O teatro de Lutero – uma encenação podre e bem-sucedida

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A imagem acima foi retirada da página Escolástica da Depressão.

“A característica do herético, isto é, desde que tem uma opinião particular, é a de se prender a seus próprios pensamentos”.

Bossuet (bispo e teólogo francês)

Com esse pensamento retornamos, mais uma vez, para continuar a saga das peripécias do mad monk.

Em outubro de 1520, os escritos de Lutero foram queimados em diversas cidades belgas. Terminado o prazo de retratação, ele queima um exemplar da bula papal Exsurge Domine – documento que exigia que se retratasse de suas heresias. O detalhe é que ele fez isso escondendo-se atrás dos alunos da Universidade de Wittenberg. Eis mais um rompante de coragem e destemor (estou no modo irônico), os quais só ele mesmo seria capaz.

O monge maluco fez desse gesto simbólico um auto de fé, em que o herege queimado seria o próprio Papa, Leão X. Como podemos ver, estudante universitário burro para ser usado como bucha de canhão não é uma invenção moderna. Nesse dia mesmo da queima da bula de excomunhão, Lutero aproveitou, já que estava mesmo com a mão na massa, para queimar uns livros que ele não entendeu. Tudo em nome da tolerância!

Lutero foi convocado a comparecer diante da Dieta de Worms, onde estaria o próprio Imperador – Carlos V – em pessoa. O renomado teólogo Von der Ecken era o acusador principal do monge maluco. Pra quem não sabe, a “Dieta” era uma reunião de lideranças; era uma espécie de congresso.

No caminho de Worms, Lutero e seu cordão de puxa-sacos foram espalhando seu veneno pelo caminho. No domingo de Páscoa de 1521, ele pregou na cidade Erfurt, apesar da proibição do Papa. Nessa feita, ocorreu uma ameaça de desabamento. E Lutero mencionou mais uma vez seu grande mestre e inspiração: o diabo.

– Não temeis, não há perigo! Eis como o diabo procura impedir que eu pregue o Evangelho, mas não conseguirá!

Cara… Como o diabo era presente na vida desse sujeito! Aí vocês entendem a origem da obsessão de muitos protestantes com a figura do canho.

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E Lutero chegou a Worms! Era 17 de abril de 1521. Um análise superficial do seu séquito já diz um bocado sobre o espírito que animava e ainda anima as heresias dos protestantes: cem cavalheiros, a fina flor da aristocracia alemã, a proteger o seu herói, que ainda envergava o hábito monástico e fazia cara de humilde vítima. Não preciso dizer mais nada. Depois de mais de mil anos, parecia que Átila havia retornado a Worms, vestindo uma roupa diferente.

Na Dieta, foi dada ao monge a oportunidade de se retratar, e ele pediu um período de 24 horas para pensar a respeito. No dia seguinte, por volta das seis da tarde, Lutero se apresentou novamente em frente da assembleia apenas para iniciar a longa tradição dos protestantes de falar: “me mostra isso na “bibra”.

Aqui cabe um parêntese. As coisas foram conduzidas com uma certa inabilidade. O Papa Leão X não deu a Lutero muita importância, mais preocupado com assuntos seculares emergenciais. E o Imperador Carlos V via as coisas por um viés político. Ambos não enxergaram o que realmente estava em jogo: as almas da civilização cristã ocidental.

Depois que Lutero decidiu não se retratar, o Imperador Carlos V deu por encerrada aquela sessão da Dieta e se retirou. Os defensores de Lutero quase fizeram quadradinho de oito de tão felizes e os emissários papais se limitaram a ficar vociferando: “Queimem o herege! Queimem o herege!”. Apesar desse ato de suposta macheza, Lutero depois confessou que em momento algum pretendeu se retratar, o que nos leva a crer que seu pedido para meditar sobre o assunto, mais uma vez, não passou de teatrinho para otários (olha aí outra tradição protestante).

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Só pra quem acha que Lutero foi macho pacas mesmo assim, vamos salientar que, durante a Dieta de Worms, o mad monk estava protegido por um salvo conduto dado pelo próprio imperador, que cumpriu a sua palavra e não tocou num fio de cabelo sequer de Lutero, e muito menos qualquer membro do clero fez algo para prejudicá-lo.

