Papa Júlio II – Bateu de frente é só tiro, porrada e bomba

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No post anterior desta série, falamos do papado-relâmpago do Papa Pio III – 26 dias de luz em meio às trevas e à insensatez da Renascença. Após a morte de Pio III, o Cardeal Della Rovere foi eleito em 1503, aproveitando-se da comoção e desorientação geral e “propinando” mais que político corrupto de cidadezinha do interior. Era agora o Papa Júlio II. Foi um dos conclaves mais rápidos da história: durou menos de um dia (e dizem, um dos mais “caros” também).

Júlio II é um dos Papas preferidos dos ateus, “prufissoris” de “estórias”, darwinistas e demais ignorantes (aliás, pelos  gestos, gostos e atitudes dessa Papa, desconfio que ele mesmo fosse ateu). O “amor” dos inimigos da fé por Júlio II advém do fato do mesmo ter sido o mecenas e protetor do grande Miguel dos Anjos, o Michelângelo. Sob o pontificado de Júlio e com a grana do Vaticano, Miguelão realizou suas obras mais magníficas, inclusive a maior de todas: o teto da Capela Sistina.

Assim como seus antecessores nesse período, nomeados por nós como Papas renascentistas ou Papas insensatos (Pio III é uma exceção, não se inclui nesse balaio), Júlio II não dava a mínima para questões espirituais da Igreja, estando cada vez mais de guarda aberta para os reformistas. Suas paixões eram todas seculares e absurdamente materialistas. Suas prioridades eram:

  1. a restauração política e territorial da autoridade do Papado sobre os Estados Pontifícios;
  2. o embelezamento da Santa Sé (nisso ele era, convenhamos, um mestre, pois não há nada mais belo que os afrescos de Michelângelo nesse mundo);
  3. a perpetuação de sua memória de forma material, como mecenas das artes (ser um bom pastor das Ovelhas de Cristo, nada… sei…).

O desinteresse do Papa por assuntos espirituais beirava o constrangedor e, para alguns, nesse aspecto, Júlio II parecia PIOR que Alexandre VI, que, ao que revelou-se nas fontes, ao menos ainda tinha algum temor dos castigos infernais. Convenhamos, que nome se dá mesmo a quem se locupleta e se consola nas obras meramente materiais? É chamada como?… Machiavel, no seu famigerado “O Princípe”, tem César Bórgia como arquétipo do perfeito governante imoral; considero que Júlio II não fica muito atrás.

Uma de suas primeiras atitudes como Papa foi minar o poder dos Bórgias. A seguir, utilizou-se do artifício secularista do casamento político para garantir importantes alianças, casando parentes seus com os Colonna e com os Orsinni.

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A guarda suíça surgiu durante o papado de Júlio II

No campo da ordem pública, Júlio II revelou-se um alcaide de mão de ferro, o sonho de consumo carioca, prendendo e arrebentando toda a malandragem. É bem verdade que Roma era um antro de trambiqueiros, pulhas e malfeitores em geral. Para resolver o problema, foi contratada a Guarda Suíça, que entra na história do Vaticano aqui, com Júlio II. E não era a guarda que a gente está acostumado a ver: os caras eram mais furibundos e eficientes do que o BOPE e o Mossad juntos (só tinha malandro que metia tapa na cara do Bruce Lee. Dizem alguns, inclusive, que eles aprenderam Krav Magá como o Chuck Norris).

Excomunhão, para Júlio II, era simplesmente uma arma política. Quando se deu a revolução de Ferrara, ele não pensou duas vezes: vestiu uma cota de malha e, tal qual um Rambo medieval, foi para a frente de batalha (Battlefield feelings). Nunca devemos nos esquecer que os cidadãos de Ferrara atacados militarmente pelo Papa eram CRISTÃOS. Isso mesmo!

Por conta do dedo do Rei Luiz XII da França nessa barafunda com Ferrara, Júlio II acabou por desenvolver uma profunda francofobia e tudo fazia para expulsar os franceses da Itália. O responsável por atiçar contra o Papa os cavaleiros franceses era o cardeal D’Ambroise, aquele que perdeu a eleição que parecia ganha. D’Ambroise já havia sido, também, infectado por esses tempos insensatos e a ambição falava mais alto do que a fé em seu coração.

