Comungar em pecado mortal: uma grande furada!

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Jesus “molhou o pão e deu-o a Judas, filho de Simão Iscariotes. Logo que ele o engoliu, Satanás entrou nele” (Jo 13,26-27). No dia da instituição da Eucaristia, já apareceu o primeiro vacilão que ousou comungar em pecado grave e, em vez de receber graça, caiu em maldição. Nunca nos esqueçamos das palavras de São Paulo:

“Portanto, todo aquele que comer o pão ou beber o cálice do Senhor indignamente será culpável do corpo e do sangue do Senhor. Que cada um se examine a si mesmo, e assim coma desse pão e beba desse cálice. Aquele que o come e o bebe sem distinguir o corpo do Senhor, come e bebe a sua própria condenação.” (I Cor 11, 27-30)

Quem cometeu pecados veniais, apesar de ter ofendido ao Senhor, pode comungar. Já quem cometeu um pecado mortal, se comunga sem se arrepender e se confessar ao sacerdote, comete SACRILÉGIO.

Já ouvi muita gente dizer: “eu estava em pecado grave, mas comunguei mesmo assim, porque eu senti grande necessidade de me aproximar do Senhor”. Essas pessoas não entendem que o vazio e a sede espiritual que sentem não serão preenchidos uma má comunhão – muito pelo contrário! –, mas somente com um verdadeiro arrependimento dos pecados e com a devida Confissão.

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O PADRE DISSE: “COMUNGUE; CONFESSE DEPOIS”. TÁ CERTO ISSO?

Há alguns padres por aí dando bola fora. Nas nossas igrejas, essa cena se repete: o padre está atendendo o povo em confissão, mas precisa parar o atendimento para começar a se preparar para celebrar a missa. Então se dirige para os fiéis que ainda estão na fila do confessionário, e diz:

– Não tenho mais tempo para atender as confissões. Podem ir agora para a missa e comungar. Depois da missa vocês confessam.

Esse é um péssimo conselho! Nenhum sacerdote tem poder de passar por cima da lei da Igreja e autorizar alguém a comungar em pecado mortal, ainda que a pessoa pretenda se confessar logo após a missa.

A Igreja admite uma exceção somente quando houver um MOTIVO GRAVE e a pessoa não tiver tempo ou oportunidade de se confessar. Os únicos casos que cabem nesse critério, são:

  • se o cristão está prestes a bater as botas;
  • se for o dia da celebração da Páscoa e o fiel, por mais que tenha desejado e buscado, não conseguiu se confessar (afinal, todo católico tem obrigação de se confessar no mínimo uma vez por ano, por ocasião da festa da Ressurreição do Senhor). Neste caso, pode comungar, mas deve se confessar o mais breve possível.

Fora dessas duas situações, NÃO há licença ou desculpa que justifique uma comunhão em pecado mortal.

A VISÃO DE SÃO MACÁRIO

São Macário (século IV) teve a seguinte visão: quando o sacerdote estava distribuindo a Santa Comunhão, se aproximavam demônios horríveis. Quando uma pessoa bem preparada vinha receber a Eucaristia, os demônios fugiam depressa.

Mas quando um cristão em pecado grave vinha receber Jesus Eucarístico, os demônios lhe entregavam um pedaço de carvão em brasa, e no mesmo instante a Santa Hóstia voltava para o altar.

*****

Também devemos ter cuidado com o excesso de escrúpulos. É quando a pessoa entra numa onda de, por qualquer coisinha boba, achar que ofendeu gravemente a Deus, e deixar de comungar. Não pira, galera! Falaremos mais sobre isso em outra oportunidade.

34 comments to Comungar em pecado mortal: uma grande furada!

  • B

    Como saber se eu estou em pecado mortal ?

    • O pecado mortal possui três características: matéria grave; a pessoa sabe que é pecado e faz mesmo assim; a pessoa opta pelo pecado livremente.
      Na dúvida, procure um bom sacerdote para discernimento, se pecou gravemente ou não.

  • alarcon gomes dos santos

    quais tipos de pecados que eu não,posso comungar?

    • O pecado mortal possui três características: matéria grave; a pessoa sabe que é pecado e faz mesmo assim; a pessoa opta pelo pecado livremente.
      Na dúvida, procure um bom sacerdote para discernimento, se pecou gravemente ou não.

