Brincando de telefone sem fio com Bento XVI

PAPA HOMENAGEOU LUTERO, DIZ A IMPRENSA. SERÁ O BENEDITO?

Alguns jornalistas são indivíduos muito pândegos. Vez por outra, eles gostam de brincar de telefone sem fio, especialmente quando a brincadeira envolve o Papa Bento XVI… Só isso pode explicar o fato de que, vira e mexe, o homi diz “A” e o que sai na imprensa é “B”, “C” ou “D”.

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Sei que pra muita gente a explicação é óbvia, mas não custa registrar: na brincadeira do telefone sem fio, um grupo de crianças forma um círculo ou uma fila (quanto maior o grupo, melhor); o primeiro da fila sussurra uma frase no ouvido do colega ao lado, e assim sucessivamente; o último da fila, por sua vez, deve falar o que ouviu em voz alta. Quase sempre o resultado é hilário, pois a frase final não tem quase nada a ver com a original! Da mesma forma, ler as notícias sobre as declarações de Bento XVI na imprensa pode proporcionar aos momentos de pura diversão – ou seria de pura frustração?

A última peraltice, ou melhor, cretinice, foi a recente cobertura do encontro do Papa com líderes de igrejas evangélicas alemãs, no ex-Convento dos Agostinianos de Erfurt (Alemanha). Ali viveu Martinho Lutero, o idealizador da Reforma Protestante. No mesmo dia da vista, o jornal da Globo News disse que Bento XVI “fez elogios às ideias de Lutero”(1). E sites de veículos de imprensa de todo o mundo – inclusive o portal G1 – afirmavam que Bento XVI “prestou uma homenagem”(1) ao herege excomungado. Acuma?!

Atônito, o telespectador/internauta católico se perguntava: qual das brilhantes ideias de Lutero terá Bento XVI elogiado? A Sola Fide (salvação pela fé, sem necessidade de obras)? O desprezo à Tradição dos Apóstolos? O deboche à autoridade do sumo-pontífice? As blasfêmias contra a castidade de Cristo? Qual, qual, quaaaaal?!

DESMENTINDO A VELHA SURDA

O fato é que o nosso amado papitcho não homenageou nem elogiou titica nenhuma. Vamos analisar o que ele realmente disse e comparar com a interpretação que a imprensa deu ao caso.

Versão da imprensa “trevas”:

Na Alemanha, Bento XVI elogia a paixão cristã de Martinho Lutero

“O que não dava paz (a Lutero) era o assunto de Deus, que era a paixão profunda e a força de sua vida e seu total itinerário. (…) O pensamento de Lutero, sua espiritualidade inteira, estavam completamente centrados em Cristo”, declarou o Papa.

Fonte: Portal G1 (1)

Esclarecimento 1:

A primeira frase foi retirada do seu contexto, e uma pequena modificação fez com que parecesse que o Papa estava afirmando que Lutero nutria uma “paixão profunda” por Deus. Na verdade, Bento XVI disse que a pergunta “Como posso ter um Deus misericordioso?” colocada por Lutero “constituiu a paixão profunda” que impulsionou o itinerário de Lutero, e não a paixão por Deus, como sugere o texto divulgado pela mídia em geral.

Observem o texto original do discurso de Bento XVI, retirado do site do Vaticano:

“…o que não lhe dava paz (a Lutero) era a questão sobre Deus, que constituiu a paixão profunda e a mola da sua vida e de todo o seu itinerário. ‘Como posso ter um Deus misericordioso?’: tal era a pergunta que lhe atravessava o coração (…) Esta pergunta que desinquietava Lutero – Qual é a posição de Deus a meu respeito, como apareço a seus olhos? – deve tornar-se de novo, certamente numa forma diversa, também a nossa pergunta…” (2)

Ora, dizer que alguém tem uma pergunta pertinente não implica elogiar as suas ideias (como foi dito na Globo News), nem tampouco o seu caráter. Aliás, o Papa deixa bem claro que a tal questão sobre Deus “desinquietava Lutero”, mas em nenhum momento do discurso sugeriu que o ex-monge tenha encontrado uma resposta adequada a ela.