Em 26 de abril, a macheza do cabra acabou. Lutero “sartô de banda” de Worms, uma vez que o salvo conduto que o Imperador havia lhe concedido expiraria em três semanas e ele precisava, destemidamente, procurar um lugar onde se enfiar, já que era intenção do Imperador transformá-lo em um fora da Lei e o colocar em cana. Proibido de pregar em público, Lutero desenvolveu sua própria “tática de guerrilha”, bem parecida com a de pregadores de trem, e continuou seu trabalho demoníaco pelas alamedas das cidades alemãs. Falou em Mohra, em Eisenach e em outras cidades menos cotadas, sempre se valendo do seu salvo conduto para não ser preso.

Só que isso não ia durar para sempre. Os puxa-sacos de plantão tiveram uma ideia brilhante, que seria executada pelos homens do duque Frederico, o Sábio (queria saber porque deram esse epíteto para o tal): forjar o sequestro do mad monk e  o levar sob custódia para o castelo de Wartburg (o que, por si só, é um sacrilégio, visto que esse castelo foi morada de Santa Isabel da Hungria). A ideia era dar a impressão de que estavam prendendo Lutero, mas na verdade estavam lhe dando proteção e boa vida.

ui_luteroEsse falso sequestro foi o primeiro golpe dos príncipes alemães contra o Papa e contra o Imperador, que os deixou famosos como atores da Reforma Protestante. Não fosse a manobra de Frederico, Lutero teria caído e muitos exploradores da fé que estão hoje por aí teriam que procurar um trabalho honesto.

“Preso” num cartão postal, Lutero só aí sentiu-se seguro para, enfim, largar o hábito. Passou a deixar crescer tanto o cabelo quanto a barba, arrumou uns panos “maneiros”, uma espada e uma corrente de ouro enorme no pescoço. Passou até a usar um pseudônimo – Jorge. Escondido, bem alimentado, passou a dedicar seu tempo à nobre arte protestante de xingar o papa, chamando-o, dentre outras coisas de “comilão”, “bêbado” e “servidor do demônio”.

Em 26 de maio, saiu o Édito de Worms em que o Imperador concita aos cidadãos do Império, sob pena de morte, a não dar abrigo a Lutero. Enquanto isso, em Wartburg, Lutero batia altos papos com o canho. Segundo ele, tinha o diabo em todo canto do castelo. Até dentro de um saco de avelãs o diabo se metia. Lutero agora era presa do ócio, da preguiça, da luxúria, e chafurdou na lama na antiga residência de Santa Isabel.

*****

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16 comments to O teatro de Lutero – uma encenação podre e bem-sucedida

  • Valeu mestre Paulo pela retomada da série sobre o nosso [ironic mode on] mais querido querido herege de todos os tempos [ironic mode off]…

    Lutero: a maior farsa e brincadeira de satanás contra a Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo.

  • O Maravilhoso é ver como Deus usou estas confusões para fortalecer a sua esposa!

    Forte abraço!

  • Juliano

    As vezes eu me pergunto como isso foi acontecer, toda essa reviravolta naquela época. Deus permitiu. Mas, porquê? Essa é a pergunta que fica. Lógico que o que lemos nos livros de história sempre dão conta de que a Igreja vivia num período de muitas coisas desagradáveis, todavia, até que ponto são verdades? Então o termo “Reforma” não é o correto, pois o mentiroso do Lutero não queria reformar coisa nenhuma, queria é um cisma. Na minha opinião, Lutero aproveitou-se que a Igreja veio de um período conturbado por conta do então recente Papado de Alexandre VI, que faz parte do trio com Sérgio III e João XII (como diz o Catequista Paulo Ricardo). E nós sabemos como boa parte dos católicos tem uma fé meio, digamos, frouxa; se um Padre é ruim, roubou, etc e tal, culpam a IGREJA, e não o Padre, e metade some da Missa no próximo domingo; vi isso aqui na Paróquia que frequento, parece que o católico de fé frouxa quer sempre encontrar um motivo para sair da Igreja. Lutero sabia bem disso, e levou uma porção de gente que queria pular da Barca. Conseguiu e consegue, até hoje.

    • Caro Juliano,

      No próximo post vamos esclarecer muitas de suas dúvidas, adianto desde já que o principal fator que provocou este estado de coisa foi que os papas da Renascença estavam muito mais preocupados com questões seculares do que com questões espirituais. Não foi só o Papa Alexandre, o problema começou antes dele e prosseguiu muito depois. Assim, a seguir teremos nosso crossover: Papas e Lutero.
      Fique em paz.

