Papas insensatos da Renascença – Inocêncio VIII

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E aí meu povo, estamos de volta.

Como prometido, hoje vamos falar de mais um dos chamados papas da Renascença: Inocêncio VIII.

Giovanni Battista Cibo entrou para a história como o sucessor de Sisto IV. Era tido como um boa praça, uma pessoa amável até, mas de personalidade fraca e influenciável. Em nada lembrava Sisto IV, mas essa fraqueza de caráter foi responsável pela ruína de seu pontificado. Teve uma juventude dissipada e era dado aos prazeres mundanos e ao hedonismo. Antes de abraçar o sacerdócio, gerou dois filhos, que foram reconhecidos por ele.

Cibo entrou para a Igreja como hoje se busca o funcionalismo público: por segurança e estabilidade. O Papa Sisto, observando seu caráter maleável, deu-lhe um cargo na cúria. Contava 37 anos quanto foi nomeado cardeal. Isso foi um golpe para os dois principais competidores pelo trono de Pedro – Rodrigo Bórgia e Giuliano della Rovere. Ambos viriam a ocupá-lo mais tarde, e deles trataremos com detalhes  A mitra caiu no colo de Cibo, visto como um candidato de consenso.

Seu papado teve como uma de suas marcas mais distintas os problemas que lhe causou seu filho bastardo, Francesco, um bêbado sem-vergonha que passava as noites vagabundando pelas estalagens de Roma. Por zelo paternal ou para evitar mais escândalos, Cibo conseguiu casar seu filho ordinário com uma das filhas de Lourenço de Médici. Tão caras foram as festas que o papa teve a pachorra de penhorar a tiara papal para poder pagar a rapaziada do buffet.

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Estado do filho bastardo de Inocêncio VIII no fim da sua festa de casamento.

Enquanto isso, Rodrigo Bórgia (futuro Papa Alexandre VI) aprontava das suas. Criou um próspero mercado de indulgências, do qual saía uma “comissão” que ia parte para o papa e parte para o devasso Francesco, filho deste e chegado num casamento de arromba. Em poucos momentos em sua história o nível moral da Cidade Eterna – aqui estamos falando de sua administração – desceu a níveis tão baixos.

O problema todo se concentrava no Colégio Cardinalício. Nesse período ruim da história da Santa Igreja, que perdurou por 60 anos, eram dali que saíram nossos amiguinhos, que agora lhes apresentamos. Todos os seis papas da Renascença de que tratamos nesta série levaram o “selo Marózia” de aprovação por escrotização do Trono Sagrado (quem leu a nossa série sobre os “piores papas” sabe quem é Marózia Teofilacto).

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No tempo de Inocêncio VIII, o ricaço BILL GATES descolaria um cardinalato facinho, facinho…

Por conta de nomeações que levavam mais em conta as posses do sujeito do que sua vocação sacerdotal, o Sacro Colégio virou uma espécie de Country Club. Para ser cardeal, nessa época, não era preciso nem ser padre. Era mais uma corte como a do rei da França Luiz XIV do que outra coisa. Aliás, os papas da Renascença eram especialistas na nobre arte de fazer filhos bastardos e os legitimarem depois (lá se foi mais um princípio básico da Igreja).

Não bastasse os problemas internos e os escândalos, nos tempos de Inocêncio VIII tínhamos ainda um tipo muito do chato, o Rei de Nápoles, que pentelhou o juízo do Papa além dos limites do suportável. Movia campanhas de guerra, indo e vindo, ao que parece, de pura maldade, só para azucrinar o juízo mesmo. Chegava às portas de Roma, ameaçava e depois voltava. Essas incursões e a constante desobediência do Reino de Nápoles fizeram com que o Papa buscasse apoio externo contra essa demanda. Isso foi um grande erro.

A França interessou-se em apoiar o Papa, já que a casa dos reis de Anjou, que governava o país, estava de butuca na coroa de Nápoles fazia tempo. O Rei de Nápoles, para não ter que enfrentar o exército francês, firmou acordos mil com Roma. E não cumpriu nenhum posteriormente. Assim eram as guerras naquela Itália fragmentada e confusa. Os atos de Inocêncio e do Rei de Nápoles geraram confusões que perduraram por décadas.

O apelo por reformas só aumentava e o papa, por indolência, não lhes dedicava muita atenção. O único ponto ao qual dedicou energias era o que dizia respeito a uma nova Cruzada. Só tinha um problema: para os ocidentais em geral essa coisa de guerra santa seria ruim para os negócios. O comércio com os infiéis era lucrativo para as cidades italianas, que muitas vezes recorriam ao sultão para resolver suas querelas. O resultado foi mais uma desmoralização do papado de Inocêncio VIII. Em 1486, o papa publicou uma bula convocando os nobres para a Cruzada. Ninguém apareceu.

