Papa Júlio II e o seus delírios de Tutankamon

venda_indulgencia

Como dizíamos no post de ontem, o Papa Júlio II botou abaixo o antigo prédio da Basílica de São Pedro sem pedir conselho ou aprovação de ninguém. Alguns dirão: “Mas o prédio reconstruído é melhor!”. Sim, concordo. A basílica antiga, construída pelo Imperador Constantino, deteriorou-se muito ao longo de doze séculos, e havia risco de desabamento. Bramante, o arquiteto responsável pelo projeto da nova basílica, construiu um prédio fantástico. Mas a esses fatos somam-se outros…

Em 1506 o Papa Júlio II colocou a pedra fundamental da nova basílica e começou a construção, que duraria 120 anos. Por conta da insanidade construtora de Júlio II, Bramante passou à eternidade não somente como um brilhante arquiteto, coisa que ele de fato era, mas também com o apelido de “Il Ruinante”. Foram 2.500 almas trabalhadoras empregadas na demolição da basílica constantina. Na sua sanha de “primeiro eu”, Júlio estava com pressa e não dava a mínima para o legado da Igreja Católica ao mundo.

Alguns religiosos conseguiram salvar alguns objetos sacros e outras preciosidades. Infelizmente, muita não havia sido inventariada – tumbas, pinturas, mosaicos, estátuas… Quem viu, viu. Essas obras inestimáveis foram para o esquecimento.

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A imagem de cima ilustra a basílica constantina, e a imagem de baixo a atual.

E qual o motivo principal da construção da nova basílica? Ela abrigaria o faraônico túmulo de Júlio II, um dos projetos mais ambiciosos e visionários de Michelângelo, com mais de 40 estátuas em tamanho natural. É ou não é coisa de materialista ateu? Por falta de verba, esse fabulosa tumba não pôde ser concluída, e o projeto final ficou bem mais modesto.

Por fim, como consequência mais nefasta, a venda pública de indulgências está diretamente ligada à questão, já que as obras da basílica estouraram as verbas dos Estados Pontifícios (saiba aqui o que é indulgência). Quando esse absurdo chegou à Alemanha, todo mundo sabe no que deu… O pastor chato aqui da esquina agradece.

Tanto quanto Alexandre VI, embora por motivos diferentes, Júlio II simplesmente destruiu a aura de respeito e santidade que havia em torno do Papa. Cada vez mais os governantes seculares, os religiosos e o povo viam o Papa como um duque ou monarca como qualquer um dos outros, e, como tal, deveria ser tratado. Essa abertura provou-se um desastre nos séculos vindouros, mas falaremos disso mais tarde.

A partir de então, a bagunça e o desrespeito pela autoridade da Cátedra de Pedro era tanta que os governantes seculares tiveram a pachorra de convocar um Concílio! Seria como se o prefeito da sua cidade resolvesse rever o Catecismo, por exemplo. O pior é que isso aconteceu com a anuência de nove cardeais! A cereja do bolo foi mandar um convite ao Papa para ele pudesse participar do Concílio.

Diante de tal afronta, Júlio II – mais por desespero do que por convicção apostólica – convocou o V Concílio de Latrão. Estava claro que este Concílio tinha como objetivo principal segurar os anseios reformistas. Júlio II, como procurei deixar claro, não tinha o menor interesse em assuntos religiosos. Mas, ressalte-se, o Concílio de Latrão V adiou em alguns anos o desastre luterano (que poderia ser detonado por qualquer outro maluco, calhou de ser o mad monk alemão).

Não obstante, Júlio II obteve importantes vitórias no campo da política; consolidou os limites territoriais dos Estados Pontifícios, por exemplo. Mas a que preço? Preço de sangue. Faleceu em 1513, banhado em prestígio secularista, tal qual era o seu desejo, e pranteado pelo povo como libertador. A seguir: Leão X ou a indolência baiana.

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Projeto original de Michelângelo para a tumba de Júlio II.

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Tumba de Júlio II.

15 comments to Papa Júlio II e o seus delírios de Tutankamon

  • Andreia

    Por mais, que me entristeça tudo isso, tenho orgulho da minha religiao… Pois Jesus faz nova todas a coisas…Paz e bem, meus irmaos!

  • Juliano Fleith

    O pior é que, por conta de um Papa como Julio II, todas as vezes que aparece a Basílica de São Pedro, sempre tem um crente chato pra fazer o comentário sobre a venda das indulgências e, obviamente, tem católico que entra na mesma pilha pra falar m… também. Na boa, acho que Lutero foi um castigo de Deus contra o secularismo daquele tempo; desta forma, Ele matou dois coelhos com uma cajadada só: expurgou os Hereges para o protestantismo e, também, fez os verdadeiros católicos acordarem!!

