Papa Adriano VI – eleito pelos Céus, zombado pelos romanos

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Bom dia, meu povo!

Voltamos à história dos Papas dando continuidade ao nosso trabalho de compreender a Reforma Protestante. Nesse post veremos o breve, mas importante, papado de Adriano VI, um verdadeiro eleito do Espírito Santo. Adriano colocou o dedo na ferida de todos, creditando a crise do protestantismo ao pecado dos homens, em especial, do clero:

“Deves dizer também que reconhecemos livremente haver Deus permitido esta perseguição a sua Igreja, por causa dos pecados dos homens, e especialmente dos Sacerdotes e Prelados, pois de certo não se encurtou a mão do Senhor para nos salvar; mas são nossos pecados que nos afastam dEle, de modo que não nos ouve as suplicas.” (…)

“Por isto deves tu prometer em nosso nome que estamos resolvidos a empregar toda a diligencia a fim de que, em primeiro lugar, seja reformada a Corte romana, da qual talvez se tenham originado todos esses danos; e acontecerá que, assim como a enfermidade por aqui começou, também por aqui comece a saúde.”

– Instrução do Papa Adriano VI aos príncipes alemães reunidos em dieta. Janeiro de 1523

Nascido Adriano Florensz Dedal, em Utrecht, Adriano tornou-se um homem culto e preparado. Foi chanceler da Universidade de Louvain e tutor do Imperador Carlos V. Quando exercia o cargo de vice-rei da Espanha, foi eleito Papa depois de um complicado conclave, assim descrito por Bárbara Tuchmann:

“(…), como se o destino estivesse zombando da Igreja, um reformador foi eleito Papa, não de forma intencional, mas por fato fortuito, advindo do impasse entre os contentores principais.”

zebraFoi daqueles sínodos em que se podia sentir a presença do Espírito Santo. O proto-nazista cardeal Schinner perdeu a primeira votação por apenas dois votos e os cardeais Alessandro Farnese e Giulio de Médici não conseguiram votos suficientes para sua própria eleição – ainda bem, pois estes pertenciam à patota dos papas Júlio II e Leão X. Alguém, não se sabe quem, teve a ideia de colocar um nome alheio aos círculos romanos de influência dos papas insensatos, e assim ganhou força o nome de Adriano de Utrecht.

O bom papa Adriano VI é outro caso daqueles eleitos contra sua vontade (de certa forma), já que nem ele – e nem ninguém ali, diga-se a verdade – esperava sua vitória. Os cardeais simplesmente foram votando nele sem perceber! Até Barbara Tuchmann, que é excelente historiadora e não é católica, não viu outra explicação para o ocorrido senão a intervenção do Espírito Santo.

Uma curiosidade: Adriano VI foi um dos dois únicos Papas neste milênio que, ao assumir a Cátedra de Pedro, manteve seu nome de batismo (o outro foi Marcelo II). Além disso, esse holandês foi o último Papa não italiano antes de João Paulo II.

Roma tem uma história de pompa e orgulho que vem de antes dos Império Romano. E os romanos ficaram muito ultrajados com o fato de um não italiano que ocupar a Cátedra de Pedro. O Renascimento foi um período em que não somente as belas artes romanas foram retiradas do limbo da história; os piores sentimentos romanos e a visão estoica para certos aspectos da vida ressurgiram com força. O mal dorme com um olho aberto, e quando dormimos ele aproveita para retornar e enegrecer o coração dos homens.

Roma estava sob o signo de um surto de peste naquela época. Por conta disso, o Papa Adriano VI somente retornou para a cidade após um período de oito meses. Era final do mês de agosto de 1521 quando ele adentrou a Cidade Eterna a fim de iniciar seu período à frente da Igreja do Salvador do Mundo. Logo de início, ele deixou bem claras suas intenções. Utilizando das palavras de São Bernardo:

“Aqueles que se espojavam no pecado não percebiam o eflúvio de suas próprias iniquidades.”

Adriano VI implorou aos cardeais que banissem o luxo e o pecado de suas vidas e começassem a agir como pastores das ovelhas de Cristo novamente. Não encontrando uma resposta positiva, o Papa passou à ação, buscando limitar a suntuosidade de seus cardeias. Porém, só conseguiu se degastar politicamente. Estava diante de um clero em sua maioria ganancioso e secular, mais dado aos prazeres da vida mundana do que aos benefícios da transcendência.

