como ridículo.

Como diria Alicia Keys: THIS BOOK IS ON FIRE!!!

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O rigor e zelo de Paulo IV para defender a fidelidade à fé talvez, tenha mesmo descambado para uma “neurose de ortodoxia” – como aponta Ludovico Pastor, em sua Historia dos Papas – que o levava a ver heresia em toda a parte.

Falando ainda sobre os aspectos políticos do seu papado, Paulo IV uniu-se aos franceses contra Felipe II, cabra macho que venceu a batalha naval mais importante da Idade Moderna, Lepanto, já narrada por nós aqui. Óbvio que ter tal homem como inimigo nunca poderia ser uma boa ideia! O Papa perdeu a peleja.

Outro fato importante foi opor-se a Paz de Augsburgo, que reconhecia a coexistência de católicos e protestantes nas terras do Sacro Império Romano-Germânico. Por fim, foi inábil ao lidar com a questão inglesa: foi durante seu reinado que a rainha Elisabeth I deitou e rolou, consolidando o anglicanismo na Grande Ilha.

Se Paulo IV pecou no que diz respeito ao trato com os protestantes, foi por excesso de zelo apostólico. A principal motivação dele para a confecção do primeiro Index nada mais foi do que eliminar os livros que, a seu ver, ajudariam os protestantes a espalhar suas falsas doutrinas.

ANTISSEMITISMO

Seu antissemitismo deve-se ao fato que este Papa foi um dos primeiros a obrigar os judeus a usar aqueles chapéus pontudos ridículos (imagem abaixo) para diferenciá-los dos cristãos, proibiu-os de exercer diversas profissões e atividades comerciais e confinou-os em guetos. Assim, a partir da bula Cum numis absurdum, cessaram os direitos e liberdades antes garantidos aos judeus pelo Papa Gregório Magno, no século VI.

chapeu_judeu

Essas medidas foram duramente aplicadas em Roma e no restante da Itália, mas foram quase que completamente ignoradas no restante da Europa (segundo o Centro Online de Estudos Judaicos).

Mas o que a maioria dos historiadores gosta de omitir é que Paulo IV assim procedeu porque acreditava que a comunidade judaica estava apoiando os protestantes. Para atingir um inimigo que tirava seu sono, tomou medidas contra outrem.

Se os judeus auxiliavam os protestantes ou não dentro dos Estados Papais, não temos como afirmar que toda uma comunidade assim procedia. Por outro lado, também não há como negar que é muito provável que um número significativo desta comunidade o fizesse. Só para constar: o Papa não mandou matar nenhum judeu, nem mesmo usou aquela estratégia que alguns utilizavam, para lavar as mãos do sangue,  de “entregar ao braço secular”.

Paulo IV teve sua cota de erros como, por exemplo, retornar à prática do nepotismo. Mas também foi zeloso na escolha de cardeais e na exigência do comprometimento dos sacerdotes em suas dioceses, punindo com prisão aos padres que gostassem de tirar muitas férias por ano.

Os italianos não foram receptivos à severidade de Paulo IV. Uma amostra dessa hostilidade se deu quando ele faleceu, em 18 de agosto de 1559: os black blocs da pizzaria destruíram a sede do Santo Ofício e libertaram os prisioneiros da Inquisição.

Fontes:

Ludwig, Freiherr von Pastor. History Of Popes. Kegan Paul, Trench, Trubner & Co. Ltd.  1932.

Ranke, Leopold von. The History of the Popes during the Last Four Centuries (Vol. I). G. Bell and Sons, LTD., 1913.

Johnson, Paul. La Historia Del Cristianismo. Ed. Zeta, 2010.

McBrien, Richard P.. Os Papas – Os Pontífices de São Pedro a João Paulo II. Edições Loyola, 2004.

20 comments to Papa Paulo IV: o zelo pela casa de Deus o consumiu. Até demais!

  • Everton Caiçara PB

    Paulo Ricardo, em A História dos Papas de Von Pastor, existe algum fato em especial, na pesquisa realizada por ele para construção dessa obra, que foi determinante para sua conversão ao Catolicismo? Uma outra coisa fugindo um pouco do assunto, poderia me indicar uma bibliografia confiável sobre o heresiarca João Calvino? Eu tenho a coleção de História da Igreja de Daniel Rops e no tomo IV que fala sobre o período da Deforma Protestante, parecia que o autor possuía uma certa admiração pelo herege genebrino… Se eu estiver errado, por favor, corrija-me.

    • Everton, o Daniel-Rops busca captar todas as nuances da personalidade de Lutero. Eu gosto bastante da análise que ele faz. Claro, sou o nosso Paulo Ricardo Costa! rs! Mas o Rops apresenta uma visão complementar e bem interessante.