  • Yuri

    Duas perguntas:
    Porque a Santa Igreja Católica vendia indulgências garantindo o perdão dos pecados em troca de dinheiro?

    Porque a Igreja Católica não permitia o acesso as escrituras sagradas pela população?

    • Victor

      Pesquise neste mesmo blog e você achará as respostas.

    • Juliano

      Yuri, pelo o pouco que conheço, a Igreja nunca permitiu tal coisa; alguns padres é bispos é que se utilizavam das indulgências para arrecadar. Lembre-se que as indulgências são dádivas que a Igreja nos dá, e são importantíssimas para todos. O que importa é que quem pagou pelas indulgências teve seu pecado perdoado, independente de quem era o padre ou bispo. Segundo, naquele tempo poucas pessoas eram alfabetizadas, portanto, não era o homem comum que iria ler e entender a Bíblia; portanto, a Igreja proibia que as pessoas interpretassem a bíblia a sua maneira e saíssem pregando, pois daí surgiriam os desvios doutrinais, exatamente como o Lutero fez, e como vemos hoje; lembre-se que cada “igreja evangélica” que surge tem uma interpretação diferente da Bíblia, não existe quase consenso algum no quesito doutrina, o único consenso que elas tem é com relação a falar mal e denegrir a Igreja Católica e seus Dogmas. É assim que vive o protestantismo, especialmente o “neopentecostalismo”.

    • Se você diz que indulgência garante o perdão dos pecados e podia ser “vendida”, então você não sabe o que é indulgência nem o que é perdão. Pesquise neste blog que tem tudo explicadinho.

      E quem disse que “a Igreja Católica não permitia o acesso as escrituras sagradas pela população”?

    • Gente, adiantando: indulgência não é perdão de pecado. É a remissão da pena temporal do pecado. O pecado é perdoado com a confissão sacramental cumprida corretamente.

      Isso é a primeira aula de catecismo sobre o sacramento da reconciliação; não dá pra falar de indulgência sem saber isso. Mal dá pra fazer primeira comunhão sem saber disso… =)

    • Yuri,
      Era um grupo restrito de religiosos católicos que vendia indulgências. Isso não era uma prática da Igreja, e nunca foi.
      Já explicamos isso no post abaixo:

      Lutero e suas 95 teses. Um Che Guevara de batina?

      http://ocatequista.com.br/archives/7989

      Quanto à Bíblia, o que a Igreja não permitia era a interpretação pessoal. E o que impedia de fato o acesso das pessoas em geral à Bíblia era a falta da prensa. Cada Bíblia era copiada à mão, e um único exemplar levava anos pra ser feito. Por isso, os exemplares eram poucos, e pouquíssima gente tinha grana pra comprar.

    • Yuri,

      Endosso o comentário d´A Catequista.

      E a Igreja nunca proibiu o acesso às escrituras. Aliás, hoje, se você for a Missa por três anos seguidos, todos os dias, terá lido a bíblia toda. Um pouco a cada dia.

  • Leonardo Abreu

    Esse post me fez lembrar da visão da Irmã Maria Serafina Micheli teve de lutero no inferno:

    Em 1883, a Irmã Maria Serafina Micheli (1849-1911), que será beatificada em Faicchio, na província de Benevent, diocese de Cerreto Sannita (Itália), em 28 maio de 2011, fundadora das Irmãs dos Anjos, estava passando por Eisleben, na Sassonia, cidade natal de Lutero. Naquele dia se festejava o quarto centenário do nascimento do grande herege (10 de novembro de 1483), que dividiu em duas a Europa e a Igreja, deste modo as ruas estavam lotadas, as varandas enfeitadas com bandeiras. Entre as numerosas autoridades presentes aguardava-se, a qualquer momento, a chegada do empreendedor Guglielmo I, que presidiria a celebração solene. A futura beata, embora notasse o grande tumulto, não estava interessada em saber a razão para aquele entusiasmo inusitado, seu único desejo era procurar uma igreja e rezar para poder fazer uma visita a Jesus Sacramentado. Depois de caminhar por algum tempo, finalmente, encontrou uma, mas as portas…

    … estavam fechadas. De todo modo, ela se ajoelhou na escadaria de acesso para fazer as suas orações. Sendo noite, não havia percebido que não era uma igreja católica, mas protestante. Enquanto rezava, o Anjo da Guarda lhe apareceu e disse: “Levanta-te, pois esta é uma igreja protestante”. E acrescentou: “Mas eu quero fazer-te ver o local onde Martinho Lutero foi condenado e a pena que sofreu em castigo do seu orgulho”.

