Derrubando a lenda negra de São Junípero, canonizado pelo Papa Francisco

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“Nos EUA, papa canoniza padre que açoitava índios no século 18”, diz a manchete de um grande jornal brasileiro. Por sua vez, parte da imprensa americana diz que ele prejudicou a cultura indígena. Isso corresponde à verdade? Veremos…

Quem está acompanhando a visita do Papa aos Estados Unidos, sabe que a poucos dias ele reconheceu a santidade e elevou à honra dos altares o Frei Junípero Serra. Esse santo espanhol atuou por 10 anos como líder das missões indígenas na costa da atual Califórnia.

Quanto à acusação de “genocídio cultural” dos nativos, trata-se do mesmo mimimi cretino levantado na ocasião da canonização de São José de Anchieta. Sobre isso, já demos a resposta em outro post (veja aqui). Ora, praticamente todos os povos sofrem interferências de culturas externas, ao fazer comércio e ao acolher visitantes e imigrantes; a quem interessa que determinado povo fique encerrado numa bolha, com seus costumes eternamente cristalizados? E o canibalismo, que era parte da cultura de algumas dessas tribos… tinha que ser perpetuado também?

O engraçado é que as mesmas associações de índios que acusaram as missões californianas de “genocídio cultural” acham lindo ver indígenas ficarem bilionários com a exploração de cassinos (fonte: G1). E ninguém viu esse povo protestar quando, em 2006, uma tribo ameríndia comprou a rede de Hard Rock Café pela “bagatela” de US$ 965 milhões (fonte: BBC). Ué… lucro com jogatina e restaurantes é parte integrante da tradicional cultura indígena norte-americana? Hipócritas!

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Sobre a informação de que São Junípero Serra castigava fisicamente os índios, esta procede do site da Conferência dos Bispos Católicos dos EUA (USCCB): “Serra foi considerado por alguns muito agressivo, zeloso e exigente. Embora defendesse os índios, ele tinha uma visão paternalista e acreditava e aplicava o castigo corporal”. Porém, o jornalista espanhol Pablo J. Ginés, redator-chefe do “Religion em Libertad”, discorda dessa acusação.

Segundo Pablo J. Ginés (confira o seu artigo aqui), nenhum historiador jamais encontrou um texto indicando que São Junípero tenha açoitado qualquer pessoa além de si próprio. Em determinada solenidade penitencial, o santo pregou sobre o arrependimento e a penitência, e depois açoitou-se diante dos índios, até sangrar. Muitos choraram, comovidos.

junipero_santoMas é possível que São Junípero tenha castigado algum índio fisicamente? Sim, é possível. Afinal, há cartas em que se pode verificar que ele apoiou o castigo físico de determinadas pessoas. E nisso é preciso compreender os costumes daquela época e local: as relações entre mestres artesãos e aprendizes previa o castigo físico, caso o aprendiz fizesse um trabalho mal feito. E os mesmos frades franciscanos se autodisciplinavam com chicotes e jejum em tempos penitenciais.

Hoje seria inaceitável para muitos católicos ver um padre se açoitando em público, mas tal atitude foi tomada não só por São Junípero, como também pelo nosso Santo Antônio de Sant’Anna Galvão. Portanto, se São Junípero aprovava o castigo físico contra aqueles que saíam da linha, não estava aprovando nada além do faria consigo mesmo e do que era comum na cultura espanhola.

Já no século XIX, São João Bosco veio propor um novo modelo de educação juvenil, que excluía totalmente os castigos físicos. São visões diferentes, em épocas e locais diferentes.

Essa contextualização é fundamental. Notem que também hoje gera controvérsia a questão do castigo físico dos pais sobre os filhos. Por exemplo, quando o Papa Francisco defendeu que as palmadas deveriam ser aplicadas nos filhos “com um senso de dignidade”, sem bater no rosto e sem humilhações injustas, gerou-se um bafafá mundial (entre os críticos ferozes, paradoxalmente, estavam muitos dos defensores do aborto. Matar o bebê no ventre é “direito”; dar palmadinha é violência atroz. Vai entender!?).

São Junípero era santo, o que não implica em dizer que a missão que ele coordenou era perfeita (na verdade, sob diversos aspectos, a missão na Califórnia não funcionou bem). Os frades franciscanos espanhóis da época viam os índios como “filhos” ou “aprendizes” que, em caso de indisciplina, poderiam ser castigados fisicamente. Os castigos não eram muitos frequentes. Os infratores apanhavam com uma corda ou cinto, e havia um limite estabelecido de chicotadas – cerca de 20 ou 25.

Tal costume de disciplina é passível de questionamento? Sim. Porém, é leviano julgar o fato de modo descontextualizado.