Não surpreende, portanto, que sua popularidade em Roma estivesse mais baixa do que a do Carlinhos Brown no Rock in Rio…

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O Papa mostrou-se um homem de muita tenacidade. Advertiu, processou e intimou um monte de gente que andava abusando por aqueles tempos. Adriano VI reduziu despesas e estabeleceu normas e regras com relação à simonia (venda de coisas santas), venda de dispensas e de indulgências. Os benefícios a serem recebidos eram dirigidos a clérigos da confiança do Papa e somente um benefício para cada.

Adriano foi revolucionário principalmente no que concerne à questão dos provimentos eclesiásticos (a renda dos clérigos). Na sua visão, eram os clérigos que deveriam fazer esse provimento, não Roma. Os “come e dorme” de plantão viram que isso implicaria na palavra mais odiosa a ser ouvida naquele e em qualquer outro tempo por gente sem vergonha: trabalho. Tentaram desacreditar o bom Papa, dizendo que se seguisse por esse caminho a Igreja iria à falência.

Adriano VI sofreu muito com o fato de não falar o vernáculo italiano. Suas medidas, pouco populares entre os cardeais-barões, só pioraram sua situação. Viveu praticamente em isolamento, um prisioneiro. Era assistido por dois secretários e só. O boicote contra ele foi grande. Adriano era um verdadeiro homem de Cristo. Não dava a mínima para obras de arte opulentas, bem ao contrário de Leão X, Júlio II e os demais insensatos desses tempos de poucas boas lembranças. O problema é que os Papas insensatos da Renascença encheram a Santa Sé de gente da mesma laia deles, e esses permaneceram quando aqueles se foram.

Adveio uma consequência absurdamente nefasta dessa situação ridícula criada pela corte dos monstros criada pelos que antecederam Adriano VI, cuja a cristandade paga o preço até os dias de hoje. Por conta das suas diferenças com esse Papa, a corte eclesiástica desprezava todo e qualquer ato seu. Adriano VI mandou uma carta para a Dieta de Worms (em que se deu o famoso debate Lutero X Eck – saiba mais aqui) solicitando nesta que Lutero fosse afastado da mesma. Foi a própria Dieta que afastou Lutero, sem levar em conta a autoridade Papal. Como as coisas teriam sido se fosse ao contrário? A verdade é que uma Dieta – basicamente um clubinho de discussões teológicas locais – desprezar uma carta do Papa mostrou a Lutero que a Igreja estava fragmentada e só consolidou ainda mais sua visão de que Roma estava tomada pela corrupção.

Adriano foi ficando cada vez mais isolado. Era vítima de escárnio, por toda a Roma se fazia piada com o Papa; peças cômicas foram feitas tendo ele como personagem principal. Picharam os muros com xingamentos contra Adriano. Mas ele se manteve um reto caráter até o fim, e pagou um preço altíssimo por sustentar posições como essa:

“As coisas sagradas tinham sido vilipendiadas, os mandamentos transgredidos e em tudo mais houvera sensível involução”.

Como diria o Capitão Nascimento: “O Sistema é f…”

Profundamente frustado, Adriano compreendeu que mais nada poderia fazer. Era um grande homem aquartelado contra um sistema reativo que não iria se render com tanta facilidade. Partiu para encontrar o Criador – com a certeza do dever cumprido – em setembro de 1523, tendo sido efetivamente Papa por um ano e duas semanas. Sua morte não foi pranteada, mas sim festejada pelos romanos, muitos dos quais haviam perdido privilégios e boquinhas durante esse justo papado.

A seguir: um dos momentos mais “Game of Thrones” da história de Roma. E ainda, Clemente VII – para quem achou que os Médicis tinham entregado a paçoca após o papado desastroso de Leão X.

Que Deus esteja sempre convosco.

Fontes:

BURCKHARDT, Jacob. A Cultura do Renascimento na Itália. Cia das Letras, SP, 2009.

MCBRIEN, Richard. Os Papas. Loyola, SP, 2010.

TUCHMANN, Barbara W.. A Marcha da Insensatez. Best Bolso, RJ, 2012.

JORGE, Fernando. Lutero e a Igreja do Pecado. Mercuryo, SP, 1992.