  • Julena Catarina

    Se o sujeito ta em duvida se ta em pecado mortal ou não, pode comungar? Sei q o melhor é confessar, mas comete sacrilegio mesmo assim?

    • JB

      A pessoa deve examinar honestamente sua consciência e ver o que esta lhe diz. Se você está em dúvida, provavelmente essa dúvida é a voz da sua consciência lhe acusando.

      Melhor confessar-se e perguntar ao sacerdote.

  • Lia Maria

    Ainda esses dias comecei a ler o livro “Comungai bem”, e destaquei algumas frases que me chamaram a atenção, compartilho com vocês:

    – A comunhão sacrílega é também chamada: traição de Judas
    – O demônio, para o qual a Comunhão mal feita é sumamente agradável, inventa mil artimanhas para induzir suas vítimas a esse passo fatal (…) Ele sabe que os cristãos quando comungam, são invejados até pelos anjos, por isso procura de envenenar e envilecer essas almas por meio da Comunhão sacrílega (…) o demônio ri e faz grande festa, pois vê Jesus desprezado e traído por novos Judas que por meio da Comunhão sacrílega repetem o beijo da traição. Por isto é que a Comunhão sacrílega é denominada: caretas de Satanás.
    – Cada vez que Jesus vê um sacrílego aproximar-se da mesa sagrada, cobrindo o rosto exclama: Também tu, cristão, por mim redimido, preço do Meu Sangue, meu queridíssimo filho, também tu tens a coragem de me atraiçoar?
    – Os desonestos vivem obcecados por suas baixas paixões. Não veem mais a presença de Deus, não dão ouvidos às admoestações; não escutam a voz divina que amorosamente os convida ao perdão; não se envergam de sua de sua torpe e desgraçada situação; unicamente procuram a maneira de se ocultarem, de burlarem a presença divina, assim como as crianças burlam a vigilância materna e os ladrões, a da justiça. Pior ainda, porque os sacrílegos se servem da Comunhão para enganar a si mesmos e aos outros.
    – Se a comunhão for mal feita, servirá de veneno tóxico e não de remédio; cada comunhão será um precipitar-se de abismo em abismo, de ruína em ruína; será um contínuo emaranhamento da consciência, um labirinto de confusão por causa dos sacrilégios cometidos. Os que assim procedem se assemelham às raposas quando caem no laço (ao tentar escapar, prendem-se cada vez mais).
    – Mais infelizes são ainda os que se habituam a comungar mal, convencidos de que se libertarão dos defeitos, dos pecados e dos remorsos. São tantos os que se enganam a si mesmos.
    – Se alguém não pode ou não quer confessar-se, também não comunguem. Deixando a comunhão não fará nenhum pecado; invés, se comungar em pecado mortal, perpetrará sempre um sacrilégio.

    – ***(…) Conta-se também de outros, mais cruéis ainda, que atavam os cristãos a cadáveres em putrefação, rosto com rosto, braços com braços, peito com peito e os deixavam assim até morrerem ao contato com tais cadáveres em decomposição, plenos de vermes nauseabundos.
    Pois bem, aquele que comunga sacrilegamente faz o mesmo com Jesus Cristo. Obrigando-O a habitar em seu coração junto com o demônio, obriga-O a sentir o cheiro de uma alma morta à graça divina.***

  • adriano

    As vezes algumas pessoas dizem:

    “ah, eu me confesso com Deus mesmo, na intimidade do meu quarto, etc.”

    Lembre-se que os sacramentos, desde que recebidos com as disposições devidas, comunicam SEMPRE a graça. Daí que a confissão, se feita com as disposições de alma devidas, perdoa SEMPRE o pecado.

    O ato de contrição feito no seu quarto não necessariamente foi uma contrição perfeita, ou seja, um abandono do pecado por amor a Deus, daí que você não tem a firme certeza de ter recebido o perdão de Deus.

    Ora, seu arrependimento pode ter sido eivado de algum vício ou egoísmo quase imperceptível. Quantas vezes vemos por aí falsos arrependimentos, que às vezes parecem sinceros até aos arrependidos.

    Diz o espertão: “ah, mas eu senti que recebi o perdão!”

