Pecou e deu “replay”

Uma criança perguntou ao Papa Bento XVI:

– Santo Padre (…), devo confessar-me (…) mesmo quando cometo os mesmos pecados? Porque eu sei que são sempre os mesmos.

– É verdade, geralmente os nossos pecados são sempre os mesmos – concordou o Papa –, mas fazemos a limpeza das nossas habitações e dos nossos quartos pelo menos uma vez por semana, embora a sujeira seja sempre a mesma. Para viver na limpeza, para recomeçar; se não, talvez a sujeira não possa ser vista, mas se acumula.

(Encontro de Bento XVI com as crianças da 1ª Comunhão. 15/10/2005)

Alguém aí se identificou com essa criança? Pecou, se arrependeu de verdade, desejou não mais pecar, confessou e… deu “replay” no mesmo pecado. #Quemnunca?

Você vai à igreja se confessar, e quem você vê lá? Justamente o padre com o qual já confessou em outra ocasião aquele mesmo pecado! Aí, começa aquele esquema maroto… Você procura desesperadamente alguma moita para se esconder…

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O problema é que na igreja não há moitas! Então você disfarça e dá meia volta, retornando para se confessar somente no horário em que outro padre estiver disponível para ouvir suas faltas (para esse outro padre, é claro, a audição daquele pecado da sua parte será inédita, e você se livrará do vexame de confessar pela décima vez o mesmo pecado ao mesmo confessor).

disfarca

Até aí, você ainda caminha na graça de Deus. Segue tropeçando, talvez caminhe meio lerdo, mas certamente está caminhando com Jesus. A vitória do mal começa quando, ao se verem incapazes se superar certos vícios, muitos católicos simplesmente desistem de trilhar o caminho da santidade, jogam a toalha e se conformam em viver no pecado.

Pessoas nessa situação, em geral, se justificam dizendo que são fracas demais para conseguirem se libertar da prática de determinado pecado. Mas o problema maior, no fundo, não é a fraqueza, não é a incapacidade de resistir ao pecado: o problema é que elas creem que a situação de pecado lhes dá mais vantagens e felicidade do que viver em estado de graça. E este é um problema de CONHECIMENTO e de FÉ.

É um PROBLEMA DE CONHECIMENTO, pois a pessoa que não conhece a si mesmo se ilude mais facilmente sobre as coisas que podem nos trazer felicidade (e com certeza, mais cedo ou mais tarde, vai quebrar a cara).

E é um problema de FÉ, porque ao desistir de lutar contra o pecado, assumindo-o como um modo de vida, a pessoa mostra que desconfia de Jesus, pensando que, se fizer a Sua vontade, vai acabar frustrada.

É o que nos explica Bento XVI, falando sobre o Gênesis:

“Qual é o quadro que nesta página nos é apresentado? O homem não confia em Deus. Ele tentado pelas palavras da serpente, alimenta a suspeita de que Deus, em última análise, tira algo da sua vida, que Deus é um concorrente que limita a nossa liberdade e que nós só seremos plenamente seres humanos, quando O tivermos posto de lado; (…)

“Estimados irmãos e irmãs! Se refletirmos sinceramente sobre nós mesmos e sobre a nossa história, devemos dizer que com esta narração se descreve não só a história do princípio, mas a história de todos os tempos, e que todos trazemos dentro de nós próprios uma gota do veneno daquele modo de pensar explicado nas imagens do Livro da Gênesis. A esta gota de veneno, chamamos pecado original (…). Pensamos que pactuar com o mal, reservando para nós mesmos um pouco de liberdade contra Deus, em última análise, seja um bem, talvez até necessário.”

- Bento XVI. Homilia em 8/12/2005

Porém, o cristão autêntico é aquele que, mesmo sabendo que gastou toda a sua herança na vida de baixaria, odeia a sua imundície e renega a vida de pecado uma, duas, dez, vinte e cinco vezes, volta para casa e pede perdão ao Pai. Já o filho do demo é aquele que jamais volta, pois se convence de que a vida é melhor e mais livre longe de Deus.