São Junípero Serra, rogai por nós!

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Quer entender como é o processo de canonização? Acesse o post abaixo:

A Igreja não faz santos, apenas os reconhece

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Qual a origem da debilidade cultural de hoje? Qual é a relação entre o bem e a verdade, o amor e o conhecimento, a vontade e a inteligência, a ética e a metafísica? O Pe. Anderson Alves, doutor em Filosofia pela Pontificia Università della Santa Croce (Roma), traz essa reflexão em seu recém-lançado livro “SER E DEVER-SER: Tomás de Aquino e o Debate Filosófico Contemporâneo”. Clique no banner abaixo para saber mais!

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18 comments to Derrubando a lenda negra de São Junípero, canonizado pelo Papa Francisco

  • Renan

    OS defeitos de S José de Anchieta e S Junípero foram de ser “POLITICAMENTE INCORRETOS”!
    As censuras proferidas contra esses de oprimirem, de não “respeitarem” as culturas, cada qual no seu contexto, foram perpetradas por IDEOLOGISTAS, os POLITICAMENTE CORRETOS e/ou MUNDANISTAS, cujas mentes recheadas de ESTRUME MARXISTA ou de NIILISMO, evidentemente não poderiam aprovar seus comportamentos de trazerem pessoas para o redil de Jesus!
    Ah, mas se ao contrario doutrinassem nos (des)ensinamentos do diabolista Marx, estariam inseridos como santos no SANTUARIO VERMELHO, no qual está o servo de um certo e indeterminado deus socialista D Hélder e outros similares!
    Que fazem os “POLITICAMENTE CORRETOS” com os seus rebeldes dentro da instituição quando discordam?
    Se fosse possível, perguntasse aos dos nossos conhecidos: Celso Daniel e Toninho do PT e aos anônimos ou não dos quase 200 000 000 de mortos em nome da Revolução!

  • Sidnei

    Que bom, mesmo iria procurar na internet, o que este pessoal que desceu o cacete na canonização deste frei, esta falando sobre ps acoites que ele dava nos índios, era mentira ou verdade, e não precisei procurar muito, quando vi esta matéria aqui no catequista. Este mesmo pessoal que adora tirar o texto fora do contexto, são os mesmos que gostam de cuspir na cara de nós católicos sobre a: inquisição; cruzadas e outras ações de muitos católicos no passado que para nós parecem ser intolerância e violência gratuita, mas, só entendendo o contexto da época saberá compreender porque alguns católicos agiram de tal forma.

    Trabalhei em um fábrica de tecido, hoje falida, aqui na minha cidade entre os 14 a 23 anos de idade, a as histórias que ouvia dos mais velhos, de como eram tratados os funcionários dentro das fábricas, sobre tudo, os mais novos e aprendizes, era chocante, detalhe, já era em pleno século XX, já haviam as organizações sindicais, que defendiam os interesses dos trabalhadores, mas, o pau comia solta, dentro das fábricas, se um funcionário aprendiz, não fizesse um serviço direito.

    Falam deste frei e de “possíveis” açoites que ele aplicou em índios?, e nos massacres perpetrados contra as populações indíginas durante a colonização dos E.U.A, perpetrados por colonos que eram em maioria protestantes ninguém diz uma palavra, mas é muita cara de pau, e falta de vergonha na cara mesmo.

    • Juliana

      Tive o prazer de assistir uma entrevista com o biógrafo dele e fiquei fascinada. O lema de São Junípero Serra era sempre ir adiante, nunca recuar. A verdade é que os frades protegiam os índios e também foram perseguidos.

  • Marta

    Esse pessoal, como Rodrigo Constantino bem expressou, gosta de “zoológicos humanos”.

  • Juliana

    Viva São Junípero! E quem não gostou que pare de beber vinhos californianos. Estou acompanhando atentamente a visita do Papa aos EUA. Fiquei impressionada com a euforia dos americanos e o com o comportamento deles nas missas. Menos, gente, menos…Geralmente eles são mais contidos. Mas vou dar um desconto porque sei que não é nada fácil ser católico lá.

  • Ney César Silva Souza

    O papa emérito Bento XVI já dizia que toda cultura que não cresce e não se enriquece com o contato com outra cultura está fadada a fenecer e ser destruída. Toda cultura, como toda realidade humana, não é uma realidade estanque, fechada sobre si mesma, mas deve estar aberta a inovações. Ou a cultura indígena se enriquece com a cultura ocidental (e nós com a cultura deles também) ou eles vão inevitavelmente viver de um passado cristalizado, estacado no tempo, sem desenvolvimento moral ou mesmo material. Repito, nós também temos que aprender muito com eles e sua cultura: seu respeito para com a natureza, sua simplicidade, sua vida coletiva, etc. Mas eles também não podem ficar fechados ao que as outras culturas têm de bom a lhes oferecer.