    Nós, homens sujeitos ao pecado, nos enganamos muito. Quem confia sempre no que “sente” é imprudente. EU senti que ia ganhar a mega-sena semana passada, mas… estava enganado.

    Além disso, deve se considerar que o ministro (o sacerdote) age “in persona Christi”, ou seja, na pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo. Receber a absolvição do sacerdote é ouvir do próprio Cristo: “Seus pecados estão perdoados. Vá e não peques mais”.

    Não tem motivo pra não se confessar!

  • Simone

    Mais uma vez parabenizo O Catequista pelo Post, raramente se comenta sobre pecado venial e mortal (até mesmo materiais de catequese omitem estas explicações) e hoje mais do que nunca é necessário ensinar isto aos fiéis.
    Que Deus abençoe este apostolado de vocês.

  • Roger Gomes

    Parabéns pelo post! Mas fiquei com uma duvida… No exemplo acima de se confessar logo após a missa, não seria um ato de contrição perfeita, onde o sujeito comungaria em pecado, arrependido, e com a reta intenção de se confessar o quanto antes? Deus abençoe esse belo trabalho de evangelização!

  • Ótimo post, tem muita gente que precisa entender que se nós não entramos em uma piscina de estrume, porque obrigar Deus a entrar na nossa piscina entumecida e fedorenta?
    Primeiro limpemos a casa para que depois Jesus possa entrar.

  • Renato Losa

    Confesso que quando leio essas coisas sobre comunhão em pecado me dá um medo de estar indigno de receber Jesus

    • João Pedro Strabelli

      Em um dos evangelhos, não me lembro qual agora, Jesus diz que é impossível aos homens alcançar a salvação. Ela vem pela misericórdia que Deus tem conosco. Se fosse para só quem não tem pecado poder comungar, então somente Nossa Senhora poderia. Tente fazer o melhor que fosse pode, confesse quando precisar e aceite a misericórdia de Deus. Basicamente foi o que ouvi do padre na minha última confissão, aceitar a misericórdia de Deus..

  • pedro

    Quando eu sei que o pecado é de matéria grave?

  • Lígia

    Essa questão de escrúpulos seria muito legal se vocês fizessem um post sobre. Tenho muitas dúvidas e às vezes caio nessa… seria muito esclarecedor!
    Adoro o blog e tenho aprendido muito aqui e cada dia mais fico mais convicta do que eu creio!

  • Bruno

    Catequista,

    Quero comprar uma bíblia que não tenha aquelas famosas notinhas esquerdopatas. Qual você me recomenda?

  • Gustavo

    Gostei da última frase, Cuidado com excesso de escrúpulos!
    O inimigo pode nos fazer errar tanto pelo excesso como pela falta deles…

    Com relação às duas situações em que se autoriza a comunhão em pecado grave, o Padre Paulo Ricardo, nesse vídeo https://www.youtube.com/watch?v=ZJOS97r_Gt4, explica ainda uma outra situação específica (especialmente para religiosos que comunguem diariamente)

  • João Pedro Strabelli

    Sempre que vejo a passagem do centurião romano, penso uma coisa. Ele, como romano, seguia aos deuses pagãos e Jesus Cristo disse que nunca tinha visto tanta fé num homem. Jesus Cristo não estava ali para fazer joguinho de palavras com coisa tão séria. Lembro também que primeiro não condenou a pecadora e depois disse que não errasse mais. Já seus discípulos ganharam algumas broncas chegando Pedro a ser chamado de Satanás. Aí eu começo a pensar: eu tenho fé como este centurião ou estou querendo fugir de problemas como Pedro estava? Eu perdoo como Cristo ou perdoo com condições? Eu amo meus inimigos ou tento não pensar nisso para não ter que abaixar o orgulho e amar quem eu acho que não presta?

    • Sidnei

      De nossa parte quando perdoamos a alguém que nos ofendeu não devemos colocar condições mesmo, porém, tal pessoa deverá estar ciente que ela esta condicionada a mudar seu comportamento com relação a mim, e da parte de DEUS, aí ELE coloca condições sim, pois DEUS só pode perdoar alguém, se esta pessoa se arrepender do mau que fez e tiver o firme proposito de não pecar mais, e somente após esta tomada de consciência de nós pecadores, é que DEUS poderá nos perdoar. DEUS nos perdoa sempre, desde que estejamos dispostos a nos converter para receber seu perdão, sem esta disposição será impossível DEUS nos perdoar, esta é a condição sia quo non de DEUS nos perdoar.