“Contudo, quando olhamos para o mundo à nossa volta, podemos ver que não é assim, ou seja, que o mal envenena sempre, que não eleva o homem, mas o rebaixa e humilha, que não o enobrece, não o torna mais puro nem mais rico, mas o prejudica e faz com que se torne menor.”

Bento XVI. Homilia em 8/12/2005

Somos mesmo uns vacilões. Por mais que tenhamos boas intenções, não somos capazes de nos santificar a nós mesmos, e nos vemos na mesma situação de São Paulo: “…porque o querer o bem está em mim, mas não sou capaz de efetuá-lo. Não faço o bem que quereria, mas o mal que não quero” (Rom 7,18-19).

E assim, dizemos tantas vezes a Jesus: “Senhor, eu não consigo ser como me pedes!”. E Ele nos responde: “Credes que eu posso fazer isso?” (Mt 9,28). Nós não podemos nos santificar com nossas forças, mas a Deus nada é impossível. Cremos que Jesus pode fazer essa obra em nós? Temos fé?

T.S. Eliot, um dos maiores poetas dos últimos séculos, manda pra nós a real…

Coros de “A Rocha”

E adveio então, num instante predeterminado,
um momento no tempo e do tempo,
Um momento não fora do tempo, mas no tempo,
naquilo que chamamos historia: seccionando, dividindo
a esfera do tempo, um momento no tempo, mas não
como um momento do tempo,
Um momento no tempo, mas o tempo foi feito
através desse momento, pois sem significado não há
tempo, e aquele momento do tempo lhe deu o sentido.
Pareceu então que os homens deviam seguir
de luz em luz, na luz do Verbo,
Através do sacrifício e da paixão salvos e despeito
da negatividade que o ser de cada qual continha;
Bestiais como sempre, carnais, egoístas,
interesseiros e obtusos como sempre haviam sido
E ainda assim lutando, sempre reafirmando
e recomeçando a marcha num caminho que fora iluminado pela luz;
Tantas vezes parando, perdendo tempo, desviando-se,
atrasando-se e voltando, mas jamais seguindo outro caminho.

- T.S. Eliot

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Papa Leão X e Frei Tetzel, o camelô de Indulgências

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Os leitores que estão acompanhando a nossa série de posts sobre os papas insensatos da Renascença já puderam perceber que se tratava de um quadro complexo, e esse humilde escriba tentou, até aqui, apenas passar para vocês as linhas gerais da situação. Mas o que precipitou o fim da unidade cristã foi o abuso de Leão X. E do nordeste da Alemanha, em Wittenberg, surgiria Lutero, o instrumento do mal.

Alguém já se perguntou: por que a Alemanha? Por que a Reforma não surgiu na França, ou na Itália, ou na Inglaterra? Resposta: porque, graças ao Papa Leão X, a Alemanha vivia uma situação de penúria espiritual e financeira. Certo fortalecimento econômico – e, antes de mais nada, o fortalecimento TEMPORAL – se deu a partir do momento em que o Estado assumiu o controle e o direcionamento da Igreja.

Os grandes estados europeus, naquele tempo, possuíam um governo forte, ou pelo menos governos regionais poderosos o suficientes para resistir aos disparates que pudessem advir de doidos que viessem a ocupar a Cátedra de Pedro, como Leão X. Mas a Alemanha, não. A Alemanha, como a conhecemos hoje, é uma criação quiçá moderna. É um estado contemporâneo que somente surgiu no século XIX. Nos tempos de Lutero, o que tínhamos era um bando de duques e condes reunidos sobre o pomposo título de “Sacro Império Romano-Germânico“. Pequenos duques e condes fracos: a vítima perfeita para os desmandos financeiros de um Papa desesperado e completamente esvaziado de zelo apostólico.

Roma era extremamente antipática aos olhos do povo alemão por conta disso. Era uma força alienígena e sangue-suga, mas que possuía a autoridade legada por Jesus e era a casa do Espírito Santo (o povo alemão acreditava nisso). Mas, como manter essa imagem com um papa que por si não a respeitava como deveria? Foi nesse barril de pólvora que Leão X soltou um idiota completo chamado Johann Tetzel, um frade dominicano. Leão X? Esse continuava mais preocupado com suas estátuas de mármore a serem construídas em Roma.

