Papas insensatos da Renascença – Sisto IV

game_thronesE aí meu povo,

O tema dessa nova série de posts é possível de ser resumido em uma palavra: insensatez. Foi ela que permeou os pontificados dissolutos dos seis papas da Renascença, pelos quais, ainda pagamos hoje. Foi por meio dela que o papado deu um tiro no próprio pé, preparando o terreno fértil em que as ideias de Martinho Lutero seriam semeadas, germinadas e difundidas.

Nosso corte temporal é um período de 60 anos: de 1470 a 1530 foram oito papas, mas somente seis deles nos interessam. São eles Sisto IV, Inocêncio VIII, Alexandre VI, Júlio II, Leão X e Clemente VII. Os outros dois não serão analisados, apenas citados, isso porque um ficou no Trono de Pedro apenas 26 dias e outro estava mais para cativo do que para Papa.

Pode-se considerar muito da loucura desses 60 anos resultado direto do exílio de Avignon, no século XIV. Esse fato foi o responsável pela politização da Santa Sé, de acordo com suas conveniências. Os reinos europeus ficavam vendendo sua lealdade para um ou outro lado, a partir do cisma de 1378 – que estabeleceu um papa em Roma e outro em Avignon. Os papas caíram direitinho no jogo dos príncipes, envolveram-se em suas querelas e o resultado não podia ser outro que não o desastre total.

Quando a Santa Sé foi definitivamente restaurada, em Roma, no ano de 1430, os papas haviam se tornado príncipes ao modelo dos governantes de Gênova e Veneza – pirata da perna de pau, do olho de vidro, da cara de mau.

Durante a Renascença, o ideal de renúncia cristã foi abandonado, substituído pelo individualismo, que minou a submissão à palavra de Deus. Disso, resultou uma enlouquecida decadência do comportamento humano. Claro que coexistiam com a decadência moral a decência e a piedade. Tanto é que, caso assim não fosse, ninguém ia se importar com os escândalos da Santa Sé.

Aposto que seu professor de História, se tinha alguma coisa boa a falar dos Papas da Renascença, foi o fato deles serem patronos das artes – principalmente nos casos de Júlio II, Leão X e Clemente VII. Com relação a isso, “Seu professor de História NÃO mentiu pra você” ao caracterizá-los como puros humanistas. Eles são lembrados pelo mundo mais como patronos das artes do que como pastores das ovelhas do Cristo. Essa postura rendeu frutos patrimoniais e artísticos – nem tudo foi bola fora – mas, em matéria espiritual, esses papados foram uma bizarrice só.

Bem, vamos ao primeiro:

Papa SISTO IV

Na fase da Igreja que se iniciava depois dos problemas ocorridos durante o Papado de Avignon, esse foi o primeiro papa a aplicar a Lei do Gérson (“Gosto de levar vantagem em tudo. Certo?”). A sua eleição foi devida à hábil politicagem do seu, do meu, do nosso RODRIGO BÓRGIA, futuro Papa Alexandre VI.

Pessoalmente, Sisto era destemido. Destemido em seu mau-caratismo, diga-se de passagem. Era um nepotista contumaz e, para alimentar sua numerosa família nas tetas da Santa Sé, aumentou o Colégio Cardinalício. Em treze anos de pontificado nomeou 34 novos cardeais (o limite naquela época era de 24). A extravagância passou a ser característica da corte papal.

nepotismo

Uma família de novos ricos – os Della Rovere – ganhou destaque nesta época. Um deles, inclusive, viria a ser um dos Papas da Renascença e mecenas de Michelângelo. Muitas vozes levantaram-se contra os desmandos, principalmente os financeiros. Sisto então criou a Câmara Apostólica, formada por 100 advogados, responsável pelos interesses financeiros dos Estados Papais.

Teria Sisto sido tão ruim assim? Bom, houve coisas boas em sua administração. Ele revitalizou a Biblioteca do Vaticano, reabriu a Academia Romana e – seu principal legado – iniciou a construção da Capela Sistina, aquela que imortalizaria seu nome (sacou? SISTINA). Também inaugurou hospitais, igrejas e várias importantes reformas na Cidade Eterna. Era, realmente, um homem de seu tempo. Como tal, conduziu guerras – contra Veneza e Ferrara.

Mas de todos os seus atos, há um em particular que chama a atenção, pelas feições de romance policial barato: a dita Conspiração Pazzi, que pode ter sido posta em movimento pelos Salviati, banqueiros de Sisto, aliados aos Pazzi. A finalidade era matar os irmãos Médici – Juliano e Lourenço. O plano foi posto em prática na Páscoa de 1478. Juliano morreu, mas Lourenço escapou e, com o apoio do Rei de Nápoles, buscou vingança. O sangue jorrou: os Pazzi foram assassinados por Lourenço e sua turma, e arcebispo de Pisa, um Salviati, foi linchado até a morte.

chefao

A resposta do Papa Sisto IV não foi nada sutil. Excomungou não só Lourenço, mas toda a cidade de Florença. O desinteresse do Papa com questões espirituais, preferindo ocupar-se de questões seculares, fez aumentar o clamor pela convocação de um Concilio. Clamor esse que o Papa desconsiderava.