      • João Pedro Strabelli

        Sidnei

        Não é tentativa de te corrigir não, muito pelo contrário. É para expor algo que penso de uma forma um pouco diferente. E gosto quando a gente pode fazer isso, conversar sobre aspectos um pouco diferente, porque enquanto pudermos conversar, penso que o mundo tenha solução. E também não quer dizer que eu esteja certo. Eu vejo esta questão do perdão sem condição nenhuma por parte de Deus. É como quando a gente oferece um copo de água para alguém que está precisando. Se ele aceitar, bastar erguer o braço, pegar o copo e matar a sede. Mas se ele se recusar a pegar o copo, não fui eu que pôs condição, foi ele que não aceitou. Entendo o perdão de Deus assim. Ele nos oferece integralmente mas eu preciso fazer a minha parte. Seu eu não fizer, fui eu que não me dispus a aceitar.

        E também penso sempre no momento em Jesus Cristo era crucificado e pediu perdão aos que o matavam. Ele simplesmente pediu que o Pai os perdoassem. Eu faria isso? Perdoar de coração, sem reservas? Isso é algo que me preocupa muito, porque já até me achei um cristão mais ou menos (não vou dizer que fui bom, mas até que tentei) e agora vejo em minha frente algo que, sinceramente, eu sei que não dou conta. Preciso evoluir muito nisso e se conseguir tenho certeza plena que, se acontecer, será só por graça de Deus. É meio duro de aceitar, ainda mais que eu sempre fui de querer dar conta de fazer sozinho tudo o que tinha sem precisar de ajuda de ninguém.

        • Sidnei

          João Pedro, ao meu ver temos que tomar cuidado em dizer que DEUS não impõe condições para nos perdoar, pois terão pessoas que vão pensar então, que seremos perdoados por DEUS sem precisar de conversão alguma. Aí é que mora o perigo, e o que tem de gente neste mundo que pensa assim e que diz isto não é brincadeira. Ao meu ver tem que ser ensinado o que sempre fora ensinado pela Igreja, vir com novos conceitos, com novas argumentações como estas, de que DEUS não impõe condições para nos perdoar, só vai gerar confusão na cabeça das pessoas, os quais, já andam muito relativas com tudo, pois muitos comungam em estado de pecado grave sem se confessar, por justamente acreditarem que aquilo que fazem não seja tão pecaminoso assim, ou que confessam diretamente a DEUS, ou nem isto fazem pois acreditam que DEUS os aceitam como são. E lá se vão comunhões mais comunhões sacrilicas de pessoas que vivem: no adultério; na fornicação; na pornografia; no vício da masturbação; das bebedeira; das orgias; que falam mau da vida dos outros; que levantam falso testemunho; que blasfemam a DEUS; que hora estão com um pé na Igreja e outro em centros espíritas e terreiros do candomblé; que praticam a homossexualidade; que roubam; que mentem; que são violentos, enfim, que praticam isto tudo, mas que creem que não são atos tão pecaminosos assim, e que DEUS não impõe condições de se arrepender disto tudo e tentar levar uma vida Santa.

        • Sidnei

          E mais um detalhe, JESUS perdoou aqueles que o zombavam quando estava na cruz, justamente por não saberem o que faziam, mas e aqueles que sabem o que fazem, JESUS vai perdoar da mesma forma?, justamente ELE que disse que para se salvar devemos nos arrepender de nossos pecados, nos converter, e de sermos Santos como seu PAI é Santo. Se for o caso de sermos perdoado sem ter nenhuma condição para receber o perdão divino, então, para que o Sacramento da Penitência, pois não é a Igreja que sempre ensinou que para podermos ser perdoados de nossos pecados, devemos fazer: exame de consciência; se arrepender amargamente de nosso pecados; se confessar a um padre e ter o firme proposito de não pecar mais. Se não há condições de recebermos o perdão divino, todo este tramite do sacramento da penitência não terá mais sentido algum.