Nos últimos tempos de seu papado, Inocêncio VIII acabou buscando uma acomodação com o inimigo, no caso o sultão turco, com o caso que passou à história como o do Príncipe Djem.

Djem era irmão do sultão e lutou contra ele para usurpar-lhe o trono. Perdeu. Nisso pediu auxílio aos Cavaleiros da Ordem de São João, que tinha sede em Rodes. Djem passou a ser um trunfo político cobiçado por todos os reinos da Europa, pois poderia ser usado como postulante ao trono. O papa foi mais rápido e o “comprou” ao preço de dois cardinalatos – um para o Rei da França e outro para o Grão-mestre de Rodes.  Temeroso com a possibilidade Djem ser usado pelos cristãos para promover uma guerra que teria por objetivo depô-lo, o sultão começou a puxar o saco do papa. Curiosidade: um dos presentes que o Sultão mandou para Roma foi a suposta lança de São Longinus.

E, em 1492, a Espanha estava com tudo e não estava prosa. Acabava a longa guerra de unificação, Colombo fez sua famosa viagem, pareciam dias de prosperidade para o grande reino ibérico. Inocêncio VIII, que nunca teve uma saúde muito boa, agoniza em seu leito de morte. Implora que seja eleito um papa mais eficiente que ele.

A pequena introdução sobre a Espanha se fez necessária porque, além de tudo aquilo, a Espanha ganhou um papa. Papa esse que, tenho certeza, o povo espanhol preferiria não partilhar a nacionalidade.

A seguir, Alexandre VI.

9 comments to Papas insensatos da Renascença – Inocêncio VIII

  • Sidnei

    Eita que estes papas fizeram m… na Igreja, tudo isto estava claro que não iria acabar bem, muito pouco tempo depois, se deu o estopim para a reforma protestante e crentelhos enchendo o nosso saco até hoje graças as m… que estes caras fizeram lá trás. Só por CRISTO mesmo para guardar a SUS Igreja das trapalhadas destes babacas porque se dependessem das podridões realizadas por estes sujeitos a Igreja teria sucumbido a muito tempo. E ainda tem gente que reclamam de nossos Papa atuais, isto porque não conhecem a histórias destes Papas do passado, pois se conhecessem iriam acabar de reclamar bem rapidinho.

  • Saudações, Catequistas! Muito bom o post! Como dito no comentário anterior, foi feita muita m… naqueles tempos de papados transviados, mas, me tirem uma dúvida: tais Papas da Renascença emitiram, em algum momento, algum documento usando da infalibilidade papal, digo, falaram alguma coisa “ex cathedra”? Pergunto isso porque, apesar de tanta “caca”, se se pronuciaram “ex cathedra”, isso deve ser seguido à risca, não é?!

    • De fato sim. A santidade do Papa não fere a infalibilidade do cargo, prova disso é que o próprio São Pedro negou a Cristo 3 vezes e depois da Ressurreição, Nosso Senhor o confirmou ainda três vezes (v. João 20) sem jamais pensar em retirar-lhe o primado no Colégio Apostólico.

    • Paulo Ricardo Costa

      Com as fontes que eu tenho digo que não, nada foi pronunciado por esses papas “ex cathedra”. Esse tipo de pronunciamento é muito raro. Ou muito me engano ou são cerca de 12 ao longo de toda a história.

    • Alex,
      O Paulo já respondeu sobre a questão histórica, agora acrescento a questão teológica. Sim, se acaso houve algum pronunciamento ex cathedra por parte desses papas da Renascença, isso com certeza foi feito sob a luz do Espírito Santo. A infalibilidade do ensinamento da Igreja sobre fé e moral independe do caráter e da espiritualidade dos papas. Quem chefia a Igreja é Cristo, seu Esposo.

  • O “Selo Marozia de putrefação papal” foi hilário. Sobre Rodrigo Bórgia Paulo, gostaria de uma antecipação da situação. Eu já li que, a pesar de todas as canalhices e s-vergonhocises que Alexandre VI fez, ele foi um bom administrador dos Estados Pontificos e construiu um monte de coisas, procede a informação?

    • Paulo Ricardo Costa

      Sim Cadu, procede. Rodrigo foi um Papa temporal, sendo assim, ele estava mais ocupado com questões de administração do que propriamente com as questões espirituais.

  • Harun Salman

    Numa ocasião, Dom Odilão Moura disse algo muito bonito sobre a situação do “Papa Bórgia”: que, uma vez eleito Papa, o Espírito Santo restringiu a sua devassidão a terrenos onde seria menos ofensiva à dignidade do cargo. Acho esses Papas a prova, se alguma é necessária, da assistência do Espírito Santo: só assim a Igreja poderia estar viva ainda hoje!

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