Santo Inácio de Loyola: o cavaleiro sonhador que se tornou diretor de almas

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E aí, meu povo!!!

Dia 31 de julho, dia de Santo Inácio. Para festejarmos, vamos contar um pouco da vida desse grande servo de Deus que ficou muito famoso por ter sido o fundador da Companhia de Jesus.

Filho mais novo de uma enorme família de 11 irmãos, Santo Inácio nasceu em 1491 em Loyola, cidade que fica no Norte da Espanha, no país Basco. Seu nome completo é Iñigo Lopez de Oñaz y Loyola. Seu pai chamava-se Bertrán Lopez de Oñaz y Loyola e sua mãe Marina Sáenz de Licona y Balda, ambos de nascimento nobre. Os Loyola eram uma família mais ao estilo italiano da “cosanostra” do que ao estilo espanhol. Seu brasão era parecido com o dos Stark de Winterfell (fãs de Games of Thrones entenderão).

brasao_loyolaSanto Inácio passou a infância na casa dos seus pais, sendo preparado para uma carreira militar. Perdeu a mãe quando ainda era muito jovem. Aos 15 anos, foi enviado para Arévolo para servir como pajem do Ministro do Tesouro de El Rey. Perdeu o pai no ano seguinte, mas permaneceu na corte para cumprir seu ideal de tornar-se um cavaleiro.

Até os 26 anos de idade ele foi o típico nobre rico espanhol. Dado às paixões mundanas, era tido como namorador. Alguns biógrafos consideram que era apaixonado pela filha do Imperador Carlos V, a princesa Catarina. Seu destino começou a mudar com a morte do tesoureiro real em 1517. Passou a servir ao Duque de Nájara, que também era vice-rei de Navarra, Antonio Manrique de Lara e passou a exercer funções diplomáticas e militares.

A batalha em Pamplona e a bala de canhão

Era maio de 1521. Tropas francesas atacavam a cidade de Pamplona, e Santo Inácio participava da defesa. Foi então que teve a perna direita quebrada e a esquerda toda rasgada (foi muito feio mesmo). Ironicamente, foram os franceses que primeiramente cuidaram de seus ferimentos e salvaram sua vida; depois, o mandaram de volta para Loyola. Após a primeira cirurgia, sua perna não solidificou direito. Para salvá-la, os médicos precisaram quebrar seus ossos de novo e colocá-los no lugar de modo correto – tudo isso sem anestesia! Imaginem como aquele homem sofreu.

Padecendo de febres e todas as mazelas imagináveis, em 24 de junho do mesmo ano de seu acidente, Santo Inácio recebeu a extrema-unção. Sofreu durante quatro dias, sempre rezando e pedindo o auxílio de São Pedro. Após esse período crítico, começou a se recuperar, mas de modo lento e com dificuldades.

Para se distrair, Santo Inácio gostava de ler livros de cavalaria. Entre um romance e outro, uma de suas irmãs lhe entregou dois livros mais cristãos: A Vida de Cristo, de Ludolfo da Saxõnia, e a Legenda Áurea, de Jacopo de Varazze. A Legenda Áurea é um livro milagroso meus amigos, pois assim como fez comigo, já nos tempos de Santo Inácio levava a uma profunda reflexão do que é ser um verdadeiro cristão. Foi refletindo sobre a vida dos santos que Santo Inácio passou a refletir sobre a própria vida. Chegou à conclusão que a alegria obtida pela vida santa é muito mais prolongada e intensa do que as alegrias das conquistas cavaleirescas.

Foi tão grande a impressão que lhe causou na alma a obra do beato Jacopo que desejou fazer uma peregrinação à Jerusalém. Mas sua definitiva conversão deu-se numa noite em que teve uma experiência mística. Uma visão da Virgem Maria com o Menino Jesus nos braços. Novos caminhos ele passaria a trilhar.

senhora_montserratNo início de 1522 Santo Inácio havia recuperado seu vigor. Ingressou no mosteiro de Monteserrat para iniciar seu novo caminho espiritual. Retornou a Loyola, despediu-se da família e partiu com um irmão e dois empregados para o santuário mariano de Aránzazu, para agradecer a Mãe de Deus pela recuperação. Ao partir de Aránzazu em retorno a Monteserrat, vez voto de castidade.

Ao chegar em Monteserrat, preparou-se para a confissão de fé de toda a sua vida, entregou suas armas e suas roupas aos pés da imagem da Virgem de Monteserrat – “La Moreneta” (foto ao lado) –  e vestiu o hábito. Permaneceu ali por um ano. Esse período é crucial para entendermos as suas motivações, pois marcou o início de sua grande obra: Os Exercícios Espirituais.