  • Mauricio

    O Catequista, poderia me passar o documento que fale sobre os motivos graves? Se não apresentar documentos meu pároco não vai acreditar..

  • Higor

    Padre Paulo Ricardo uma fez falou (se não estou enganado) que para evitar o constrangimento (ou escândalo?) o fiel pode comungar, porém deve procurar a confissão o mais rápido possível. Ele citou o exemplo de monges nas missas conventuais e creio que esse exemplo também se aplica a ministros extraordinários da comunhão e demais servidores do altar, incluindo sacerdotes.

    Neste caso a excessão é “permitida”?

    • João Pedro Strabelli

      Eu assisti este vídeo. Ele falava isso, sim. Mas frisou bem a condição de que, assim que possível, a pessoa ir se confessar. Não aquele “quando der eu vou”, procurar mesmo se confessar o mais rápido possível.

  • Vinicius

    Gostaria mesmo que vocês fizessem uma postagem sobre esse excesso de escrúpulos. Conheço algumas pessoas que estão completamente preparadas para a comunhão, mas dizem que, no momento da comunhão, acham que não são dignas de se aproximar do Senhor e simplesmente não vão. Inclusive uma delas me diz que considera que a Eucaristia nem deveria ser dada aos leigos porque não somos dignos! Eu já tentei rebater esses pensamentos com toda a retórica, mas creio que as argumentação de vocês seria de grande ajuda.

  • A S Comunhão em pecado mortal, aceder a ela sem haver se confessado, sem ter feito uma confissão seria, é adicionar mais um pecado em cima doutro para dar contas no Juízo Final.
    Nesse caso, melhor que não comparecesse a ela, para não piorar a situação!

  • Geraldo

    Uma questão grave que costuma nos atrapalhar no discernimento acerca do pecado é a perda da sensibilidade frente ao mal, a sua banalização. E numa sociedade onde o cristianismo é diuturnamente e programadamente combatido como a nossa, somos anestesiados quanto ao pecado, sendo que na verdade ele é uma realidade onipresente como diz a bíblia: o justo peca sete vezes ao dia!