    Depois destas palavras, ela viu um terrível abismo de fogo, no qual eram cruelmente atormentadas um incalculável número de almas. No fundo deste precipício havia um homem, Martinho Lutero, que se distinguia dos demais: estava cercado por demônios que o obrigavam a se ajoelhar e todos, munidos de martelos, se esforçavam, em vão, em fincar em sua cabeça um grande prego. A Irmã pensou: se o povo em festa visse esta cena dramática, certamente, não tributariam honra, recordações, comemorações e festejos para um tal personagem. Em seguida, quando se apresentou a ocasião, recordou às suas irmãs que vivessem na humildade e no recolhimento. Estava convencida de que Martinho Lutero fora punido no inferno, sobretudo, por conta do primeiro pecado capital, o orgulho.

    O orgulho o fez cair em pecado capital, conduziu-o à rebelião aberta contra a Igreja Católica Romana. A sua conduta, sua postura para com a Igreja e a sua pregação foram determinantes para enganar e levar muitas almas superficiais e incautas à ruína eterna. Se quisermos evitar o inferno, vivamos na humildade. Aceitemos não ser considerados, valorizados e estimados por aqueles que nos conhecem. Não nos queixemos quando formos desprezados ou deixados por último por outros que pensamos ser menos dignos que nós. Jamais critiquemos, por qualquer razão, as ações daqueles que nos rodeiam. Se julgarmos os outros, nem sequer somos cristãos. Se julgarmos os outros, não somos sequer nós mesmos.

    Confiemos sempre na graça de Deus e não em nós mesmos. Não nos preocupemos excessivamente com nossa fragilidade, mas com nosso orgulho e presunção. Digamos freqüentemente com o salmista: “Senhor, meu coração não se enche de orgulho, meu olhar não se levanta arrogante. Não procuro grandezas, nem coisas superiores a mim.” (Salmo 130). Ofereçamos a Deus nosso “nada”: a incapacidade, a dificuldade, os desânimos, as desilusões, as incompreensões, as tentações, as quedas e as amarguras de cada dia. Reconheçamo-nos pecadores, necessitados de sua misericórdia. Jesus, justamente porque somos pecadores, só nos pede que abramos nosso coração e nos deixemos ser amados por Ele. Esta é a experiência de São Paulo: “porque é na fraqueza que se revela totalmente a minha força. Portanto, prefiro gloriar-me das minhas fraquezas, para que habite em mim a força de Cristo “(2 Cor. 12,9). Não impeçamos o amor de Deus para conosco com o pecado ou com a indiferença. Demos sempre a Ele mais espaço em nossa vida, para viver em plena comunhão com Ele no tempo e na eternidade.

    Stanzione, Pe. Marcello. FUTURA BEATA VIU LUTERO NO INFERNO. Frates in Unum.com. [Traduzido por Frates in Unum.com]. Disponivel em: http://fratresinunum.com/2011/02/21/futura-beata-viu-lutero-no-inferno/#more-11824 – Acesso em: 21 de Fevereiro de 2011.

  • J. Everton

    Por que meu comentário, que fiz a 10 dias atrás, não foi aceito em outro post (este post: http://ocatequista.com.br/archives/10535)?

    (Postei aqui pois não sabia onde avisar).

  • pedro antõnio da silva

    Jesus mandou seu espírito para nos unir e não para separação.por isso eu não deixo a igreja.

  • Gabriel

    O que levou Lutero a fazer a Reforma? Ouve influência burguesa?

    • Paulo Ricardo Costa

      Quem sabe dizer o que vai no coração dos homens? O sombra, sabe!!
      Piadinhas nerds à parte, talvez essa sua pergunta tenha a ver com o postulado da obra de Weber: “A ética protestante e o Espírito do Capitalismo”. Um livro que influencia e influenciou muitos historiadores, economistas e filósofos. Mas nesse caso em particular não foi outra coisa do que as próprias nóias de Lutero que levaram ele – ainda hoje levam muitas pessoas – à Estrada da Perdição. A questão econômica aqui é colateral, não sou historiador econômico, muito menos marxista, para achar que tudo gira em torno de uma infra estrutura econômica.
      Espero ter respondido sua pergunta, que foi muito boa.

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