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Imagem de uma bula de indulgência como as que eram concedidas por Leão X

As indulgências, grosso modo, podem ser consideradas como uma dispensa da prática de boas ações, sob condições particulares, no todo ou em parte, como penalidade. Deu pra entender? Indulgências são penalidades, servem para pagar a pena dos pecados já perdoados por meio do arrependimento e da confissão (leia aqui nosso post sobre o que são as indulgências). Tetzel e outros panacas, contrariando a doutrina da Igreja, apregoaram que as indulgências eram A LIBERTAÇÃO DO PECADO EM SI. Daí para começar a barganha e a venda de graças, foi um pulo.

Sabem para onde ia originalmente o dinheiro das indulgências? Para hospitais, orfanatos, casas de recolhimento e amparo de viúvas, obras de caridade. A Igreja de Jesus sempre foi pobre, mas parece que esqueceram de ensinar isso a Leão X. As indulgências da forma como foram originalmente concebidas e distribuídas eram sim, completamente justificáveis; não eram dadas como a absolvição do pecado, mas era sim a PENALIDADE POR SE TER COMETIDO UM PECADO.

tetzel_indulgenciasPorém, os cobradores de Leão, como Tetzel, na prática, eram traficantes da fé. Um terço da grana arrecadada com a venda de indulgências ia direto para Leão X. Isso seria – cometendo o mais nefasto anacronismo possível – como se você arrancasse dinheiro da Alemanha para financiar obras na Itália. Muito embora as relações humanas daqueles tempos fossem absurdamente diferentes das que temos hoje, a revolta que isso pode provocar em um povo ainda é a mesma.

Mas é meu dever salientar que, mesmo Leão X, NUNCA, EM HIPÓTESE ALGUMA, proclamou uma besteira como falar que as indulgências libertam a pessoa do pecado. Ele apenas foi convenientemente omisso com a pregação distorcida e vergonhosa de Tetzel (ou seja, esse Papa jamais proclamou qualquer doutrina errada, e assim o Magistério da Igreja manteve-se santo e ileso, graças à infalibilidade papal concedida pelo Espírito Santo).

Despreparado como era para lidar com um assunto de raízes tão profundas, Leão X vivia no seu claustro romano como seus antecessores, sem ter a mínima ideia do que ocorria na Alemanha e tendo raiva de quem sabia – vide a sua desconsideração pelos avisos dados. Não podemos negar que antes de Lutero houve um Wycliffe e um Jon Huss (já falamos sobre essas figuras em nossas postagens sobre Lutero e a Reforma Protestante; não vamos repetir aqui o que explicamos antes, continuem nos seguido e aproveitem para reler o material).

Após os fatos que narramos na Dieta de Worms, num embate entre as forças de Carlos V e francesas, as cidades de Parma e Piacenza voltaram ao domínio dos Estados Pontifícios. O Papa, como era de costume, deu uma festança. Pegou um resfriado; o resfriado evoluiu para pneumonia e, por fim, ele veio a falecer.

Em oito anos de pontificado, Leão X consumiu 5 milhões de ducados e deixou um rombo de 800 mil para seu sucessor. O belicoso Júlio II ao menos tinha como justificativa para seus desmandos e gastos o desejo de ratificar e fortalecer os Estados Pontifícos. Leão X nem isso: ele apenas gastava dinheiro ,porque é o que Médicis fazem. Era compulsivo e descontrolado e nem um pouco católico, numa visão final.

Os cardeais que elegeriam o sucessor de Leão, quando se dirigiam ao Concílio, foram vaiados. Com razão.

A seguir: Clemente VII, o saque de Roma e, afinal, QUEREM, POR FAVOR, PARAR DE COLOCAR MÉDICIS NO TRONO DE SÃO PEDRO???!!!!

Fontes:

TUCHMAN, Barbara. A Marcha da Insensatez: De Tróia ao Vietnã. Editora José Olympio, 1986.

RUSSEL, J.G.. Field of Cloth of Gold: men and manners in 1520. London: Routledge, 1969

E mais os livros indicados no post Catelivros Especial – Fontes Para a História dos Papas

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