    O pecado é uma realidade parecida com a situação de alguém que tenta abrir uma porta e encontra da parte de outrem que faz força para fechá-la uma resistência tremenda. É um combate, uma luta permanente. E a gente tende a fugir dessa tensão que caracteriza a vida, pois nos parece meio paranoico e neurótico viver nessa espécie de vigilância contínua. Grande ilusão nossa, contudo, essa de achar que a vida se torna mais “light” e relaxada, quando fingimos não existir um problema que jaz debaixo do nosso nariz: é muito mais fácil sermos atacados por uma serpente, quando nela não prestamos atenção.E podemos ser atacados quando é tarde demais para reagir com eficácia.
    A ascese (esforço por progredir em Cristo, por corresponder bem à ação de sua graça salvadora em nós) é sim uma tensão, mas não é uma tensão nervosa e atribulada, tende a trazer as marcas do Espírito de Deus: mansidão, paciência, auto-domínio, paz. Mas é uma vigilância, uma atenção total, ainda que discreta e serena. A tensão escrupulosa, tira a paz e nos faz cair em armadilhas o tempo todo, mais ou menos como aquele professor ou professora que na ilusão de total controle sobre a classe, fica tão nervosa e neurastênica se confunde. Diferente do mestre sábio que externando uma serenidade e paciência bem humorada, ao mesmo tempo fica discretamente atento aos menores sinais de perturbação do ambiente, atuando com rapidez e eficácia para preveni-la, o que chamamos de “domínio de turma”. É assim o nosso trabalho interior diário, sabendo contudo, que tudo isso é graça e dom: “Eu e o Pai nele faremos morada!” É esforço, mas é esforço de acolhida, de recepção sem reservas e sem medos. É semelhante à uma irmã que conheci, que aprendeu a viver todos os dias como se fossem o dia do encontro final com Cristo. É que ele havia sido desenganada pelos médicos, por três vezes (aos 17, aos 35 e aos 60, mas viveu até os 87) e nas três vezes, enquanto a família e os amigos estavam em prantos, ela sorria serena porque se encontraria com seu melhor amigo. Somos assim convidados à vigilância contínua sobre nossos atos, a começar dos pensamentos mais sutis e iniciais (antes que cresçam) mas essa postura é sobretudo esforço para não se esquecer de que somos amados, de que fomos agraciados por um fato único: “Senhor tu me olhaste nos olhos e a sorrir, pronunciaste o meu nome!” Não nos interessa a perfeição moral como valor em si mesma, mas nos interessa o vivo relacionamento com o fundamento e razão de ser do mundo, que é uma pessoa que nos ama. Ser moral é reconhecer do que somos feitos, reconhecer que alguém nos fez e nos sustenta e salva por amor e que o sentido da vida é viver em comunhão com Ele. Em suma, é sim uma tensão viva, mas é a tensão da amizade que entusiasma, cativa e preenche (“não estava o nosso coração aquecido enquanto Ele nos falava pelo caminho?!). Não é apenas uma obrigação e dever, mas é mais que isso: é a AMIZADE autêntica que “obriga” muito mais, arrasta, e cria a tensão da fidelidade, o temor de ofender quem nos mudou tanto com o seu amor, em suma: a santidade, vocação geral de todos os batizados.
    Assim, concordo plenamente com a ênfase do post na atenção ao pecado, não só em função da comunhão eucarística, mas em função da vida toda e sobretudo como resultado de uma experiência, como consequência de um fato, de uma presença que nos encontrou e marcou: “ZAQUEU, DESCE DEPRESSA! HOJE DEVO FICAR EM TUA CASA!”. A vida nunca mais é a mesma desde aquele dia, desde aquele reconhecimento (repentino ou gradual) de uma presença radicalmente nova e diferente e todo o nosso esforço moral é, doravante, correspondência a um amor que nos amou primeiro, expressão de um relacionamento com alguém vivo, presente, próximo e íntimo. Não são apenas valores morais, aquilo que nos move a evitar o mal e buscar a virtude, mas é alguém, é um amigo, que é Ele mesmo, o fundamento de toda a realidade, o sentido total da vida, que nos conduz à nossa vocação humana definitiva que é a COMUNHÃO com Ele: nosso coração para ele foi feito e inquieto está enquanto não for por Ele encontrado e amado. A luta contra o pecado e pela virtude, para o cristão, é sempre aprofundamento dessa experiência, dessa beleza de ter sido encontrado e amado profundamente e isso provoca em nós uma postura (e até uma disposição psicológica diversa) diferente que não se expressa tanto na pergunta por uma lista de pecados, na busca de distinguir entre pecado venial e mortal (coisas certamente importantes, também) , mas sobretudo na busca de cada vez maior proximidade e intimidade com o Senhor. Resumir a coisa apenas em termos de pecado x não pecado, embora seja algo indispensável e básico, ainda é estar distante do Evangelho, da realidade da GRAÇA. “O servo não sabe o que faz o seu Senhor…Por isso chamo vocês doravante, de AMIGOS!’

    O padre Paulo Ricardo, seguindo o caminho espiritual de Santa Teresa Dávila, expressa bem isso (links abaixo) que parece ser algo “extra”, algo “plus” além de um “básico” da fé cristã, mas que efetivamente é a essência mesma da realidade da nossa fé católica e deveria estar presente desde o kerigma: “Senhor tu me olhaste nos olhos e a sorrir, pronunciaste o meu nome (…) junto a ti, buscarei outro mar!” “E não se nos aquecia o coração, enquanto Ele nos falava na estrada?!”. Toda a moralidade cristã, todo o evoluir moral, deveria ser natural desdobramento disso, dessa experiência e fatos básicos: FOI ELE QUE NOS AMOU PRIMEIRO!

    https://padrepauloricardo.org/episodios/esforcai-vos-para-entrar-pela-porta-estreita
    https://padrepauloricardo.org/episodios/projeto-segunda-morada

  • Maurício

    O Catequista, pode me dizer qual o documento que fala dos unicos casos em que se pode comungar antes de se confessar?

  • Rafael Ferreira

    Sobre a comunhão na Páscoa:

    Vamos supor que eu acabei dando mole e não confessando, diferente de ter “desejado e buscado”, ou no mínimo não buscado. É um vacilo, de certo, e é pecado por não se dar valor ao chamado à comunhão durante a festa.

    Mas a pergunta é: alguém que já se botou nesta situação pecaria novamente por não comungar?

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