No último ano de sua vida, foi oferecido a Sisto um razoável programa, vindo de Tours (França), para combater o reformista Jean de Rely, que inflamava o povo contra o papa (é meus amigos, Lutero não era o único maluco, aliás, não se pode dar a ele nem a pecha de original).

Jean de Rely denunciava as questões fiscais, mas principalmente a prática ad commendam que, em Direito Canônico significa transferir um beneficium (terras aráveis, por exemplo) em confiança à guarda de um patrono. Acontece que essas transferências eram realizadas sem que o patrono, depois de entrar em posse dos bens, cumprisse com seus deveres para fazer o bem em questão prosperar. Tínhamos, então, verdadeiros vampiros, que sugavam o povo até não poder mais. Se o Papa resolvesse acabar com essa prática nefasta, teria muitos de seus erros menosprezados. Mas ele não o fez.

Poucos meses depois, morre Sisto IV. Para comemorar, os romanos entraram num período loucura total que durou cerca de duas semanas. Tumultos, saques e estupros pra todos os lados, tudo sob o patrocínio dos Colonna, perseguidos durante os dias de pontificado de Sisto e doidos para dar o troco. Lembram deles? Não? Ora, titio então vai recapitular brevemente a genealogia até agora dos posts dos Papas: a família Colonna era um ramo dos Tusculum, ligados aos TEOFILACTO, da triste lembrança dos Papas Sérgio III e João XII (ambos da casa dos Tusculum). Pareceu que os tristes dias do século X haviam retornado.

Acredito que, para aqueles que buscam a sua salvação em Cristo, esses posts aumentarão a certeza de que existe somente uma Igreja sob a governança do Espírito Santo: a Santa Igreja Católica Apostólica Romana. Ela, que outrora aturou um Sérgio III, um João XII, um Libério, e depois sobreviveu aos Papas da Renascença, não será destruída jamais.

O nome do livro em que eu me baseio é “A Marcha da Insensatez”, de Bárbara Tuchman. Ao final desses posts teremos uma pequena bibliografia pra aqueles que quiserem se aprofundar mais no assunto.

Por enquanto é só meus amigos. No próximo post falaremos do Papa Inocêncio VIII. Fiquem na paz de Deus!

21 comments to Papas insensatos da Renascença – Sisto IV

  • Sidnei

    Estava dando uma olha no Wikipédia para ver o que estava escrito sobre ele, eu sei que o Wikipédia não é uma fonte tão segura assim para obtermos certas informações, mas mesmo assim, fui dar uma olha e o que eu li dele, não pareceu ser um bicho papão tão grande assim. O que me chamou a atenção foi de que ele autorizou a instalação da Inquisição na Espanha, mas foi ele próprio também, que protestou, dos abusos cometidos pela própria inquisição em terras espanholas. E de ele ter elevado o nº de cardeis de 24 para 34 isto me faz lembrar do atual governo brasileiro que aumentou o nº de ministério para 39, ou seja, que nunca venha alguém do PT ou qualquer um da esquerda encher o saco sobre este Papa que o governo petista no Brasil fez igual e nem disse nada.

    • Acho que o Vaticano dá uma enriquecida na Wikipédia nos verbetes da Igreja. Isso é bom, muito embora eu não tenha certeza. Muito pior seria se deixasse os escroques tomarem conta. Aí até São Pedro ia virar “burguês reacionário que defendia as elites”.

  • Victor

    Alexandre VI é RODRIGO Bórgia, e não César.

    • Ato falho. César era filho de Rodrigo, acabo muitas vezes por confundir o nome dos dois. Perdão.

      • Leilah

        Oi Paulo Ricardo , apesar de sabermos da corrupção moral de alguns papas, creio que muitos ditos “formadores de opinião” se aproveitam disso para enfiar um monte de mentiras para aumentar artificialmente a sujeira. E às vezes ficamos sem critérios para confrontar as mentiras ou para saber se as mesmas tem ao menos algum mínimo fundamento, eventualmente distorcido depois. Refiro-me especialmente a um caso veiculado por certos setores da imprensa:
        1) A Madre Pasqualina (suposta amante de Pio XII): http://massote.pro.br/2013/05/9860/ e http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=621396
        O que há de fumaça e de fogo nessa história?
        De onde esse sujeito tirou essa ideia? Do esgoto podre da mente dele ou de algum fato que ele propositalmente distorceu?
        Grata.