Partindo de Monteserrat, Santo Inácio continuou com uma rotina de severos jejuns, penitências e orações para combater a sua vaidade. Foi acolhido pelos dominicanos do monastério de São Pedro Mártir, onde compreendeu melhor o ideal apostólico. Santo Inácio era um homem dado a êxtases místicos e compreendia como ninguém as ações de Deus.

A origem dos Exercícios Espirituais

Os Exercícios Espirituais o método de meditação criado por Santo Inácio sobre a experiência pessoal pela qual cada indivíduo deve passar para encontrar sua verdadeira vocação, orientado por Deus. Ele tinha o hábito de anotar tudo que acontecia. Santo Inácio sempre acreditou que cada indivíduo tem uma vocação definida por Deus, e que é dever de todo cristão descobrir, através da meditação, qual seria ela.

Imbuído da certeza que só os santos tem de haver encontrado sua vocação, partiu o Santo para a Terra Santa. Chegou a Jerusalém em setembro de 1523. Visitou os principais pontos de peregrinação da cidade e de seus arredores (Belém, Bitínia etc.). Seu desejo ardente era morrer na Cidade Santa anunciando a Boa Nova. Mas os franciscanos, creio que por intervenção do Espírito Santo, cortaram o barato de Santo Inácio e o mandaram de volta para casa. Assim sendo, ele vislumbrou um novo ideal para sua vida. E esse ideal acabou levando-o a fundar a Companhia de Jesus.

Os Jesuítas

Santo Inácio tinha uma profunda compreensão de que seu papel neste mundo era ser um orientador espiritual. Despachou-se de Jerusalém em dezembro de 1523, passando por Veneza ao voltar para a Europa e prosseguiu viagem para Barcelona. Ali, recebeu ajuda de uma benfeitora chamada Isabel Roser, que o ajudou a iniciar seus estudos em gramática, a despeito de sua grande dificuldade em se concentrar, tomado que era de êxtases espirituais.

Dois anos depois, foi estudar artes em Alcalá. Nessa Universidade, passou a dividir com seus colegas seu ensinamento a respeito dos seus estudos espirituais. Eram tempos perigosos, eram os tempos da “reforma” luterana, em que leigos pregando despertavam muita desconfiança. Por conta disso, foi levantada a suspeita de heresia contra Santo Inácio. Ele foi preso e julgado pela inquisição espanhola, mas, ao contrário do que muita gente pensa, ser preso para averiguação da inquisição não significava tortura e condenação certa. Comprovado que suas considerações nada tinham de heréticas, foi liberado e mudou-se para Salamanca.

A história se repetiu, nova prisão, nova absolvição. O único senão feito pela inquisição foi que Santo Inácio só poderia ensinar seus métodos após terminar os estudos. Tem lógica! Afinal, assim ele poderia receber o conhecimento necessário para ser um mestre e agir seguramente dentro da sã doutrina. No total, além das duas prisões, Santo Inácio respondeu a cinco processos.

Em 1528, Santo Inácio mudou-se mais uma vez, desta feita para Paris. Pedia esmolas para sobreviver e ingressou no curso de artes e filosofia, recebendo o grau de mestre em 1534. Paralelamente, estudou teologia (estudava pouco, não?). Continuou a aplicar seus exercícios espirituais a seus colegas, que se tornariam os seus primeiros discípulos. E tome acusação, mais uma vez (esse é mais um dos estragos que Lutero e sua turma fizeram: transformaram bons e fiéis católicos em completos paranóicos).

No dia 15 de agosto de 1534, Santo Inácio e seis companheiros – o beato Pedro Fabro, São Francisco Xavier, Afonso Salmerón, Diego Laínez, Nicolau Bombadilla e Simão Rodrigues – fizeram voto de pobreza, castidade e obediência à Santa Igreja na Igreja dos Mártires de Montmartre. Esse é considerado até hoje o marco de fundação da Companhia de Jesus.

Cabe aqui um parêntese. O termo “jesuíta” nunca foi usado por Santo Inácio, a Companhia de Jesus só passou a utilizá-lo oficialmente, pasmem, a partir de 1975. Por quê? Simples: “jesuíta” é um termo cunhado, inicialmente, de forma pejorativa, pelos protestantes.

ignatiusvisitspopeNos anos seguintes, os primeiros jesuítas dedicaram-se à formação sacerdotal. Em junho de 1537, Santo Inácio foi ordenado sacerdote, em Veneza. Queria, a princípio, se estabelecer em Jerusalém, mas o lugar, pra variar, estava em guerra. Sendo assim, resolveu partir para Roma e se colocar à disposição da Igreja e do Papa. No caminho, parou na capela de La Storta e teve uma visão mística maravilhosa da Santíssima Trindade. Sentiu Deus imprimindo em sua alma as seguintes palavras: “Eu vos serei propício em Roma”. Em seguida, Jesus disse-lhe: “É minha vontade que nos sirva”.