Nesse cenário, surge a figura do Bispo Marcial de Sião, Matthaus Schinner. Amigo pessoal de Júlio II, Schinner era um francófobo virulento, enérgico, excelente soldado, incansável quando engajado numa causa. Junto com esse, feio tanto quanto, veio no pacote Baubridge de York, também feito cardeal como Schinner. Esses dois tocaram o terror nas frentes de batalha. Era o Vaticano armado até os dentes.

Religiosos e cardeais responsáveis pediam moderação ao Papa no seu modo beligerante, mas ele fazia ouvidos moucos. E ele não era surdo somente com relação a isso: botou abaixo o antigo prédio da Basílica de São Pedro sem pedir conselho ou aprovação de ninguém. E aí teve início a vergonhosa venda de indulgências… Mas essa parte da história nós contaremos no post de amanhã. Até lá!

14 comments to Papa Júlio II – Bateu de frente é só tiro, porrada e bomba

  • Juliano Fleith

    Prezado Paulo, pergunto se assistiu ao filme “Agonia e Extase”, sobre a história da pintura da Capela Sistina e da relação entre Michelângelo e o Papa Julio II, e se o filme reflete mais ou menos a realidade da época. Fica aqui uma dica de leitura sobre a série dos Papas da Renascença: “A Conspiração Contra os Médici”; de Marcelo Simonetto. O problema é que na Itália o “pau fechava” por qualquer coisa, e as consequências nunca eram lá muito agradáveis.

    • Sim, assisti ao filme, tenho o DVD inclusive, faz parte da minha DVDteca básica. O filme é bem mais leve que a realidade. Charlton Heston é macho demais para fazer o Michelângelo, um grande artista, mas também a “mãe” dos artistas babacas afetados. Guardarei sua dica para conferir em breve.

  • Sidnei

    Fortes emoções nós teremos quando falar de Leão X, o Papa que viu a reforma protestante iniciar, mas ká para nós, podemos falar de tudo de Lutero e dos protestantes em geral, mas não dá para imaginar, ao ler os relatos destes Papas da época que a “reforma” protestante não ira acontecer, mais cedo ou mais tarde, porque Papas irresponsáveis estavam dando corda para que isto acontecesse, e aconteceu, e os resultados estão aí até hoje, e perdurarão até os fins dos tempos.

  • Thiago Puccini

    Paulo, bom dia!

    Quais livros você recomenda para estudar a história da Igreja?

    Obrigado desde já!

    Grande abraço!

  • Thiago Puccini

    Maravilhoso, parceiros!

    Muito obrigado pela disposição em me ajudar! =D

  • Leniéverson

    Parabéns pela postagem, Paulo Ricardo.

  • Rodrigo

    Pulem para o ano de 1566, é melhor kkkkkk

  • Melquiel Luiz de França Júnior

    Quanto mais eu leio sobre os papas da renascença vejo o contraste entre eles e João XXIII,João Paulo II e o Papa Francisco. Inacreditável a existência de um Alexandre VI ou um Julio II no papado. Felizmente como a Igreja é guiada pelo Espirito Santo esses dois insensatos não conseguiram destruí-la. Isso é uma das provas da divindade da nossa Igreja.

    • Li em algum lugar que os católicos de hoje não estão preparados para um papa ruim, ainda mais quando cada passo do papa é mostrado na mídia, e concordo 100% com a afirmação. O artigo não dizia que Francisco era um papa ruim, mas mostrava os riscos de sua exposição excessiva na mídia.

      A mídia elegeu Francisco como o papa da “atualização” da Igreja aos tempos atuais, e com essa hiperexposição, qualquer murmúrio que saia da boca do papa corre o risco de virar heresia (ou verdade de fé, conforme o caso) para os menos atenciosos. Junte essa hiperexposição e a falta de atenção de alguns com um homem afeito à hipérbole, como é o Papa Francisco, e o caldo resultante pode ser indigesto.

      Só que não somos fiéis ao papa como homem, somos fiéis ao papa como sinal visível da unidade dos cristãos, como Vigário de Cristo. Se começarmos a olhar demais o homem e nos esquecermos do papa, e de quem o elegeu e quem o sustenta, nossa fé desanda.

      O que precisamos é conhecer mais o papa pelos seus documentos, homilias e discursos, e menos pelo que é mostrado no G1.

      PS: Não há problema nenhum no uso da hipérbole, naturalmente. E nem é tão ruim assim que a maioria das pessoas não saiba interpretar um texto direito. O problema maior é a má-fé de quem sabe que aquilo é uma hipérbole e mostra como se fosse algo literal, como na história do batismo para marcianos…

  • Pedro

    Onde vocês encontraram essa imagem?

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