    • Sidnei

      Juliano, concordo, apenas ressalto que este castigo já está durando 500 anos, e talvez durará até o fim dos tempos, porque ao ver como as coisas estão andando, os católicos vão levar paulada até a volta de CRISTO, mas tudo bem, ao invés de nos entristecer, devemos nos alegrar, porque como disse JESUS no livro do Apocalipse: “Eu repreendo e castigo aqueles que amo. Reanima, pois, o teu zelo e arrepende-te. (Apocalipse 3, 19).

    • Juliano, não é correto pensar que Lutero “expurgou os hereges para o protestantismo”. Afinal, a conversão de muitas almas para o protestantismo – e o seu consequente afastamento da verdadeira fé – não se deu por uma escolha pessoal, mas sim por coação dos governantes locais. Tenha em conta que se o rei de uma nação abraça a doutrina protestante, ele obrigada todo o reino a fazer o mesmo. Então, o protestantismo cresceu rapidamente não tanto pela adesão espontânea dos hereges, mas sim pela imposição dos poderosos.

      Lembrando que muitos reis aderiram ao protestantismo não por razões espirituais, mas sim porque proclamar uma religião desvinculada de Roma lhes dava maior poder.

      • Juliano Fleith

        Até então eu imaginava que estas “conversões” foram frutos de uma vontade coletiva, tipo, as pessoas se viam presas no catolicismo e, quando surgiu a oportunidade de largarem, por meio do Lutero, saíram sem olhar pra trás, mais ou menos como os “neo-evangélicos” de hoje em dia. Valeu pelo esclarecimento.

      • Até o TRATADO DA WESTPHALIA, que encerrou a Guerra dos 30 anos, liberdade religiosa era artigo de luxo na Europa. Me refiro aos reinos católicos e protestantes.

        A Guerra dos 30 anos foi um morticínio europeu devastador, por motivos religiosos. Talvez (penso eu), se o pensamento sobre liberdade religiosa não tivesse se desenvolvido, não sei se estaríamos livres de tais guerras nos dias de hoje.

        É algo que os radtrastes não sabem explicar: como viver num mundo que JÁ É multirreligioso?

  • Sidnei

    Ao ver a ilustração da antiga basílica de São Pedro, me veio a cabeça que pelo menos nisto o Papa Júlio II acertou em demoli-la e construir outra maior. Tirando o fato de ele não ter tido a consciência de ter preservado várias obras e objetos preciosos da antiga basílica, como bem foi observado na matéria, porém, se deparamos nos dias de hoje, o qual se reúnem milhares de fieis todos os dias na praça de São Pedro, fico imaginar como seria reunir esta imensa quantidade de fieis no pátio da antiga Basílica?, não teria como. Imaginem reunir 2 milhões de pessoas como houve nas exéquias do Papa São João Paulo II em 2005, em um pátio diminuto como demonstra a ilustração acima da antiga basílica. Realmente, os meios e os objetivos infelizmente não foram os melhores para se construir a nova basílica, mas que ela tem uma beleza grandiosa e que é imensamente mais útil que a antiga, isto não se pode negar.

    Quanto as vendas de indulgências para a construção da nova basílica, tirando o termo, vendas, no entanto, não vejo mau algum se a pessoa, como obra indulgenciada, contribuir para a construção da basílica, ou de qualquer outra igreja, catedral ou até de uma capela, o que foi deturpado aqui, ao meu ver, foi a forma como estas contribuições, como obras indulgenciadas, foram colocadas para os fieis, o qual, levou a Martinho Lutero se revoltar, e o desfecho todos nós sabemos até hoje.

    Uma coisa também deveria ser esclarecida, há aqueles que afirma que as ditas vendas de indulgências já vinham sendo praticadas deste a Idade Média, como demonstra este vídeo da série Horrible Histories: https://www.youtube.com/watch?v=un2qxIlqLP8, a final esta história de vendas de indulgências, originou na Idade Média ou foi na renascença quando na construção da basílica de São Pedro. Alguém poderia tirar esta minha dúvida, por favor?. Obrigado.

  • jaspion

    o Papa pode ter tido seus erros, mas a arte e a influência desta obra faraônica são indiscutíveis. Encontrei um livro bastante completo sobre arte cristã, mas o preço é meio salgado.

    http://www.ecclesiae.com.br/Arte-Crist%C3%A3/A-Arte-no-Cristianismo-Fundamentos-Linguagem-e-Espa%C3%A7o/flypage.tpl.html

  • ‘Seria como se o prefeito da sua cidade resolvesse rever o Catecismo, por exemplo.’ O Prefeito aqui em Arapongas é Padre. XD
    (Já tem poucos padres e ele resolveu ser político. Graças a Deus é só enquanto durar o mandato. Depois ele volta às atividades certas.)