FITZER, Gottfried. O Que Lutero Realmente Disse. Civilização Brasileira, RJ, 1971. 

PASTOR, Ludwig von. Historia de Los Papas. Editorial Gustavo Gili, Barcelona, 1952, tomo IV, vol. IX

15 comments to Papa Adriano VI – eleito pelos Céus, zombado pelos romanos

  • Paulo

    Procederam da mesma forma os judeus com Cristo!
    O papa Adriano reconheceu com toda razão que o protestantismo surgiu de desvarios na fé do clero, e nos deparamos hoje com os que bandeiam para seitas; em geral, se encaixam nos mesmos parâmetros.

    Presentemente, pouco ou quase nada os sacerdotes católicos o condenam nos púlpitos de forma contundente, facilitando os incautos caírem nas mãos de espertalhões da fé, sendo as saídas por:

    INTERESSES COMERCIAIS
    Montar uma seita, sabendo ser bom empresário e “pregar” de forma a convencer os incautos pode ser excelente negocio; os ex do Edir Macedo dono do Palácio de Herodes – não Templo de Salomão – RR Soares e Valdomiro Santiago estão milionários.

    IGNORÂNCIA, FALTA DE RACIOCÍNIO
    Ser protestante é não raciocinar e praticar idolatria: pode uma seita humano-fundamentada ser salvífica em relação à Igreja de Cristo?
    Evidente que não; é o relativismo a toda prova, coisa de Satã para alienar as mentes à fé, além de dentro de cada uma delas serem juntos apenas fisicamente por causa do livre-arbítrio e sermos diferente uns dos outros. Logo, dentro de cada uma delas não passa de uma babel organizada.

    Caso recente similar ao papa Adriano sucedeu com o saudoso papa Bento XVI: devido à sua ortodoxia e rigor, não era malhado sem cessar pelos inimigos da fé católica internos e externos?

    • Pois era o que realmente eu iria comentar, Bento XVI também sofreu um boicote daqueles, tanto que andava dando voltas ao redor de si mesmo, pois o clero em sua maioria tava nem ai, o nosso Papa Emérito é de um coração gigante, e uma sabedoria imensa, e ninguém quis dar muita bola, tem muito padre e bispo que comemora sua saída.

      Agora, uma coisa é até boa, com o Papa Francisco, o homem tá usando do poder que tem e sem restrição, claro com cautela mas quando usa, deixa a mão cair com força, dando puxão de orelhas, colocando um e outro na banheira, fazendo um sermão aos bispos lhes jogando na cara os pecados que cometem, e estes pecados se estendem aos fiéis.

  • Istvan

    Sensacional o texto!

  • Rodrigo Boechaat

    Muito boa esta série sobre os Papas! Merecia um livro! 😀

  • Eduardo

    Mais a obediência a papa até os dias de hoje é desrespeitada. Infelizmente existem muitos que se vendem ao mundo dando mais munição aos protestantes difamarem mais a Igreja de Cristo.

  • Sidnei

    Paulo Ricardo, há alguma suspeita de que este papa tenha sido morto por envenenamento, ou ele morreu de causas naturais?. Você sabe de alguma coisa sobre isto?.

  • Everton

    Paulo Ricardo, estou lendo a coleção de História da Igreja de Daniel Rops, e se eu estiver errado, me corrija. A problemática do Conciliarismo em detrimento do Papado preparou (também) o terreno para a tragédia da “reforma”?

  • Adriano Oliveira

    Podemos traçar um paralelo com o Papa Francisco nos dias de hoje.

  • Carlos

    Desculpe mudar o assunto, mas proponho uma campanha : enviar para todos os deputados e senadores da oposição, logo no inicio do ano legislativo de 2015, o seguinte link: http://www.midiasemmascara.org/artigos/cultura/15593-entrevista-de-olavo-de-carvalho-a-leandro-ruschel.html

    É necessário, é urgente, é uma gota dágua no oceano, mas como diz Madre Teresa de Calcutá, o mar fica menor sem a minha gota dágua. Já dizia o sábio Papa Pio XI, a segunda caridade maior é caridade politica (depois da evangelização!) pois mexe na coisa estrutural em vista do bem comum, a começar dos mais pobres. Os pobres, que como bem lembra o papa, são bandeira nossa, roubada pelo comunismo-socialismo que nem se lixa para eles, mas os usa como massa de manobra em todos os processos revolucionários, jogando-os na sarjeta e na miséria, tanto econômica quanto moral.