Esclarecimento 2:

Bento XVI realmente disse que a espiritualidade de Lutero e o seu pensamento eram “cristocêntricos”. Porém, isto não constitui elogio algum, mas trata-se de uma simples constatação: a nova igreja de Lutero não negou a divindade de Cristo, e continuou a tê-Lo como centro de sua espiritualidade – ainda que de forma torta e cheia de graves erros doutrinários.velha_surda_midia

Em resumo: muito diplomático, Bento XVI disse que Lutero fez uma pergunta bacana e que, lá do jeito dele, também era cristão. Onde está o elogio? Cadê a homenagem? O máximo que se pode dizer é que o Papa buscou ser simpático encontrando pontos em comum entre protestantes e católicos, em nome do diálogo interreligioso. E só.

Enfim, em assuntos relacionados ao Papa e à Igreja, muitos jornalistas estão mais pra velha surda do humorístico “A Praça é Nossa” do que pra deus Hermes.

(1) Vídeo do Jornal da Globo News e texto da matéria publicados no Portal G1 do dia 23.09.2011.

(2) Discurso do Papa Bento XVI – vídeo e texto publicados no site do Vaticano.

7 comments to Brincando de telefone sem fio com Bento XVI

  • Cadu Sindona

    Perfeito! Hoje na escola tive mais uma discussao sobre em defesa da Santa Fé com um amigo meu que é filho de um pastor. É impressionante como os protestantes têm perguntas sobre a teologia dogmática que a Igreja tem. A afirmação do Papa é realmente simples, o Sucessor de Pedro quis mostrar ao mundo que sim, mesmo os hegeres mais extremos, têm em seu coração o “desejo de Deus” que a Igreja aborda no Catecismo no parágrafo 27 em diante. A Igreja cumpre seu papel de Esposa na terra, ensinando a Palavra, levando conforto aos esquecidos, sendo a ponte que leva ao céu! Eu tenho fé na Palavra, que diz que antes do Senhor voltar, só restará um pastor (o Papa), e um rebanho (a Igreja)! Viva Bento XVI!

    • Sim, Cadu, vc entendeu bem o ponto central do comentário de Bento XVI a respeito de Lutero: ele tinha o “desejo de Deus”, como qualquer outro herege poderia ter. E, lá do jeito dele, falava muito de Cristo. Ponto. Obrigada pelo comentário e abraço!

  • Muito bom. Gostei da análise. É isso que devemos fazer, não ficarmos limitados aquilo que lemos e ouvimos, mas procurarmos a verdade.
    O problema do povo brasileiro, inclusive dos letrados, é ficar no “ouvi dizer”.

    • Pois é, Diácono Marcos! E, numa época de incomparável facilidade de acesso à informação, a preguiça intelectual é indesculpável. Temos que checar por nós mesmos as fontes, para que ninguém escravize a nossa opinião. O problema é que muita gente dá um crédito excessivo ao que sai na imprensa, sem nenhum filtro crítico. Obrigada pelo comentário.

  • Elaine Maria

    muito bom isso fico feliz de poder contar sempre com a verdade a verdadeira verdade que a impressa sempre tende a esconder!e adora fazer essa brincadeira do telefone sem fio de todos

  • Padre Nivaldo

    Deus seja louvado por sua clareza na exposição do assunto.

  • Fernanda

    Excelente texto! Mas… sabemos que precisaremos de textos como esse aí quase que diários, Catequista. Dia após dia temos notícias “perseguidoras” em nossos jornais, contra a nossa amada Igreja. Bom demais ter essas explicações, análises e verdades. Não para brigarmos ou batermos de frente, porque não é essa a vontade de Deus. Mas para podermos defender e esclarecer aquilo que foi deturpado. Obrigada!

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