    • Carlos

      Creio que é algo muito simples entender não só a questão de Junípero e Anchieta, mas também a das cruzadas, inquisição, escravidão e cia.
      E para bem entender isso, basta fazer três perguntinhas básicas:
      1) Como eram as mesmas situações (sob crítica) ANTES da chegada da igreja na região?
      2) Como as mesmas questões sob crítica, eram encaminhadas ALHURES em regiões onde não havia a presença católica?
      3) E como essas mesmas situações e questões pelas quais somos criticados, passaram a ser tratadas DEPOIS pelos poderes que substituíram a liderança da igreja (como os regimes pós-revolução francesa, os diversos socialismos e os poderes atuais inspirados nas ideologias do politicamente correto, herdeiras diretas dos totalitarismos do século XX?)

      Uma pesquisa honesta e isenta nas melhores obras historiográficas até de historiadores ateus e anti-católicos, vai mostrar uma enorme diferença quantitativa e qualitativa nessa comparação com vantagem imensa para o catolicismo.

      Bem como, vai mostrar que houve (e ainda há, só que isso cola cada vez menos) intensas e propositais campanhas (protestante, liberal e socialista) para deformar a história de modo a fazer com que essas propostas concorrentes à fé, fossem tidas como muito mais humanas, inteligentes e misericordiosas em comparação com a fase supostamente mais “brutal, obscurantista e violenta” do domínio católico.

      Ocorre que dados históricos se acumulam cada vez mais contra essa deformação da história e a comparação numérica e qualitativa acerca do agir desses sistemas de difamação , mostra como eles próprios foram imensamente mais violentos, obscurantistas e autoritários –principalmente nos campos de ação em que nos criticam- do que as caricaturas que fabricaram dos tempos e lugares onde a fé de Cristo tinha maior liderança e influencia social e politica.

      Existe ainda uma quarta pergunta crucial : em todos os progressos havidos em termos de Direitos Humanos, Solidariedade Social, liberdade, inteligência, Desenvolvimento Cientifico e artístico e cia , QUAL foi o papel e a influência da Igreja de Cristo? A pesquisa histórica também aqui revela gratas surpresas. Devemos imensamente à igreja!

      Não podemos ser triunfalistas e ufanistas, ou para usar uma linguagem popular, não devemos ser “metidos à besta”, exibindo uma superioridade arrogante. Ao contrário, devemos com humildade e espírito penitencial, assumir todos os nossos erros, fracassos e traições históricas ao Evangelho, que não foram poucas. Mas os pontos altos da história humana (como o Franciscanismo por exemplo ou o emergir da ciência moderna) são fruto de uma longa fermentação evangélica da cultura , ao longo de séculos de liderança da Igreja Católica. Isso é história, são fatos documentados até pelos inimigos da fé.

      Essa constatação realista deve nos fazer humildes, mas também alegres e gratos pela transformação da face da terra trazida pela encarnação do Verbo Divino continuada pela igreja ao longo dos séculos.

      E essa consciência grata, humilde e alegre do dom e das bençãos recebidas (que carregamos nos frágeis vasos de barro que somos) apesar de nossas misérias e incoerências (quiçá por causa delas!) torna-se até mesmo CRUCIAL em um tempo – que já dura cerca de 800 anos – em que forças muito poderosas (politica e economicamente) atuam diuturnamente e sem tomar fôlego, para destruir todo e qualquer vestígio da passagem e presença do Deus Vivo por nossa terra e nossa história, passagem e presença da qual somos sinal e instrumento.
      E pior: esses poderes atuam agora na igreja de dentro para fora! Penetram em instâncias de poder e influência no interior mesmo da igreja. O processo iniciado há cerca de 800 anos sempre atuou fora da igreja, sendo fácil identificar quem estava nos batendo. Agora não , de uns 60 anos para cá, é dentro da própria igreja que se dá esse ataque e essa demolição da fé e dos dons preciosos da fé, que fizeram a humanidade pressentir o mundo novo da promessa divina. Se essa janela para o mundo que Deus sonhou para nós se fecha de vez (pela força desses poderes já mencionados e que podem ser claramente nomeados: ONU, poderes globalistas meta capitalistas, esquemas neo-marxistas, etc) nada restará senão a barbárie e o poder do mais forte e do mais manipulador, cujos desmandos se acumulam a olhos vistos à cada dia que passa.