    Chegou a hora de mostrar quem de fato, tem um compromisso efetivo e desinteressado com a justiça para todos, incluindo os mais pobres e desmontar essa falácia cínica dos auto-nomeados representantes dos oprimidos. Pois a maioria do povo (que não é rica) – diz Olavo nessa entrevista – só vota nessa porcaria de PT e PSDB, por falta de opção, por não ter ninguém que o represente de verdade. Vamos divulgar a bela e lúcida entrevista desse cara que como o vinho velho, fica cada vez melhor (mais lúcido e consciente) embora um pouco tristinho (eu achei, vendo o vídeo) e até impaciente com a burrice e alienação que ainda persistem, apesar de certo avanço crítico da opinião pública, nos últimos dois anos. E sugiro mais, sugiro (entrando nos endereços parlamentares disponíveis no site do congresso) : que o vídeo seja enviado junto com o seguinte artigo http://cartamaior.com.br/?/Editorial/2015-o-ano-que-pode-surpreender-/32525. O contraste entre a proposta Olaviana, firme e honesta, mas equilibrada com essa ofensiva anti-democrática e raivosa, poderá ajudar os parlamentares que tiverem um mínimo de bom senso, a saber de que lado devem estar. Feliz 2015!

    • Carlos

      Por gentileza, caros catequistas: divulguem esta campanha acima junto à liga dos blogueiros e outros. Pois muita gente critica a perspectiva olaviana, porque encontra pedacinhos da fala dele no TRUE OUTSPEAK via youtube e outros cantos e fica contra ou desnorteada, pois o cara tem umas afirmações abruptas meio chocantes, e justamente essas passagens chocantes é que vem recortadas no youtube e cia e um monte de gente não entende esses recortes sintéticos por falta do contexto que lhes dá significado. Porém este vídeo é diferente. Tem quase duas horas. Aí você não pega aquelas sínteses finais e abruptas do Olavo que tanto assustam o novato. Nesse vídeo você pega o processo rico do raciocínio do grande pensador e analista, um raciocínio cheio de lucidez e honestidade moral e intelectual. Está obtendo uma repercussão fantástica no youtube: https://www.youtube.com/watch?v=YoApKNuOQ1A#t=2260
      VAMOS AUMENTAR ESSA CORRENTE DO BEM!!!

  • JR

    Parabéns pelos artigos sobre a História dos Papas, estou aprendendo muito sobre isso. Diante de tanta corrupção como a Igreja está de pé até hoje? Qual a receita para se defender de tantos corruptores?

    • Letícia

      Fé, amigo. Muita fé.

    • JR, na palavra do próprio Jesus Cristo: “e as portas do inferno não prevalecerão sobre ela” (Mt16, 18) lembra deste trecho onde Nosso Senhor Jesus Cristo diz e garante que Sua Igreja jamais irá sucumbir, pois é, e junto a isto, Deus envia em nome de Jesus Cristo o Espírito Paráclito (Jo 14, 26), e com tal auxílio a Igreja jamais se corromperá, jamais passará um j ou um i antes que se cumpra todas as escrituras. Então meu caro, confiança, fé e esperança em Deus. Reze sempre e não desanime. Primeiro Deus em nossa vida. Por que Deus mesmo sustenta e nos dá tudo o que precisamos e necessitamos (claro nunca o que queremos). Claro que os homens são corruptíveis, mas a Igreja e sua doutrina, que é de Deus não. Então está certíssima a Letícia, Fé, muita fé.
      Se você sabe realmente o porque és católico, parabéns, nada abalará sua fé, o resto é conhecer mais a fundo a Doutrina Católica.

  • Egberto

    Tal qual Papa Adriano VI, Papa Francisco faz duras críticas à Cúria Romana. Roguemos a Deus para que seu papado dure o suficiente para obter bons frutos à Igreja de Cristo.

  • Caio Matheus

    O Catequista, voces teriam as fontes em que mostram a surpresa que a Historiadora Barbara Tuchmann teve na escolha de Adriano como papa ????????????????????????????????????????????????

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