    • Vamos esmiuçar seu pedido, Everton;

      Só travei conhecimento da obra de von Pastor tardiamente. Por vários motivos. É difícil de conseguir, não tem em português e é muito cara. Na faculdade eles simplesmente ignoram ela por não ser do “estilo historiográfico” que eles consideram o correto, ou seja, extremamente comunista. Fundamental no meu processo de conversão foi a vida de dois santos do Salvador dos quais sou profundo devoto e dos quais guardo profundo amor: São Francisco que ensinou o valor da vida e da temperança e São Domingos que me mostrou que ciência e fé não são inimigas.
      Com relação a sua segunda questão, procure o livro de Christopher Dawson, “A Divisão da Cristandade”.
      A Paz de Cristo.

      • Everton Caiçara PB

        Muito obrigado pela a atenção, caríssimo Paulo Ricardo! Sobre Von Pastor, falei sobre ele para um amigo que é “pastor” congregacional… Aí, já sabe, né? O velho mimimi protestante. Sobre o livro indicado, irei procurar. Só uma coisa que quero comentar é que quando fala-se de História, percebo que comunistas e protestantes vangloriam-se em cima de católicos que não buscam conhecer as raízes históricas da Nossa Santa Religião. Eu já fui vítima dessas qualidades de gente… Esses caras parecem que têm um prazer quase sexual de jogar na cara dos católicos os erros cometidos pelos filhos da Igreja no decorrer da história. Seus artigos históricos estão me ajudando muito e agradeço a Deus pela vida de todos vocês por esse lindo trabalho de evangelização!

        Deus os abençoe e os guarde de todo o mal!

        • Sidnei

          Pois é Everton, Comunistas e protestantes adoram se dar as mãos, e como em uma ciranda, cirandinha dos infernos, como se todos fosse cabeças de um monstro só , adoram cuspir na cara de nós católicos tudo quanto é erro que a Igreja Católica cometeu, mas olhar par ao rabo deles, e ver que eles cometeram os mesmos erros, ou até piores, nada né. Assim fica bonitinho para estes fofos disserem para julgar ninguém, mas quanto é para malhar a Igreja Católica toda porrete é pouco. São lindo eles né…, só que não.

        • José Jésus Gomes de Araújo

          Sobre a História dos Papas. Quando Leão XIII abriu aos pesquisadores o arquivo secreto do Vaticano (“A Igreja não teme a verdade”, escreveu ele no documento), Ludovic von Pastor, intelectual e historiador protestante alemão (ignoro de qual região, a Alemanha ainda não estava unida) resolveu ir a Roma pesquisar nesses arquivos e acabar de desmoralizar a Igreja escrevendo a história dos Papas. Converteu-se ao terminar a obra. Morreu como embaixador da Alemanha (já unificada) junto ao Vaticano.

  • Pelo que estou aprendendo (muito graças a vcs e à página “Repensando a Idade Média” do Facebook), a Inquisição conseguiu a proeza de ser impopular em todo lugar. Parece que o povão da época via o Santo Ofício como a intromissão de religiosos distantes em assuntos locais, isso quando não era oportunidade de escrachar inimigos políticos (como aconteceu na Ibéria).

    Ela foi uma daquelas “soluções menos piores” adotadas pela Igreja para combater problemas específicos. Como o Index.

    Agora, quanto ao antissemitismo, pelo que eu vi os judeus eram hostilizados por toda parte. O mito da “coexistência pacífica” dos judeus com islâmicos em terras islâmicas não passa de ocasiões temporárias de paz. Judeus, como cristãos, estavam permanentemente ameaçados pela Jizya e eram tratados como cidadãos de segunda classe.

    O mesmo ocorre na Europa: a depender do governante a situação dos judeus mudava. Alguns eram tolerantes, outros perseguiam. Só me interessa ver a posição oficial da Igreja em relação aos judeus com o passar do tempo.

    PS: aliar-se aos franceses é brincadeira, né? Os frescos da europa mantiveram uma aliança com os turcos por trezentos anos!! A aliança só acabou quando Napoleão invadiu o Egito.

    • Acrescente ao fato que muitos dos judeus eram banqueiros, praticavam “usura” – capitalização de capital – e quando os lordes ficavam devendo até as calças para eles, simplesmente os expulsavam. Não sou economicista, mas isso é fato.
      A França é um problema para a Igreja desde o malfadado episódio entre Felipe IV e os templários. Todo tipo de porcaria vem de lá desde então.