  • Wagner Guimaraes

    Prezados, bom dia. Descobri este site por acaso e tenho aprendido muito com ele. Sou catequista de primeira Eucaristia e costumo usar o site como referência de pesquisa. Tenho uma dúvida e gostaria de consulta-los sobre isto, mas preferia que fosse por email, por ora. Vocês tem algum email de contato. Se sim, por favor, retornem-me no meu email. Obrigado.

  • Weslei

    Como eu escrevi, a pergunta foi para a equipe do blog…se alguém ficou ofendido, vai estudar mais por favor!!!

  • Josemar

    São junipero ora pro nobis.o papa francisco fez uma declaração
    polêmica.eu não entendi essa frase:que a cruz e um fracasso e que jesus tivesse fracassado.como pode um papa vigário de cristo dizer uma coisa dessa.gosto muito do o catequista.

    • Sidnei

      Josemar, verifique em que contexto o Papa disse isto, se não foi a de dizer que: “para os olhos do mundo a cruz é um fracasso e JESUS é um fracassado”, se não me engano, São Paulo em sua carta de 1º Corintios fala a mesma coisa quando diz:

      “18. A linguagem da cruz é loucura para os que se perdem, mas, para os que foram salvos, para nós, é uma força divina.
      19. Está escrito: Destruirei a sabedoria dos sábios, e anularei a prudência dos prudentes (Is 29,14).
      20. Onde está o sábio? Onde o erudito? Onde o argumentador deste mundo? Acaso não declarou Deus por loucura a sabedoria deste mundo?
      21. Já que o mundo, com a sua sabedoria, não reconheceu a Deus na sabedoria divina, aprouve a Deus salvar os que crêem pela loucura de sua mensagem.
      22. Os judeus pedem milagres, os gregos reclamam a sabedoria;
      23. mas nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos;
      24. mas, para os eleitos – quer judeus quer gregos -, força de Deus e sabedoria de Deus.
      25. Pois a loucura de Deus é mais sábia do que os homens, e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens.
      26. Vede, irmãos, o vosso grupo de eleitos: não há entre vós muitos sábios, humanamente falando, nem muitos poderosos, nem muitos nobres.
      27. O que é estulto no mundo, Deus o escolheu para confundir os sábios; e o que é fraco no mundo, Deus o escolheu para confundir os fortes;
      28. e o que é vil e desprezível no mundo, Deus o escolheu, como também aquelas coisas que nada são, para destruir as que são.” (1º Cor. 1, 18-28)

    • Não há nada de polêmico. Alguns sites administrados por pessoas maldosas ou ignorantes é que estão distorcendo o sentido das palavras do Papa, que estão claríssimas e certíssimas, para atacá-lo.

      O Papa não disse nada diferente do que São Paulo diz na Bíblia: a cruz é um escândalo, é loucura, do ponto de vista humano. Quer dizer, quem não vê as coisas com os olhos do Espírito, acha que a cruz é algo escandaloso, é uma coisa de louco. Por que vocês não chamam São Paulo de Besta? O que o Papa disse foi nessa linha: que do PONTO DE VISTA HUMANO (ou seja, olhando com o julgamento dos homens, não de Deus ), a cruz parece indicar fracasso.

      O Papa ainda diz, nesta mesma homilia: “Mas o verdadeiro valor do nosso apostolado é medido pelo valor que o mesmo tem aos olhos de Deus. Ver e avaliar as coisas a partir da perspectiva de Deus chama-nos para uma conversão constante ao primeiro tempo da nossa vocação e – nem é preciso dizê-lo – a uma grande humildade. A cruz mostra-nos uma maneira diferente de medir o sucesso…”. Ou seja, a cruz PARECE fracasso aos olhos humanos, mas somos chamados a ver as coisas com os mesmos olhos de Deus, não com olhos humanos.

  • Luiz

    Só umas considerações:
    1) Tá mais do que certo que a religião é a maior forma de expressar a cultura de um povo ou país.
    2) E tá mais do que prova do que a Igreja Católica, verdadeira construtora da civilização ocidental, é a única religião capaz de aperfeiçoar as culturas as quais encontra.
    Exemplo: a Misa Criolla, da Argentina. Músicas populares como “A treze de Maio” (Portugal), “La Guadalupana” (México), “Romaria” (Brasil).

  • Pedro Piza

    Ah, São João Bosco! Como seria admirável um post sobre sua admirável missão! Sou aluno salesiano e adoraria ver uma postagem sobre a vida desse grande santo e educador.

  • Andre Nunes

    A LENDA NEGRA CONTRA PORTUGAL X ESPANHA FOI CRIADA
    NO REINADO DE ELIZABEH I A RAINHA VIRGEM.ESPANHA
    ERA PODEROSA E RICA.

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