Até meados de 1539 são feitas as deliberações para a fundação da nova Ordem e em 1540 o sumo pontífice confirma-a através da bula Regimini militantis eclesiae. Os próximos dez anos da vida de Santo Inácio são dedicados a aprimorar a Ordem, estabelecendo uma constituição sólida e o espírito missionário, que é a própria identidade dos jesuítas. Sua saúde podia fraquejar, mas seu ardor espiritual nunca. Nos seus últimos anos, Santo Inácio contou toda sua vida ao companheiro Luiz Gonçalves da Câmara, que registrou tudo na sua biografia, a mais conhecida e utilizada até hoje por todos os pesquisadores.

Foi num dia 31 de julho como esse, no distante ano de 1556, aos 65 anos, que Santo Inácio entregou sua alma a Deus. Foi beatificado pelo papa Paulo V em 1609 e canonizado por Gregório XV no dia 12 de março de 1622.

Falar de tudo que os jesuítas fizeram e ainda fazem pela Igreja, pela humanidade e por Deus, todos os seus acertos, bem como seus erros, não é matéria para uma postagem de blog, é um assunto que encheria várias e várias bibliotecas. Muito fizeram por este país. O importante é lembrar, nesta data, que tudo começou com um basco, a muito tempo. Um homem banhado em luz divina, que dedicou-se como poucos a dar seu testemunho, como devem fazer todos aqueles que se consideram fiéis cristãos.

Santo Inácio de Loyola, rogai por nós!

Para saber mais:

Santos de Nossa Devoção: Santo Inácio de Loyola – Ed. Altaya.

Os Exercícios Espirituais. Santo Inácio de Loyola. Ed. Madras.

Inácio de Loyola. Jorge Gonzalez Manent. Ed. Paulinas

11 comments to Santo Inácio de Loyola: o cavaleiro sonhador que se tornou diretor de almas

  • fernando

    Sto. Inácio nunca chegou a ir para outros continentes como seus filhos espirituais? E ele era tio de S. José de Anchieta, ou era outro jesuíta?

    • Ele foi a Jerusalém somente, e quando chegou em Roma, lá ficou a pedido do Papa.
      Ele apenas enviou os seus filhos para o mundo!
      Desconheço a presença de um sobrinho de Santo Inácio na Companhia.

  • Catolico

    Paulo Ricardo, parabéns pelo post e obrigado, pois quanto mais conhecemos a vida dos Santos, mais reconhecemos a ação de Deus na vida do homem.

  • Jotacê

    Macho, com “M” de Maria.

    Baita artigo. Que Nosso Senhor nos conceda ao menos uma fração da coragem e força desse santo homem.

    E pensar que a primeira vez que li sobre Santo Inácio foi em grotescos livros espíritas, onde aquele perturbado do Chico Xavier/Emmanuel descrevem o fundador da Companhia de Jesus como um louco cruel… Deus tenha misericórdia.

  • Bruno Cruz

    Santo Inácio é o padroeiro da paróquia onde eu cresci. Achei interessante o fato de “jesuíta” inicialmente ser usado como um termo pejorativo… é tipo o que fizemos com “bitolado” e “pitoresco” hehehe

  • Isabel Carolina

    Imagino como Santo Inácio está sofrendo ao ver o que a companhia de Jesus se transformou… Padres covardes liberais, afeminados, comunistas, me desculpe mas todos sabem que é assim. Tem alguns que se salvam, mas a companhia de Jesus precisa de uma interferência urgente e tem que cortar o mal pela raiz, antes que se espalhe pelos dominicanos e franciscanos. A companhia de Jesus tomou o rumo totalmente contrário ao que Santo Inácio queria. De defensores da fé passou a ser destruidora dela.

    • Não Só Santo Inácio Isabel,

      Vejamos: de Santo Agostinho saiu o monge maluco; o pastor ladrão agradece. De São Francisco saiu o bofe; a TL agradece. De São Domingos saiu o Betto; Cuba agradece. Só para citar os mais conhecidos por nós aqui no Brasil. Mas é vida que segue.

  • Rodrigo

    Paulo Ricardo, porque você não tem mais a coluna “dicas culturais”^? Este ano você não indicou nenhum catelivro, nenhum catecine ou nenhuma catemusic.
    Estamos sentindo falta.
    Fique com Deus!

  • Daniel

    Impressionante como vendo a vida de qualquer santo você vê como os caras carregam o “selo cabra macho”.

    Paulo Ricardo, queria pedir a vida do outro jesuíta, igualmente macho e muito épico – S. Francisco Xavier.

    Li um livreto com a vida dele. Dá pra conhecê-lo, mas era de uma coleção mega TL, então tinha essa visão meio distorcida…

    Ah, e faço eco ao Rodrigo – volta com as dicas culturais!

  • claudio

    Tem alguma matéria sobre os irmãos de jesus? agradeço

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