      • Veja a visão de Shakespeare, por exemplo, na peça “O Mercador de Veneza”.

        • PAULO RICARDO,

          Falou tudo. Por serem os donos do dinheiro na Europa, e pelos seus costumes isolacionistas (casamentos apenas entre judeus, etc), os judeus nunca foram bem vistos pelos europeus. Até hoje há muito antissemitismo por lá.

          Quanto à posição oficial da Igreja com os judeus ao longo das épocas, é uma curiosidade pessoal. Só sei que na II Guerra Pio XII ajudou muitos judeus a escapar do alcance nazista.

          • Existe uma longa série de “documentos” que os protestantes utilizam para “culpar a Igreja pelo anti-semitismo” nos culpam até pela destruição do templo em 72 D.C. É uma piada, mas é um exercício interesse desenvolver a hermenêutica da coisa. Analisar tópico por tópico à luz da boa filosofia histórica para aí chegarmos a uma conclusão.
            Muitas das coisas que estão lá não passam de falácias e mentiras. Outras foram bem reais, para o buscador da verdade, não devemos nos furtar a analisar essas acusações, correndo o risco de incorrer no mesmo crime dos nossos acusadores, se assim procedermos.

  • Artur Romero

    Paulo Ricardo Costa, poderia me indicar uma bibliografia para estudar História da Igreja? Estou lendo o primeiro volume de Daniel Rops, e estou adorando, porém quero saber a opinião do especialista no assunto. Desde já, obrigado.

    • Henry Daniel-Rops é uma dos melhores historiadores franceses de todos os tempos.
      Para saber mais, procure os livros:
      Paradoxos do Cristianismo: Robert Hugh Benson
      A Formação da Cristandade, A Divisão da Cristandade e A Formaçao do Ocidente de Chirstopher Dawson.
      Igreja Católica: Construtora da Civilização Ocidental
      La Historia del Cristianismo, Paul Johnson

  • Bom, em uma época pos-Reforma, o Papa ficar paranoico é explicavel. Não justifica o mau tratamento dos judeus ou a queima de livros , mas é aquela coisa : não justifica ,mas explica.

    Dúvidas :

    1-”…o Conclave estava dividido entre franceses e imperiais…”
    Desculpe se é uma pergunta boba , mas quem eram os imperiais ?

    2-Por que das tretas do Papa com Felipe II ? O cara não salvou o ocidente eo catolicismo dos invasores islamicos ? Por o que o Papa se desagradou com ele ?

    3-Esse Papa foi contra o fim da Guerra dos 30 anos ? É isso ?

    Bem, uma figura controversa , sem dúvida, mas dá para entender o porque de suas atitudes.

    • Vamos por partes, como diria Jack, o Estripador;

      Os imperiais eram príncipes alemães que defendiam os luteranos,
      Felipe II era Rei da Espanha, mas era também Imperador do Sacro Império Romano-Germânico, herdeiro de Carlos V. Felipe II, estabeleceu a paz de Augsburgo, que pôs fim ás diputas religiosas, dando livre culto aos protestantes na Alemanha,
      A Guerra dos 30 anos só começou em 1618. O que temos aqui é um teatro que antecedeu á essa disputa. Aliás a única em que católicos e protestantes se mataram com vontade.

      A guerra dos trinta anos foi a mais fraticida da história, mas aprendemos e nunca mais nada te tal vulto se deu. Apenas pontualmente temos cristãos se matando. Por isso que quando algum idiota, débil mental, cretino, ateu, vier pegar no seu pé porque padres são celibatários e pastores são chatos, mande-o aquele lugar. Pastores realmente são chatos, são apóstatas e falam um monte de baboseiras, mas, com raras exceções, não passam de te chamar de idólatra e capacho de Maria. Cristão só tem força na língua. Seja católico, protestante, copta, ortodoxo, somos, Graças a Deus, bananas.

  • Renato Losa

    1-Por que o INDEX seria “pedra de escândalo” segundo São Pedro Canísio??

    2-O INDEX ainda vale? Quais livros entravam?

    Se puderem façam um post sobre ele.

  • José Jésus Gomes de Araújo

    Sobre a postura dos Papas com relação aos judeus. Lembrar que sempre existiu bairro judeu em Roma.

  • Luiz Felipe Rocha

    Oi Paulo e pessoal do Catequista!

    Lendo seus posts sobre a histórias dos papas fiquei com vontade de ir um pouco mais a fundo no assunto.
    Sei que você coloca a referência bibliográfica em todos os posts, mas teria como você indicar uma sequência em que seria interessante ler os livros que você usa como referência (talvez começando do mais básico)?

    Obrigado!
    Luiz Felipe

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