  • Juliano

    Interessante. Mas os tempos eram difíceis, querendo ou não, a igreja mantinha a chama dos Reis e Príncipes sob controle. Muito disso graças as habilidades políticas da maioria dos Papas; claro, infelizmente, na política, muitas vezes existem as “trocas de favores”, os “panos quentes”…resumindo, a corrupção e a sacanagem. Temos que entender que, na época, a Europa era dominada por famílias, e eu posso dizer que se não fosse a Igreja ser a mediadora na época, até mesmo deixar-se manipular por muitas vezes, o cristianismo poderia ter se apagado. Com relação aos Médici, eu li que o meu xará (é com “x”?) foi morto enquanto o padre consagrava a eucaristia; ele estava de joelhos, e o apunhalaram, já o Lourenço, saiu correndo e pediu para que o povo não matasse toda aquela turma…mas não conseguiu. Não sei se é verdade, mas li numa pequena biografia sobre o Lourenço de Médici.

    • Sim, esse é um adendo interessante. Segundo relatos, foi isso que aconteceu. Aqui eu procurei prender-me ao acontecimento em si. Os comentários são bons para isso também, enriquecem o texto principal com esses detalhes.

  • período negro da santa igreja, o mal penetrou fortemente em suas estruturas…perdeu-se a espiritualidade,os votos enfim a humildade e os valores.

    • Mas ainda havia santos e o bem. Muitos anjos do Senhor viveram nessa época. E satanás acabou não vencendo, como nunca vencerá. Mas há muito mais a se falar desse assunto, aguarde.

      • Amanda

        Com certeza, o mal é mais divulgado em livros, mas não prevalece no sentido espiritual.
        Deus conhece o que realmente aconteceu.

      • Pacceli

        Paulo Ricardo, você poderia me indicar bons livros que tratem especificamente da Renascença? Estou cansado dos professores sempre colocando esse período histórico em um pedestal, enquando se referem a Idade Média como “idade das trevas”.

  • Paulão, procede a história que diz que o historiador alemão protestante (não me lembro o nome), que escreveu uma série de trabalhos sobre os Papas depois da aprovação do Papa Leão XIII de ele ter acesso aos documentos da Santa Sé, se converteu ao topar com as terríveis histórias dos Papas na Renascenças? Ele se converteu (diz a história) justamente por perceber que a Igreja deveria ter ido oras cucuias se fosse uma instituição humana.

    • Se você está falando do pai de todos os historiadores modernos (historiadores de verdade, não esse lixo marxista que está por aí) Leopold von Ranke, não procede. Ranke escreveu um excelente livro sobre a história dos papas (uma das bases desse dos nossos posts), era um homem muito religioso, mas era protestante. Foi ele o historiador que demoliu a noção teleológica da história – aquela em que se acha que uma época posterior é sempre melhor que a anterior – Ranke dizia que eram apenas diferentes. Sua obra é extremamente isenta, desapaixonada e foi acusado na época de anti-catolicismo. Não é o caso na minha opinião, o livro também não é pró-reforma. Segue a premissa rankeana de contar o que aconteceu com base nas fontes, nada mais. Isso, claro, acarreta não se levar em conta um montão de outros aspectos. Quer saber? Muito melhor ler o fatos em si e tirar suas conclusões, sob a luz do Espírito Santo do que um chato pretensioso te dizendo o que é certo ou errado em termos de história como os débeis dos Annales.

      • Mas fora ele quem ter acesso aos documentos da Santa Sé?

      • Juliano

        Paulo, acredito que você irá escrever sobre todos os 266 Papas. Gostaria que, após encerrar o seu trabalho, divulgasse a bibliografia. Acho a história da Igreja, em especial a dos Papas, dos Santos, da Inquisição, das Cruzadas e também de como se formaram as primeiras comunidades católicas, de que forma as missas eram realizadas, como funcionava a liturgia, etc e tal, absolutamente fantásticas para serem lidas e estudadas. Gostaria de saber se você assistiu a série “Os Bórgia”, se aquela sacanagem toda era real, ou se colocaram uma pimenta a mais no tempero para tornar a séria mais apelativa contra a Igreja. Saudações Católicas!!

  • André

    Pessoal,

    Sabem dizer se uma excomunhão como essa (da cidade inteira de Florença) é considerada válida? Foi retirada ou nem precisou?

  • Jotacê

    Interessantíssimo mais essa postagem. Estou “colecionando” todos os artigos desta série em “word”, para, depois que estiver concluída, imprimi-la e fazer uma apostila.
    Deus os abençoe pelo BAITA trabalho que fazem. Sou viciado neste site!

  • Anônimo

    Não podemos ser injustos. Dizer que o Papa não era interessado nas questões espirituais? Se não fosse graças a ele o dogma da Imaculada conceição nunca teria sido aceito. Ele foi o primeiro Papa a defendê-lo contra os maculistas. 1476 foi proclamado por ele como festa universal: a Imaculada conceição de Maria!

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