  • Duddu Pontes

    Paulo, boa noite!
    Gostaria de trocar uma ideia contigo! =)
    Se puder me manda um e-mail com o teu correio eletrônico!
    Abraco!

  • Edelir Borges

    E quem comprou as indulgências, será que pode usá-las ou foi passado pra trás mesmo?

    • Sidnei

      Edi Borges, não houve compra e vendas de Indulgências, Indulgências não são vendidas, são concedidas mediante a realização de alguma obra indulgenciada. Entre estas obras indulgenciadas poderá ser a contribuição financeira de uma basílica como a de São Pedro em Roma, de uma Catedral, de uma igreja ou até mesmo de uma pequena capela ou oratório nos rincões deste Brasil, o efeito será o mesmo. O que ocorreu na época do Papa Júlio II, do seu sucessor Leão X foi a forma como fora colocada a propagação desta obra indulgenciada mediante contribuição a construção da Basílica de São Pedro em Roma, a forma como ela foi colocada é que levou a Lutero se revoltar e deu no que deu, pois foi uma forma desastrosa, sobre tudo por um monge alemão chamado Tzel, que dizia que cada moeda que caia na caixinha era uma alma que saia do purgatório, ou seja, coisa mais besta de se dizer não havia.

      Porém, mesmo que a forma com a qual era colocada para propagar a recepção de alguma indulgência por esta obra indulgenciada que era contribuir financeiramente para a construção da Basílica de São Pedro em Roma tenha sido de maneira errada, porém, quem lucrou, quem recebeu elas mediante a contribuição, a indulgência foi válida, pois assim como no sacramento da penitência, o qual o padre que ouve a confissão de um penitente e venha dar a absolvição dos pecados a este penitente, este padre, por exemplo for um pedófilo, no entanto a confissão foi valida, e o penitente saiu perdoado, assim acontece também com a indulgencia, o qual cancela as penas temporais do pecado, mediante a realização de aluma obra indulgenciada, mesmo que tenha sido proclamada de maneira errônea, o qual deu a entender que estava sendo vendida, esta indulgência, porém, quem a obteve, de fato as penas temporais do pecado, foram canceladas.

      Nos exemplos acima, do padre pedófilo que deu a absolvição dos pecados ao penitente assim como aqueles que erroneamente propagaram a distribuição de indulgencias mediante a obras indulgenciada como a contribuição na construção da Basílica de São Pedro em Roma, estes é que terão que ver diante de DEUS, como bem disse JESUS no evangelho de São Lucas 12, 48: “Aquele que muito se deu, muito será pedido, e a quem muito se houver confiado, mas será reclamado”

  • andre

    Boa noite, Talvez eu precise estudar um pouco mais, mas vejamos, a venda de indulgência não aplicada unicamente, pelo monge dominicano João Tétzel,o qual foi até punido por isto? Outro fato, são as teses de Lutero, citando duas: 50. Deve-se ensinar aos cristãos que, se o papa soubesse das exações dos pregadores de indulgências, preferiria reduzir a cinzas a Basílica de S. Pedro a edificá-la com a pele, a carne e os ossos de suas ovelhas; e 91. Se, portanto, as indulgências fossem pregadas em conformidade com o espírito e a opinião do papa, todas essas objeções poderiam ser facilmente respondidas e nem mesmo teriam surgido. Logo entendo que a venda de indulgência, foi uma atitude pessoal de um único monge, já citado. A paz!

  • Hadassa

    Prezados,

    Esse estudo é muito bom! Eu nem sou católica, mas estou adorando! Tem humor e informações verdadeiras (historicamente falando). Estão todos de parabéns. Uma coisa que eu curti muito: o pessoal Católico não tenta esconder os erros dos líderes, muito pelo contrário, falam abertamente (afinal, todos somos humanos, mas Deus sempre cuidou de sua Santa Igreja e Palavra).
    O engraçado (se é que se pode falar assim…) é que esse Della Rovere condenou tanto o Bórgia, e fez pior. Acredito que ele era de fato ateu. Agora, que ele tinha bom gosto, isso é inquestionável, rs.
    Parabéns a todos pelos estudos! Continuo de olho por aqui, pois descobri o site recentemente. Grande achado!
    Abraços,
    Hadassa

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